FERNANDO REULE - RESPONDE ÀS 7 PERGUNTAS CAPITAIS

fernando-reule-7

Através das 7 perguntas capitais eu conheci o mundo, literalmente. Consegui conversar com pessoas que eu jamais imaginaria que seria possível. Foi um projeto de 100 entrevistas, mas que terminou, depois de vários anos de muito trabalho e persistência. Foi cansativo, mas valeu a pena.

Por isto resolvi iniciar um novo projeto, desta vez com menos entrevistas (50 no total) e com um formato um pouco diferente, mas mantendo a ideia de serem 7 perguntas. Eu sempre fazia uma introdução do (a) entrevistado (a), mas desta vez será diferente. Vão conhecê-lo (a) ou saber mais sobre ele (a) através da entrevista.

E hoje, com vocês, o generalista  Fernando Reule

Boa sessão:


1) É comum lembrarmos com carinho do início da nossa relação com o cinema. Os filmes ruins que nos marcaram, os cinemas frequentados (que hoje, provavelmente, estão fechados), as extintas locadoras de VHS que faziam parte do nosso cotidiano. Você é um apaixonado por cinema? Conte-nos um pouco de como é sua relação com a 7ª arte.

F.R.: Minha paixão por cinema veio um pouco emprestada pelo meu primo. Ele tinha um caderninho onde anotava à mão todos os filmes que assistia. Ele também me colocou pra assistir ainda criança vários clássicos como Alien, Exterminador do futuro, Segredo do abismo entre outros. Mas foi com as trilogias “De volta para o futuro” e Indiana Jones, além das animações da Disney que comecei a me viciar e procurar assistir cada vez mais por conta própria. Na infância, filmes como Aladdin e A Bela e a Fera me encantavam pela “magia” da animação. Já pra adolescência, filmes como Duro de Matar, Exterminador do futuro 2, Jurassic Park entre outros me fizeram despertar uma vontade de trabalhar na área, ainda que com pouca esperança.


2) Muitos adoram fazer listas de filmes preferidos. Outros julgam que é uma lista fluida. Para não te fazer enumerar vários filmes, nos diga  qual o filme mais importante da sua vida. E  há uma razão para a produção que citar ser destacada?

F.R.: Acabei de citar uma lista aqui em cima! (risos) Mas é difícil decidir por apenas um. O melhor que eu conseguiria, talvez, seria fazer um top 3 separado por gênero. Alguns que ficariam em primeiro seriam Exterminador do futuro 2, De volta para o futuro e certamente Jurassic Park. São filmes que em sua essência te transportam para um universo parecido com o nosso, porém com uma ligeira dose de fantasia, apenas o suficiente para você conseguir imaginar como sendo próxima do possível. Acho que essa proximidade que tanto me encantava.


3) Você trabalhou na Industrial Light & Magic, que é a empresa que realiza quase todos os sonhos cinéfilos da humanidade. Como foi, como fã, fazer parte deste universo tão magnífico? E como profissional?

F.R.: Eu saí da ILM em Fevereiro de 2019. Desde então tenho trabalhado como Generalista na DNeg, outra empresa incrível que venceu 5 Oscars nos últimos 7 anos. Sobre ambas, acho que o justo seria dizer que ao mesmo tempo que é extremamente empolgante e desafiador, às vezes a gente fica tão focado nos problemas que está resolvendo que perde um pouco a dimensão da coisa. Daí por um tempo acaba virando apenas mais um trabalho.

Mas sempre que vemos as reações mundiais sobre o trailer, sobre o filme, etc, a gente acaba se dando conta que faz parte de algo grandioso, da história do cinema mundial mesmo. E isso é muito gratificante.

Lembro sempre quando lançou o primeiro trailer do Star Wars - Episódio VII (Despertar da Força), e em alguns minutos já tinha milhões de views. Foi uma coisa assustadora. Daí eu vi threads gigantescos no reddit e twitter de teorias e explicações e etc. Neste momento me dei conta de verdade de quão grandioso é o alcance do que fazemos. É uma oportunidade única mesmo, e me sinto muito grato.


4) Algumas profissões rendem histórias interessantes, curiosas e às vezes engraçadas. E certamente, quem trabalha com cinema, tem suas pérolas. Lembra de alguma história legal que tenha acontecido  durante a execução de algum trabalho seu e que possa compartilhar conosco? Alguma história de bastidores por exemplo…

F.R.:  Na cena em que trabalhei no Star Wars Ep VII (Cena do balcão, pouco antes da explosão do planeta Hosnian Prime), a iluminação da filmagem era completamente diferente da necessária. O laser que explode o planeta é vermelho encarnado e a iluminação da filmagem era amarelo-alaranjado. Então, para ajudar na composição da cena, eu acabei recriando o balcão inteiro em 3d, para facilitar o “match” da luz. A parte engraçada foi quando o supervisor foi fazer umas observações sobre a filmagem, e o compositor falou “Er...isso não é filmagem, isso é o 3D do Generalista (no caso, eu…)”.

Me senti orgulhoso por nem mesmo o supervisor ter percebido que o balcão era 3d. Sinal de que estava bem-feito.


5) Se pudesse, por um dia, ser um diretor (ou diretora) do cinema clássico (de qualquer país) e através deste dia, ver pelos olhos dele (a), uma obra prima sendo realizada, quem seria e qual o filme? E claro…porquê?

F.R.: Uma resposta possivelmente inusitada, para fugir um pouco do lugar-comum: Duro de Matar. Este foi um filme totalmente desacreditado e com inúmeros desafios para funcionar. Mas a forma que o filme inteiro foi pensado e a volta por cima que o diretor John McTiernan conseguiu dar torna este clássico uma experiência excelente de entretenimento e ação. Não é um filme que exalta o super-homem (na época de Stallone, Van Damme e Schwarzennegger), mas um cara magrinho, desbocado e debochado, porém se tornando mais “badassss” que todos os outros. E todas as fraquezas, improvisos e cenas de ação tem uma sinergia incrível. Acho que a visão do diretor foi essencial para acreditar neste filme e saber o que funcionaria. E ele acertou na mosca.


6) Agora voltando à sua área de atuação. Qual trabalho realizado você ficou profundamente orgulhoso? 
E em contrapartida, o que você  mais se arrependeu  de fazer, ou caso não tenha se arrependido, teria apenas feito diferente?

F.R.: Acho que posso definir duas cenas que me orgulho mais de ter feito. A cena do pier visto de cima em “Silêncio” e a saída da favela de Corellia em “Solo - Uma história Star Wars”. Foram cenas que eu tive tempo para me dedicar nos detalhes e me surpreenderam ao ver a cena no cinema. Já me arrepender, não posso dizer que tenha me arrependido de ter feito nada. Mas possivelmente eu teria tentado me organizar melhor para sofrer menos nas cenas que participei de Aquaman. Foi um projeto bastante conturbado mundialmente, e eu não estava mentalmente bem para enfrentar cenas tão complexas. Tudo saiu bem no final, mas acho que hoje eu teria me respeitado um pouco mais e dado um passo à trás antes de assumir tanta responsabilidade.


7) Para finalizar, deixe uma frase famosa do cinema que te represente.

F.R.: No final de “Contato” (Robert Zemeckis, mas a frase é do livro de Carl Sagan), o ser alienígena faz uma análise sobre a raça humana para Ellie:

“Vocês são uma espécie interessante. Uma mistura interessante. São capazes de realizar sonhos lindos, e ao mesmo tempo pesadelos horríveis. Vocês se sentem tão perdidos, tão segregados, tão sozinhos, mas não estão. Veja, em toda nossa procura, a única coisa que encontramos que faz este ‘vazio’ ser mais suportável, somos nós mesmos”.

Acho uma frase linda não apenas para o cinema, mas para a humanidade de forma geral. Principalmente nos dias de hoje. Vale pensar a respeito.

M.V.: Obrigado amigo. Foi um prazer.



Tecnologia do Blogger.