ESCOLHAS (2017) / ROSAS (2019) - SHORT FILM REVIEW

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É um desafio e tanto fazer uma crítica de um curta metragem. E por razões óbvias: a curta duração, fato que impede, por exemplo, um maior desenvolvimento da história e pouco espaço para atuações memoráveis. Por isto, um curta precisa ser objetivo e arrebatador. Dar o recado de forma que todos entendam num tempo que muitos fazem apenas uma propaganda. "Ser" num tempo que mal é permitido "existir".

Sem dúvidas, o mais importante ponto de partida é a Escolha de um tema em que isto é possível. Segundo, é a Escolha de atores e atrizes que possam, através do seu talento, passar o que é necessário para o público neste curto espaço de tempo. Terceiro: a Escolha do diretor, que vai captar tudo que é necessário para que a história flua com rapidez e de forma sucinta. Ou seja: Escolhas.


O cineasta Ivann Willig assim o fez. "Abuso" é um tema impactante. A dupla Carolina Kasting, Tuna Dwek são escolhas acertadas para os papéis centrais e se existe um cineasta que possui objetividade e sensibilidade para dar tratamento à história, seu nome é Ivann Willig.

Há verdades que jamais deveriam ser pronunciadas ...

Algumas opções (ou escolhas, como preferirem) do cineasta, proporcionam uma imersão mais profunda na história. Por exemplo: a obra ser filmada em preto e branco. O mundo em cores é maravilhoso, mas funciona também como distração. E tudo que não precisamos no filme é ficar distraídos com a beleza exterior. O preto e branco, ainda que belíssimo, reflete o estado de espírito dos personagens, que vivenciam vários lutos, não só na cena de abertura, mas ao longo da história e de suas vidas, fora dos minutos mostrados nas telas.


Os anos se passam, mas tudo parece estar nos mesmos lugares, demonstrando que há algo a ser revelado e não curado. Acontecimentos que impedem a vida dos personagens a passar daquele ponto. Durante quase 3 minutos, nem uma palavra é dita. O filme expõe as feridas bem como o comportamento da mulher nos anos em que se passa a história. A mãe, brilhantemente interpretada pela Tuna Dwek, é omissa. Sabia dos abusos sofridos pela filha, mas ainda sim, sustentava a relação com o abusador.

Dá-se início a uma jornada de conversas, acusações e discussões, que refletem o amor doentio da mãe pelo marido, a ponto de sentir ciúmes da própria filha, totalmente inocente na história. Aos poucos vamos percebendo como aquelas relações ficaram em cacos por vários motivos, e que, como vidro, ainda que coladas, jamais seriam as mesmas. Por outro lado, o curta nos mostra que a única forma de seguir em frente, é assumir as feriadas abertas para então curá-las.


Enfim, em uma família, nem tudo é um mar de Rosas.

De forma inversa, é o trajeto seguido pelo cineasta no seu próximo curta, Rosas. Agora, cores as são fundamentais. “Escolhas” começa com um drone se aproximando da fazendo, querendo mostrar algo que não sabemos, adentrando naquelas vidas de forma impositiva. Já Rosas, o drone se afasta desta vez, para contemplação.

A cena seguinte apresenta uma personagem cantando a belíssima música composta por Jacques Brel "Ne me quitte pas", imortalizada por Edith Piaf. O título significa "Não me deixes" e tem caráter reconciliatório. Desta forma, "Escolhas" nos sinaliza uma separação (necessária inclusive) e Rosas começa do mesmo ponto, porém buscando a união.  .


Interessante traçar paralelos entre os curtas, mesmo sendo tão diferentes. Em ambos os casos, dois personagens movem a trama. Em ambos, o pai de um personagem está morto e a mãe perdida (no caso de Escolhas, perdida emocionalmente). Se em "Escolhas" o amor se foi (e com uma trilha que pontua isto), no curta “Rosas” o amor está em cena, e somos convidados a contemplá-lo. Como esquecer as cenas que antecedem a imagem que está no pôster no filme? De uma sensibilidade e uma beleza única.

Se pensarmos que, de alguma forma, os curtas se completam, fica no ar a curiosidade para o próximo trabalho do diretor, que pode somar a estes dois, tornando-os um belo longa, dividido em 3 histórias, sobre a complexidade das relações humanas.

Aprendemos com os filmes que o amor é destruidor e trans formador. Aguardamos agora a próxima lição.



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