ALICE AUSTRÍACO - RESPONDE ÀS 7 PERGUNTAS CAPITAIS

aline-austriaco-entrevista

Através das 7 perguntas capitais eu conheci o mundo, literalmente. Consegui conversar com pessoas que eu jamais imaginaria que seria possível. Foi um projeto de 100 entrevistas, mas que terminou, depois de vários anos de muito trabalho e persistência. Foi cansativo mas valeu a pena. 

Por isto resolvi iniciar um novo projeto, desta vez com menos entrevistas (50 no total) e com um formato um pouco diferente, mas mantendo a ideia de serem 7 perguntas. Eu sempre fazia uma introdução do(a) entrevistado (a), mas desta vez será diferente. Vão conhecê-lo (a) ou saber mais sobre ele (a) através da entrevista. 

E hoje, com vocês, a diretora de Arte e Make fx  de Audiovisual e Cinema, Alice Austríaco.
Boa sessão:


1) É comum lembrarmos com carinho do início da nossa vida cinéfila. Como foi o nascimento da sua paixão pelo cinema? Lembra-se de fatos curiosos e maluquices que fez?

A.A.: Como toda criança, a influência dos pais foi o principal fator que me fez desenvolver a paixão pelo cinema. Ainda muito nova acompanhava meu pai na escolha dos filmes e muitas vezes serviam de companhia, ainda que não entendesse muito bem do que se tratava ou o que acontecia na tela. Minha mãe admiradora dos romances clássicos e meu pai um grande entusiasta do cinema Western me mostraram a importância e o valor dessa arte quando eu era muito nova, de forma natural e quase imperceptível. Ainda quando era criança desenvolvi o hábito de locar filmes durante os finais de semana, às vezes na companhia de algumas amigas, outras vezes sozinha, mas sempre chegava em casa com algumas fitas-cassete. Era comum locar filmes de terror, às vezes o mesmo filme mais de duas ou três vezes. 


Lembro-me bem que em uma dessas idas, o “moço da locadora” (como eu o chamava) me recomendou Evil Dead (1981), talvez com a intenção de me assustar, mas, se foi, não deu muito certo. Apaixonei-me e despertou em mim um interesse por filmes carregados de sangue e efeitos especiais, estimulou a minha curiosidade e um apego pelo gore. Claro que, ainda durante a infância, esse meu gosto pelos filmes do gênero fez com que eu tivesse alguns pesadelos, mas nada que me impedisse continuar aprofundando. Confesso que durante a fase escolar fui considerada “esquisita” e tive dificuldade de fazer amizade, mas hoje vejo o quanto isso foi importante pra construção da minha personalidade e assumo até que sou grata por ter passado por isso, mesmo que na época tenha sido terrível.  Conclui que ser a “esquisita” me livrou de uma vida muito  comum, até mesmo entediante, já que atualmente me divirto em meio ao sangue, exploro a criatividade e assisto filmes não só por hobbie, mas também como ferramenta profissional. É ou não é um prazer?

M.V.: Sem a menor dúvida.


2) Muitos adoram fazer listas de filmes preferidos. Outros julgam que é uma lista fluida. Para não te fazer enumerar vários filmes, nos diga  qual o filme mais importante da sua vida. E há uma razão para a produção que citar ser destacada?

A.A.: Já tentei fazer muitas listas, mas percebo que meu gosto muda de acordo com a fase que vivo. Entretanto, O Monstro Legume do Espaço (1995) do Petter Baiestorf, foi um grande marco para o meu desenvolvimento, que não só estimulou o meu interesse pelas produções do gênero, como também me mostrou as possibilidades de criar e explorar possibilidades até então inalcançáveis na minha concepção.

Sou grata ao Baiestorf não só pelos seus trabalhos, mas também por ser um grande incentivador e um querido que considero um amigo sensacional.


3) Seu trabalho com maquiagem e efeitos é primoroso. Como nasceu a profissional? E há alguma meta dentro da sua área que queira seguir?

A.A.: Primeiramente agradeço o elogio! Vivemos com a constante desvalorização da arte e é confortante ler algo tão positivo sobre meu trabalho. Já o nascimento da profissão surgiu de maneira fluida e natural. Poucas pessoas sabem, mas sou assistente social por formação, profissão essa que, apesar da minha admiração e reconhecimento, não foi o que me despertou interesse ao longo do exercício. Percebi cedo que a rotina de um escritório não me atendia, pelo contrário, me entediava. Enquanto esse processo de desencanto pela profissão acontecia, me divertia em casa tentando reproduzir maquiagens que via nos filmes e em programas de televisão relacionados ao cinema, como o Cinelab (que mais tarde fiz uma participação em um novo formato do programa, estilo reality show). Aos poucos as pessoas viam minhas peripécias com produtos caseiros e me convidavam para fazer maquiagens, pequenas produções e fotos. Foi assim, em um desses trabalhos despretensiosos, que vi que o cinema era onde eu deveria estar. O set me conquistou. 


A partir disso comecei a estudar desenfreadamente e me especializar, não só nas maquiagens, mas também na realização de efeitos especiais, direção de arte e tudo o que fosse possível para estar nas produções. Esse processo de aprendizado não terminou e acredito que nunca vai acabar, afinal, tenho pretensões dentro da área. Primariamente quero explorar o gore ao máximo, por isso, estou em processo de construção de uma produtora trash, a Alixo Produções, inclusive essa é uma novidade que estou contando pela primeira vez nessa entrevista! Tenho alguns sonhos dentro do cinema, produções que desafiam o bom senso estão por vir, bem como o uso de animatrônicos e maquiagens grandes, com muito sangue e ricas em detalhes.

4) Toda pessoa que curte cinema tem histórias marcantes para contar. Principalmente quem consegue mesclar a paixão, o hobby e ainda trabalhar com ele. Se lembra alguma história legal que possa compartilhar?

A.A.: Realmente essa é uma área que, por ter muitas possibilidades também tem muitas consequências. O  público muitas vezes não entende bem o que acontece durante o processo, o que resulta em histórias no mínimo curiosas. Certa vez, logo após uma gravação bem sangrenta, pedi um carro por aplicativo na tentativa de voltar pra casa, algo simples pra qualquer um, mas sempre que pedia um carro ele se aproximava, mas não parava. Suponho que por estar com a roupa completamente suja de sangue e segurando uma sacola com facas falsas. Pensando bem eu também não pararia.


Já aconteceu também de, durante uma produção em um parque público, senhoras ficarem horrorizadas com a maquiagem. O problema é que elas não só ficaram assustadas, como se sentiram no direito de xingar e esbravejar com todos da equipe, fomos taxados de pessoas ruins. A agressão verbal foi tamanha que interrompemos o projeto e fomos embora. Hoje dou risada, penso que a maquiagem estava tão legal que incomodou a esse ponto. Precisamos enxergar as coisas de forma positiva, não é mesmo?

M.V.: Verdade. É um reconhecimento da excelência do trabalho.

A.A.: Já com mais frequência as  pessoas comentam em minhas fotos nas redes sociais dando suas opiniões pessoais, dentre elas as mais divertidas: “é um absurdo alguém se ferir dessa maneira”, “vocês acham bonito alguém se mutilar assim?”. Divirto-me e tento ser direta, explico e recomendo que a pessoa conheça um pouco mais do meu trabalho, na maioria das vezes recebo um pedido de desculpa e o comentário é deletado. Ainda assim dou boas risadas.


5) Se pudesse, por um dia, ser um (a) profissional famoso (a) do cinema na sua área, e através deste dia, ver pelos olhos dele (a), um grande trabalho sendo realizado, qual seria esta pessoa e o filme?

A.A.: Existem muitos profissionais que gostaria de ver através de seus olhos, mesmo que por um instante, mas Tom Savini sem dúvidas seria o escolhido. O artista serviu ao Vietnã como fotógrafo de combate, viu muitos cadáveres mutilados e, segundo o próprio artista, imaginava estar em um filme e que tudo era efeito especial para que não surtasse. Sua assinatura na maquiagem é suja, algo que também uso nas minhas. Sem dúvida o filme escolhido seria Despertar dos mortos (1978), além de ter sido o primeiro filme de morto-vivo que me lembro de ter assistido. É recheado de vísceras, membros cortados e sangue. Seria incrível ter feito parte dessa produção.

M.V.: Tive a honra de entrevista-lo. Alguns dos trabalhos que ele fez estão entre os filmes que mais assisti na vida.


6) Relacionado à sua vida cinematográfica, há algo que realizou que ficou profundamente orgulhosa? E em contrapartida, o que você  mais se arrependeu  de fazer ou faria diferente?

A.A.: Confesso que tenho muito orgulho da maioria dos meus trabalhos, não pelo que faço, mas porque geralmente estou rodeada de uma equipe incrível, que trabalha unida e se ajudando. No fim das produções a sensação é de orgulho. Recentemente realizei alguns clipes com maquiagens de gore que me encheram de orgulho, achei a produção impecável e agradeço não só à banda (Paradise In Flames), como os rapazes que fizeram toda a produção e pós-produção (Bruno Paraguay e Davidson Mainart). 


Outro que guardo com muito amor, é o filme “Arruinados”, mas que ainda está passando pelo processo de finalização. Nesse tive a honra de fazer a maquiagem, direção de arte e produção (cinema independente não é fácil). Já sobre os arrependimentos não vou negar que existem, um problema ao trabalhar com o que se ama é que muitas vezes nos submetemos às condições terríveis e aprendi isso da pior maneira, foram muitos trabalhos que não tive retorno financeiro, fui contratada e não me pagaram, mesmo que meu gasto tenha sido muito maior que o valor combinado. Tudo serviu de aprendizado e por isso não faria diferente do que foi, mas hoje tenho mais cuidado e não pelo dinheiro, mas porque acredito na valorização da arte, não só como hobbie, mas como minha profissão. Nós, que trabalhamos com arte, precisamos exigir reconhecimento profissional.


7) Para finalizar, deixe uma frase famosa do cinema que te represente.

A.A.: “Aconteça o que acontecer, nunca pare de gravar.” [REC]

M.V.: Muito obrigado. Sucesso para você.

A.A.: Por fim, gostaria de agradecer o espaço e parabenizar pelo trabalho! Sucesso, sempre e que possamos nos fortalecer sempre.

M.V.: Eu quem agradeço. Foi um grande prazer.


Tecnologia do Blogger.