O QUE É O NEORREALISMO ITALIANO ?

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O Neorrealismo italiano foi um movimento cultural surgido na Itália ao final da segunda guerra mundial, cujas maiores expressões ocorreram no cinema. Seus maiores expoentes foram Roberto Rosselini, Vittorio De Sica e Luchino Visconti, todos fortemente influenciados pelos filmes da escola do realismo poético francês.

O cinema neorrealista italiano caracterizou-se pelo uso de elementos da realidade numa peça de ficção, aproximando-se até certo ponto, em algumas cenas, das características do filme documentário. Ao contrário do cinema tradicional de ficção, o neo-realismo buscou representar a realidade social e econômica de uma época.

O marco inicial do movimento é o lançamento do filme de Rossellini, Roma, cidade aberta,  rodado logo após a libertação de Roma, nitidamente influenciado pelo realismo poético francês. A "paternidade do termo" é de dúbia possibilidade: a primeira diz que seria de Umberto Barbaro quando chamou de "neorrealístico" o filme Obsessione , do qual havia sido montador; e a outra possibilidade atribui o termo a Mario Serandrei, quando este usou o termo em uma resenha do filme "Cais das sombras".


Apesar de Roma... ter marcado o início do movimento, o primeiro filme daqueles dias é o documentário Giorni di Gloria, de Giuseppe de Santis, Marcello Pagliero, Mario Serandrei e Luchino Visconti), que traz cenas reais alternadas com cenas reconstituídas da ocupação nazi-fascista. Porém o filme foi exibido depois de Roma....

O Neorrealismo italiano, por características comuns entre as obras e por uma ideologia difundida entre seus realizadores, tanto estética quanto política, constitui um "estilo de época" do Cinema. Teve lugar e tempo na Itália do final da Segunda Grande Guerra, em processo de "libertação" do regime fascista, como veículo estético-ideológico da resistência. Hasteava a bandeira da representação objetiva da realidade social como forma de comprometimento político. Seu período mais produtivo e significativo ocorreu entre 1945 e 1948.

Seus temas protagonizados por pessoas da classe operária imersas em um ambiente injusto e fatalista, sempre encontrando a frustração na eterna busca por melhores condições de vida, foram trazidos por influência do realismo poético francês.



Apesar de haver um certo consenso quanto às suas características, não existe uma delimitação exata quanto ao período de duração do movimento. Seguindo o paradigma observado na maior parte dos estilos estéticos da História da Arte e do Cinema, o nascimento dessa corrente aconteceu gradualmente, levando algum tempo até que se observasse o aparecimento de um filme genuinamente neo-realista. E, da mesma forma, sofreu uma decadência paulatina, sem um ponto delimitado de começo ou fim.

Certamente, no entanto, não seria possível falar de Neorrealismo na Itália antes da decadência do regime fascista, que vigorou de 1922 a 1945. Esta, porém, não se limitava apenas a transformações de aspecto político, mas tinha também um projeto estético abrangente e definido. O Fascismo, muito além de puro fenômeno político, trazia consigo uma ideologia estética profundamente fincada em seus valores morais e sociais  e esta era, aliás, uma característica comum às manifestações de ideologias totalitárias.

Entre as várias propriedades dessa ideologia estética, estava a representação da sociedade por meio de uma ótica moralista/positivista, muito mais adequada à legitimação do regime do que à realidade das massas. Conseqüência direta dessa visão de mundo foi a produção em larga escala (estimulada e apreciada pelo governo) de filmes melodramáticos, épicos, romanceados, construindo na tela uma representação um tanto distante da vida cotidiana da sociedade italiana.



Um dos objetivos da geração neo-realista, posteriormente, seria a maior aproximação daquilo que acreditava ser a realidade do povo, para contrapor a essa "falsa imagem" da sociedade; os neo-realistas queriam apresentá-la, e não representá-la.

O que essa vanguarda pretende colocar na tela é um registro da vida das pessoas, no momento atual, contemporâneo à produção. Não interessava mais falar de tempos passados ou das tragédias folhetinescas. O cineasta neo-realista filmará a favela, a vila de pescadores, as ruas cheias de gente nos centros das cidades. A preocupação é com o "hic et nunc", num dos momentos mais críticos da História da Itália, e os jovens diretores acreditam no cinema como forma de expor os problemas para que sejam resolvidos.

Esse comprometimento com o "retrato da verdade" faz com que a geração que desponta a partir da invasão aliada, em 1944/45 seja identificada como um movimento que os críticos Pietrangeli e Barbaro apelidam de Verismo (do it. vero, verdadeiro). O Neo-Realismo é percebido e nomeado enquanto os filmes estão sendo feitos, ou seja, o estilo é identificado no mesmo momento de sua produção artística, e não posteriormente. No mínimo, isso significa que a Itália notou que algo de diferente estava sendo feito.


Luchino Visconti, com seu filme "Obsessão", de 1942, lançou a primeira pá na construção desse movimento. Adaptando o romance "The Postman Always Rings Twice" ("O Destino Bate à Sua Porta" no Brasil), do norte-americano James Cain, o diretor conseguiu retratar um país de contrastes, que destoava da representação estilizada então dominante. Isso chocou os censores que, mesmo tendo aprovado anteriormente o roteiro, engavetaram a produção, até que o próprio Duce o tivesse visto e apreciado!

Roberto Rossellini, ainda durante a guerra  e, mais especificamente, no próprio campo de batalha filma "Roma, cidade aberta" (1945), inserindo registros de combates verdadeiros junto à dramatização. Rodado clandestinamente, como a própria resistência dos Partisans, o filme situa-se num limiar entre encenação e documento histórico. E, ainda, peça de propaganda contra o regime agonizante. No ano seguinte, realiza "Paisà", cujos 6 episódios acompanham o trajeto dos "libertadores", do sul para o norte, retratando a convivência entre italianos e aliados estrangeiros (com pessoas atuando nos papéis delas mesmas), com seus conflitos e choques inevitáveis.


Em "Alemanha, Ano Zero" (1947), Rosselini visita a outra nação derrotada (e destroçada), a Alemanha, para mostrar uma realidade muito semelhante à da Itália. Submetidos novamente a uma ocupação, a restrições e a toda sorte de privações, os alemães violam os valores éticos mais primários por causa da fome, e Rossellini espelha neles a própria crise italiana. Além desses, a "base teórica" do movimento deveu muito ainda a Cesare Zavattini, que adaptou e roteirizou vários dos filmes ("A culpa dos pais" de 1944) ("Vítimas da tormenta" de 1946) (Umberto D.de 1952) e ao produtor/diretor Giuseppe Amato, que saiu da produção ativa do período fascista para patrocinar as experiências ousadas da geração Neo-Realista.

Mas é com Vittorio De Sica que o Neorrealismo produz uma das obras mais expressivas e emblemáticas de sua estética. O filme Ladrões de bicicletas (1948) contém os principais elementos do filme Neorrealista: a temática dos problemas sociais, a criança, os atores iniciantes ou desconhecidos, a ambientação in loco, a ausência de apelos técnicos ou dramatúrgicos e ao mesmo tempo um intenso conflito na trama (também escrita por Zavattini). Pela história do homem recém-empregado que tem seu instrumento de trabalho, a bicicleta, roubado, e assim ameaçado de perder o emprego, De Sica emoldura um quadro da classe trabalhadora urbana de então, assombrada pelo desemprego.


O mesmo ano de 1948 vê o aparecimento de vertentes distintas do mesmo movimento, que de certo modo significam estágios paralelos de desenvolvimento. Em "A Terra Treme" (1948, de Visconti (Francesco Rosi e Franco Zeffirelli são os assistentes de direção), pescadores da Sicília interpretam eles próprios, num filme rodado de maneira semi-documental e crua - mais, talvez, do que "Ladrões de bicicletas". Mas o polêmico "Arroz amargo", de Giuseppe DeSantis, constitui-se em outra face do movimento, ainda que se situe dentro da maleável fronteira do "estilo" Neorrealista. 

Para muitos críticos, porém, observa-se nesse filme o início do declínio do movimento. A estética engajada comprometida em desnudar as contradições da sociedade acaba por se submeter à "exploração comercial", o que provoca "o começo do fim do movimento que havia trazido ao cinema italiano a vitalidade artística e significação social" (Ephraim Katz).

A chamada geração neorrealista, que ainda teve diretores menos significativos como Pietro Germi, Aldo Vergano, Alberto Lattuada, Luciano Emmer, Renato Castellani e Luigi Zampa acaba, então, sucumbindo às circunstâncias. Na década de 1950, o cenário já é outro, o quadro de crise econômica e social parece ter sido amenizado, a televisão ganha cada vez mais espaço como mídia e, para enfrentá-la, os produtores passam a investir no cinema do puro entretenimento escapista. 


Um pouco mais tarde, Federico Fellini e Michelangelo Antonioni, que tinham participado do Neorrealismo, afastam-se do Verismo ortodoxo (corrente literária italiana surgida entre 1875 e 1895, a partir das obras de escritores e poetas que constituíram um escola baseada num conjunto de princípios realistas) e vão apelar à farsa exuberante ou ao drama existencial para redesenhar a Itália e suas novas questões.

INFOGRÁFICO

Ideal cinematográfico

➾ Retratar a realidade do país na época, sem artifícios e opondo-se ao cinema espetáculo; a representação da realidade deve ser substituída pela própria realidade. A câmera deixa de lado um esquema já pré-estabelecido para movimentar-se de acordo com seu contato direto com a vida.

Principais características

➾ Sem efeitos especiais - câmera na mão, plano seqüência, som direto;
➾ Planos de conjunto e médios. Imagem acinzentada. Filmagem em cenários reais (ruínas da guerra);
➾ Roteiros improvisados, atores não-profissionais;
➾ Montagem sem efeitos particulares;
➾ Opunha-se ao cinema-espetáculo.
➾ Enfoque nas questões sociais - gênero quase documental ;
➾ Personagens incorporam as dúvidas e incoerências humanas, deixam de ser ambivalentes para serem bons e maus ao mesmo tempo;
➾ Fragmentação da narrativa e do narrador ;
➾ Até os anos 40 muito presos a questões sociais; depois, novas propostas narrativas, questões familiares ou individuais.


Herança deixada para o cinema atual

Origem do Cinema Moderno - influencia na 'insurreição' dos cinemas nacionais contra a produção cinematográfica hollywoodiana;
➾ Influencia o Cinema Novo brasileiro e o cinema iraniano, entre outros;
➾ Cineastas italianos como Fellini, Antonioni e Scola adaptaram aspectos dos filmes neo-realistas para o contexto social de sua época;
➾ Rosselini influenciou diretamente o francês Jean-Luc Godard.


Blu-ray: Ladrões de Bicicleta 
Edição Limitada com 1 Pôster + 1 Livreto + 3 CARDs (1 Blu-ray + 1 DVD)

A Versátil lançou LADRÕES DE BICICLETA, marco neorrealista do mestre Vittorio De Sica e um dos maiores filmes de todos os tempos em Edição Definitiva Limitada, que traz esse clássico em inédita versão restaurada em um disco Blu-ray (50Gb de dupla camada), que inclui também outra obra-prima do diretor italiano em HD: UMBERTO D. (1952), e um disco DVD com QUATRO HORAS DE VÍDEOS EXTRAS, contendo especiais sobre os dois filmes e documentários sobre De Sica e o roteirista Cesare Zavattini. Edição Definitiva Limitada com 1 pôster, 1 livreto e 3 cards exclusivos para colecionadores.

Disco 1 – BLU-RAY

- Versão restaurada de “Ladrões de Bicicleta” (89 min.)
- Versão restaurada de “Umberto D.” (89 min.)

Disco 2 – DVD

- Especial sobre neorrealismo (40 min.)
- Especiais sobre “Umberto D.” (44 min.)
- Especiais sobre “Ladrões de Bicicleta” (48 min.)
- Documentário sobre De Sica (56 min.)
- Documentário sobre Cesare Zavattini (56 min.)


Informações sobre a edição:

Título: Ladrões de Bicicleta, Umberto D.
Título original: Ladri di biciclette, Umberto D. 
País de produção: Itália
Ano de produção: 1948-1952
Gênero: Drama
Direção: Vittorio De Sica
Elenco: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Carlo Battisti, Maria Pia Casilio, Lina Gennari
Resolução: 1080p High Definition
Idioma: Italiano
Áudio: Italiano LPCM Mono 1.0
Legenda: Português
Formato de tela: Fullscreen 1.37:1
Tempo de duração: 178 min.
Região: A
Preto & Branco
Faixa etária: 14 anos

Extras: 

Especial sobre neorrealismo (40 min.), Especiais sobre Umberto D. (44 min.), Especiais sobre Ladrões de Bicicleta (48 min.), Documentário sobre De Sica (56 min.), Documentário sobre Cesare Zavattini (56 min.)
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