DEMÔNIO DA NOITE (1948) - FILM REVIEW

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Demônio da noite é mais um exemplar da excelente safra do cinema noir, que reinava naqueles anos. O filme segue  Roy Morgan , um criminoso que ao matar um policial é implacavelmente perseguido pela polícia, que usa métodos diferenciados de reconhecimento por testemunhas, afim de capturá-lo mais rapidamente possível.

Além do desempenho arrepiante de Richard Basehart como um ladrão meticuloso de equipamentos eletrônicos que se torna um assassino de policial procurado, o filme brilha com a cinematografia estilizada em preto e branco de John Alton, cujo uso da luz foi comparado à iluminação das pinturas de Rembrandt. Há cenas em particular que chamam atenção, como aquela que ele anda na calçada, com o policial o observando. A cena, de tão bela, ficou no título e na história: he walked by night ou ele andou à noite.


A produção tem muitos dos elementos familiares ao cinema noir. Curiosamente foi o primeiro filme com o cenário nos canais de Los Angeles.  Embora Alfred L. Werker seja creditado como o diretor, reconhecem Anthony Mann como a verdadeira força criativa por trás da obra. Por razões não documentadas, Mann assumiu a direção de Werker em um estágio bastante inicial e você pode ver sua marca distintiva em cenas como aquela em que Morgan extrai uma bala de si mesmo ou o tiroteio noturno na companhia elétrica entre Morgan e Sargento Brennan. (Scott Brady).  A influência de Mann também é confirmada pela presença do roteirista John C. Higgins e do diretor de fotografia John Alton, ambos os quais colaboraram com Mann em projetos anteriores.


Dragnet

O filme também impressionou Jack Webb, que faz uma ponta. Assessor técnico do filme, o sargento Marty Wynn deu alguns conselhos, sugerindo que ele fizesse uma série baseada nos arquivos reais da polícia de Los Angeles. Assim nasceu a idéia de "Dragnet", que estreou na rádio da NBC cerca de quatro meses após o lançamento do filme. O sucesso fez com que, alguns anos mais tarde, Dragnet chegasse a tv. Estreava em dezembro de 1951 o megassucesso televisivo, que durou 8 anos, com 276 episódios, terminando em 1959. Mas Jack Webb não parou e durante 4 temporadas (67 a 70), Jack Webb estrelou novamente uma nova remessa de episódios. Dragnet também teve uma versão para os cinemas em 1987, com Tom Hanks e Dan Aykroyd. Em 2003 ela voltou para a tv, em duas temporadas com o ator Ed O'Neill de Um amor de família.


História real

Hoje acompanhamos noticiários e mal nos escandalizamos com triplos assassinatos por motivos banais. Afirmo mais ainda. Se não for noticiado exaustivamente, talvez caiam no esquecimento na mesma semana. Mas na década de 40 não era assim. 

Erwin M. Walker matou em 5 de junho de 1946 um policial chamado  Loren Cornwell Roosevelt, que era oficial da patrulha rodoviária estadual, para evitar que fosse preso. A polícia então se desdobrou numa caçada humana que foi findada somente em 20 de dezembro de 1946 com a captura de Erwin.

Detalhe, Erwin sabia com quem estava lidando, já que era um ex policial além de veterano da segunda guerra. Evidentemente, ele não cometeu apenas este crime. Walker era um cara violento e praticou diversos roubos e trocou tiros com a policia várias vezes. Fatos que ocorriam entre 1945 e 1946, um ano antes do crime cometido por ele que chocou a todos.


Justificativas

Também numa época que não era dada a devida atenção aos traumas psicológicos do pós guerra, Erwin sofreu uma pane psicológica (ou até mesmo psiquiátrica) quando, durante a guerra, seu grupo sofreu um ataque surpresa japonês. Morreram vários, mas ele sobreviveu, e este foi seu fardo, já que se culpava por não se preparar adequadamente para um ataque surpresa. Além disto, conflitos internos aconteceram, agravando a relação entre eles. Uma investigação posterior foi feita, mas concluíram que Erwin não era culpado.

Erwin surtou. No início de 1945, ainda na ativa como primeiro tenente do Exército, Walker arrombou uma oficina de conserto de automóveis, levando um conjunto de ferramentas, voltímetro e sintonizador de rádio. Em agosto de 1945 entrou em um depósito do Exército durante a noite, roubando sete metralhadoras Thompson calibre .45, doze pistolas automáticas de calibre .45, seis revólveres calibre .38, munição e coldres.


Segundo seus pais, o temperamento de Walker mudou drasticamente depois de sua volta. Ele voltou mais ameaçador, temperamental e ao mesmo tempo moroso, melancólico. Walker recebeu baixa do Exército em novembro de 1945. Durante sua primeira semana  Walker roubou um automóvel, trocou as placas e usou-o para transferir alguns dos bens roubados. De uma loja masculina, ele roubou roupas civis. De gravadoras e produtoras de filmes ele roubou amplificadores, equipamentos eletrônicos, discos, projetores de filmes, toca-discos, câmeras e outros equipamentos. Walker então alugou uma garagem, montando-a como uma oficina experimental.

Usando a garagem como base de operações, Walker continuou a executar arrombamentos para pagar despesas de manutenção e adquirir equipamentos eletrônicos. A onda criminosa de Walker acabou totalizando mais de uma dezena de assaltos à mão armada, arrombamentos com um lucro estimado em 70 mil dólares. Walker foi preso em casa depois de uma dica, 6 meses depois do crime.


Após a prisão de Walker, sua família revelou  uma longa história de insanidade em ambos os ramos da família. Um trisavô enlouqueceu por nove meses. Um tataravô, tataravó e tia-avó também passaram algum tempo em asilos de loucos. Um bisavô cometeu suicídio, assim como uma tia-avó. Uma avó estava confinada no Hospital Psiquiátrico do Estado de Patton, enquanto uma tia-avó tinha alucinações. Finalmente, um dos primos de Walker era mentalmente retardado, enquanto o pai da prima era um psico-neurótico.

Walker mais tarde se declarou inocente por motivo de insanidade. Em seu julgamento em 2 de junho de 1947, seu  advogado citou o excelente histórico de Walker, suas experiências de guerra e uma história familiar de doença mental. Os pais de Walker, Weston e Irene L. Walker, testemunharam em sua defesa. Walker afirmou que Erwin era gentil e carinhoso, mas retornou da guerra como um solitário deprimido (o que convenhamos, é bem justificável).


Walker foi condenado à morte na câmara de gás. Depois que uma moção para um novo julgamento e um apelo para derrubar a condenação e a sentença de morte de Walker foram rejeitadas em dezembro de 1948, o pai de Walker, Weston, cometeu suicídio enforcando-se com um pedaço de corda. 

Walker foi enviado ao corredor da morte em San Quentin para aguardar a execução de sua sentença. Enquanto em San Quentin, ele foi diagnosticado por um psiquiatra da prisão como tendo esquizofrenia paranoica. Em 14 de abril de 1949, trinta e seis horas antes de sua execução programada, um oficial de correções encontrou Walker inconsciente depois de uma aparente tentativa de suicídio em que Walker tentou se enforcar com um cabo de fone de ouvido enrolado no pescoço. Ele foi revivido com sucesso, e a execução foi adiada indefinidamente enquanto um exame psiquiátrico foi realizado.

Os anos se passaram, e sua pena de morte virou perpétua. Walker conseguiu liberdade condicional em 1974. Walker mudou de nome, arrumou um emprego e fico sob o radar, até sua morte em 1982.


A Versátil lançou FILME NOIR vol. 13, caixa em luva reforçada com 3 DVDs que reúne 6 clássicos do gênero, incluindo três filmes dirigidos pelo mestre Edgar G. Ulmer, com destaque para a inédita versão restaurada do magnífico “A Curva do Destino” (“Detour”, um dos maiores filmes noir, e o raro “O Morto Desaparecido” (“Murder Is My Beat”, 1955) nas quase três horas de extras. Edição Limitada com 6 cards.
  
Disco 1:

Curva do destino (Detour, 1945, 69 min.)
De Edgar G. Ulmer. Com Tom Neal, Ann Savage, Claude Drake.

⇨ SinopseUm pianista viaja de carona para ir à Hollywood, onde encontrará sua namorada, só que as coisas não saem como planejado... Obra máxima do visionário cineasta Edgar G. Ulmer e um dos filmes mais icônicos do ciclo noir.
  
Por uma mulher má (The Man Who Cheated Himself, 1950, 82 min.)
De Felix E. Feist. Com Lee J. Cobb, Jane Wyatt, John Dall.  

⇨ SinopseApós testemunhar sua namorada matar o marido rico, policial veterano vê o irmão inexperiente assumir a investigação. Pérola noir na tradição da obra de James M. Cain com grande atuação de Lee J. Cobb (“12 Homens e uma Sentença”).

  
Disco 2:

O demônio da noite (He Walked By Night, 1948, 78 min.)
De Anthony Mann, Alfred L. Werker. Com Richard Basehart, Scott Brady.

⇨ SinopseAcima 
  
O insaciável (Ruthless, 1948, 105 min.)
De Edgar G. Ulmer. Com Zachary Scott, Louis Hayward, Dianna Lynn.

⇨ SinopseHorace Vendig gosta de se exibir como um magnata filantropo, mas a sua trajetória até alcançar o poder não foi nada louvável. Considerado o “Cidadão Kane” de Ulmer, este é um drama noir fascinante e ambicioso. 


Disco 3:

Brumas (Moontide, 1942, 95 min.)
De Archie Mayo, Fritz Lang. Com Jean Gabin, Ida Lupino, Thomas Mitchell.

⇨ SinopseApós uma noite de farra, o marujo Bobo teme ter matado alguém. Parcialmente dirigido pelo mestre Fritz Lang, esse estranho filme noir marca a estreia de Jean Gabin, o astro do realismo poético francês, em Hollywood.

A máscara de dimitrios (The Mask of Dimitrios, 1944, 95 min.)
De Jean Negulesco. Com Peter Lorre, Sydney Greenstreet, Zachary Scott.

⇨ SinopseO escritor de romance policial Leyden viaja a Istambul, onde decide investigar o passado do criminoso Dimitrios, que foi encontrado morto. Delicioso filme noir com a dupla Peter Lorre e Sydney Greenstreet, de "Relíquia Macabra".


Informações técnicas da edição:

Títulos em português:  Curva do Destino, Por uma Mulher Má, O Demônio da Noite, O Insaciável, Brumas, A Máscara de Dimitrios
Títulos originais: Detour, The Man Who Cheated Himself, He Walked By Night, Ruthless, Moontide, The Mask of Dimitrios
País de produção: Estados Unidos
Ano de produção: 1942-1950
Gênero: Policial
Direção: Edgar G. Ulmer, Felix E. Feist, Anthony Mann, Archie Mayo, Fritz Lang, Jean Negulesco
Elenco: Tom Neal, Ann Savage, Claude Drake, Lee J. Cobb, Jane Wyatt, John Dall, Richard Basehart, Scott Brady, Zachary Scott, Louis Hayward, Dianna Lynn, Jean Gabin, Ida Lupino, Thomas Mitchell, Sydney Greenstreet, Peter Lorre
Idioma: Inglês
Áudio: Dolby Digital 2.0
Legenda: Português
Formato de tela: Fullscreen 1.33:1
Tempo de duração: 524 min.
Região: 4
Preto e Branco
Faixa etária: 14 anos
Extras: Filme “O Morto Desaparecido” (Murder Is My Beat, 1955), de Edgar G. Ulmer (77 min.), Especiais sobre os filmes e trailers (77 min.)




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