O ASSASSINATO DE SHARON TATE

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Há uns 25 anos, li sobre o assassinato da atriz Sharon Tate e na ocasião o texto falava que ela e o diretor Roman Polanski estavam envolvidos num ritual satânico em que ela acabou tendo a vida tragada em prol do rito. Quem escreveu o texto formou na minha cabeça a ideia errônea sobre este grande diretor de que ele era satanista e que participou da cerimônia da esposa grávida de 8 meses. Ou seja, criou um monstro na minha cabeça. 

Morria ali o trabalho jornalístico. Nascia talvez um Quentin Tarantino, sempre ávido a mudar a história em prol da arte. Só que a diferença capital entre o mais recente filme do diretor e o texto que li  é obvio: o primeiro é uma obra de ficção, sem o compromisso em mostrar a realidade. Já o jornalista é a pessoa responsável pela apuração, investigação e apresentação de notícias, reportagens, entrevistas ou distribuição de notícias ou outra informação de interesse coletivo.  
Não lembro qual foi o veículo, mas nem seria difícil descobrir, já que era uma época pré-internet. Mas não vem ao caso até porque o estrago foi feito. Mais tarde eu descobri que as fotos veiculadas de Sharon em um suposto ritual satânico nada mais era que cenas do filme que ela participou na época.

A intenção hoje é mostrar o passo a passo do crime feito pela "família Manson", as consequências e como estão hoje.

E não. Roman Polanski não era satanista e muito menos teve participação na morte de sua esposa. Ele "apenas" era um mulherengo que chifrava a esposa em toda oportunidade. Além do que, problemas sexuais moldaram sua rotina nos anos que viriam. Mas falarei sobre isto num post a parte. Primeiramente, vamos falar dela...
Sharon Tate

Sharon Marie Tate (o "Polanski" veio depois, evidentemente) foi uma atriz e modelo norte-americana e uma das mulheres mais belas do cinema na década de 1960. Nascida em 24 de janeiro de 1943 na cidade de Dallas, Texas, era a mais velha das três filhas do casal Paul James Tate (1922–2005), um oficial do exército dos Estados Unidos  e sua esposa Doris Gwendolyn (1924-1992). Com apenas seis meses de idade, Tate venceu o concurso "Miss Tiny Tot of Dallas", o primeiro de muitos títulos de beleza. Por conta da carreira do pai, ela se mudava constantemente, dificultando a criação de laços. Ela frequentou o ensino médio perto de Vicenza, na Itália. Em Roma, em 1961, ela conseguiu seu primeiro trabalho profissional, como um extra em Barrabás, dirigido por Richard Fleischer e estrelado por Anthony Quinn.

Toda a minha vida foi decidida pelo destino. Eu nunca planejei nada que aconteceu comigo.
No ano seguinte, ela se mudou para Hollywood, onde estudou com o lendário professor de atores Lee Strasberg. Sua vida amorosa era intensa. Tate conheceu o ator francês Philippe Forquet e começou um relacionamento com ele em 1963. Eles ficaram noivos, mas o relacionamento deles era inconstante e eles frequentemente brigavam. As pressões externas ligadas à carreira de Tate colocou um fim no noivado em 1964, mesmo ano que ela cruzaria com uma das vítimas da família Manson,  Jay Sebring, um ex-marinheiro que se estabeleceu como um cabeleireiro de destaque em Hollywood. O relacionamento dos dois não durou, mas a amizade sim e Sebring estaria junto com Tate em muitos momentos, inclusive na noite dos assassinatos, e como uma das vítimas.

Tate era muito tímida e isto lhe trouxe dificuldades para conquistar papéis.  Em 1964 ela fez testes para filmes como Noviça rebelde e Mesa do diabo. Seu primeiro bom papel veio em 1967, O olho do diabo pelas mãos de  J. Lee Thompson e ladeada de nomes como  David Niven e Deborah Kerr. Na trama, o marquês Philippe de Montfaucon (David Niven) é chamado de volta ao seu castelo Bellenac por causa de outra estação seca. Seus vinhedos, próximos à Bordeaux, não conseguiram produzir a safra esperada. Sua esposa, Catherine de Montfaucon (Deborah Kerr) descobre então que o marido planeja realizar um ritual pagão de auto sacrifício, e terá que correr contra o tempo para impedir. Irônico? Talvez...


Tate interpretou Odile, uma bruxa que exerce um poder misterioso sobre  o casal Niven/Kerr. Até então Kate era uma promessa, que na opinião de realizadores famosos, não tinha talento. Mas a partir deste filme, famosos passaram a enxergar ela com um futuro promissor. Não muito tempo depois, ela conheceu Roman Polanski. Ao contrário do todos imaginam "A dança dos vampiros" não foi planejado como veículo para Tate por Polanski. Eles não tiveram atração nenhuma neste primeiro momento. Polanski teve pouca paciência com a inexperiente Tate, e disse em uma entrevista que uma cena exigiu 70 takes antes que ele estivesse satisfeito.

Enquanto as filmagens progrediam, Polanski elogiou suas performances e sua confiança cresceu. E como tudo andava rápido na vida de Tate, eles começaram um relacionamento e ela mudou-se para o apartamento de Polanski em Londres depois que as filmagens terminaram. Veio O bebê de Rosemary (com mais um tema relacionado a satanismo) em 1968. Polanski agora queria que Tate estrelasse, mas gostaria que participasse do estúdio, pois achava que sua indicação seria inadequada. Não indicaram e Mia farrow entrou no barco.
No mesmo ano do lançamento do Bebê de Rosemary, Tate e Roman se casaram.  Um casamento complexo, com duas pessoas totalmente diferentes, mas tentando se aceitar.  No casamento havia um combinado entre os dois: seria um relacionamento aberto, mas só por parte dele, que teria seus casos e Tate fariam vista grossa. Ela engravidou perto do final de 1968, e em 15 de fevereiro de 1969, ela e Polanski mudaram-se para 10050 Cielo Drive em Benedict Canyon, casa que havia sido ocupada  pelos seus amigos Terry Melcher e Candice Bergen.

1969

Ela fez Arma secreta contra Matt Helm no que seria o seu último trabalho lançado com Tate ainda viva.  Ela realizou suas próprias façanhas em cena e tomou aulas de artes marciais com ninguém menos que Bruce Lee. Depois ela foi para a Itália filmar "Eram 13... mas faltava uma”, dirigido por Nicolas Gessner. Polanski foi para a Inglaterra, mas garantiu que voltaria para o nascimento do seu filho. Mas com a história nos conta, com 8 meses e meio, Sharon e seu filho seriam mortos.


Em 8 de agosto de 1969, estava sendo entretida em casa por três amigos: o cabeleireiro Jay Sebring, o amigo de longa data Polanski Voytek Frykowski e a namorada de Frykowski, Abigail Folger. Sebring convidou Steve McQueen para a festa na casa de Tate na noite dos assassinatos. De acordo com McQueen, ele convidou uma namorada para ir junto, mas ela sugeriu uma noite íntima em casa. Ou seja, por pouco, ficaríamos sem as memoráveis atuações do ator em Os Implacáveis, Papillon e Inferno na torre, feitos nos anos seguintes.

Por volta da meia-noite, três membros da Família Manson chegaram a 10050 Cielo Drive e saíram de um carro, enquanto um quarto, Linda Kasabian , permaneceu atrás do volante como vigia. Depois de subir em um poste perto do portão da entrada e cortar a linha telefônica da casa, "Tex" Watson atirou no entregador Steven Parent, de 18 anos, que teve a infelicidade de estar na frente de seu carro, antes de entrar na casa com Susan Atkins e Patricia Krenwinkel. Watson estivera perto da casa fazendo reconhecimento na casa em pelo menos outra ocasião.


Parent passou a trabalhar como entregador e vendedor naquele ano de 69 a fim de conseguir dinheiro para os estudos universitários. Em julho, ele encontrou-se e fez amizade com Wiliam Garrison, outro jovem, que trabalhava como caseiro na mansão de Polanski/Tate.  Parente foi convidado a ir na casa depois de uma carona dada a Garrison num outro momento.

Na noite de 8 de agosto de 1969, Parent dirigiu-se a mansão para levar um relógio despertador digital a Garrison, que pretendia vender ao caseiro. Chegando lá, Parent ficou cerca de meia hora na casa de serviço da mansão com Garrison conversando e bebendo e pouco depois da meia noite, despediu-se e deixou a casa. Ao chegar próximo ao portão da residência dos Polanski no carro de seu pai e parar para ativar o controle de abertura do portão, foi rendido por um homem com uma arma na mão.
Ao pedir que não fosse machucado pelo assaltante, Parent recebeu cinco tiros à queima-roupa, morrendo dentro do carro. Garrison, que sempre ouvia música em seu fone de ouvido, não teve ideia do que se passou até a manhã seguinte, ao ser despertado pela polícia.

Morte aos porcos

Watson foi o primeiro a entrar na casa. Ele encontrou Frykowski adormecido e começou a chutá-lo na cabeça. Quando Frykowski, assustado, perguntou quem ele era e o que estava fazendo lá, Watson supostamente respondeu: "Eu sou o diabo e estou aqui para cuidar de negócios do diabo". Atkins, na direção de Watson, supostamente encontrou os outros ocupantes da casa e Watson amarrou Tate e Sebring juntos pelo pescoço com uma corda para então pendurá-los nas vigas do teto.  Quando Sebring protestou contra o tratamento grosseiro dado à Tate por conta da gravidez, Watson atirou nele. Frykowski e Folger lutaram contra seus captores sem sucesso, eles foram repetidamente esfaqueados 51 e 28 vezes, respectivamente.
Tate implorou por sua vida e a vida de seu filho. Ela disse ao clã do Manson que queria viver o suficiente para ter seu bebê, e se ofereceu como refém em troca. Não se sabe se Atkins, Watson ou ambos mataram Tate, que foi esfaqueada 16 vezes. Linda Kasabian disse no julgamento pelos assassinatos, Tate gritou por sua mãe durante o ataque. Manson instruiu as mulheres a deixarem um sinal, como assinatura dos crimes. Atkins usou o sangue de Tate para escrever "morte aos porcos" na porta da frente.

Seus corpos foram descobertos na manhã seguinte pela governanta de Tate, Winifred Chapman. Ela ligou para as autoridades. A polícia chegou ao local para encontrar o corpo do Steven em seu carro na entrada da garagem. Dentro da casa, os corpos de Tate e Sebring foram encontrados na sala de estar. com a corda amarrada em volta de cada um dos pescoços os conectava. No gramado da frente, estavam os corpos de Frykowski e Folger.  Polanski foi informado dos assassinatos e retornou a Los Angeles, onde a polícia, incapaz de determinar um motivo, questionou-o sobre sua esposa e amigos.
A Família Manson atacou novamente no dia seguinte, agora a casa do comerciante Leno LaBianca, em Los Feliz, e sua esposa. Desta vez, "Morte aos porcos" e "Ascenção" foram escritos nas paredes, com "Helter Skelter" escrito na geladeira.

Manson e vários seguidores foram presos pouco depois por estarem de posse de veículos roubados, mas isso foi antes que as autoridades soubessem a extensão de seus crimes, e eles foram libertados. Meses se passaram antes que Charles Manson e seus asseclas fossem identificados como os principais suspeitos.

Na quarta-feira, 13 de agosto, Tate foi enterrada no cemitério Holy Cross, em Culver City, Califórnia, com seu filho Paul Richard Polanski em seus braços. O funeral de Sebring ocorreu mais tarde no mesmo dia. Os funerais foram marcados com várias horas de intervalo para permitir que amigos em comum participassem de ambos.
Judgment day

Todos foram condenados à morte em 1971. Elas, infelizmente, foram transformadas em prisões perpétuas. Charles Manson, então com 37 anos, foi acusado de seis assassinatos e levado à Justiça, juntamente com 'Tex' Watson, Susan Atkins, Patricia Krenwinkel e Leslie Van Houten, de 19 anos.

Manson alegou não ter participação em nenhum dos crimes e ele conseguiu provar isso facilmente, mas evidentemente, chegaram à conclusão de que Manson influenciou os jovens a matar. Após o julgamento, Manson declarou o seu ódio profundo pela Humanidade, chamando os membros sua "Família" de "rejeitados pela sociedade". Charles Manson morreu no dia 19 de novembro de 2017 aos 83 anos.

Charles Denton Watson  foi julgado à parte das outras acusadas pelos homicídios, sendo condenado à morte em 21 de outubro de 1971, escapando da execução quando a Suprema Corte da Califórnia aboliu a pena de morte no estado em 1972, passando a cumprir prisão perpétua. Ele tornou-se um cristão convertido (conveniente não?) na prisão e em 1979 casou-se com Kristen Svega, com quem teve quatro filhos, resultado das visitas conjugais a que tinha direito. Ainda está preso.

Susan Denise Atkins (conhecida como Sadie Mae Glutz na "família" ) foi quem apunhalou Tate, junto com outro dos assassinos, Charles "Tex" Watson. Não mostrou arrependimento. Susan Atkins morreu aos 61 anos, em 24 de setembro de 2009 vitimada por um câncer. Ela estava com 85% do corpo paralisado pela doença.


Leslie Van Houten cumpre pena de prisão perpétua.  Esperava-se que ela recebesse uma pena mais leve que os demais devido a sua menor participação. Entretanto, seu comportamento, assim como o de Manson, Atkins e Krenwinkel durante as audiências, em que agiu de forma inconveniente, debochada, sem cooperação e desrespeitosa principalmente durante as discussões dos fatos ocorridos durante os momentos dos assassinatos de Sharon Tate, gerou grande antipatia por parte do júri. Van Houten pediu e conseguiu um segundo julgamento em 1977, sob o argumento de que não havia sido defendida a contento em 1971 já que, na época, durante as audiências, seu advogado, Ronald Hughes, desapareceu e foi encontrado morto meses depois, numa morte nunca elucidada. Um julgamento posterior terminou num júri empatado, sem conclusão.

Patricia Dianne Krenwinkel cumpre pena de prisão perpétua. Hoje é considerada prisioneira modelo no sistema correcional, formou-se em Serviços Humanos pela Universidade de La Verne e participa de atividades de ajuda humanitária dentro da prisão como os Narcóticos Anônimos e os Alcoólicos Anônimos. Dá até pena, porque por um momento, esquecemos que ela é uma psicopata homicida esperando um gatilho para atuar novamente.


Durante seu julgamento, depondo sobre o ocorrido, apenas disse:
Eu a esfaqueei e continuei esfaqueando sem parar. 

Perguntada pela promotoria o que sentiu na hora, respondeu:
Nada, aquilo estava apenas acontecendo e estava tudo certo. 

Linda Kasabian foi a única integrante da Família Manson no caso Tate-LaBianca que não foi julgada. Ela participou apenas do ataque à casa de Sharon Tate ficando de vigia do lado exterior sem participar dos assassinatos diretamente. Seu depoimento no julgamento contra os companheiros em troca de imunidade e seu testemunho foi o principal responsável pela condenação de todos.
Apesar das ameaças constantes que sofreu durante os dezoito dias em que prestou testemunho, de Manson no tribunal, passando o dedo na própria garganta olhando para ela, e de outros integrantes da comunidade de Manson à solta, Kasabian foi a única entre os participantes dos assassinatos a se comover com os relatos e a sentir remorso e simpatia pelas vítimas, mantendo seus relatos e chegando a se confrontar com Susan Atkins no tribunal, quando esta gritou que ela os estava matando, respondendo:

Vocês mataram a vocês próprios.

Teoria conspiratória: Mark Chapman era seguidor de Charlie Manson

A maior parte das teorias conspiratórias não passa disto. Mas são interessantes para fazer uma viagem no assunto. Por exemplo: Chapman nunca negou ter cometido o assassinato de John Lennon. Porém alegou tê-lo feito por "ouvir vozes" que lhe deram tal ordem. Chapman matou John Lennon na noite de 8 de dezembro de 1980 em frente ao Edifício Dakota, onde foi filmada a obra prima de Polanski: Bebê de Rosemary, que como sabem, trata de satanismo.

"Helter Skelter" é uma música dos Beatles, que virou lema de Charlie Manson e acabou se tornando uma fonte de inspiração de alguns dos crimes mais chocantes dos Estados Unidos no século passado. A letra foi escrita por quem? John Lennon. O termo em inglês significa "confusão fora de controle". A família Manson assassinou Tate e alguns amigos na casa de Polanski. Não é difícil pensar que Chapman ouviu vozes ligadas à seita de Manson.  

E aliás...quem descobriu os corpos no dia seguinte? A governanta. Nome? Winifred Chapman.
Bizarro

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