STALKER (1979) - FILM REVIEW


Nos meus tempos de VHS, um filme como Stalker era chamado de "Filme de Arte". Pensando bem hoje, não faz qualquer sentido, já que o próprio cinema é chamado de 7ª Arte, mas na época, denotava uma obra com público específico. Não eram filmes necessariamente clássicos, mas que fugiam do "esquemão" de entretenimento puro. Eram filmes que nos faziam pensar e que miravam em cinéfilos mais intelectuais ou com precoce senso crítico. 

Algo parecido aconteceu no Brasil, quando o termo pornochanchada substituiu gêneros como comédia, drama, aventura e terror. Muitos artistas nacionais inclusive odeiam o termo. Posso citar uma que entrevistei a Nicole Puzzi, que foi musa da época e entendia que pornochanchada diminuía o cinema nacional de alguma forma.


Na época, os filmes do realizador soviético  Andrei Tarkovsky se encaixavam, em sua totalidade, na sessão Filmes de Arte.  O diretor, nascido na aldeia de Zavrazhye, no Distrito de Ivanovo em Volga, nasceu em um meio artístico: seu pai era um poeta soviético cultuado e sua mãe, uma graduada em Literatura. Ou seja, toda sensibilidade e reflexões que Andrei imprimiu em suas obras foram enraizadas na sua própria infância. Ele inclusive colou muito de suas experiências familiares na obra "O Espelho", filme de 1974 que mostra um homem na casa dos 40 anos de idade está prestes a morrer e começa a relembrar o passado, os tempo de calmaria e a guerra. Os pensamentos e emoções de Alexei (Ignat Daniltsev), e também suas memórias. Ele relembra sua mãe que sofreu depois de ser abandonada com um filho pelo marido, os horrores da guerra e a sua infância. Momentos pessoais, mas que contam a história de toda a nação russa.

No início da década de 50 ele resolveu que seria cineastas. O cinema soviético passou por uma transformação na época. Durante um bom período, a arte privilegiou apenas diretores veteranos, mas com mudanças políticas, jovens realizadores ganharam oportunidade, não só de dirigir, mas de se globalizarem cinematograficamente falando. Andrei conheceu Kurosawa, Buñuel, Bergman, Bresson, Andrzej Wajda, Mizoguchi e Rossellini.


Sua carreira de apenas 10 filmes e um documentário começou com um curta, chamado Os assassinos, de 1956. O diretor faleceu precocemente aos 54 anos, vitimado de um câncer nos pulmões. Mas não antes de nos deixar obras primas como Andrei Rublev, Solaris, Nostalgia, O sacrifício, Infância de Ivan e ...

Stalker

A história, que se passa um país não nomeado, aonde a suposta queda de um meteorito criou uma área com propriedades estranhas, onde as leis da física e da geografia não se aplicam chamada de Zona. Dentro da Zona, segundo reza uma lenda local, existe um quarto onde todos os desejos são realizados. Com medo de uma invasão da população em busca do tal quarto, autoridades vigiam o local e proíbem a entrada de pessoas. Apenas alguns têm a habilidade de entrar e conseguir sobreviver lá dentro são os "Stalkers". Um escritor e um cientista querem entrar e contratam um stalker para guiá-los lá dentro. No caminho até o quarto, vão passar por rotas misteriosas e muitas vezes, mutáveis.


A zona do filme foi inspirada em um acidente nuclear que aconteceu perto da cidade russa de Chelyabinsk em 1957. Uma área enorme foi poluída por poeira radioativa e depois foi abandonada. Obviamente não houve menção na época a essa área esquecida. Não confunda com o desastre de Chernobyl, que foi um acidente nuclear catastrófico ocorrido entre 25 e 26 de abril de 1986, meses antes de Andrei falecer.  Aliás, vários integrantes da produção faleceram ao longo dos anos com câncer, possivelmente por conta das filmagens em um local tóxico. 

E quase não foi Tarkovsky...

Depois de ler o romance Roadside Picnic, Andrei o recomendou inicialmente a um amigo, o diretor de cinema Mikhail Kalatozov, pensando que Kalatozov poderia estar interessado em adaptá-lo. Kalatozov abandonou o projeto quando não conseguiu os direitos do romance. Tarkovsky ficou muito interessado em adaptar e expandir seus conceitos. Ele esperava que isso lhe permitisse fazer um filme em conformidade com a unidade aristotélica clássica ; uma única ação, em um único local, dentro de 24 horas. Tarkovsky viu a idéia da Zona como uma ferramenta dramática para atrair as personalidades dos três protagonistas, particularmente o dano psicológico de tudo o que acontece com as visões idealistas do Stalker, quando ele se vê incapaz de fazer os outros felizes.

"É disso que Stalker se trata: o herói passa por momentos de desespero quando sua fé é abalada; mas toda vez que ele volta a renovar seu senso de vocação, serve pessoas que perderam suas esperanças e ilusões"
Andrei Tarkovisky

Em uma entrevista, o designer de produção, Rashit Safiullin, lembrou que Tarkovsky passou um ano gravando uma versão das cenas ao ar livre de Stalker . No entanto, quando a equipe retornou a Moscou, eles descobriram que todo o filme havia sido desenvolvido de maneira inadequada e que suas imagens eram inutilizáveis.


O filme foi filmado com o novo material Kodak 5247, com o qual os laboratórios soviéticos não estavam muito familiarizados. Andrei demitiu primeiro diretor de fotografia, Georgy Rerberg, após diversos problemas. Depois de ver o material pouco desenvolvido, Tarkovsky demitiu Rerberg. Quando o defeito do material foi descoberto, Tarkovsky havia filmado todas as cenas ao ar livre e teve que abandoná-las. Safiullin sustenta que Tarkovsky estava tão desanimado que queria abandonar mais trabalhos no filme. Diversos negativos originais foram destruídos por um erro de processamento.

Após a perda do estoque de filmes, os conselhos soviéticos queriam encerrar o filme, mas Tarkovsky encontrou uma solução: ele pediu permissão para fazer um filme de duas partes, o que significa prazos adicionais e mais fundos. Tarkovsky acabou refazendo quase todo o filme com um novo diretor de fotografia, Alexander Knyazhinsky. A obra refeita acabou se distanciando romance original "Roadside Picnic", dos irmãos Strugatsky. Questionado sobre isso, o diretor Andrei Tarkovsky disse que "nenhuma mãe dá à luz o mesmo filho duas vezes".Segundo Safiullin, a versão final do Stalker é completamente diferente daquela que Tarkovsky originalmente filmou.


Já a parte central do filme, na qual os personagens viajam para dentro da Zona, o diretor Andrei Tarkovsky inicialmente queria filmar no ambiente em torno de uma antiga mina chinesa. No entanto, quando a mina foi destruída por um terremoto pouco antes das filmagens, a produção foi transferida para duas usinas hidrelétricas desertas no rio Jägala, perto de Tallinn, Estônia. 

Seria possível um Director's recut?

Infelizmente, a tal cópia perdida no laboratório foi mantida por anos na casa da "gigante" montadora  Lyudmila Feyginova. Um incêndio destruiu o filme (que era altamente inflamável), e também a matou. Feignova foi primordial em algumas obras primas de Andrei. Ela trabalhou com ele em A Infância de Ivan, Andrei Rublev, O espelho, Solaris e Stalker.  

Neste último, ela chegou a influenciar nas filmagens diretamente (fez isto também em "O espelho"). Por exemplo, há uma cena se passa no bar, e seu lugar pretendido no filme foi logo após o bate-papo dos três protagonistas, antes de partirem para a Zona. Feiginova, no entanto, sugeriu que seria mais interessante se a cena aparecesse no final, após o retorno de Stalker. Para Andrei, isso não pareceu apropriado a princípio, pois a cena havia sido filmada no bar, com interiores diferentes dos da casa de Stalker. Feiginova respondeu: “Ninguém notará que foi filmado em outro lugar, porque todos estarão concentrados na atriz”, e é verdade: ninguém percebe esse pequeno detalhe, a menos que seja informado antes. Ela disse que a atriz Alissa Freindlikh era tão cativante, que o público não prestaria a atenção em mais nada.


Mas o significa Stalker?

No livro, "Stalker" era um apelido comum para homens envolvidos em atividades ilegais de prospecção e contrabando de artefatos da "Zona". A definição comum em inglês do termo  também foi citada por Andrei no filme, já que é um guia profissional da Zona, alguém que tem a capacidade e o desejo de atravessar a fronteira para o lugar perigoso e proibido com um objetivo específico. 

Este termo tem sido aplicado desde o século 16, quando era usado para se referir a um ladrão ou caçador. Mas o termo passou a significar perseguidor pelos meios de comunicação a partir do século 20, para designar pessoas que costumam vigiar, assediar e invadir a privacidade dos outros obcecadamente.


Ahh...

Andrei ainda pontua o filme com easter eggs, para mostrar sua presença em cena. Na insígnia dos capacetes dos policias podemos ler duas letras: AT. Essas são as iniciais do nome do diretor. Da mesma forma, a esposa do Stalker fuma cigarros de um pacote que tem a mesma insígnia dos capacetes dos policias. A insígnia é AT. 

Pequenos detalhes que mostram que Tarkovsky está, não só dirigindo, mas colocando suas próprias vivências, convicções, experiências e expectativas em cena.

Importante:

CPC Umes filmes, em sua cruzada para abastecer o mercado com filmes soviéticos, lança mais uma obra prima do cinema, agora numa maravilhosa e restaurada copia em BLURAY. Veja detalhes da edição.

Stalker (1979, 161 min.)
Direção: Andrei Tarkovsky
Elenco Principal:  Aleksandr Kaidanovsky, Anatoly Solonitsyn, Nikolai Grinko, Alissa Freindlikh

U+21F0.gif Informações Técnicas:

Distribuidora: CPC UMES FILMES
Idioma: RUSSO
Legendas: PORTUGUÊS
Ano de Produção: 1979
País de Produção: RUSSIA
Classificação Indicativa: Livre Região: All
Sistema de Cores:  COLORIDO
Quantidade de Discos:  1
Formato da Tela:  16:9 Pillarbox
Sistema:  NTSC
Duração: 161 minutos
Origem:  NACIONAL
Formato:  DVD
Preço sugerido: R$ 54,90

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