INSÔNIA (2002) - FILM REVIEW

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Filmes sobre investigações seguem certo padrão, o que não quer dizer que seja clichê. Mas é um senso comum colocar um investigador com boa percepção, que vai ao encalço do criminoso, até eventualmente encontrá-lo e pronto: fim da história. Com uma boa direção, e ótimos atores nos papéis antagônicos, a chance da obra ficar melhor ainda. 

Insônia é quase isto. Porém com um toque que muda tudo: Christopher Nolan, o diretor que é capaz de pegar uma simples soma e torná-la um enigma. Veja Dunkirk, um filme básico na teoria, mas genial em sua execução ou mesmo A origem, o incrível filme que nem o elenco se entendeu sobre quando é um sonho, quando não é. 

Insônia mostra Will Dormer (Al Pacino), um policial enviado para uma pequena cidade do Alasca onde, em meio às investigações em torno do assassinato de uma adolescente, acaba atirando acidentalmente em Hap Eckhart (Martin Donovan), seu próprio parceiro, enquanto tentava apreender um suspeito. 

Consumido pela culpa, Dormer ganha inesperadamente um álibi, fornecido pela própria polícia, que acaba aumentando ainda mais sua sensação de culpa por causa da morte de Eckhart. Ainda tendo que resolver o caso do assassinato da adolescente, Dormer passa a ser chantageado por Walter Finch (Robin Williams), o suspeito que tentava prender, que o acusa de ter armado a situação para que não fosse condenado pela morte de seu parceiro. Enquanto isso, Ellie Burr (Hilary Swank), uma detetive local, resolve iniciar uma investigação por conta própria para descobrir o que realmente aconteceu entre Dormer e Eckhart.

Nolan gosta de tratar a realidade comparando-a com elementos como sonhos ou percepção da história do ponto de vista do personagem. Ele sempre dá dicas de tudo, como se estampasse na cara do telespectador o que ele quer mostrar, desde o início. Por exemplo, o sobrenome do personagem Will Dormer vem do termo "dormire", que significa dormir em latim. Já o nome Will (abreviatura de William pode ser também traduzida como "Vai" em inglês). Ou seja, Pacino irá dormir.  E desde o início, o que moverá a trama será a perda gradual da percepção da realidade conforme o sono toma conta dos seus atos, que a cada dia, parecem sobrepujar a racionalidade do personagem.

Os personagens estão no Alasca. e para quem não sabe, são meses de escuridão e outros meses de luminosidade quase completa. Ocorre durante o verão das proximidades dos polos do planeta, devido à inclinação do eixo da Terra em relação à sua órbita, fazendo a luz do sol atingir o globo de forma perpendicular sobre os polos, com duração de seis meses em cada.

No polo sul acontece entre os meses de outubro e março. Sendo assim, o fenômeno inverso, a noite polar, que é quando o sol não nasce, mantendo-se abaixo da linha do horizonte nestes mesmos meses, ocorre no Círculo Polar Ártico (norte no planeta Terra).Já no polo norte, são os meses de abril a setembro agraciados com o Sol da Meia-noite. Portanto, é no Círculo Polar Antártico (sul do planeta Terra), que acontece a noite polar.

Will Dormer terá que lidar com esta insanidade, dentro de uma linha temporal relativamente simples da história. E ai reside a genialidade de Nolan. Contar a história de forma que tudo fique mais interessante. Enigmático. Ainda que seja uma refilmagem de Insônia (1997), filme norueguês dirigido por Erik Skjoldbjaerg, onde o detetive é interpretado por ninguém menos que Stellan Skarsgard. São duas pérolas que precisam ser reavaliadas. 

Contrapontos.

Nolan gosta de brincar com o telespectador. Em Insônia, Al Pacino tenta, mas ão consegue dormir. Em A Origem, os personagens dormem, e tem que acordar. São contrapontos que mostram o diretor buscando um equilíbrio em sua filmografia, donde concluo que seus filmes acabarão (talvez literalmente) quando sua busca cessar, quando suas ideias perderem o sentido e a motivação. Enquanto isto, nós vamos nos divertindo com seus jogos da mente, tentando subverter gêneros e ideias.

Robin Williams fala sua primeira linha 47 minutos depois do início do filme (ao telefone) e não aparece na tela até os 58 minutos. Seu personagem, Walter Finch, aparece no início do filme, mas não é identificável e possivelmente é interpretado por um substituto. Robin Williams diria mais tarde que o isolamento das filmagens em locações no Alasca contribuiu para que ele tivesse uma recaída na depressão e alcoolismo durante as filmagens.

Durante o fim da década de 1970 e início da década seguinte, Williams desenvolveu um vício em cocaína. Ele era muito amigo de Jim Belushi e Christopher Reeve. A morte de Belushi foi um choque, porém positivo. Mas com o isolamento já citado durante as filmagens de Insônia, e a morte de Reeve dois anos depois, Williams passou um período grande se afundando cada vez mais, inclusive em papéis ruins no cinema.  

Em 9 de agosto de 2006, Williams se inscreveu num centro de reabilitação para dependentes químicos localizado em Newberg, Oregon, admitindo posteriormente ser um alcoólatra. Anos depois, Williams reconheceu seu fracasso em manter a sobriedade, mas disse que nunca mais voltou a usar cocaína, declarando em uma entrevista de 2010. Sua condição só piorou, quando começou a sofrer consequências físicas dos anos usando drogas e bebendo. 

Ele foi diagnosticado erroneamente com Parkison (era outro problema mais grave, chamado demência difusa com corpos de Lewy ). A condição inicial de Williams incluía um aumento repentino e prolongado de medo e ansiedade, estresse e insônia, que piorou em gravidade para incluir perda de memória, paranoia e delírios. Agora veja só... Logo Insônia. 

Na segunda-feira, 11 de agosto de 2014, Robin Williams foi encontrado morto em sua casa em Tiburon, Califórnia, EUA, vítima de um suicídio por enforcamento.

Christopher Nolan disse à revista TIME que ele teve que lidar com atores principais com abordagens altamente diferentes. Al Pacino insistiu em uma preparação meticulosa, conversas sérias sobre a motivação do personagem e muitas tomadas, Robin Williams preferia quase nenhum ensaio, mas muitas tomadas, e Hilary Swank queria fazer apenas algumas tomadas para se manter completamente focada. Nolan, portanto, deixou Pacino e Williams experimentarem e resolverem livremente as coisas juntos, a fim de se sintonizarem um com o outro. E durante o filme, há uma nítida busca mutua. 

Alguns detalhes mais explícitos ou sombrios foram alterados do filme original norueguês Insônia (1997), tais como: o cachorro morto que Dormer vê (vivo no original). Em certo momento, ele dirige de forma imprudente para assustar a amiga da garota morta, no original ele apenas a agarra entre as pernas. Dormer e o recepcionista do hotel compartilham muito dos seus pensamentos, mas no original eles flertam e ele quase a estupra. E o final extremamente pessimista do original foi alterado. Ou seja, foi um perde ganha, com Nolan atenuando momentos e expandindo outros. 

A adaptação do roteiro escrita por Hilary Seitz traz o personagem de Al Pacino, Will Dormer, chegando ao Alasca, cenário do filme, como um detetive do Oregon. O assistente executivo de Pacino na época, Tim Judge, sugeriu a Pacino que Oregon fosse mudado para Los Angeles e ainda sugeriu que fosse acrescentado que o personagem de Pacino havia plantado evidências para obter uma condenação que colocaria um inocente na prisão em Los Angeles. 

O Departamento de Assuntos Internos de Los Angeles estava desconfiado e estava perseguindo Dormer para trazê-lo de volta a Los Angeles para interrogatório. Além disso, foi sugerido que o verdadeiro criminoso no caso de Los Angeles fosse Walter Finch, retratado por Robin Williams. 

Na verdade, foram justamente as semelhanças nos crimes ocorridos no Alasca que levaram Dormer para lá em primeiro lugar, não tanto apenas para ajudar seu amigo, o chefe de polícia Nyback interpretado por Paul Dooley. Christopher Nolan gostou das mudanças e as adicionou  ao roteiro.

Insônia foi o pontapé inicial, seguido meses depois por "Retratos de uma obsessão", para conhecermos, não um novo Robin Williams nas telas, mas o verdadeiro lado sombrio do ator (o pelo menos, como ele se via). De certa forma, foi um aceno para que o público não se surpreendesse com seu fim. 

E para Williams, Insônia foi um gatilho. Mas nem o público deixou de se surpreender com sua morte e nem seu suicídio foi provocado por bebidas e drogas. No final das contas, Robin sofreu exatamente do problema que dá nome ao filme: Insônia. Longa, prolongada e que o fez perder o senso de realidade, tal como o personagem de Al Pacino. 

A vida imitou a arte da pior forma. 


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Título: Insônia
Título Original: Insomnia
Ano de Produção: 2002  
Audio: 2.0 E 5.1 Dolby Digital
Classificação Indicativa: 16 anos
Cor: Colorido
Elenco: Al Pacino, Robin Williams, Hilary Swank, Maura Tierney, Martin Donovan, Nicky Katt, Paul Dooley, Jonathan Jackson, Larry Holden, Katharine Isabelle, Marci Liroff
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Hillary Seitz
Produtor: Broderick Johnson, Paul Junger Witt, Andrew A. Kosove, Edward L. McDonnell
Direção de Arte: Michael Diner
Duração:118 min. aprox.    
Extras: Making of, No Nevoeiro, Nolan entrevista Al Pacino
Formato de tela: 16:9 Letterbox
Midia: Blu-ray 
Gêneros: Suspense
Idioma: Inglês, Português    
Legendas: Espanhol, Português
País: Estados Unidos
Quantidade de discos: 1





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