COMO MATAR SUA ESPOSA (1965) - FILM REVIEW

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Há diversas formas de se analisar o filme "Como matar sua esposa". A primeira, obviamente, é focando no tom da trama: humor negro. A primeira vista, não seria um filme para ser levado a sério. Mas vou por outro caminho. O mais polêmico, provavelmente. 

Na história, Stanley Ford (Jack Lemmon) é um desenhista de HQs que vive feliz por ser muito bem sucedido profissionalmente, ter um excelente mordomo, Charles (Terry-Thomas), que cuida de tudo e principalmente por não ter se casado. Entretanto em uma despedida de solteiro ele bebe demais, ao ponto de se casar com a garota que saiu do bolo (Virna Lisi). No dia seguinte, quando toma consciência da situação, descobre que sua esposa é italiana e não fala uma palavra de inglês. Deste momento em diante sua vida se transforma, pois seu mordomo ameaça largar o emprego por não trabalhar para casais e sua esposa muda radicalmente a rotina da casa. 


Em virtude disto ele troca as aventuras do agente secreto que desenhava e a transforma em uma comédia doméstica. Quando ele começa a ter problemas em razão de todas estas mudanças, ele planeja, pelo menos na sua tira diária, que o agente secreto mate a esposa. Ela vê os desenhos e pensa que ele quer matá-la realmente, assim desaparece. Quando a tira é publicada todos suspeitam que ele cometeu o assassinato, pois além de ninguém encontrá-la ele é conhecido por só desenhar situações que tenha vivido, o que faz com que seja levado aos tribunais.

O elenco é impecável, trazendo nomes como Jack Lemmon, Virna Lisi,  Claire Trevor e Terry-Thomas. Este é o último dos 6 filmes em que o diretor Richard Quine e o ator Jack Lemmon trabalharam juntos. Os demais foram Jejum de Amor (1955), O Baile Maluco (1957), Sortilégio de Amor (1958), A Viuvinha Indomável (1959) e Aconteceu Num Apartamento(1962). E também foi a estreia (em grande estilo) de Virna Lisi no cinema americano (na versão italiana de "Como matar sua esposa" a personagem de Virna é grega, ao invés de italiana!!).


Mas voltando ao tema. O filme é uma "aula" de machismo estrutural. O personagem central se casa bêbado, mas se arrepende. Então decide se livrar da esposa a todo custo. Mesmo ela o amando e se entregando na relação nova, ele insistentemente tenta provocar situações para o término. E ao mesmo tempo, como cartunista, cria uma história similar para publicação, culminado com o absurdo de desenhar a cena que ele supostamente mataria sua esposa. 

Sim, ele não consegue eliminá-la pelos meios normais, e decide matá-la e ainda publicar, como uma confissão pública. Sua esposa, em certo momento, descobre as intenções do marido e foge. Mas com a publicação das tiras e o sumiço da esposa, o marido é preso como suposto assassino. Ai entra a "grande" sacada machista do filme: ao ser julgado (por um júri composto somente por homens), o réu mostra para todos presentes como seria válido para suas vidas se eles também se livrassem de suas esposas. Ele deseja ser absolvido baseado na ideia de um crime justificável. Pasmem: ele consegue. 


Na cena do tribunal, outra personagem feminina da trama é prontamente humilhada numa cena de dar vergonha. O absurdo fica mais enfatizado pelo fato de Ford ser inocente e saber disto, mas ainda sim consegue seu livramento da sentença. E como podemos imaginar, a sua esposa volta no final (ela o ama né?) e ainda assim, mais uma cena machista ocorre. Quando o marido e o mordomo imaginam que ela poderia voltar, o mordomo diz: a lei diz que você não poderá ser julgado pelo mesmo crime duas vezes. Ou seja, se ela aparecer, poderá matá-la apropriadamente, desta vez. 

Leitor ou leitora: vomitou já? Estes subtextos ganharam atenção nos dias de hoje, mas certamente passaram despercebidos quando era exibido nas sessões das tardes nos anos 80. Aliás, muitos vêm apenas humor no fato de que ela é italiana e não fala a mesma língua do marido e não entendem que reside ali uma sátira sobre a falta de comunicação dos casamentos bem como a impulsividade em que muitos são concebidos. E de forma avessa, ao seu final, ainda nos mostra que o casamento é uma obrigação social imposta e sem sentido para os que não têm a necessidade de se relacionar com outra pessoa durante toda a sua vida, como uma sentença. 


Só que no filme, esta ideia é mostrada pelo ponto de vista masculino, e ai reside o erro, já que é uma imposição social e não da mulher. A misoginia corre solta entre os personagens. A esposa de Stanley, por exemplo, é referida como "Sra. Ford" em todo o filme. Seu primeiro nome não é mencionado nenhuma vez, demostrando a falta de voz feminina, que está ali só para servir o homem e ele usá-la quando lhe convier.

Do lado de cá das telas, o filme foi dirigido por Richard Quine, um ator e diretor, que foi casado 4 vezes e se matou em 1989 por conta dos efeitos da depressão. E quem ler o texto pode pensar que não recomendo o filme. Pelo contrário. É mais que necessário vermos a evolução do pensamento. Por isto estudamos história.  Mas os tempos são outros. 

E que bom.


Por fim, um detalhe curioso, que é bastante verossímil com a ideia mostrada no final do filme: A produção foi chamada de "Como matar SUA esposa". Considerando que a esposa em questão é de Ford, o filme nos joga, de forma subliminar, a ideia de que podemos fazer como o personagem, e sermos socialmente absolvidos com a desculpa de ser um crime justificável. Incrível não? 

Mas ainda assim, você pode desligar o modo "treta" e curtir duas horas de um belo programa com Lemmon, Lisi e CIA. E terminar sem culpa, já que a evolução é um processo individual. E você pode estar apenas no estágio inicial.




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Informações da edição:

Título: Como matar sua esposa
Título Original: How to Murder Your Wife
Ano de Produção: 1965
Audio: 1.0 E 2.0 Dolby Digital
Classificação Indicativa: 14 Anos
Cor: Colorido
Elenco: Jack Lemmon, Virna Lisi, Terry-Thomas
Direção: Richard Quine
Roteiro: George Axelrod
Produtor: George Axelrod
Fotografia : Harry Stradling Sr.
Duração: 118 min.
Extras: Trailer, galeria de Fotos e cartazes originais
Formato de tela: Widescreen
Midia; DVD
Gênero: Comédia
Idioma: Inglês 
Legendas:  Espanhol, Português
País: Estados Unidos
Qtd Discos: 1



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