O QUE É UM PLANO SEQUÊNCIA

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Plano-sequência não é um conceito que dure páginas para explicá-lo. Mas são imagens que ficam. Que marcam filmes,  cenas, de uma forma tão poderosa, que às vezes até um filme sem muito expressão pode ter um plano memorável. 

De uma forma bem resumida, plano-sequência é uma ...sequência, que independente da duração, é filmada sem cortes. Ainda que seja um conceito utilizado para dar certo ar de grandiosidade a uma cena, ele é "acidentalmente" usado desde os primórdios do cinema, já que os primeiros curtas do cinema eram sem cortes, e duravam de segundos a minutos. O filme Aurora, de 1927, tem uma cena que é considerada o primeiro grande plano sequência do cinema.


Muitas destas teorias de cinema tomam forma em algum momento, mesmo que o conceito já existisse. Ele começou a ser teorizado (e ensinado) à partir do maior e mais completo filme de todos os tempos: Cidadão Kane, de Orson Welles. De lá para cá, alguns dos grandes gênios do mundo cinematográfico deram sua contribuição para exemplificar um plano-sequência com alguma cena memorável, mesmo que por vezes, em obras esquecíveis. 

De uma forma geral, o plano-sequência traz uma ideia latente de realismo, como na sequência de o Regresso, em que o personagem de Leonardo Di Caprio está fugindo de cavalo e cai de um penhasco. Em casos como na fantástica série Sob Pressão, é um exemplo impressionante de como este plano traz angústia e tensão para o telespectador (todo episódio é feito com apenas poucos cortes).


A profundidade de campo, proporcionada pelo plano-sequência, é um dos elementos que nos dão imersão nas cenas, dando ideia de realismo. Estes planos, nos geral, são apresentados de 3 formas bem diferenciadas. Uma das mais comuns usadas por cineastas como Robert Altman ou Paul Thomas Anderson. Sua maior característica é o foco em diversos personagens. Eles vão percorrendo o cenário, e ao cruzar com outro personagem, a câmera passa a acompanhá-lo. 

O plano mais comum é o que acompanha um personagem e através dele, conhecemos vários elementos da cena. Comum em filmes de diretores como Brian de Palma e Martin Scorsese. E há o plano-sequência que não acompanha personagens, mas acontecimentos, ainda que neles, haja personagens, às vezes alguns dos principais.


Imersão...

O cinema é uma arte, mas para muitos, é uma forma de se transportar de maneira segura para um mundo imaginário, aonde podemos vivenciar os mais diversos períodos e nos colocar mais antagônicos personagens. Em um filme, você pode torcer pelo vilão, rir de uma morte, rever inúmeras vezes um navio afundar matando mais de 1500 pessoas. E é natural que, nestas duas horas de imersão, e com a tecnologia pulsando, os técnicos em efeitos, especialistas em fotografias, câmeras, tentem nos levar para dentro da tela e ter a noção máxima de realismo. 

Os estúdios sempre buscaram a sinergia entre a relação do espectador com o cinema na concepção de um filme. Nem sempre possível, mas basicamente, os grandes estúdios almejavam fazer obras que o público queria ver e atingir o sucesso esperado. O diálogo com o telespectador era sempre a meta, mesmo quando ele não existia afinal um filme mudo é perfeitamente compreensível para nós. Eles conseguiam traduzir por meio de imagens, o que era dito, mesmo sem os tradicionais intertítulos da época. Mas com o passar dos anos, inovações neste diálogo eram necessárias. A humanidade evoluía e com ele, a arte. Filmes mais complexos tomavam as telas, e com eles veio o som, cor, cinemascope e o 3D (para citar alguns) afim de proporcionar uma maior imersão do telespectador.



O 3D foi uma forma, a princípio revolucionária, mas que pouco emociona (além da beleza de pouquíssimos filmes como Avatar). O 3D prometeu e não cumpriu. E em nenhuma década, nem com as mais novas tecnologias. O plano-sequência é uma destas formas de imersão, bastante satisfatória inclusive, já que ela consegue captar nossa atenção e tirar nosso fôlego durante o seu tempo de duração. Afinal das contas: se há algo memorável no desnecessário Zumbilândia 2, é o genial plano-sequência.

O plano-sequência possui como principal característica a de apresentar a ação em sua completude, o que significa a anulação do corte na cena. Mas o cinema se modernizou de tal forma que uma obra como 1917, de Sam Mendes, foi feito com alguns cortes, mas nos dá a sensação de que não havia qualquer corte ali. O grande objetivo deste plano é tirar o espectador do estado de conforto em que fora colocado pelo cinema clássico. Tanto que os próprios planos-sequência evoluíram. 

Eu deixo uma pergunta e uma listinha com 15 filmes que contém um ou mais planos sequência:
- Como seria um filme do Michael Bay usando o recurso?
Resposta: Não seria. Ele consegue colocar 12 cortes numa simples cena de abertura de porta. 

Em 1948, Hitchcock tentou fazer um longa-metragem inteiro rodado num único plano-sequência, "Festim diabólico". Como os maiores rolos de película fabricados eram (e continuam sendo) de 1000 pés (aproximadamente 11 minutos), o filme acabou sendo rodado em 12 planos, com durações entre 4 e 10 minutos cada, e com cortes "invisíveis" entre eles, dando a impressão de um único plano.
Talvez seja o plano-sequência mais famoso da história do cinema. Introduz a história, os personagens, o ambiente e a fotografia desse que é um dos últimos respiros do gênero Noir. É um dos maiores filmes da história do cinema.
Sabe aquela cena que rendeu inúmeras matérias e estudos? Michelangelo Antonioni em 1975 nos proporcionou um nó cerebral. Através do magistral plano, o diretor nos mostra o espírito do personagem, que morre durante a cena, vagando pelo ambiente interno e externo e voltando para ver os acontecimentos no quarto. Obra prima. 
O plano-sequência de O iluminado só não é mais brilhante que o próprio filme. Kubrick já havia usado o recurso antes, mas a tensão criada pela atmosfera da cena é inesquecível. Uma obra prima que só não agradou Stephen King. Mas acho que não tem muito problema. Há outros 8 bilhões de potenciais fãs no mundo todo.
Talvez não haja algo que não seja memorável em Os Bons companheiros. Tudo é impecável numa das obras mais importantes do cinema. E não poderia faltar um plano-sequência. Na cena, Liotta introduz sua amada no submundo do crime. Parece sutil, mas significa muito para o andamento da história. 
Boogie Nights é uma obra prima. Daqueles filmes para se revisitar de tempos em tempos. E dois momentos memoráveis são envolvendo planos-sequência. No primeiro deles, aonde somos apresentados ao universo do filme e o outro, numa cena capital envolvendo William H. Macy e sua esposa.
A idéia de rodar Arca Russa nasceu 15 anos antes das filmagens, sendo que o período de preparação para as filmagens durou 7 meses. Foi rodado em plano-sequência único, que dura 97 minutos e atravessa 35 salas do museu Hermitage, de São Petersburgo. O diretor realizou o filme em apenas um dia, em 23 de dezembro de 2001.Para as filmagens de Arca Russa foram usados mais de 3 mil figurantes.
O  modo de filmagem de Bela Tarr favorece o formato, mas por serem filmes lentos, o espectador desavisado nem observa que está diante de um plano-sequência. Tarr consegue nos proporcionar imagens belíssimas. 
O plano-sequência de quase sete minutos que mostra o calvário de Patsey (Lupita Nyong’o) é uma tortura emocional para o telespectador. A câmera de McQueen não se constrange em mostrar uma das sequências mais revoltantes do cinema recente. 
O plano-sequência acontece quando a engenheira Ray (Bullock) e o astronauta Kowalski (Clooney) tentam fazer um reparo do lado de fora da estrutura, e tudo começa a desmoronar por conta de destroços em órbita da tela. Acompanhado da tensa trilha sonora de Steven Price, a cena é desesperadora, angustiante e ficou mais magnífica ainda sem cortes.
O filme foi gravado em um mês, o que parece impossível em pensar em uma produção deste porte, com tantos detalhes técnicos e o conceito de longos takes. O filme foi feito para parecer um plano-sequência, como se fosse um take direto, como se o espectador estivesse vendo uma peça. Os cortes são escondidos de um jeito inteligente para que o espectador comum não perceba.
Há mais de um plano-sequência em "O regresso", porém a cena da floresta, quando Di Caprio corre por sua vida, desesperado, com uma turma em seu encalço e ele (e seu cavalo) caem num penhasco, e sem cortes, ficamos sem entender o que nos atingiu. Depois entendemos o poder que um plano-sequência tem em nós, telespectadores.
A "Batalha dos Bastardos" é um dos pontos altos da série adaptada dos livros de George R. R. Martin. O plano-sequência apareceu em 2016 no nono episódio da 6ª temporada. De tão espetacular e de tirar o fôlego, quando terminou o episódio, revi a cena. Inesquecível. 
Dois cortes. 3 Planos-sequência. O décimo episódio da magistral série brasileira Sob Pressão é uma aula de tensão, perfeição e execução. A empreitada, além de exigir muito de equipe e elenco, é rara na televisão do mundo todo. Mas um episódio inteiro é um evento que nem Game Of Thrones ousou. O episódio é uma experiência, que vai muito além do entretenimento. 
Longa-metragem foi feito para aparentar ser um único plano sequência. Técnica já foi usada por Hitchcock e em “Birdman” Para isso, o diretor e as equipes de produção e pós-produção usaram técnicas para unir cenas gravadas em dias diferentes, de forma com que o público não sentisse nenhuma transição entre elas.



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