A INFÂNCIA DE IVAN (1962) - FILM REVIEW

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A infância de Ivan é feito em cima de um contraste. Tanto que sua duração é pequena, se compararmos com várias das mais importantes obras primas de Andrei. Este contraste é mostrado através da guerra, em que o menino está inserido e através da interação do menino com a natureza. Forma parecida foi usada por Terence Mallick em Além da linha vermelha, quando em meio a conflitos e pré-conflitos, somos pontuados com tomadas da selva, mar ou dos habitantes da ilha. 

Na história do filme de Tarkovsky, o garoto órfão Ivan, de 12 anos, trabalha como um espião, podendo atravessar as fronteiras alemãs para coletar informação sem ser visto. Ele vive sob os cuidados de três oficiais russos que, após inúmeras missões desgastantes, eles tiram Ivan das batalhas e o enviam para a escola militar.
As belíssimas tomadas, aliadas á estupenda fotografia em preto e branco de Vadim Yusov (que faria ainda Andrei Rublev e Solaris com Andrei) forma um belo cartão de visitas para a que seria um das mais poéticas e cultuadas carreiras do cinema (soviético e mundial).


A obra usa Ivan como símbolo para as muitas vidas soviéticas perdidas na guerra, mesmo os sobreviventes ou os que perderam entes queridos. Mesmo assim, é um filme que mais sugere do que mostra. O próprio conflito não é mostrado. Vemos apenas os soldados e um par de mortes para deixar na nossa imaginação as tensões por de trás das imagens, como a do soldado que beija uma moça, segurando em cima de uma vala, dizendo para o telespectador que aquele seria o destino de muitos que não tivessem sua compaixão. 

Aliás, um adendo: a movimentação da câmera após o tal beijo pela floresta é idêntica a de "A morte do demônio (1981)". E numa entrevista, Raimi disse que foi fortemente influenciado por  Andrei Tarkovsky. Disse também que o cinema de Andrei mudou a sua percepção da arte, do cinema e da narrativa. 


O filme foi baseado no conto "Ivan", de Vladimir Bogomolov. Andrei Tarkovsky escreveu em seu livro "Sculpting in Time" mais tarde que não achou o livro muito bom, mas histórias que não foram bem escritas eram mais fáceis de adaptar em filmes. Tarkosvky mostra imagens reais da Berlim ocupada, incluindo o cadáver carbonizado de Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, e os corpos de seus seis filhos assassinados por seus pais em Berlim em 1º de maio de 1945.

O campo citado no filme é o de Maly Trostenets, um campo de extermínio nazista, localizado pelo da vila de mesmo nome, nos arredores de Minsk (Capital da Bielorrússia). Operando entre julho de 1942 e outubro de 1943, quase todos os judeus de Minsk foram assassinados lá.


O livro trazia um final diferente do pensado pelo roteirista  Mikhail Papava. Ele mudou a história, de forma que Ivan não fosse executado, mas mandado para o campo de concentração e libertado conforme o desenlace da guerra. Seu roteiro tinha o sugestivo nome de "Segunda vida", mostrando sua real intenção. A cena final deste roteiro mostra Ivan se encontrando com um dos oficiais da unidade do exército em um compartimento de trem. Bogomolov, insatisfeito com o final, interveio e o roteiro foi alterado para refletir o material de origem.

A Mosfilm deu Ivan ao também jovem cineasta Eduard Abalov, mas ele foi demitido após a primeira versão do filme ser fortemente rejeitada e considerada inutilizável. Talvez por insatisfação, Abalov só voltou á cadeira de diretor na década seguinte, com três filmes para a TV. Não realizou nada mais até sua morte prematura, aos  59 anos, em 1987. Curiosamente, o diretor que assumiu seu lugar, morreu também prematuramente, aos 54 anos, e poucos meses antes.  


Mas voltando...

A contradição é mostrada a todo tempo, fragmentando a vida de Ivan em lados opostos. Ivan guarda memórias da mãe, irmã, brincadeiras, interações com a natureza, mas também cativeiro, mortes, inimigos roubando o brilho da paisagem e até mesmo olhares, que só nós percebemos, do que poderia ser pedofilia. Olhares esses nada sutis, porém velados pela falta de concretização. Mais uma forma de dizer para nós que o inimigo estava ali o tempo todo.

Chega a ser incômodo, que no meio da tristeza, você se sinta feliz com algumas cenas. É uma obra que te faz refletir sobre a dualidade da nossa própria vida, que alterna momentos, muitas vezes opostos.


E o que dizer daquele final? Com cenas reais extremamente impactantes misturadas ao efeito irreparável do nazismo da vida daquelas pessoas? Até o soldado fica entorpecido com o fracasso de ser humano que ele presencia. 

Mas a produção não termina antes de mostrar Ivan, feliz, na praia em suas brincadeiras. É o “tapa” final na cara do telespectador e dos amantes da guerra.


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