AMNÉSIA (2000) - FILM REVIEW

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O cinema do diretor Christopher Nolan é uma fusão do genial com o confuso. Uma confusão que faz sentido ao final e dá margem para ficarmos pensando no que vimos por tempos. Em sua filmografia, raras foram as vezes que ele dirigiu um filme linear. Mas poucas vezes na história do cinema vimos um filme que mexesse com nosso cérebro e por uma razão fácil de entender.

Amnésia, a ponta do iceberg da sua genial filmografia, é contado de trás para frente. E é plenamente justificável. Na história, um ladrão ataca um casal, terminando por matar a mulher e deixando o homem à beira da morte. Porém, ele sobrevive e a partir de então passa a sofrer de uma doença que o impede de gravar na memória fatos recentes, o que faz com que ele esqueça por completo algo que acontece poucos instantes antes. A partir de então ele parte em uma jornada pessoal a fim de descobrir o assassino de sua mulher para poder vingá-la. Só que tudo é contado da cena final para a inicial, quando sabemos o que realmente aconteceu. 


Até ai, teoricamente, não é um filme confuso como Tenet por exemplo. Mas o que o torna único é brincar com nossa dificuldade de fazer coisas de trás para frente e consequentemente entender o filme de forma fluida. 

A condição médica vivida por Leonard neste filme é uma condição real chamada amnésia anterógrada, a incapacidade de formar novas memórias após danos ao hipocampo. Durante a década de 1950, os médicos trataram algumas formas de epilepsia removendo partes do lobo temporal, resultando nos mesmos problemas de memória.


O roteiro de Christopher Nolan foi baseado na história escrita por seu irmão Jonathan Nolan chamada "Memento Mori". No entanto, o roteiro ainda é considerado original (ao invés de adaptado), porque a história de Jonathan só foi publicada depois que o filme foi concluído.

Depois de ficar impressionada com a atuação de Carrie-Anne Moss como Trinity em Matrix (1999), a produtora Jennifer Todd a sugeriu para o papel de Natalie. Enquanto Mary McCormack fazia lobby para o papel, Christopher Nolan decidiu escalar Moss como Natalie, dizendo: "Ela acrescentou grandes nuances ao papel de Natalie que não estavam no roteiro".


Por sua vez, Carrie-Anne Moss recomendou pessoalmente Joe Pantoliano para o papel de Teddy, tendo feito uma boa amizade com ele enquanto trabalhavam em "Matrix". Christopher Nolan e seus produtores tinham reservas sobre isso porque não tinham certeza se a persona de Pantoliano na tela (muitas vezes abertamente vilã) era o par certo para Teddy, mas eles se encontraram com o ator  e decidiram que seu talento o tornava a pessoa certa para o papel. 

Nolan posteriormente elogiou Pantoliano por ter trazido a quantidade certa de sutileza para sua atuação como Teddy. O ator, realmente, faz vilões até em comercial de chiclete. Quando eu assisti Matrix, já sabia de antemão que o personagem do ator iria aprontar algo, o que de fato, acontece. 


O diretor de fotografia Mark Vargo recusou uma entrevista com Christopher Nolan porque ele não entendeu o roteiro. Mais tarde, ele admitiu que isso foi um erro. Wally Pfister , que conseguiu o emprego, já havia trabalhado com Vargo como operador de câmera. Mais tarde, ele admitiu para Vargo que também não entendia o roteiro.

Depois que Brad Pitt expressou interesse em fazer um teste para interpretar Leonard, mas acabou tendo que desistir do projeto devido a outros compromissos, Christopher Nolan não considerou nenhum outro ator de "primeiro time" porque percebeu que ter um ator principal talentoso, mas menos conhecido permitiria que o orçamento do filme fosse distribuído de maneira mais uniforme. Esse processo levou Nolan a quase escalar Aaron Eckhart para o papel e, eventualmente, dar o papel a Guy Pearce. Nolan iria trabalhar com Eckhart alguns anos depois em O Cavaleiro das Trevas.


Aliás, em uma cena, Leonard passa rapidamente na frente de uma loja de quadrinhos. O emblema do Batman é exibido com destaque na vitrine da loja. Christopher Nolan posteriormente dirigiu Batman Begins (2005), Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) e Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012), como sabemos. Também há um emblema do Superman na mesma vitrine. Nolan foi produtor de O Homem de Aço (2013) e produtor executivo de Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016) e Liga da Justiça, no ano seguinte. 

Você não quer a verdade,
"Você inventa sua própria verdade.
Teddy diz a Leonard.
 
Mas voltando ao filme...

Nolan se tornou ao longo se sua filmografia, um hábil mágico, capaz de criar um número incrível para um truque simples. Como em Dunkirk, que fragmenta a história em partes, que ocorrem em momentos diferentes, mas que convergem para o grand finale. Um truque narrativo que tornou uma trama simples, mais encorpada, com camadas que fazem você querer discutir o que viu com algum amigo próximo.


A grande sacada da filmografia de Nolan reside justamente na ilusão. E como tal, não poderia faltar um filme de mágico em sua filmografia, que no caso foi "O grande truque", já que o diretor flerta com este universo em quase todos os filmes. Em Amnésia, Leonard Shelby (Pearce) cria uma ilusão chamada Sammy Jankis (Stephen Tobolowsky), que é a verdadeira trama, mas que ele maquia como sendo um exemplo, quando na verdade, era a realidade paralela. E um detalhe: esta realidade paralela era a sua verdadeira enquanto ele tentava se iludir e esquecer o que havia acontecido, maquiando com a persistência em manter sua memória longe de ser encontrada. 

Todos nós mentimos para nós mesmos para sermos felizes.
Leonard Shelby 

Sammy é a projeção da realidade de Shelby. Leonard construiu uma ilusão que lhe permite viver nela, se agarrando a uma identidade falsa para resolver um mistério já resolvido. Shelby é alvo de diversas mentiras, mas a maior é a que ele conta para si mesmo. E afinal, porque ele tenta ser o detetive de sua própria mentira?  Leonard não quer enfrentar o fato de que sem um mistério para resolver, ele é apenas um cara com amnésia que nunca encontrará lugar no mundo e muito menos, redenção.


O que nos leva ao "controle e ilusão".

Em Amnésia (ou nas demais obras de Nolan), a ideia do controle esta sempre em rota de colisão com a ilusão. Os personagens se iludem, ou são iludidos, quanto ao controle dos seus atos, até ele e o telespectador, tomarem conhecimento de que "controle" era a grande ilusão. A meta impossível de ser batida, mas ainda assim, um caminho que o personagem e nós mesmos tentamos seguir, normalmente, sem que haja um filme sobre nossas vidas para nos servir de  Sammy Jankis. 

A memória pode mudar a forma de uma sala; pode mudar a cor de um carro. E as memórias podem ser distorcidas. Eles são apenas uma interpretação, não são um registro e são irrelevantes se você tiver os fatos.
Leonard Shelby 


A dinâmica criada por Nolan

Para entendermos a genialidade do exposto, o filme termina no meio, quando o fim das histórias se encontra. Confuso? Nolan... 

Não significa que o filme termina no meio da produção, sem explicação. Ao longo de suas quase duas horas, a narrativa se divide em duas linhas temporais: A correta, cena a cena, mostrada em "preto e branco", dos acontecimentos da vida de Sammy e em paralelo, a invertida, contada cena a cena,  alternado com a anterior. Basicamente, o filme começa da última cena (de Shelby), seguido da primeira cena de Sammy. Depois, vai para a penúltima de Shelby e a segunda de Sammy. E assim se sucede até o final da projeção, quando a linha temporal de ambos o casos se encontra. 

Basicamente, acontece o que vou mostrar na imagem a seguir. 


Na imagem, a linha de Leonard, sai de 4 para a primeira. Em paralelo, a linha de Sammy entrecorta a de Leonard, mas na ordem correta.

Basicamente, de forma bem simplificada, quando Leonard chega ao ponto 1 (da imagem), a história se encontra com o ponto 4 de Sammy, momento em que as histórias convergem para a realidade, ou para a verdade que não quer ser vista por Leonard.


Ao fazer um filme "confuso", Nolan não só nos joga na realidade do personagem como dá a nós a "oportunidade" de experimentar o esquecimento das cenas seguintes, já que não criam um encadeamento de fatos natural. Nossa mente não é treinada para entender esta linha ao contrário, e acabamos esquecendo o que se passou. Genial não? E ainda dizem que Nolan é superestimado...

E você? Leitor ou leitora, já contou uma mentira sobre você tantas vezes, que até mesmo você acreditou?

Eu já...


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Título: Amnésia
Título Original: Memento
Ano de Produção: 2000  
Audio: 2.0 E 5.1 Dolby Digital
Classificação Indicativa: 16 anos
Cor: Colorido
Elenco: Guy Pearce, Carrie-Anne Moss, Joe Pantoliano, Mark Boone Junior, Russ Fega, Stephen Tobolowsky, Harriet Sansom Harris, Callum Keith Rennie, Larry Holden, Jorja Fox, Thomas Lennon
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan
Produtor: Suzanne Todd, Jennifer Todd
Fotografia: Wally Pfister
 Duração:113 min. aprox.    
Extras: Anatomia de uma cena - Entrevista com o diretor - Relembrando amnésia - Riscos e rabiscos - Amnésia: áudio comentado pelo diretor
Formato de tela: 16:9 Letterbox
Midia: Blu-ray 
Gêneros: Suspense
Idioma: Inglês, Português    
Legendas: Espanhol, Português
País: Estados Unidos
Quantidade de discos: 1

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