LUCAS PAZ - RESPONDE ÀS 7 PERGUNTAS CAPITAIS

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Através das 7 perguntas capitais eu conheci o mundo, literalmente. Consegui conversar com pessoas que eu jamais imaginaria que seria possível. Foi um projeto de 100 entrevistas, mas que terminou, depois de vários anos de muito trabalho e persistência. Foi cansativo mas valeu a pena. 

Por isto resolvi iniciar um novo projeto, desta vez com menos entrevistas (50 no total) e com um formato um pouco diferente, mas mantendo a ideia de serem 7 perguntas. Eu sempre fazia uma introdução do(a) entrevistado (a), mas desta vez será diferente. Vão conhecê-lo (a) ou saber mais sobre ele (a) através da entrevista. 

E hoje, com vocês, o ator, produtor e cineasta Lucas Paz
Se inscrevam em seus canais    Lucas e (Pre)forma-se Artistc Productions
Entrevista transcrita por Leandra Marinho

Boa sessão:

1) É comum lembrarmos com carinho do início da nossa relação com o cinema. Os filmes ruins que nos marcaram, os cinemas frequentados (que hoje, provavelmente, estão fechados), as extintas locadoras de VHS que faziam parte do nosso cotidiano. Você é um apaixonado por cinema? Conte-nos um pouco de como é sua relação com a 7ª arte.

L.P.: Minha infância inteira foi muito permeada, além de museus e teatro. Eu era uma criança que gostava muito de frequentar e ficar por horas no museu. Eu também exercia o teatro desde os 5 anos de idade, atuando em peças de teatro por Fortaleza. O cinema para mim era uma relação de sala. Eu ia ao Arcoíris, se não me engano no shopping Aldeota, ir ao cinema de Del Paseo, nos cinemas antigos do Iguatemi...Houve uma vez que eu assisti 3 filmes seguidos num mesmo dia no Iguatemi. Na praça velha de alimentação, na praça nova, alternado: um filme de um lado, um filme do outro e voltei para o primeiro (tudo isto em Fortaleza).

Eu também tinha uma relação forte com as locadoras de VHS. Eu tinha a prática constante, aliás, semanal, de pegar vários títulos e muitas vezes, criança gosta de repetir os filmes, então eu repetia muito os mesmo filmes. E a partir do momento que eu ganho uma tevê de 14 polegadas para colocar no meu quarto, comecei assistir os filmes da Disney e eles embalavam minhas noites antes de dormir e antes da oração com minha mãe (eu tinha 5 anos), o que era religioso. Todo dia eu fazia. Mas depois de deitar, minha cabeça não parava, pois eu pensava muito, tinha uma imaginação muito aflorada. Quando o mundo silenciava, minha cabeça começava a falar comigo. Depois que minha mãe saia do quarto eu voltava a ligar a tevê para conseguir dormir. Então, eram os filmes que me colocavam para dormir.

Depois isto é substituído pela aquela tela azul da televisão com o timer, para que eu conseguisse ir acalmando a mente até pegar no sono. Ai começava a criar outras em sonho. E interessante que isto vai ter uma relação com um fato futuro bem curioso. O meu último filme, o Erase me, veio para mim todo em sonho, cena a cena decupadas. Eu acordei no meio da noite e escrevi o filme inteiro, por cena, por enquadramento e por diálogo. Primeiro destrinchei ele nas cenas que eu vi, e seguiram-se os diálogos. Então, até hoje, para mim, a linguagem áudio visual acontece muito em sonho. 

Para falar de filmes ruins ou filmes que eu considero bons, mas que alguém considere ruim, por conta de alguma falha técnica, pois não voltei a assisti-los nos dias de hoje, mas sempre gostei muito dos 3 Ninjas, uma aventura radical. Era um filme que eu repeti muitas vezes e naquela época existiam as locadoras de vídeo games em bairros, e eu adorava os jogos de lutas. Os 3 Ninjas era uma realização de um sonho na tela, pois eram 3 crianças combatendo inimigos através da arte marcial. E eles colocavam máscaras com cores fortes que me chamavam muito a atenção. 

Eu também gostava muito do Menino Maluquinho. Recentemente o crítico Daniel Herculano me pediu uma lista de filmes brasileiros e eu fiz questão de incluir o filme dentre tantos outros filmes de destaque nacional, porque para mim o cinema tem muito a ver com emoção, com registro, com a memória forte que marca a gente, e este filme foi um destes casos, como os 3 Ninjas, que eu vivia alugando na locadora lá perto de casa. 

Eu fui crescendo e meu pai me dava dinheiro para o lanche, que na maioria das vezes não era suficiente para comprar o lanche. Às vezes ele me dava 2 reais, e o salgado e o suco eram mais que isto. Então eu guardava este dinheiro, ficando aquele tempo do recreio sem comer, e juntava para comprar meus próprios DVDs. Comprei vários e algumas séries de televisão e ficava sempre muito orgulhoso desta capacidade de juntar e investir em algo que me fascinava. Esses DVDs ainda existem lá na minha casa, inclusive os VHS também. Eu nunca desfiz, eles trazem este momento de nostalgia, apesar o streaming, plataformas de compras on line.


2) Muitos adoram fazer listas de filmes preferidos. Outros julgam que é uma lista fluida. Para não te fazer enumerar vários filmes, nos diga  qual o filme mais importante da sua vida. E claro, porque?

L.P.: O filme ou os filmes mais importantes da minha vida é uma pergunta difícil porque depende da época não é? A cada ano, a cada 5 anos ou a cada década parece formar ou imprimir em nós enredos que outras pessoas conceberam, mas que parecem ser histórias na nossa vida....

M.V.: Exatamente, eu sempre digo que o filme é a extensão de suas experiências, vivências e dependendo da época ele pode causar um impacto profundo, positivo ou negativo.

L.P.: Isto. Eu recentemente fiz uma lista dos 25 filmes para o clube de cinema do Daniel Herculano (está disponível on line para quem quiser procurar), e se trata de uma lista de filmes nacionais. Ainda muito levado pelo que eu te falei que está ligada a catarse, a epifania, a emoção. Eu aprendi no meu mestrado com o professor de roteiro que a experiência do cinema não faz sentido se não tiver um “emotional core”, que é um pulsar de emoção que justifique todos os três atos, que nada mais é que você se identificar com o herói, poder vibrar com ele, se decepcionar com ele e carregar esta lição de vida que faz com que a gente sinta descobridor das charadas que a "vida" vai reservar para aquele personagem e se identificar com os momentos que ele vive.

Por este motivo, sempre que fazem esta pergunta, eu continuo respondendo a mesma coisa: os meus dois filmes favoritos são Rei Leão e Forrest Gump.


M.V.: Não por coincidência, ambos de 1994.

L.P.: Eu acho que os dois trazem questões que são para uma vida inteira, que é entender o ciclo da vida. Cada um ao seu modo nos ensinam valores de vida. Os personagens principais estão nesta jornada de crescimento, descoberta e de desbravar o desconhecido. E através deste acertar e errar, ampliar o seu limite de ser. O Rei Leão, que assisti aos 5 anos, eu revia todas as noites, e me assustava na cena inicial do ratinho e da pata do Scar acertando ele, chorava com morte do Mufasa, vibrava com a adolescência do Simba e a justiça que foi feita no final.

Da mesma forma, o Forrest Gump, uma pessoa fadada ao fracasso, considerada frágil, fora do normal e diferente, mas através dos valores que ele herdou na educação da mãe, pela autoestima desenvolvida naquele seio familiar, a possibilidade de ganhar o mundo sem medo do desconhecido e fazer a própria história.

Ambos os filmes me inspiram muito até hoje. E para mim, Forrest Gump é uma lição de narrativa que eu mesmo me desafio quando escrevo um roteiro. Uma história que tinha tudo para ser simples e não cair no gosto das pessoas foi uma aposta do Zemeckis que deu muito certo. Frases célebres viraram produtos de marketing que até hoje rende. Virou até rede de restaurantes. É um filme muito inspirador.

Eu poderia citar também o filme "Na natureza selvagem", que tem uma pegada parecida do auto descobrimento, explorar limites e "Batman- o cavaleiro das trevas" que dá um show de roteiro. Todas as falas do Coringa marcam muito para mim a capacidade do roteirista de colocar na voz do vilão, a voz da sabedoria, que mostra para a sociedade as próprias fragilidades e o que ela gera com isto. E foi uma semente do Coringa que hoje estão todos celebrando, com o Joaquim Phoenix.


3) Como analisa o crescimento das produções nacionais, que aliam principalmente qualidade e credibilidade, e como se vê neste cenário?

L.P.: Eu creio que com ou sem financiamento, o Brasil ao longo da sua história no cinema, sempre usou da crise, usou da dificuldade como sua mola propulsora e até hoje a gente vê filmes do cinema brasileiro desde o cinema novo pra cá, eu sou de 89 então, vão me perdoando a filmografia limitada, mas é o que eu posso compartilhar com vocês; que sempre a gente fez da dificuldade a nossa força, que isso seja de inspiração, mas que isso seja de propulsão para alçar melhores  e maiores vôos, o que significa lutar cada vez mais por uma profissionalização, lutar por um respeito da profissão, não só entre os pares, mas entre a sociedade, entender que o cinema e a indústria criativa geram muito retorno financeiro, e que esse retorno vem por uma jornada louca de trabalho de 06 dias para 01 dia de folga, de 12 horas diárias de trabalho, é um processo longo desde da pré produção, do desenvolvimento eu diria, até a pós produção e a distribuição, que muitas vezes as pessoas não têm noção que tudo que a circunda, toda forma de conteúdo áudio visual, levam um tempo muito longo e envolve muitas pessoas, então geram uma quantidade de emprego absurdo. 

E eu vejo que o cinema brasileiro e a televisão cada vez mais, tem buscado uma qualidade, não só da forma, mas do conteúdo, cada vez mais cinemática à imagem que a gente vê nas séries. E cada vez mais as pessoas estão buscando formação. As escolas de formação públicas ou privadas têm possibilitado essa experiência junto também com o barateamento dos aparatos técnicos. O Brasil como você mesmo mencionou, está tendo a possibilidade de cada vez mais aprofundar na qualidade e credibilidade de suas obras, por isso, porque usou da sua história, da sua força, da sua crise e dos seus temas reais do contexto político, do contexto social, valeu-se disso, tem valido de sua cultura, para gerar as suas histórias, os seus enredos e a gente se identifica e consegue que essas histórias muito particulares, também toquem pessoas de terras estrangeiras, terras alheias. Eu acho que tem determinados títulos óbvios que caíram no gosto nacional e estrangeiro  e para mim fica como destaque muito a maestria de obras como “Que horas ela volta”, que reúnem um time de atores muito capacitados, uma qualidade técnica, uma maestria da fotografia, quase matemática mesmo da forma como foi concebida e o conteúdo, o enredo que é um retrato; creio que o Brasil inteiro se identificou com o que está retratado ali na tela ou na figura do patrão ou na figura do empregado.


Então acho que tem uma leva de filmes brasileiros que estão sendo atualmente produzidos que fazem sim a gente cada vez mais vestir a camisa do cinema brasileiro, querer que outras pessoas assistam, querer aumentar o nosso circuito, proteger as nossas obras de modo que realmente exista um espaço maior dedicado ao cinema nacional nas salas ao redor do Brasil, para que não aconteçam absurdos como quase 98% das salas e das exibições ficarem delegadas a um só título como foi o que aconteceu com o “Vingadores”, que as  questões comerciais que os distribuidores e que as salas de cinema mesmo, vejam  entendam cada vez mais a força do conteúdo que está sendo feito aqui, isso me impulsiona para onde quer que eu esteja ou nos Estados Unidos ou no Brasil, que os meus enredos também sejam muito verdadeiros, a minha experiência ao meu repertório, eu acho quanto mais a gente fala do que a gente entende ou do que nos inquieta, assim a gente consegue dialogar com as outras pessoas, a gente consegue travar essa rede de questionamento e de emoção que eu falava agora a pouco.

Eu creio que o meu argumento é tão prova disso, dessa capacidade de falar do que se entende bem e de lutar por fazer com maestria, com o melhor que se pode dar, com propriedade e com qualidade quando se tem essas condições, quando se entende do que se quer falar, a prova disso são em produções cearenses recentes que eu gostaria de destacar de cineastas estreantes, debutantes em seus primeiros longas e que deram um show internacionalmente e também no Brasil que foi Allan Deberton com “Pacarrete” e o Armando Praça com “Gretta”. Eu acho que eles dão um banho de cinema para cineastas já mais tarimbados, como cineastas que estão começando a carreira agora também, provam que quando a gente busca um assunto que nos é caro, busca os meios de realizar isso, o resultado não pode ser diferente. Tenho muito orgulho dessa produção recente cearense que tem mostrado aí a que veio e que para mim vive um momento áureo mesmo.

Um cineasta que me intriga muito por saber  escolher muito bem o que falar e viver esses ciclos temporais de estudo de um projeto de aperfeiçoamento até que esse projeto venha a público, ele sempre me intriga bastante nas escolhas dele para mim são sempre escolhas muito acertadas, eu ainda não passei por uma experiência negativa com o que vi, posso até não ter visto algum trabalho, mas com que vi do Fernando Meirelles, vou destacar aqui “O ensaio sobre a cegueira”,  e “Dois Papas” , ele escolheu temáticas muito interessantes, já canonizadas, super relevantes de se discutirem, de autores fortes ou de conteúdos muito fortes, que para mim são sucesso e inspiração, então queria deixar destacado aqui o meu salve sempre ao Fernando Meirelles, que entendeu a importância não só do conteúdo, mas de como viabilizá-lo, como veiculá-lo e ensina para a gente também que a arte é mercado, que a arte é produto e que ela tem o seu valor, ela gera valores tanto a nível mercadológico quanto a nível social mesmo, ela é uma forma de fazer de perpetuar a cultura, de criar cultura, de transformar a cultura.


4) Algumas profissões rendem histórias interessantes, curiosas e às vezes engraçadas. E certamente, quem trabalha com cinema, tem suas pérolas. Se lembra de alguma história legal que tenha acontecido  durante a execução de algum trabalho seu e que possa compartilhar conosco? Alguma história de bastidores, por exemplo.

L.P.: Houveram algumas histórias, que hoje talvez a gente considere tragicômicas, porque hoje a gente pode rir, mas na época era só tristeza. Eu vou relatar algumas. No Under Water: Dive Deep (2016), que é uma mãe que perde o filho afogado no mar, e o que a gente acompanha da trajetória de recuperar-se dessa perda, ela vai se encontrar com personagens surreais, meio assim Alice no País das maravilhas, Pequeno Príncipe, que tem essa vibe assim, no filme, eram cinco diárias, e das cinco, quatro eram na praia.

Você pode imaginar que a nossa produtora tinha uma preocupação enorme de que esse pessoal trabalhando 12 horas diárias não se queimassem todos né! Passava com protetor solar anunciando, só faltava o megafone para ela, para toda hora ter certeza de que estava todo mundo protegido. Bem, logo no primeiro dia, um dos nossos membros da equipe que era o gordinho chinês, não quis passar. E o que aconteceu no dia seguinte foi que ele quase ficou impossibilitado de ir trabalhar, ele teve uma reação que a gente nunca tinha visto antes, bem atípica com relação a queimaduras.Ele queimou a nuca dele a ponto de formar uma bolha enormeeee.

Outras histórias do mesmo filme: Eu convidei os produtores para o projeto, apesar de ser um curta nós tínhamos quatro produtores, acredite! Não foi falta de tempo, de organização não, a gente vai aprendendo em quem confiar a medida que a vamos montando essa nossa equipe, trabalhando com as pessoas, ganhando essa experiência. Pois bem, a um dos produtores cabia a tarefa da locação e ela era a única certeza logo desde o começo do filme, era uma praia chamada "Pirate Cove, CA", e eu sabia que queria essa praia para a gente gravar. Pois bem, o produtor achou que havia conseguido todas as autorizações para gravar lá, mas não conseguiu fechar.


Chegou uma ou duas semanas antes da gente gravar, e nós tínhamos tudo, mas não tínhamos a locação. Eu e  minha co-produtora, que nesse projeto ela era também minha primeira assistente de direção, saímos dirigindo a costa californiana inteira atrás de uma praia que estivesse disponível, a gente chegou até a buscar praias privadas de uma colônia portuguesa, falamos com eles, a Sophy Taylor no caso, ela ligou, falou e depois desligou e disse para mim, “Olha Lucas, não vai dar certo, não vai ter jeito, eles não quiseram.” Eu olhei assim para ela e disse: "Sophy a gente rodou quase todas as praias, a gente não tem mais opção para “não”. Pera aí deixa eu ligar e falar com a mulher. “Mas Lucas eu acabei de ouvir um não, a Sophy como uma boa Britânica, para ela é preto no preto, branco no branco. E eu disse assim, “Sophy, a gente vai ter que tentar de novo”. Peguei e liguei para a mulher, expliquei a história toda do processo do filme, desde o começo de como nós estávamos rodando toda a costa litorania e ela se propôs a marcar um horário para que a gente fosse lá conhecer o lugar.

Mas infelizmente não se adequou ao que a gente buscava, e a gente acabou encontrando uma outra praia que calhou muito bem para a gravação do nosso filme. No último dia, dessa mesma gravação ficamos eu, o diretor de fotografia, uma assistente de produção e o fotografo, nós estávamos lá, todo mundo exausto, todo mundo já tinha ido embora, lágrimas, homenagens, todo mundo feliz. Pois bem, a gente está lá, aproveitando a brisa, na hora de ir embora, o carro não ligou. A gente tinha o caminhão com os equipamentos e um carro de passeio. O carro travou a direção. Pois não é que a gente conseguiu sair dessa situação através de um tutorial do youtube? Cineastas apelando ao youtube, e assim, a gente descobriu que tinha travado a direção  que é uma medida de proteção do modelo do carro (risos).

Mais uma desse filme, é que nós tínhamos originalmente escolhido um ator anão, uma pessoa pequena, não sei como fala aqui no Brasil. Lá nos Estados Unidos, a gente não pode mais dizer anão, a gente tem que dizer “Little person". É muito difícil de montar o elenco, de buscar talentos que se enquadrem num papel bem limitado, e dos três ou quatro anões que nós vimos, um se enquadrava para o papel. Fizemos ensaios, fomos a praia, ele tinha uma condição de saúde na coluna, eu carreguei esse homem nos braços, pesado, subindo e descendo pedra, com a mochila nas costas, uma cadeira atada na mochila e carregando tudo isso. Chegamos fizemos os ensaios, foi maravilhoso, eu tinha certeza que ele era a pessoa ideal para o papel. Pois bem, depois quando eu chego em casa eu recebo um email de que ele não vai poder mais fazer; eu fiquei sem chão. Fui, mandei carta, mas o que acontece é que ele realmente não poderia.


O que aconteceu é que um ano antes, eu participei de um longa metragem chamado "Restored Me", e eu estava lá só como assistente de produção, e um dos atores que estava no Set era o Pepe Serna, um ator Hollywoodiano de origem mexicana que já fez grandes trabalhos com Al Pacino, Matt Damon,  ele fez "Pequena grande vida", fez “Scarface”, e o resultado é que eu procurei o contato dele através do IMBI-pro, achei o contato do agente, mandei email, mandei roteiro, queria ele originalmente para o “Blind Rat", que é um outro personagem, um mendigo cego, e ele não ia ter as datas.

Quando aconteceu essa questão da desistência do outro ator, eu contactei ele novamente, a essa altura, nós já estávamos trocando telefonemas pessoais, o agente havia passado esse contato, dizendo: “Olha! Tem uma outra data, tem um outro papel, acho que você vai gostar muito, tem a ver com circo, tem a ver com improviso, com mágico, com trapacear, vamos?” E ele foi nove da noite no "White Point Beach", numa sexta feira, era ainda claro pela posição do sol e clima de lá. Mas ensaiamos a esse horário, foi o único ensaio em que batemos texto, improvisamos e assim ele eternizou a figura do  "Little Big Me"..., no meu primeiro curta metragem.

Uma história não muito feliz desse filme é que a atriz principal a Arden Kelly perdeu o pai, que faleceu uma semana antes da gravação do filme. Então foi uma gravação assim, que me pôs muita a prova, eu na verdade consegui financiamento coletivo para a produção inteira do filme no meu primeiro projeto, ultrapassamos a  meta estabelecida, mas tiveram esses percalços aí, que eu acho que vão formando, vão aperfeiçoando, vão dando experiência ao cineasta. Aí a gente aprende a lidar com situações as mais diversas, de psicólogo à produtor também, mesmo, no papel de diretor. Tendo que fazer malabarismos as vezes.

 No “Um toque de Aurora”, nós tínhamos também uma equipe bastante diversa. Na natureza de nossos projetos a gente sempre trabalha com pessoas das mais variadas partes do mundo. Aqui nós tínhamos um diretor de fotografia indiano que já gravou projetos como “As Aventuras de Pi”, “Jurassic Word”, ele fazia parte dos efeitos visuais. Tínhamos a maquiadora de “Teen Wolf”, de “Jogos Vorazes”,  do “Meu amigo Hndú”, tínhamos uma série de pessoas vinculadas ao projeto, que tinha uma determinada projeção nacional e internacional, a Thaila Ayala é a nossa protagonista e o Al Danuzio também já ganhou Kikito em Gramado por “Aquarela”, dirigido e atuado por ele. E a Thaila Ayala nós já conhecíamos da televisão e do cinema, e mesmo numa incursão de cinema internacional. Assim, ela deu vida a nossa personagem “Sara”, os dois personagens nesse filme são cegos.


Bem, para o convite da Tayla foi curioso, eu consegui o contato direto dela, através de uma colega da Indústria, eu mandei uma email fazendo o convite para Tayla e ela foi super educada, se interessou muito pelo projeto, nós marcamos nossa reunião. Pois bem, assim que o projeto realmente falava da privação da visão, nós tivemos nossa apresentação como de costume, mostrando os valores do projeto, a contrapartida social, a equipe forte que nós tínhamos reunido, e parte dessa nossa reunião, nós vendamos a Tayla e fizemos uma dinâmica de cheiros, toques, diferentes sensações, uma vez que desprovida da visão, terminamos com essa caixa, esse presente para ela, que acho foi a cereja do bolo, foi o que determinou mesmo  o sim dela no nosso projeto. Uma caixa cheia de Nissin Miojo, de todos os tipos e sabores que você pode imaginar. A quem diga que Nissin Miojo é uma das paixões de Tayla Alaya, e isso foi o nosso arremate naquele dia de reunião.

Nós tivemos um diretor indiano, e você imagina, como é que um diretor indiano dirigiu um filme falado em português, pois bem, até hoje nós estamos tentando descobrir como foi tal feito, porque realmente o ator idealizador do projeto confiava na direção dele, e acho que fez bem. O filme é super sensível e toca bem os públicos que têm assistido.

Aconteceu um fato curioso em outro projeto, nem tanto engraçado, mas que ficou aí para os autos. “Júlia” é um projeto com a Sabrina Percario, que trata-se da perda da mãe dela e o filme se relaciona com o sonho, com o sentir falta da presença da mãe, em que eu tive o prazer de produzir. Nesse mesmo período eu fui convidado por outro ator para dirigir o trabalho dele, um curta de terror, até então um gênero que eu não havia explorado. E dando enfoque a minha carreira da direção, que para mim vem prioritariamente ao produtor que eu sou; eu conversei com a Sabrina e expliquei:  "Olha, muito feliz em estar produzindo esse trabalho, um trabalho super sensível, super delicado e pessoal seu, mas como fazemos? Tenho esse convite aqui para dirigir, e dirigir um terror uma oportunidade que eu tenho de expandir a minha janela de trabalho." Assim conversamos, e o que ocorreu foi, eu consegui fazer uma ótima pré-produção para “Júlia”, deixei todos os aspectos, toda a logística de filmagem bem encaminhada, era um curta metragem, nós fizemos toda a parte de autorizações, de logística de estacionamento, de alimentação, de contratar equipe, fazer o casting dos atores, conseguimos felicidade no projeto. No caso do projeto que eu dirigi, ele se dava a noite, então eu conseguia espaços, janelas de tempo, para poder me comunicar constantemente com a produção de “Júlia” para saber se tudo corria bem, e assim eu consegui matar dois coelhos com uma cajadada só.


No “Erase me”,além da conquista, em uma fila de show do Caetano Veloso e do Gilberto Gil comemorando cinqüenta anos da carreira deles, somando a carreira de um com o outro, conheci Talma de Freitas, uma beldade da televisão brasileira que canta super bem, e que até então eu desconhecia. Foi um prazer trabalhar com ela no “Erase me”, que é esse projeto de uma trans gênero, que está buscando o pai que a abandonou na infância. Para esse projeto eu consegui obras exclusivas da artista visual Érica Harsh, residente em Nova York, ela é mexicana, ela já teve obras do trabalho dela que apareceram no filme com Diego Luna e Alice Braga, e eu havia visto uma exposição dela em São Paulo em 2008. Olha, para você vê como as coisas nessa mente dos criadores elas vão e vem.

Quando eu fui fazer o filme, voltou aquela imagem na minha cabeça, e eu fiquei martelando de quem era, como encontrar. Consegui o contato dela, contactei, expliquei do que era o projeto, pois eu tive o prazer de que ela me mandasse quatro de suas esculturas originais, de uma série chamada “Inmagus”. E também ela me liberou o direito de imprimir algumas ilustrações, algumas imagens dela em forma de ilustração em escala real, que depois obviamente eu tinha que devolver ou destruir as peças reproduzidas, teve esse barato aí de conseguir essa conquista para esse projeto.

Também no “Erase me”, foi um projeto que desafiou bastante os nossos atores principais. Eles tiveram aula de strip burlesque, tiveram aula de Pole dance, tiveram aula de combate, porque tinha cenas que eram necessárias o combate físico. E teve um desses dias, a gente tinha uma diária que desde o começo sabíamos que iria ser muito puxada, a gente abriu essa exceção, pôs em reunião a discussão com relação a esse dia que nós precisaríamos gravar a cena da boate e do estupro. Então, foi um dia de quatorze horas, super cansativo para todo mundo. E nós tivemos o João Vitor Salles Damasceno num verdadeiro desafio físico e mental, porquê ele teve que repetidas vezes, repetidos takes, fazer sequências de dança, pular nesse mastro, fazer coreografia e ao final do dia, o coitado ainda ia ser estuprado. Claro que tudo tecnicamente trabalhado justamente com um coordenador de dublê. E foi assim, realmente testou limites do ator  e o resultado é de bastante agrado, a gente tinha uma referência do filme “Irreversível” do Gaspar Noe, e creio que o nosso resultado me satisfaz muito quanto diretor.


O nosso diretor de fotografia e amigo meu querido, Nelson Flores, salvadorenho, residente e naturalizado americano, certa vez eu disse para ele: “Olha, seis diárias, câmera na mão, já sabia que a linguagem do filme seria de câmera na mão. Eu disse para ele, olha, to pensando em alugar uma base para você não morrer aí , tendo que carregar essa câmera durante seis diárias direto.” Ele: “Não Lucas Imagina! Eu aguento.” Eu bem tarimbado nesse tipo de coisa, já vi de tudo um pouco nessa vida, desde da época do teatro, eu disse: “esse aí não aguenta um dia”, doze horas segurando uma câmera de muitos quilos, uma "Red dragon", digo, eu vou alugar de qualquer forma, ele diz” não precisa” e eu disse: “Eu alugo, você pode até nem usar, mas a gente vai ter a disposição.” Foi dito e feito, primeiro dia de Set, menos da metade do dia ele já estava com a base de câmera, não aguentou não, (risos)!. Teve que usar.

No final das contas, este projeto é muito importante para mim, tive muita felicidade de ter conseguido realizar, com  temática interessante, relevante, socialmente falando, com pessoas super interessantes, e ainda com artistas de reconhecimento nacional e internacional envolvidos.

Meu cinematógrafo encerra os trabalhos e ele diz: “Lucas..."Let's get shaved"? (que significa barbear-se). E eu fiquei pensando "esse menino não tem o que inventar a uma hora dessa não? E eu Meus Deus nunca fui me "barbear" com ninguém assim, ele um amigo muito, muito especial mas eu não estava entendo a vibe. Pois esse meu querido amigo me levou a um estabelecimento que quando eu chego lá, o que era esse tal "get shaved"? Era nossa famosa raspadinha, nos enchemos de raspadinhas... (risos).

Nesse trabalho chamado “Embrace”, que foi concebido pouco tempo depois da eleição do Trump lá nos Estados Unidos, a gente montou um grupo de criação em resposta a isso, e como um meio de “motor” de criação em que nos encontraríamos semanalmente para fazer obras audiovisuais, primeiro partindo desse gatilho, depois nós iríamos onde iria dar.


Bem, escrevi um poema chamado “Bridge”, para contrapor a parede que ele queria construir, e o nome da peça chamava-se “Embrace, eu não só havia concebido como dirigi e também fazia parte como ator. Pois bem, era uma peça que misturava bastante elementos de vídeo clipe, de performance e de teatro, e nós tínhamos um homem negro, uma mulher asiática trans, uma mulher indígena nativa e uma drag queen, todos no set. O que acontece é que eu naquele momento como meu cabelo longo, loiro que eu tinha, crescidos ao longo de cinco anos, todo no babyliss, todo nos cachos, com lentes de olhos azuis, estava ali, ia ser submetido a uma série de  materiais um pouco não convencionais por assim dizer.

O que acontece é que eles cortam o meu cabelo em cena, vão aos poucos me despindo em cena, esse “homem branco” que acha que sabe de tudo, precisa ali mesmo renascer e abraçar as diferenças “Embrace”,. O que acontece é que em cada personagem jogam um elemento em cima dele e assim, o primeiro elemento de cara, gera uma tinta preta látex, pois, para minha surpresa ou para minha angústia, assim que o ator começa a derramar essa tinta látex no meu rosto e no meu olho, as minhas pálpebras começam a colar uma na outra, eu estava só no começo da gravação, ainda tinha muita coisa pra acontecer, já não estou enxergando coisa alguma e aquele látex começa a arder nos meus olhos é “um Deus nos acuda”, e depois daí vem glitter rosa, penas, sutiã, fiquei uma verdadeira galinha depenada, foi mais ou menos assim que aconteceu no “Embrace".

No “Woven" que ainda é uma dessas peças de resposta ao presidente naquele período recentemente eleito, também vai falar da importância dos imigrantes em solo americano, de como eles costuram a história do país. E assim, naquele período eu morava em um estúdio, o que a gente pode dizer aqui no Brasil, numa famosa quitinete, super pequeno mesmo, e a gente transformou aquele estúdio de morar em um estúdio de gravar.


O que aconteceu é que nós conseguimos alguns leds com amigos, três câmeras, trinta atores envolvidos, elástico para todo o lado da casa,na  sala, quarto, que era tudo o mesmo espaço, um backdrop, um rolo branco de doze feet, e imagine que, a gente fez toda essa gravação, ela está disponível no youtube. Quando você vê o resultado da imagem, você não poderia suspeitar que cabia tanta gente, tanto aparato e ainda mais, essas luzes de leds penduradas no teto apenas com fita crepe, que a gente usa no set de gravação, num tipo de acochambrado lá, que eu aprendi com um amigo meu americano, que até hoje eu ainda uso em momentos  assim de emergência, que eu tenho que pendurar coisas com fita no teto, no caso, todas as luzes ficaram durante três dias penduradas e nós, conseguimos fazer nossa gravação.

A última história, se dá na produção de um comercial nacional para a Índia em que eu fui recomendado para um cliente e para agência de publicidade de lá, tanto da marca quanto da agência em si. O que acontece é que, eu no momento que recebi esse convite, estava severamente debilitado fisicamente. O projeto, a partir do momento que foi contactado até a sua execução, foi de exatamente dez dias. Pois bem, em dez dias eu produzi um comercial internacional para uma marca de perfume indiana com sucesso de gravação, com uma equipe de cinqüenta pessoas, uma das locações mais caras de Los Angeles, em que a diária custa 10 mil dólares, que é o prédio da Universidade do Sul da Califórnia.

Consegui  locação pela metade do preço, fechando à $5.400,00 dólares. Com doze horas e meia de diferença entre a comunicação minha em Los Angeles e da diretora e de sua assistente na Índia em Dubai. Tudo isso feito comigo deitado em uma cama. Pois que fique para os autos, esse produtor e diretor aqui, consegue trabalhar e entregar material de qualidade, equipamento, casting, foi a maior parte feita somente  por mim de uma cama.

Como era o meu primeiro projeto com um  orçamento bem maior, do que eu já havia trabalhado, eu não quis arriscar erros, eu queria entregar um trabalho de qualidade em que eu tivesse controle da situação, portanto, acertado ou não, acredito que entregamos o que nos propúnhamos e foi sucesso. Era para o perfume “Park Avenue”.


5) Se pudesse, por um dia, ser um diretor (ou diretora) do cinema clássico (de qualquer país) e através deste dia, ver pelos olhos dele (a), uma obra prima sendo realizada, quem seria e qual o diretor e o filme? E claro… por quê?

L.P.: Agora você fez aquela pergunta de matar o coração de um diretor por infarto. Seria um sonho poder viver por um dia a vida de tantos mestres e obras primas que já foram feitas. É impossível eu te dar apenas uma resposta. Se antes eu falei da criança, que gostava do Menino maluquinho e os 3 Ninjas; Depois o adulto, mesmo que eternamente criança,  passei a gostar do Rei Leão e Forrest Gump, aqui nesta resposta, se eu tivesse a chance de ser um mestre ou de trabalhar numa obra prima, eu estaria em tantos, que é até difícil, mas vou listar os que vieram na cabeça: gostaria de ser Peter Docter ou Ronnie Del Carmen, diretores de Divertidamente da Pixar, Pedro Almodóvar em Fale com ela ou Kika, Alejandro Jodoroswky pelo Poesia sem fim,  O Rei Leão do Roger Allers, Rob Minkoff, Forrest Gump do Robert Zemeckis, Christopher Nolan pelo Batman-Cavaleiro das trevas.  Sentido da vida dirigido pelo Terry Jones e Terry Gilliam; e no Documentário dirigido pela Petra Costa que ficou em destaque pelos Oscares e que merece nossa atenção pela forma de desenvolver esta linguagem de documentário, com o filme Democracia em Vertigem e também Elena; E vou finalizar com Fernando Meirelles com Ensaio sobre a cegueira.

Vou dizer em breves palavras o porquê de cada um deles: O Divertidamente pela Pixar se destacar como um estúdio que desenvolve com maestria esta linguagem e  fortes roteiros. Então primeiro eu estaria muito interessado no desenvolvimento do roteiro e segundo na capacidade deles em imprimir emoção numa animação em 3D. Eu tenho zero experiência com animação, então animação em 2D ou 3D me valem o motivo pelo qual eu coloquei na lista o Rei Leão e Divertidamente, que eu os destacariam logicamente pela força dos roteiros, cada um no seu viés de drama (realista , visceral e às vezes surreal), e de comédia.


Um Documentário super poético como Democracia em Vertigem, que é particular, mas que fala de toda uma nação. O filme consegue capturas de um momento histórico brasileiro, eternizando-o. Todos os escândalos, falhas, injustiças e absurdos, usando a perspectiva da primeira pessoa, narrando para a gente. Já em Elena ela desenvolve com pessoalidade questões que são de outra pessoa, no caso, o  suicido de uma irmã que ela transforma num grande presente de luto e poesia.

Em Ensaio de uma cegueira me interessou a capacidade que o Fernando Meirelles tem de trabalhar obras adaptadas para a tela de forma tão autoral, que apesar de alguém já ter escrito esta história, ela parece original. Ela ganha uma camada de profundidade que acrescenta à obra, dando complexidade a ela. O filme me instiga a pensar em São Paulo pós-apocalíptica, além do absurdo de acordar e não ver mais nada. Ensaio me chamou muito atenção por ser um diretor brasileiro e uma co-produção do Canadá e Japão, com atores renomados. Imagina como seria trabalhar com estes atores e enfrentar as inseguranças de estar com atores e atrizes tão bem estabelecidos? E ele ainda consegue fazer um filme provocativo, além da fotografia e paleta de cores que é um elemento narrativo importante.  Técnica, genialidade, criatividade em abordar ou criar uma obra e torná-la sua. Um cinema de autor mesmo. Muito forte.

Acho que ser Almodóvar em Kika ou Fale com ela é entender personagens complexos. Que vão muito além de uma caricatura ou psique simples. O Almodóvar trabalha com um universo decadente e ao mesmo tempo muito visceral muito dolorido ao mesmo tempo em que há (trági) comédia presente, cores fortes e personagens intrigantes. O Alejandro Jodorosky tem uma questão autobiográfica trabalhada na força das multidões, símbolos teatrais. O filme parece realmente um sonho acordado.


O Forrest Gump pela maestria do roteiro que se traduz em uma narrativa que é uma aula de como contar uma história. Tantas cores, contrastes, um herói que vive de tudo apesar das debilidades que o mundo diz que ele tem. Eu queria estar no set do filme para ver mesmo como eles trabalharam com o ator principal, o Tom Hanks e como fizeram os efeitos especiais que em muitos momentos misturam arquivo com ficção, inserido filmagens novas em vídeos pré-existentes e de outro tempo num período em que este terreno de efeitos especiais ainda era explorado. E funciona super bem na tela.

Um filme de ação como Batman – cavaleiro das trevas, principalmente por conta dos diálogos do Coringa. Gostaria de ver também como funciona a dinâmica de um filme de ação, tiros, bombas, explosões e todas as complexidades de cena que envolve uma equipe enorme e que qualquer ato falho pode comprometer a vida de alguém pois a segurança está muito em questão.

Monty Phyton, o sentido da vida porque são quadros ou sketches magistrais, fundindo-se numa comédia para fazer pensar, que vai além da piada pronta que funciona só em  uma região. São assuntos que vão do regional para o Universal e que nos tocam até hoje. O filme é uma aula do desafio de fazer comédia provocativa.


6) Agora voltando à sua área de atuação. Qual trabalho realizado você ficou profundamente orgulhoso? E em contrapartida, o que você  mais se arrependeu  de fazer, ou caso não tenha se arrependido, teria apenas feito diferente?

L.P.: Eu tenho experiência de dirigir videoclipe, de dirigir obra adaptada do teatro para tela, um vídeo clipe de uma música chamada Los Angeles. Peguei Plínio Marcos com “Dois pedidos numa noite suja” e adaptar para uma cena de um curta em inglês, que se chama “Loves shoes and death”.

Dessas coisas diferentes que já dirigi, “Concrete River”, que é uma pessoa que chega em uma cidade, em que o rio é de concreto e ela passa por sete experiências de quase morte, e todas elas são falhas (tentativa de suicídio que nunca se concretiza). O filme se refere ainda uma poesia concreta política,  que são reações, através das criações artísticas, um resposta a eleição do Trump.

Eu tenho muito carinho por duas de minhas produções. As que eu ainda mais me orgulho como obras mais bem acabadas, mais finalizadas com roteiro que cumpre um arco mais completo, seria realmente o “Under Water: Dive Deep (2016) e o Erase me (2017). Os dois tratam do que mais me chama atenção enquanto artista que é abordar classes sociais marginalizadas. No “Under Water: Dive Deep”, nós temos cada um dos personagens principais metade bicho, metade gente, que representam uma classe social diferente: nós temos um rato, uma borboleta e um coelho. Nós temos um maestro que rege o mar, enquanto a plateia é composta por um porco, zebras, tigre. Então nós temos alegorias ali ...bem estilo Alejandro Jodorosky...


Eu me orgulho muito desse trabalho porque, como já foi citado, um trabalho de bastante desafios, de clima, de exposição em um espaço público, de ter uma equipe inteira exposta na praia por tantos dias, mas de um diálogo de texto assim mesmo que, é bem alegórico que trabalha bem valores de sabedoria, de escuta, de mesmo uma mãe que perdeu um filho afogado, como ela reaprende a ser? Como ela sobre passa esse luto, é possível isso? Ela trouxe um problema e os personagens que ela encontrará, caso esse coelho, que na verdade é um trapaceiro, e ele é um deficiente físico, de cadeira de rodas. Uma borboleta aprisionada que na verdade é uma transgênero. Ou um mendigo cego, que é um rato, que é mudo, que não fala, não vê , e que no entanto, vai arrematar com essa tomada de consciência da nossa personagem principal.

Tenho muito orgulho desse trabalho, por ter conseguido captar dinheiro pra ele, por ter conseguido organizar estruturalmente ideias, que são para mim fortes de valores de classes sociais e de valores e virtudes humanas. E por ter um elenco, uma equipe que abraçou muito esse projeto, que tinha todos esses desafios.

O “Erase me” vem de novo tratar de uma classe marginalizada, vem tratar de questão de gênero, vem tratar de família, vem tratar de abandono, dessa personagem transgênero que quer conhecer essa figura fantasma que foi o pai que a abandonou na infância. O problema de identidade dela não é de quem ela é por gênero, mas esse vazio que a figura paterna deixou na sua formação enquanto ser humano mesmo. Descobrir o porquê de ter sido abandonada?


E também tenho muita honra porque consegui trazer forças do cinema e das artes visuais, que são reconhecidas nacional e internacionalmente. Uma maquiadora que trabalhou no filme “Jogos Vorazes” (Bruna Nogueira) Tim Wolf do “Meu Amigo Hndu”, a Talma de Freitas, cantora e atriz de cinema e televisão e de shows nacionais e internacionais, ela cantou na finalização dos jogos olímpicos de 2012 passando de Londres para o Brasil junto ao Carlinhos Brown. E também como eu já tinha dito Érika Rach que é uma artista plástica mexicana de obra bastante relevante em relação ao feminino, de como o feminino se expressa e se comunica com o mundo. Então esses trabalhos eu tenho bastante orgulho.

Trabalhos dos quais eu me arrependa ou faria coisas diferentes, a gente sempre tem algo a fazer diferente em todos os trabalhos, inclusive no “Under Water: Dive Deep”, que há uma questão de problema de áudio, no “Erase-me”, eu gostaria de ter tido uma diária a mais para poder separar a cena do estupro da cena da boate e da dança, acho que poderia ganhar ainda mais o filme, e claro, a gente sempre quer mais dinheiro para desenvolver melhor, mais dinheiro e mais tempo para desenvolver melhor nossas ideias.

Lamento quando projetos que a gente produz, não finalizam. Há projetos em que eu sou o produtor e que como o financiamento parte do diretor, são projetos independentes, muitas vezes o diretor acaba postergando a finalização, que seria o caso, por exemplo, do “Sick day” é um projeto que a gente gravou já tem um ano e meio que ainda falta composição, trilha sonora pra ele, apesar de a edição e a cor já estarem prontas. E fala de um assunto muito interessante que é o serial killer, aquele que mata, que tem várias vítimas, e ele arquiteta, ele programa todas essas vítimas. Seria ele uma vítima social também e o que o motivou? É o que a gente vai explorar. Então ele ainda se enquadra, na minha concepção de figuras à margens socialmente, porque ele tem uma defasagem, uma deficiência psicológica, ele carece desse estudo, desse amparo de alguém. Será que teremos pena dele?. Quando o filme for lançado a gente vai descobrir.


“Duplicitous” foi um curta de terror, que também não encontrou finalização, por parte do produtor executivo. A direção teve a sua atuação e a direção executiva ainda está segurando o projeto até hoje, é uma pena! Também o dinheiro não partiu da gente e as vezes quem tem o dinheiro é quem manda na história, a gente acaba aprendendo isso, ou no cinema independente ou no cinema de estúdio.

De arrependimento também, esta é clássica e vale que você esteja ouvindo, Alibaba Pictures, é um estúdio que abriu a partir da empresa Alibaba em sua primeira iniciativa em passadinha na Califórnia, onde estão instalados seus estúdios. Eles escolheram 10 diretores promissores chineses, e entregaram um orçamento de 3 mil dólares para que criassem curtas metragens a respeito de determinados organizações não governamentais sem fins lucrativos. Cada um teve um tema, e um desses diretores chineses me convidou para o trabalho de produzir. Ou seja, toda parte logística do filme, transformar possível essa ideia de com 3 mil dólares fazer uma obra de começo, meio e fim.

A parte de elenco, eu não tive participação nesse processo, e eu acho que é a que mais deixa a desejar no projeto em si. O curta teria sido bem realizado se com o elenco mais forte, mais potente. Esses 10 curta metragens, dentre os quais, um deles eu produzi que foi o “Happy Anniversary” fazia parte do projeto...Small Heart Big Film e para a surpresa de vocês que nos leem, o júri é composto por simplesmente por Billy Zane (do Titanic), John Lee Hancock de Walt nos Bastidores de Mary Poppins e nosso queridíssimo Steven Spielberg. Você imagine que um curta metragem que eu produzi, eu posso dizer e afirmar com todas as palavras e provar, que foi assistido e analisado por Steven Spielberg.

A minha tristeza e arrependimento é que eu não era o diretor dessa obra para poder conferir a parte criativa ao projeto, fazer decisões de um elenco mais potente.

Então deste modo, estão minhas glórias e meus arrependimentos.


7) Para finalizar, deixe uma frase famosa do cinema que te represente. 

L.P.: “Minha mãe sempre dizia: a vida é como uma caixa de chocolate. Você nunca sabe o que vai encontrar.” Forrest Gump, 1994

Lembre-se de quem você é.” – Mufasa, de Rei Leão, 1994

Este diálogo memorável:

-Mufasa: temos que respeitar desde a formiguinha até o maior dos antílopes.
-Simba:Mas nós não comemos antílopes?
-Mufasa: Sim,Simba,mas deixe-me explicar:quando você morre,o seu corpo se torna grama e o antílope come ela. E assim,estamos todos ligados ao Grande Ciclo da Vida.". Rei Leão,1994

E esta pontuação do escritor estadunidense Jack Kerouac:

Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam.


E para encerrar: "Um cineasta que só sabe cinema, nem cinema sabe." Esta frase é bastante conhecida em muitas áreas da profissão.

Aqui eu deixo as minhas frases favoritas, que no final das contas tem muito a ver com o ciclo da vida. Lembrar quem nós somos, se inspirar no outro e que a vida é uma caixa de surpresas, que um dia a gente pode estar afirmando algo e no outro dia este algo já se transformou, como uma metamorfose ambulante. A gente planeja de uma forma e a vida nos revela de outra. Devemos estar preparados para esta surpresa, saber abraçá-la, entender o que ela traz. Também admirar e estar mais atento aos outros, aos invisíveis, aos descartados, aos marginalizados, aos loucos e quando a gente achar que já sabe de tudo, é porque está na hora de "trocar o armário", trocar as roupas que já estamos acostumados a usar,

M.V.: Obrigado amigo. Mais que uma entrevista, foi uma grande lição através do cinema.

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