ERNESTO GASTALDI - RESPONDE ÀS 7 PERGUNTAS CAPITAIS

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Através das 7 perguntas capitais eu conheci o mundo, literalmente. Consegui conversar com pessoas que eu jamais imaginaria que seria possível. Foi um projeto de 100 entrevistas, mas que terminou, depois de vários anos de muito trabalho e persistência. Foi cansativo, mas valeu a pena.

Por isto resolvi iniciar um novo projeto, desta vez com menos entrevistas (50 no total) e com um formato um pouco diferente, mas mantendo a ideia de serem 7 perguntas. Eu sempre fazia uma introdução do (a) entrevistado (a), mas desta vez será sendo diferente. Vão conhecê-lo (a) ou saber mais sobre ele (a) através da entrevista.

E hoje, com vocês o roteirista italiano Ernesto Gastaldi

Boa sessão:


1) É comum lembrarmos com carinho do início da nossa relação com o cinema. Os filmes ruins que nos marcaram, os cinemas frequentados (que hoje, provavelmente, estão fechados), as extintas locadoras de VHS que faziam parte do nosso cotidiano. Você é um apaixonado por cinema? Conte-nos um pouco de como é sua relação com a 7ª arte.

E.G.: Quando eu tinha 6 ou 7 anos, costumava ir sozinho ao cinema porque morava em uma pequena cidade em Piemonte e meu pai era um guarda de trânsito, então eles me deixaram entrar de graça. Naquele momento, você entrava quando queria e podia ver o filme quantas vezes quisesse. Era tempo de guerra e, portanto, apenas filmes italianos eram exibidos: eu vi os filmes do grande Alessandro Blasetti muitas vezes sem imaginar que um dia nos tornaríamos amigos. Lembro-me de que um de seus filmes me deixou perplexo. Foi "O coração manda". No começo do filme, havia um vendedor ambulante que tinha uma caixa de amostras de chocolates que foram comidas durante o filme, mas quando o filme começou de novo a caixa estava cheia de novo (!!!) ... para minha cabeça infantil parecia algo impossível .


2)  Muitos adoram fazer listas de filmes preferidos. Outros julgam que é uma lista fluida. Para não te fazer enumerar vários filmes, nos diga  qual o filme mais importante da sua vida. E  há uma razão para a produção que citar ser destacada?

E.G.: Escolho dois da minha filmografia: "A estrada que leva para longe" e Libido. O primeiro foi um filme amador que eu fiz com Peppo Sacchi (então Peppo abandonou o monopólio da televisão na Itália) e que escandalizou tanto o Festival Montecatini de 1955 que Alessandro Blasetti, presidente da Cinecittà e Ministro do Entretenimento veio de Roma para rever o filme e foi minha chave para o Centro Sperimentale di Cinematografia em Roma; o segundo "Libido" foi minha estreia na direção com minha esposa Mara Maryl e o até então desconhecido Giancarlo Giannini.

Mara Maryl , Giancarlo Giannini, Dominique Boschero, Alan Collins, Ernesto Gastaldi, Vittorio Salerno, Romolo Garrone e trabalhadores. Neno Brescini, eletricista chefe, foi quem tirou a foto.

3)  Você escreveu os roteiros por anos. Adoro filmes como Keruak - exterminador de aço, Era uma vez na América, Trinity e seus companheiros. Torso, O estranho vício da Sra. Wardh, O chicote e o corpo. Como foi trabalhar em filmes tão icônicos com ótimos diretores?

E.G.: Além de Sergio Leone, Tonino Valerii e às vezes Sergio Martino, eu geralmente não trabalhava com os diretores. Os roteiros eram escritos e pagos pelos produtores antes da escolha do diretor. A colaboração com Sergio Leone foi instrutiva: Sergio era obcecado por cinema, nunca pensou em mais nada, as sessões de roteiro começaram de manhã e terminavam à noite, por meses e meses. Sergio nunca inventou nada, discutia o que eu havia inventado. Muitas vezes convidei a ouvir o roteiro, e viver os vários estágios do seu progresso. Atores e diretores juntos, e eu espionando no rosto deles sinais de interesse ou tédio.
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4) Algumas profissões rendem histórias interessantes, curiosas e às vezes engraçadas. E certamente, quem trabalha com cinema, tem suas pérolas. Lembra-se de alguma história legal que tenha acontecido durante a execução de algum trabalho seu e que possa compartilhar conosco? Alguma história de bastidores, por exemplo,

E.G.: Com exceção de "A garota do chefe", a pedido de Sofia Loren, eu não estava acostumado a acompanhar os filmes nos sets: quando meu roteiro estava pronto, pois eu estava escrevendo outros e não tinha tempo. Existem várias histórias (que talvez nem me lembre mais) que estão contadas no livro "Voglio entrare nel cinema: storia di uno che ce l'ha fatta". Se puder, adquira. Vai responder a esta pergunta com mais propriedade. 

Mas se eu puder dar um único exemplo, cito este da Loren, que aceitei o pedido para estar presente num ambiente que raras vezes eu estava.


5)  Roteiristas costumam dedicar horas e horas do seus dias para dar vida a um roteiro. Criar vidas, panos de fundos, personagens, personalidades, lares, relacionamentos. Enfim, dar vida a uma invenção. Há algum trabalho que fez que não viu a luz do dia? 

E.G.: Eu escrevi um roteiro para o Carlo Pont chamado: "O Terremoto em Messina" com a dupla Sofia Loren e Marcello Mastroianni. Por várias razões, o filme não foi feito, o projeto se arrastou por anos, envolveu a URSS, fui pago várias vezes e, no final, fiz um apenas um romance. É uma história trágica, quem sabe o que Luchino Visconti poderia ter feito ou, melhor ainda, minha amiga Gigi Magni!


6) Agora voltando à sua área de atuação. Qual trabalho realizado você ficou profundamente orgulhoso? E em contrapartida, o que você  mais se arrependeu  de fazer, ou caso não tenha se arrependido, teria apenas feito diferente?

E.G.: No cinema tenho orgulho de tudo. Mas não vou falar da minha vida cinematográfica nesta pergunta, mas de uma história que tenho orgulho em particular. Aos 10 anos meu pai foi morto, minha mãe teve que ir trabalhar numa fábrica e estávamos com fome e pobres. Fiz as tarefas domésticas e um dia vi minha mãe chorar, prometi a ela que compraria uma casa para ela com piscina. Ela riu chorando. Em 1970 inaugurei VILLA FORTUNINA no Circeo com parque e piscina (Fortunina era o nome dela) e gostei do espanto e do orgulho que ela sentiu de mim.


7) Para finalizar, deixe uma frase famosa do cinema que te represente.

E.G.: Se você quiser enviar uma mensagem, não faça um filme, envie um telegrama.

M.V.: (Risos). Obrigado. Foi uma grande honra.



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