ESTAÇÃO BIELORRÚSSIA (1971) - FILM REVIEW

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Normalmente falo nos meus textos das produções em si, enfatizando os elementos que possivelmente irão atrair o leitor. Dificilmente falo que um filme é ruim justamente por entender que o cinema é uma arte de percepção individual. O trabalho do crítico não é...criticar um filme, mas fazer brotar o crítico que há dentro de cada um. 

As distribuidoras no Brasil, de forma geral, fazem o que podem para manter a nossa paixão pelo colecionismo viva. Todos que colecionam sabem como é duro viver num país que mal lança vencedores do Oscar. Por tanto, o trabalho feito pela CPC Umes filmes é louvável e muito admirável. Ter "peito" para investir num nicho pouco conhecido ou explorado no nosso país, é para poucos. Eu, particularmente, posso dar meu exemplo: assisti mais de 20 mil filmes, e por várias vezes, a CPC lançam filmes que eu nunca ouvi falar. E ai, você vai estudar um pouco sobre as obras e descobre sua importância. 


A bola da vez é “Estação Bielorrússia". Na história, a estação do título representa o ponto de separação. No final da segunda guerra, soldados são enviados para a casa. 25 anos sem se verem, os veteranos da guerra contra o fascismo se encontram no funeral de um ex-combatente que permanecera no exército. Muitas mudanças aconteceram na vida de cada um deles, mas os amigos conservaram os sentimentos de irmandade, solidariedade e humanidade que desenvolveram no front. Antes de retornarem às suas rotinas, vivem um dia repleto de recordações e situações inesperadas.

Podemos dizer que este é um filme incomum sobre a guerra. Não é sobre o conflito, mas mostra a batalha pós os terríveis eventos que tomaram conta de várias nações entre 1939 e 1945. Ver pessoas anos depois, e entender como conseguiram dar sentido a suas vidas é algo poderoso. Da mesma forma, o choque de realidade toma conta dos personagens, já que superaram algo tão terrível, e de certa forma, a "morte" ficou para trás, mas eles são direcionados a se encontrarem justamente no funeral de um deles, seu comandante. 


Se na guerra, eram pessoas iguais, no pós, as posições sociais costumam variar e umas podem se tornar mais importantes que as outras. E o filme mostra como a relação deles estabelecida na guerra é mais forte que o efeito de suas vidas nos anos que se seguiram. É uma produção sobre os efeitos da guerra. Curiosamente, o diretor Andrey Smirnov trabalhou como ator, no início de sua carreira no ofício, em um dos mais importantes filmes soviéticos da história, ironicamente, Guerra e Paz.

Ele, que nasceu em Moscou durante o conflito, concluiu, em 1962, o curso de Direção na Universidade Estatal de Cinematografia (VGIK). Em 1964 dirigiu seu primeiro longa-metragem, o drama bélico “Um palmo de terra”, ambientado durante a 2ª Guerra Mundial. Em 1971 lançou o drama “Estação Bielorrússia”. Em 1974 dirigiu outro drama, “Outono”. Em 1979 realizou “Em corpo e alma”, e em 2011 dirigiu seu último filme até hoje, “Era uma vez uma mulher”. Paralelamente à carreira de diretor, Smirnov foi bastante atuante como ator. Em 2000 protagonizou o drama “O Diário de sua esposa”, sobre a vida do escritor Ivan Bunin, dirigido por Aleksei Uchitel, e pelo qual obteria o prêmio Nika de melhor ator em 2001. Em 2011 interpretou um dos protagonistas do drama “Elena”, realizado por Andrei Zvyagintsev. Entre outros reconhecimentos, foi distinguido em 2003 como Artista do Povo da Federação Russa.


Seu filme em questão mostra um dos efeitos mais poderosos da Guerra. O horror enfrentado lança aos sobreviventes um senso de lealdade, amizade, fidelidade, acima da nossa compreensão. O roteiro original escrito em 1966 por Vadim Trunin foi significativamente diferente do final do filme. O diretor passou anos escolhendo os atores certos para sua produção. Foram demasiadamente bem pensados para seus papéis. Ele debateu até mesmo com a Mosfilm para ter o elenco nos lugares certos.

Os principais atores são brilhantes. Kharlamov (Alexey Glazyrin), Dubinsky (Anatoly Papanov), Kiryushin (Vsevolod Safonov), Prikhodko (Evgeny Leonov). Uma triste curiosidade sobre eles: Aleksei  morreu de ataque cardíaco, aos 48 anos, em 13 de abril de 1971, mesmo ano em que o filme foi lançado. Evgeniy  morreu de ataque cardíaco em 29 de janeiro de 1994 aos 67 anos. Anatoliy faleceu de ataque cardíaco dia 5 de agosto de 1987 aos 64 anos. E por fim, Vsevolod morreu de... ataque cardíaco, aos 66 anos, no dia 6 de julho de 1992. Reforçando a ideia de que todos os 4 tiveram mortes precoces, nenhum deles viu seus últimos filmes serem lançados.


Estação Bielorrússia é uma obra bastante pessoal para o diretor como podemos imaginar, já que nasceu no período do conflito e seu pai estava na linha de frente. E quando voltou, dedicou anos de sua vida na busca por heróis desconhecidos da guerra. A história veio a público nos anos 60, num programa de TV que toda a União Soviética assistiu, chamado "Histórias de heróis desconhecidos". Estes "personagens da vida real" foram se aproximando de várias formas do diretor, que foi aos poucos se familiarizando e se apaixonando pelas dramáticas histórias que escutava. Alguns se hospedavam até mesmo na casa dos seus pais. Nenhum deles se considerava um herói, logicamente, e não esperavam prêmios, embora todos, é claro, fossem heróis.

E o filme é uma forma de reconhecimento de tudo que eles passaram, principalmente no pós-guerra. Desde a hipocrisia do regime, em que ideais e realidade estão tão distantes entre si, até a ingratidão com a memória de uma geração, a maioria das quais não retornou das frentes da Grande. O próprio pai acha o tom do filme triste, pois foca na dor e na glória da vitória. Mas no final das contas, se a trajetória de um herói não for de sacrifícios e dramática, ele não se torna o herói. E a vitória, sempre conquistada na base de muito sofrimento, só é completamente sentida pelo herói no breve momento entre o que ele fez para torná-la possível e as consequências de suas perdas pessoais. E este momento daria no máximo um curta metragem. E convenhamos, sem o menor sentido. 




A CPC Umes filmes lançou o filme em DVD. O filme pode ser adquirido no próprio site da empresa, que abastece o mercado com grandes obras soviéticas. É só clicar na imagem acima e ser feliz...

Informações sobre a edição:

Elenco: ALEKSEI GLAZYRIN, ANATOLY PAPANOV
Diretor: ANDREI SMIRNOV
Distribuidora: CPC UMES FILMES
Legendas: PORTUGUÊS
Idioma: RUSSO
Formato:  DVDRegião:  4
Sistema de Cores:  COLORIDO
 Quantidade de Discos:  1
Formato da Tela:  2,35:1
Sistema:  NTSC
Duração: 95 minutos


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