GUERRA E PAZ (1965) FILM REVIEW

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Algumas produções soviéticas são lendárias por serem tão grandiosas a ponto de tomarem anos da vida dos seus realizadores. Muitas vezes, por razões orçamentárias (ou políticas), são até mesmo dividias em partes. E curiosamente, são retratações de algum período histórico. Um caso bastante conhecido é o de Serguei Eisenstein em Ivan, o terrível. O primeiro filme foi lançado em 1944. O segundo somente em 1958, porque foi retido pelas autoridades soviéticas por ordem de Joseph Stalin. Sergei já havia morrido há 10 anos e o filme só foi liberado por conta da morte de Stalin. E a terceira não veio ao mundo justamente porque Joseph embargou o processo, já que não aprovou nem o segundo filme.

Mas o tema de hoje é outro destes épicos incontestáveis, que o diretor precisou se sacrificar para torná-lo real.  Dirigido por Sergei Bondarchuk, Guerra e paz e uma adaptação cinematográfica do romance de Leo Tolstoy de 1869. O filme foi produzido pelos estúdios Mosfilm entre 1961 e 1967 e teve fama de ter sido a obra mais cara já feita. O valor foi alvo de especulações por anos. Estimativas a parte, o que importa é que enxergamos a grandiosidade do que foi gasto nas telas.


Curioso que o pontapé inicial veio de outra produção chamada... Guerra e Paz.  Dirigido por King Vidor e estrelado por Audrey Hepburn, Henry Fonda, Mel Ferrer e Vittorio Gassman, o filme foi um sucesso na União Soviética. A disputa de egos entre os EUA e a URSS motivou o país a produzir um épico para chamar de seu. Uma carta aberta que apareceu na imprensa soviética, assinada por muitos cineastas do país, declarava: “é uma questão de honra para a indústria de cinema da União Soviética produzir um filme que supere o americano-italiano em seu mérito artístico e autenticidade. Começou ai a busca por um Cecil B. De Mille soviético para tocar o barco.

Nomes como Mikhail Romm,  Sergei Gerasimov  e Ivan Pyryev foram colocados na mesa durante a seleção durante o ano de 1960. Mas uma pessoa em especial ganhou atenção com seu longa de estreia, Destino de um Homem, em 1959. Seu nome era Sergei Bondarchuk.


Nascido na Ucrânia, Serguei Bondarchuk concluiu seus estudos na Universidade Estatal Russa de Cinematografia (VGIK), na oficina de Serguei Gerasimov e Tamara Makarova, em 1948, depois de combater na Segunda Guerra com o Exército Soviético. A partir de então trabalhou como ator no Estúdio Mosfilm, debutando em um papel secundário no filme “A Jovem Guarda”, dirigido pelo próprio Serguei Gerasimov. Em 1951 protagonizou o drama “Cavaleiro da Estrela de Ouro”, dirigido por Yuly Raizman. Em 1955 interpretou o papel principal em uma adaptação de Otelo, de Shakespeare, dirigida por Serguei Yutkevich. Em 1959 estreou na direção.

Com Guerra e Paz, Bondarchuk não havia procurado o cargo e não soube da proposta até que uma carta do Ministério chegou até ele. Em 3 de abril de 1961, Vladimir Surin, o diretor-geral dos estúdios Mosfilm, enviou a Furtseva uma carta solicitando a aprovação da adaptação de um roteiro para um filme em três partes baseado em Guerra e Paz , bem como apoio financeiro.  Em 5 de maio, o Ministro respondeu e um dos maiores épicos da história do cinema mundial começava a se tornar real.


O diretor contratou o dramaturgo  Vasily Solovyov para compor o roteiro com ele. Após esta análise da história, uma mudança substancial foi proposta: mudar a adaptação para quatro partes em vez de três. Além disto, deram uma dinâmica maior em relação à obra de Tolstoi, tornando-a mais cinematográfica. A diretoria da Mosfilm aprovou o roteiro finalizado em 27 de fevereiro de 1962. Em 20 de março, em um plenário no Ministério da Cultura com a presença de Surin e do vice-presidente do Comitê Estadual de Cinematografia Basakov, a Furtseva aprovou o projeto em definitivo. Foram contratados militares para serem consultores das filmagens.

O Ministério da Agricultura doou quase mil cavalos. Vários museus cederam artefatos históricos, como lustres, móveis e talheres, para criar uma impressão autêntica da Rússia do início do século XIX. Milhares de trajes foram costurados, principalmente uniformes militares do tipo usado nas Guerras Napoleônicas. Uma obra bem ao estilo Kubrick. Não por acaso, o grande épico não filmado do diretor tem muito da estrutura de Guerra e Paz e seria sobre Napoleão.  Em 7 de setembro de 1962 (data sugestiva para nós, não?)  as filmagens começaram. e em agosto de 1967, um dos filmes mais caros, importantes e épicos do cinema era finalizado.


O local original da histórica Batalha de Borodino foi usado para as filmagens. Uma réplica do centro de Moscou foi construída em Volokolamsk para filmar o incêndio de Moscou. A réplica foi totalmente queimada como parte das filmagens. Mais de 100 sets de estúdio foram construídos para o filme entre 1962 e 1967.

A história foi assim dividida: A primeira parte começa em 1805, e mostra o príncipe Andrei Bolkonsky alistando-se no Exército Russo. Gravemente ferido na Batalha de Austerlitz, onde os seus são esmagados, o príncipe é erroneamente dado como morto. Pierre Bezukhov, filho bastardo de um dos homens mais ricos do país, é apresentado à alta sociedade. A segunda parte da adaptação do romance de Liev Tolstoi ocorre no ano de 1809. Andrei Bolkonsky se apaixona por Natasha Rostova, e a pede em casamento. Seu pai, o Conde Rostov, pede, porém, que aguardem o retorno do príncipe de uma viagem. Nesse ínterim, Natasha conhece Anatol Kuraguin, e os dois acabam se envolvendo. Bolkonsky descobre o romance e anuncia o fim do noivado. Bezukhov declara seu amor por Rostova enquanto tenta consolá-la.


Na penúltima, o exército de Napoleão invade a Rússia em 1812. Pierre Bezukhov acompanha a preparação para o iminente confronto. Ele se voluntaria para a artilharia na Batalha de Borodino, maior cena de guerra já filmada, que contou com 300 atores, 120 mil figurantes e o uso de 200 canhões e 100 mil fuzis. A unidade de Bolkonsky espera na reserva durante o conflito, e o príncipe é atingido por estilhaços de um tiro de canhão. À medida que presenciamos a guerra em toda a sua crueza, ressalta-se o repúdio de Tolstoi ao que o próprio escritor descreve como “o contrário da lógica da razão e da natureza humanas”.

E finalmente, o Exército de Napoleão avança pelo território russo na quarta parte. Mas a evolução se mostra infrutífera pela efetividade da tática de “terra arrasada” do Exército Russo, sob o comando do marechal Mikhail Kutuzov, que não poupa Moscou, incendiando a cidade para que os invasores não encontrem “nem abrigo, nem suprimentos”. Enquanto Moscou arde, os Rostovs se retiram e no caminho levam vários soldados feridos, entre eles Bolkonsky. Pierre Bezukhov permanece na cidade. Os franceses são derrotados na Batalha de Krasny, e iniciam o longo percurso de volta, acossados pelas tropas russas.


Sergey Bondarchuk fez recriações meticulosas de batalhas das Guerras Napoleônicas. A Batalha de Borodino contra a invasão de Napoleão é a maior cena de batalha já filmada. O diretor Bondarchuk fez história ao apresentar câmeras de controle remoto que se moviam em fios de 300 metros de comprimento acima da cena do campo de batalha. Lyudmila Saveleva foi ao Oscar de 1969 e recebeu o Oscar em nome dos cineastas (de melhor filme estrangeiro). Após seu retorno a Moscou, as autoridades soviéticas embarcaram na aeronave e confiscaram a estatueta do Oscar. Curiosamente, a estreia do filme nos EUA foi realizada no De Mille Theatre (citei o diretor acima).

Mas quem vê o resultado e as glórias não imagina o quão difícil foi chegar ao resultado final. O diretor  chegou a ter dois ataques cardíacos durante os anos de produção. Ele sofreu seu primeiro durante as filmagens da parte 3, a batalha de Borodino (durou dois anos de filmagens e um ano de pós-produção). Ele sofreu seu segundo enquanto filmava a parte 4, o Fogo de Moscou. Ele faleceu somente em 1994, mostrando que os ataques estavam mesmo ligado ao stress do gigantesco processo. Depois de ganhar o Oscar, o diretor Sergey Bondarchuk foi intimidado pelas autoridades soviéticas e foi forçado a ingressar no Partido Comunista Soviético.


No final das contas, valeu a pena. Sergey Bondarchuk deu um passo fundamental para cravar seu nome na história do cinema soviético com um dos grandes realizadores. Considerando que este era apenas seu segundo filme,  foi um feito e tanto. Afinal, não há paz sem conflito...


"GUERRA E PAZ"  BLU-RAY 
(DIGIPACK COM 2 DISCOS)
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Em comemoração ao centenário do diretor Serguei Bondarchuk, a CPC UMES FILMES, apresenta GUERRA E PAZ em alta definição! A edição terá 2 discos de blu-ray (ambos de 50Gb, dupla camada), digipack em luva com acabamento especial contendo os 4 filmes, que num total de 7 horas. Considerados a mais fiel adaptação cinematográfica do clássico de Liev Tolstoi. Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (1968), do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro (1969), e do Grande Prêmio do 4º Festival internacional de Cinema de Moscou (1965). Edição em blu-ray a partir da matriz cuidadosamente restaurada pelo Estúdio Mosfilm em 2017, e com traduções e legendas direto do russo. Edição limitada com 1 pôster e 4 cards. Distribuição: CPC-UMES FILMES
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Disco 1
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☛ Guerra e Paz I – Andrei Bolkonsky (146 min.)

Em 1805, o príncipe Andrei Bolkonsky alista-se no Exército Russo. Gravemente ferido na Batalha de Austerlitz, onde os seus são esmagados, o príncipe é erroneamente dado como morto. Pierre Bezukhov, filho bastardo de um dos homens mais ricos do país, é apresentado à alta sociedade.
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☛ Guerra e Paz II – Natasha Rostova (97 min.)

A segunda parte da adaptação do romance de Liev Tolstoi ocorre no ano de 1809. Andrei Bolkonsky se apaixona por Natasha Rostova, e a pede em casamento. Seu pai, o Conde Rostov, pede, porém, que aguardem o retorno do príncipe de uma viagem. Nesse ínterim, Natasha conhece Anatol Kuraguin, e os dois acabam se envolvendo. Bolkonsky descobre o romance e anuncia o fim do noivado. Bezukhov declara seu amor por Rostova enquanto tenta consolá-la.

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Disco 2
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☛ Guerra e Paz III – O Ano de 1812 (81 min.)

O exército de Napoleão invade a Rússia em 1812. Pierre Bezukhov acompanha a preparação para o iminente confronto. Ele se voluntaria para a artilharia na Batalha de Borodino, maior cena de guerra já filmada, que contou com 300 atores, 120 mil figurantes e o uso de 200 canhões e 100 mil fuzis. A unidade de Bolkonsky espera na reserva durante o conflito, e o príncipe é atingido por estilhaços de um tiro de canhão. À medida que presenciamos a guerra em toda a sua crueza, ressalta-se o repúdio de Tolstoi ao que o próprio escritor descreve como “o contrário da lógica da razão e da natureza humanas”.
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☛ Guerra e Paz IV – Pierre Bezukhov (96 min.)

O Exército de Napoleão avança pelo território russo. Mas a evolução se mostra infrutífera pela efetividade da tática de “terra arrasada” do Exército Russo, sob o comando do marechal Mikhail Kutuzov, que não poupa Moscou, incendiando a cidade para que os invasores não encontrem “nem abrigo, nem suprimentos”. Enquanto Moscou arde, os Rostovs se retiram e no caminho levam vários soldados feridos, entre eles Bolkonsky. Pierre Bezukhov permanece na cidade. Os franceses são derrotados na Batalha de Krasny, e iniciam o longo percurso de volta, acossado pelas tropas russas.

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