CIDADE ZERO (1988) - FILM REVIEW

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Imagine se você, ao chegar para uma entrevista de emprego, a secretária, completamente nua, te atender? Ou ainda, se você for num restaurante, pedir uma comida, e receber um bolo, com seu rosto ainda. E para piorar, recebe a informação de que caso não queira comer o bolo, o chef se matará?

O diretor soviético Karen Shakhnazarov (Filha americana, Anna Karenina) nos transporta para um universo quase surreal, onde o personagem flerta com Manny Balestrero, personagem de Henry Fonda em Homem errado, obra prima de Alfred Hitchcock. Com uma fotografia primorosa de Nikolay Nemolyaev, que lembra os filmes de Jean Pierre Melville em sua melhor fase, o filme se passa durante a perestroika,  quando tudo parece estar de cabeça para baixo na vida de  Aleksei Varakin, representante de uma indústria de Moscou. Ele é enviado a uma pequena cidade para tratar com um fornecedor de máquinas de ar condicionado. O que era uma viagem de negócios corriqueira se transforma em pesadelo, à medida que Varakin se envolve em situações bizarras. Para completar o absurdo, Varakin descobre que não é possível deixar a cidade.


O filme como espelho da sociedade

Durante o governo de Gorbachev, em 1985, foi introduzida a Perestroika, uma reestruturação política da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) que, juntamente com a Glasnost (transparência), tinha o objetivo de reorganizar setores da sociedade soviética. Foi um período de transição extremo, mas o tiro saiu pela culatra.

Era muito complicado reestruturar uma sociedade com convicções conservadoras, principalmente no núcleo do Partido Comunista. Este processo de vai e vem invariavelmente afetou todos os setores, inclusive a arte, que já lidava com sua própria crise, com cineastas importantes no exílio e os filmes feitos eram para o próprio povo. Grande parte da filmografia de Karen Shakhnazarov foi feita depois deste período. Seu trabalho em Cidade Zero é um reflexo da situação rocambolesca que a sociedade vivia.


A situação é mostrada com muito humor negro. O ator principal mescla características do gênio Buster Keaton. Ele nunca ri. Passa por situações quase inverossímeis de forma serena, sem demonstrar reações exacerbadas aos maiores absurdos. O personagem representa a população, e o que faz do filme um clássico atemporal é que sua narrativa traduz a realidade de muitos países ao longo da história. O nosso principalmente. Shakhnazarov consegue descrever um ambiente teoricamente fantástico e incrível, que na verdade era inteiramente baseado na difícil e enfadonha realidade soviética do final dos anos 80. A vida foi totalmente incorporada aos ritmos da burocracia dominante que estava além de qualquer lógica. 

Todas as atividades, mesmo as mais simples, tiveram que passar por um processo incomum burocrático. Era um cenário surreal. A população tinha que se adaptar às mudanças radicais e quando finalmente estavam começando, o Estado dava sinais de que não iria sobreviver a elas.


O próprio título do filme tem dupla interpretação. A cidade que simplesmente não existe (zero) ou onde tudo está estagnado (congelado). De qualquer forma, não deixa de ser um aceno para a esperança, já que o zero, frio ou inexistente, também é um ponto de partida para uma direção.

Os habitantes da cidade vivem com ilusões de um passado que nunca tiveram e esperam um futuro imaginário que provavelmente nunca virá. Desta forma, o personagem principal perde sua identidade, sempre questionado sobre o nome dos pais e referências as quais desconhece. Assim como ele, o povo perdeu sua identidade e referência. 

O filme flerta com o surreal (meio David Lynch meio Terry Gilliam), mas de forma genial, se estabelece com os pés no chão, mais perto da realidade possível. Como esquecer a memorável cena do museu com todas as esculturas mostradas sendo pessoas reais? Mais explícito impossível. Imagine o afresco pintado por Michelangelo no teto da Capela Sistina, "A criação de Adão": é o surreal tocando o real  É o absurdo tocando a verdade. Todo este cenário nos leva ao universo kafkiano.

Ao contrário de Mikhail Gorbachev, o filme não propõe um norte, mas usa o absurdo para uma autocrítica social e de quebra, mostra como Karen, Shakhnazarov é um dos mais criativos e versáteis diretores soviéticos. .


A CPC Umes filmes, em sua cruzada para abastecer o mercado com filmes soviéticos, lança mais uma obra prima do aclamado Karen Shakhnazarov. Vejam abaixo detalhes da edição.

Cidade Zero (Gorod zero, 1988, 101 min.)
Direção: Karen Shakhnazarov
Elenco Principal:  Leonid Filatov, Vladimir Menshov, Evgeny Evstigneev e Oleg Basilashvili

U+21F0.gif Informações Técnicas:

Distribuidora: CPC UMES FILMES
Título Original: GOROD ZERO
Idioma: RUSSO
Legendas: PORTUGUÊS
Ano de Produção: 1988
País de Produção: RUSSIA
Classificação Indicativa: Livre Região: All
Sistema de Cores:  COLORIDO
Quantidade de Discos:  1
Formato da Tela:  WIDESCREEN
Sistema:  NTSC
Duração: 101 minutos
Origem:  NACIONAL
Formato:  DVD
Preço sugerido: R$ 39,90


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