O ENFORCAMENTO (1968) - FILM REVIEW

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A criatura

O dilema moral move o filme "O enforcamento".  Na trama, um Coreano é sentenciado à morte por enforcamento, mas sobrevive à execução. Nas duas horas seguintes, os executores tentam descobrir uma forma de lidar com a situação.

A forma de lidar com a polêmica temática da pena de morte é genial. O diretor traça um paralelo entre o ato e o costume, mostrando que há, definitivamente, um dilema moral envolvendo a sentença, já que, ainda que o crime cometido pelo personagem principal tenha sido bárbaro, a forma de tratá-lo varia conforme a cultura.

O filme já começa de forma provocativa, jogando na cara da população (e do telespectador) que mais de 70% dos japoneses são contra a abolição da pena de morte. A informação jogada na tela fará você pensar sobre suas convicções nos minutos seguintes, já que o criminoso é enforcado, mas sobrevive. Ao perder a consciência e a memória, seus executores julgam improcedente continuar a execução, já que ele não tem como reconhecer e se arrepender do crime cometido. 


Nagisa começa o filme de forma quase documental, mostrando estatísticas e o passo a passo do enforcamento, trazendo assim certa frieza na narrativa a fim de chocar o telespectador que defende a pena de morte. 

O personagem "R" é baseado na história de Ri Chin'u, um coreano que em 1958 assassinou duas meninas  da escola japonesa Komatsugawa. Ele confessou os crimes, mas, além disso, escreveu em detalhes cada feito.  O livro foi produzido, basicamente, através da correspondência com Bok Junan , um jornalista coreano.

 O enforcamento é uma obra que poderia ter sido facilmente dirigida por um Billy Wilder, já que ambos os diretores tratam temas espinhosos de forma genial e sarcástica. O humor permeia o filme, mas como comédia, mas como forma de expor o ridículo de tudo aquilo que está sendo levado em consideração. Os guardas tentam, a todo tempo, criar uma forma de conscientizar o assassino de seu crime. Ao mesmo tempo, ele vai tendo ciência do crime hediondo e se compadece das vítimas. Em certo ponto, ele diz: "se sou culpado, mereço morrer". 


Os guardas tentam realmente de tudo. Até simular os estupros... entre eles mesmos, para tentar puxar a memória do criminoso. Este desespero todo é por conta do fato de que o Estado que se eximir da culpa de executar alguém que não tem consciência de sua própria culpa. Seria como se eles enforcassem um inocente, ainda que não restasse qualquer dúvida sobre sua culpa. 

Aos poucos, a teatralidade toma conta das atitudes dos guardas, e invariavelmente, "R" passa a fazer parte dela, tentando compreender a natureza dos seus atos. A recusa de seu corpo em morrer torna-se um ato de resistência contra o Estado, que é tão (ou mais) pecador que o assassino. Ao tentar criar a consciência de culpa no personagem, Oshima mostra como somos manipuláveis perante os governantes, mesmo que em algum ponto de nossa linha temporal, tenhamos cometido algum pecado consciente ou não.


O criador

Nagisa Oshima nasceu em Kyoto, em 31 de Março de 1932, de família descendente de samurais originários de Tsushima. Passou a primeira parte da infância em Okayama, no Mar Interior do Japão. Com a morte do pai, em 1939, instalou-se com a mãe e a irmã na casa dos avós maternos em Kyoto. Seu interesse literário e teórico, que mais tarde iria caracterizá-lo como cineasta ''intelectual'', começou em casa, onde se dedicou à leitura da vasta biblioteca herdada do pai. No ginásio, participou de grupos de teatro amador e atividades literárias.

Em 1950, ingressou na tradicional Faculdade de Direito da Universidade de Kyoto, onde continuou atuando em grupos de teatro como ator e diretor, além de integrar o Zengakuren, centro acadêmico estudantil, na época sob influência do Partido Comunista. Em 1954, logo após formar-se, ingressou na Shoshiku como assistente de direção, trabalhando com Hideo Ohba, Yoshitaro Nomura, Masaki Kobayashi. Enquanto aguardava a oportunidade de tornar-se diretor, fundou com outros companheiros a revista 'Sete Pessoas' (Shinchinin) e a seguir 'Roteiros' (Shinariosu), na qual jovens assistentes de direção publicavam seus roteiros de filmes.


Exercitava-se também na crítica, publicando artigos na revista 'Crítica de Cinema' (Eiga hihyo). Em 1959, dirigiu seu primeiro filme de ficção, ''Cidade do amor e da esperança''. Os três filmes seguintes, Juventude desenfreada, ''Túmulo do Sol'' e ''Noite e névoa do Japão'', de forte conteúdo político, desagradou a direção da Shoshiku, e Oshima, depois de um rompimento ruidoso com a empresa, fundou com outros colegas a produtora independente Sozosha. Na mesma época, casou-se com a atriz Akiko Koyama, intérprete em muitos de seus filmes. Apesar das dificuldades econômicas, manteve uma produção contínua de obras originais e de conteúdo polêmico, seja pelos ataques à sociedade japonesa, como ''O Enforcamento'' ou ''Cerimônias'', seja pelas ousadias no campo erótico, como 'Império dos sentidos e ''Canções Lascivas do Japão''.

Juventude Desenfreada veio em 1960, e à partir desse filme sua obra passa a ser comparada com obras estrangeiras. Foi estabelecido um paralelo entre a nouvelle vague francesa e os filmes dos novos diretores japoneses que haviam acabado de surgir. Relação coerente já que realmente ambos os cinemas apresentam características parecidas, sendo eles autorais (são deixados de lado os velhos formatos e gêneros, impostos pelas grandes produtoras), subvertendo os cânones formais e campo temático. Especificando mais tecnicamente, são características comuns: montagem descontínua (cortes bruscos, elipses narrativas), pouca profundidade no perfil psicológico dos personagens, diálogos rápidos e ações dinâmicas.


Oshima absorve a ideia de cinema de autor, mas com uma concepção própria. Ele desenvolve um método chamado "negação de si", que consiste em: se o segundo filme for feito com método igual ao utilizado no primeiro, então estes não serão mais subjetivos - ativos, ele estará apenas repetindo métodos já inventados. Portanto, estes agora não são mais naturais e sim, rígidos e impessoais e com isso, passa a não haver mais diálogo entre o autor e o espectador. Para Oshima, todo autor deve manter um contato com a realidade de modo a influir nela e deixar-se influenciar por ela. Seguindo essa linha de raciocínio ainda completa que quando há num roteiro, forte confronto com a realidade são descobertas novas imagens.

Em 15 de janeiro de 2013, morreu em um hospital de Kanagawa, ao sul de Tóquio, por causa de uma pneumonia.


Obras-Primas do Cinema lançou NAGISA OSHIMA. Coleção que reúne 3 filmes polêmicos de um dos maiores nomes do cinema japonês: “Nagisa Oshima” (O Império dos Sentidos). Edição com quase 90 minutos de extras! Em digipak com 2 DVD’s e 3 card’s.

Disco 01:

Juventude Desenfreada (Seishun zankoku monogatari, Cruel Story of Youth, 2.39:1, 1960, 96 min.)
Elenco Principal: Miyuki Kuwano, Yûsuke Kawazu, Yoshiko Kuga.

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A geração de Makoto e Kiyoshi segue seus desejos. Ela está no colegial quando um estudante universitário, Kiyoshi, a resgata de um homem mais velho que queria estuprá-la. Uma estranha relação se estabelece entre eles, que mais tarde passam a se sustentar com pequenos golpes, extorquindo dinheiro de homens mais velhos que se interessam sexualmente por Makoto.

O Enforcamento (Kôshikei, Death by Hanging, 1968, 1.85:1, 118 min.)
Elenco Principal: Kei Satô, Do-yun Yu, Fumio Watanabe.

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Um coreano é sentenciado à morte por enforcamento, sobrevive à execução, mas perde a memória. Nas duas horas seguintes, os executores tentam descobrir uma forma de lidar com a situação.


Disco 02:

Tabu (Gohatto, Taboo, 1999, 1.85:1, 96 min.)
Elenco Principal: Takeshi Kitano, Ryûhei Matsuda, Shinji Takeda.

U+21F0.gif Sinopse:

Sozaburo, um jovem de dezoito anos, torna-se um dos membros de uma tropa de samurais especialmente selecionados pelo Shogun, conhecidos como Shinsengumi. Os guerreiros, extremamente hábeis no uso de espadas, são treinados para matar quem se opuser ao regime do Shogun. Sozaburo, se envolve numa relação homossexual com alguns dos guerreiros do grupo. Ele se considera culpado pelo crime envolvendo dois guerreiros que se apaixonaram por ele.



U+21F0.gif Extras:

Especial sobre o filme "Juventude Desenfreada" (55 minutos).
Especial sobre o filme "O Enforcamento" (30 minutos).

U+21F0.gif Informações Técnicas:

Título: Nagisa Oshima
País de Produção: Japão
Ano de Produção: 1960 - 1999
Gênero: Drama
Direção: Nagisa Oshima
Elenco: Takeshi Kitano, Ryûhei Matsuda, Miyuki Kuwano, Kei Satô, Yûsuke Kawazu, Shinji Takeda, Yoshiko Kuga, Do-yun Yu, Fumio Watanabe.
Áudio: Dolby Digital 2.0
Idioma: Japonês
Legenda: Português - Inglês.
Duração Aproximada: 310 minutos
Região: Aberto para todas as zonas (Livre)
Formato de Tela: 1.85:1 - 2.39:1
Cor: Colorido e Preto e Branco
Faixa Etária: 16 Anos - Contém: Violência e Conflitos psicológicos.


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