CESAR BRAVO - RESPONDE ÀS 7 PERGUNTAS CAPITAIS

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Através das 7 perguntas capitais eu conheci o mundo, literalmente. Consegui conversar com pessoas que eu jamais imaginaria que seria possível. Foi um projeto de 100 entrevistas, mas que terminou, depois de vários anos de muito trabalho e persistência. Foi cansativo, mas valeu a pena.

Por isto resolvi iniciar um novo projeto, desta vez com menos entrevistas (50 no total) e com um formato um pouco diferente, mas mantendo a ideia de serem 7 perguntas. Eu sempre fazia uma introdução do (a) entrevistado (a), mas desta vez será sendo diferente. Vão conhecê-lo (a) ou saber mais sobre ele (a) através da entrevista.

E hoje, com vocês o escritor e cinéfilo Cesar Bravo

Boa sessão:


1) É comum lembrarmos com carinho do início da nossa relação com o cinema. Os filmes ruins que nos marcaram, os cinemas frequentados (que hoje, provavelmente, estão fechados), as extintas locadoras de VHS que faziam parte do nosso cotidiano. Você é um apaixonado por cinema? Conte-nos um pouco de como é sua relação com a 7ª arte e quando se apaixonou pelo horror.

C.B.: Eu me lembro dessas coisas com um nó na garganta, especialmente das locadoras. Nunca fui um frequentador assíduo de cinemas, embora goste muito. O problema é que prefiro me concentrar para valer enquanto assisto a um longa, e conversas paralelas (quase invitáveis no cinema) sempre me distraem e irritam profundamente.

Não sei bem onde terminam os filmes e começa a escrita no meu caso. Minha imaginação e processo de criação são extremamente visuais, então ouso dizer que sem a prévia sedução da 7ª arte, eu talvez não tivesse me apaixonado tão cedo pela literatura de horror. Comecei no gênero na década de oitenta, e uma das memórias mais sólidas da minha infância é o meu pai chegando em casa com um punhado de fitas VHS. As mais “violentas” (Stallone Cobra, Predador, muito violento…) ficavam com ele, mas eu sempre arrumava um jeito de assistir escondido. Não me lembro, honestamente, de um dia não ter amado o horror, então essa paixão deve ter nascido comigo.


2) Muitos adoram fazer listas de filmes preferidos. Outros julgam que é uma lista fluida. Para não te fazer enumerar vários filmes, nos diga qual o filme mais importante da sua vida. E há uma razão para a produção que citar ser destacada?

C.B.: Já que falamos há pouco de memória afetiva, vou seguir por esse caminho.Eu devia ter por volta de nove, dez anos, e me lembro que o cinema da nossa cidadezinha estava exibindo “A Volta dos Mortos Vivos”. Lembro dos zumbis punks no cartaz colorido, do fala-fala da molecada, mas eu nunca cheguei a assistir aquele filme na telona (meus pais jamais permitiriam, eu era muito novo para “aqueles filmes horríveis” e bla-bla-blá). Como sempre acontece desde o Éden, a proibição gerou a busca pelo fruto proibido, e até hoje (pelo menos uma vez ao ano) eu revisito e me divirto com “A Volta dos Mortos Vivos”. Existe algo mágico ali, a mistura perfeita entre horror e humor, o punk, a “Night” dançando sem roupas entre os túmulos. O que mais posso dizer? Eu amo aquela coisa.

Se tivesse que botar mais dois na lista, iríamos de Evil Dead e Hellraiser. E existe um valor afetivo altíssimo para Cemitério maldito, de 1989 (só o de 1989).


3) Seu trabalho mais recente lançado pela Darkside Books propõe uma viagem no tempo aos saudosos Anos 80 e 90, pois ele é situado naqueles fantásticos anos.  O que te motivou a fazer esta obra e como foi a concepção da história.

C.B.: Eu nunca deixei aqueles anos. De alguma forma, minha narrativa, meus padrões conceituais, tudo o que produzo ainda se relaciona com a melhor década de todos os tempos. Quando a ideia inicial de VHS nasceu, pensávamos muito no que teria esse poder de consolidação sobre os meus textos, um lugar comum a todas as diferentes formas de horror que eu pretendia abordar. Acabamos voltando nossos olhos para os anos 1980, onde a inventividade e a variedade de temas eram extremas.

A concepção do projeto nasceu quase como uma composição musical, quando percebemos que muitos textos se relacionavam com canções da época (muitos as mencionavam diretamente). Depois disso foi voltar os olhos para Três Rios, minha região amaldiçoada, e descobrir seus segredos mais obscuros. O processo todo de pesquisa e imersão levou aproximadamente dois anos, muito mais que meu primeiro livro, Ultra Carnem, que nasceu em seis meses.


4) Algumas profissões rendem histórias interessantes, curiosas e às vezes engraçadas. Lembra de alguma história legal que tenha acontecido durante a execução de algum trabalho seu e que possa compartilhar conosco?

C.B.: Tenho um texto mais antigo que se chama “Um nome para sua história”. Na época em que o escrevi, trabalhava em uma empresa de prestação de serviços na construção civil. Fazíamos de tudo um pouco, (de instalação de portas à desentupimento de esgotos) e um belo dia surgiu um chamado desesperado, de um escritor da região. O cara era podre de rico, e estava tendo uma infestação de pombos em seu sótão. Bem, espantamos os pombos, desentupimos as calhas e vedamos o telhado — e saímos cobertos de merda e todo tipo de porcaria até o pescoço e além.

Quando voltei pra casa imaginei essa história onde o sujeito da empresa de reparos encontra um cartão prateado com um número de telefone e faz um pacto com um sujeito sinistro, em troca da mesma fama e sucesso daquele escritor bem-sucedido. Sempre que releio essa história começo a rir sozinho. Na época, nem nos meus sonhos mais otimistas eu seria publicado, e você sente isso a cada linha. Atualmente esse texto está em processo de revisão, mas logo deve ser disponibilizado novamente.


5) Se pudesse, por um dia, ser um escritor (ou escritora) clássico (a) de qualquer país e através deste dia, ver pelos olhos dele (a), uma obra prima sendo realizada, qual seria o profissional e o livro. E claro, porque?

C.B.: Não sou exatamente um escritor clássico, mas gosto muito do trabalho de H.P. Lovecraft. Apesar das ressalvas sobre seu racismo bizarramente errado e seu xenofobismo tóxico, eu gostaria muito de estar por perto quando Mr. Lovecraft recebeu o chamado de Cthulhu que acabou publicado na Weird Tales, em 1928.

Existe algo de tão novo e transcendental na criação desse mito, que ele persiste até hoje, vivo, porém morto, à espera de escritores modernos que se entreguem àquela mesma loucura sonhando.


6) Agora voltando à sua área de atuação. Qual trabalho realizado você ficou profundamente orgulhoso?
E em contrapartida, o que você mais se arrependeu de fazer, ou caso não tenha se arrependido, teria apenas feito diferente?

C.B.: Não tenho um trabalho específico que me deixe com essa sensação, mas eu me orgulho de onde consegui chegar com meu próprio esforço, sem subornos e falcatruas, sem enganar ou passar rasteiras em ninguém. No começo, só existia uma pessoa que acreditava que um dia eu poderia chegar onde estou hoje: eu mesmo. Em um segundo momento, recebi apoio de muita gente, principalmente de minha esposa, e de grandes amigos e parceiros, e por isso sou grato. Arrependimentos não tenho nenhum, porque se trata de uma energia destrutiva, que nos trava em vez de impulsionar. Talvez eu tivesse começado a levar a escrita à sério muito antes, mas também acredito que tudo tenha a hora certa para acontecer.


7) Para finalizar, deixe uma frase famosa do cinema que te represente.

C.B.: Creio que Marty McFly (De volta para o futuro) tenha me representado na escrita quando fritou uma Gibson EDS-345 e disse: “Vocês ainda não estão preparados para isso. Mas seus filhos vão adorar”.

M.V.: Realmente memorável. Obrigado amigo.




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