O ESPELHO (1975) - FILM REVIEW

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Escrevi sobre o cinema filosófico de Andrei Tarkovsky algumas vezes. E hoje é a vez de O espelho, mais um grande lançamento da CPC Umes em bluray no nosso País, e de uma Matriz restaurada em 2017, sob coordenação de Karen Shakhnazarov, Diretor Geral do Mosfilm. 

Andrei é um diretor singular que mostra  em seus filmes a busca pela compreensão da existência e assimilação das respostas encontradas. Para Tarkovsky, uma das grandes particularidades da arte, é sua intenção de influenciar as pessoas a partir do impacto emocional da obra e não por provas materiais. A arte tem de ser sentida, pois o artista penetra como uma energia que sobrepuja a razão de uma exposição informativa. Desta forma um espírito de comunhão entre o artista e o público é essencial, pois o criador não busca a comunicação através do científico. Filmes são feitos para que os homens tentem se comunicar, partilhar informações e assimilar experiências. 

Andrei Tarkovsky nasceu a 4 de abril de 1932 na cidade de Zawrashje, Iwanowo, Rússia. Sua mãe, Maria Ivanovna, era uma talentosa atriz, e seu pai, Arseniy Tarkovsky, um respeitado poeta e tradutor. Ambos figuraram em sua obra sua mãe como atriz e seu pai através dos soturnos poemas que Andrei utilizou em vários de seus filmes. Quando seus pais separaram-se, Andrei e sua irmã mais nova, Marina, continuaram a viver com sua mãe. Em 1939 sua educação em Moscou foi interrompida, mas ele voltou à cidade em 1943. 

Além das aulas normais na escola, começou a estudar música e desenho. Em 1951 ingressou no Instituto de Línguas Orientais de Moscou, mas não pôde completar o curso devido a enfermidades. Em 1954, sua solicitação de entrada no prestigiado Instituto de Cinematografia do Estado (VGIK), em Moscou, sucedeu. Lá, Mikhail Ilych Romm tornou-se seu mais influente professor. Sua amizade com Andrei Mikhalkov-Konchalovsky capitaneou-o a uma parceria no roteiro de O Rolo Compressor e O Violinista (1960), a estreia cinematográfica de Tarkovsky, que lhe rendeu o diploma no VGIK e que já revelava significativos elementos típicos de seu trabalho posterior.

Nos filmes de Andrei Tarkovsky, algumas perguntas parecem tão importantes quanto suas respostas. Sua obra se apresenta como um meio de assimilação do mundo, um instrumento que busca compreendê-lo. A expressão artística seria uma experiência subjetiva, através da qual o homem procura apreender a realidade. Para Tarkovsky, uma das grandes particularidades da arte, é sua intenção de persuadir as pessoas não através de argumentos racionais, mas sim a partir do impacto emocional. A arte tem de ser sentida, pois o artista a impregnou como uma energia que transcende a razão de um diálogo meramente jornalístico. Desta forma um espírito de comunhão entre o artista e o público é essencial, pois o criador não busca a comunicação através do científico. Filmes são feitos para que os homens tentem se comunicar, partilhar informações e assimilar experiências.

O primeiro grande filme do diretor foi exibido em Moscou, em abril de 1962. A Infância de Ivan (1962), baseado em uma história de Vladimir Bogomolov (quem também se envolveu com a filmagem), ganhou o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza, no mesmo ano. O reconhecimento internacional que seguiu este sucesso desencadeou uma considerável preocupação ideológica em seu país, que ulteriormente no final de 1966, após a estreia de Andrei Rublev (1966), que foi exibido paralelamente no festival de Cannes de 1969, onde ganhou um prêmio o liberaria para exportação através do Departamento de Filmes Soviéticos apenas em 1973. 

O tempo que levou para chegar ao público certamente infringiu no diretor um profundo desgosto, condição que ironicamente podemos relacionar com o personagem do próprio filme. A temática de Andrei Rublev certamente retrata a posição de Tarkovsky com relação aos problemas enfrentados pelos artistas soviéticos de sua época. Da mesma maneira, O Espelho (1974), um filme autobiográfico que foi finalizado em 1974 sob uma forte resistência burocrática, alcançou as salas de cinema da Europa ocidental somente alguns anos depois.

Zerkalo: entre ventos e incêndios.

No filme, acompanhamos Alexei, homem na casa dos 40 anos e à beira da morte, que relembra seu passado, a infância, os horrores da guerra e a relação com sua mãe e sua ex-esposa. As imagens se misturam com imagens de arquivos sobre a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial. O diretor filmou sua mãe, Maria Ivanovna Vishnyakova-Tarkovskaya, então idosa, e os poemas de seu pai, Arseny Tarkovsky, permeiam a narrativa e foram recitados pelo próprio.

Algumas tomadas são particularmente belas no filme. Principalmente, da cabana pegando fogo, que representa mudança para algo imutável, ainda que o processo seja belo, e o vento, que traz suavidade a momentos impactantes da vida, como o teto da casa desabando (algo que representa a própria vida do personagem).  Para criar o efeito do vento fazendo ondas através das plantações no campo fora da cabana na floresta, Tarkovsky fez com que dois helicópteros pousassem atrás da câmera e ligassem os rotores quando ele queria que o vento começasse. 

Como o próprio nome do título sugere, O espelho é um filme em que o diretor reflete sobre sua vida e por isso a obra é tão especial para ele. Em suas próprias palavras, o diretor disse que se você leva seu trabalho a sério, um filme não é o próximo item em sua carreira, mas sim uma ação que vai afetar toda a sua vida. Inclusive, durante um breve momento, podemos ver o pôster de Andrei Rublev (1966), outra obra importante do diretor, mostrando como Andrey estava imerso em contar uma realidade, ainda que do seu ponto de vista. 



A CPC Umes filmes lançou o filme em DVD e Bluray O filme pode ser adquirido no próprio site da empresa, que abastece o mercado com grandes obras soviéticas. É só clicar na imagem acima e ser feliz...

Informações sobre a edição:

Extras: O ROLO COMPRESSOR E O VIOLINISTA

Sinopse:

A caminho da aula de violino, o menino Sasha, de sete anos, tem seu instrumento tomado por garotos maiores que ele. O operador de rolo-compressor Serguei, que trabalhava nos arredores, presencia a cena e ajuda Sasha a recuperar o instrumento. Nasce daí uma amizade entre os dois, que rende ao jovem outras lições de vida. Este média-metragem foi o trabalho de conclusão de Andrei Tarkovsky no curso de graduação no Instituto Estatal de Cinema 


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