TRIÂNGULO FEMININO (1968) - FILM REVIEW

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O Cinema de Robert Aldrich

O americano, nascido em Rhode Island, foi um cineasta que poderia ser definido por uma única palavra: ousado. Seu cinema é assim. Ousadia na forma e no conteúdo. O que podemos dizer de um filme com Suzannah York sobre um casal de lésbicas, em que numa determinada cena, a atriz tem seus seios chupados por outra mulher, e isto em plenos anos 60 !!! A cena de sexo chocou tanto o compositor Frank de Vol que ele se demitiu do filme e ficou anos sem trabalhar com as pessoas da equipe. A atriz Suzannah era vista em pânico, correndo pelos sets chorando, de tão nervosa para gravar suas cenas. Apesar disto, ela fez outra cena de sedução feminina com nada menos que Elizabeth Taylor em X, Y e Z em 1972, dirigido por Brian G. Hutton.

Para os padrões atuais de veracidade (vide filmes como Ultima ceia ou Instinto selvagem), a cena em si não é nada demais. Mas imagine o caos que foi na época. O filme foi um dos primeiros sucessos comerciais a retratar a homossexualidade feminina. Na época de seu lançamento, o filme recebeu a classificação indicativa mais alta. A atriz Bette Davis era uma das principais cotadas para o papel principal .A palavra "lésbica" precisou ter vista grossa no roteiro e foi dita apenas uma vez durante o filme inteiro.


Aldrich fazia um cinema de construção e desconstrução de personagens. Quase verborrágico, seus filmes tendiam a ter mais diálogos que ação, mas eles sempre levavam o telespectador a uma imersão naquele universo que será desconstruído pouco antes do “The end” aparecer, e os créditos subirem.

Triângulo feminino é um dos filmes mais queridos do próprio diretor, que havia feito o enorme sucesso  Os doze condenados no ano anterior, que proporcionou a ele oportunidade de montar a Aldrich & Associates, dando a ele a liberdade de buscar assuntos mais desafiadores e estimulantes, dos quais "Triângulo feminino" foi o primeiro exemplo. 

Uma prova de seu avanço, é a cena no bar de lésbicas, que foi filmada em um local real, o Gateways Club, em Londres. Isso gerou muita controvérsia, já que o público não estava acostumado a ver as lésbicas interagindo tão abertamente umas com as outras.


Aldrich trata do tema com crueza e verdade. Percebemos no olhar da atriz Beryl Reid (June), que ela esta deprimida e sucumbindo ao alcoolismo. Ela é bem mais velha que sua namorada e isto vai tragando o amor existente, já que há certos complexos que vem à tona, conforme percebemos suas atitudes. Ela tenta se sobressair no relacionamento mostrando superioridade financeira e intelectual, como se isto fosse prender sua namorada à relação. Se por um lado, June está decadente e necessitando de atenção, Alice (Suzannah) é jovem, belíssima e ainda por cima cita um stalker, que ela mesma confessa que poderia ter algum tipo de relação, fragilizando ainda mais a já alcoólatra June.

Conforme podemos concluir pela filmografia de Aldrich, ele não busca finais felizes, talvez por não acreditar neles. Eles costumam ser um tapa na cara, mostrando egoísmo, solidão e morte. 

Em “O que teria acontecido com Baby Jane?” ele trata o tema de forma semelhante, mostrando duas irmãs ligadas a elementos semelhantes como show business, ostracismo, decadência e influência de uma sobre a outra. A diferença é que aqui são irmãs (daí uma demonstração que Triângulo feminino ele fez com mais liberdade).


Não incomum, as cenas ao longo da obra, tendem a caminhar para um final explosivo e violento, conforme o tamanho dos sentimentos reprimidos. Quase da mesma forma que William Friedkin tratava as emoções em seus filmes. Quem assiste, fica a impressão de que não tem nada de muito importante sendo discutido, até que tudo de importante acontece, e vemos como cada linha dita era fundamental para a construção da obra. Como se você não desse tanta importância a um tijolo, ate que ele vira uma parede. 

O título do filme, que parece saído de algum giallo, nada mais é que uma metáfora, já que se refere à morte do personagem de June, ou seja, a morte do artista.

Robert Burgess Aldrich

Nascido em 9 de agosto de 1918, ele chegou a Hollywood em 1941. Seu primeiro contrato foi com a RKO como assistente de produção. Seus primeiros filmes, na década de 1950, trataram de problemas sociais do momento. 


Ele também produziu muitos dos seus filmes, além de demonstrar versatilidade na direção. De 1975 a 1979 ele foi presidente do Directors Guild of America (DGA).

Um diretor é um mestre de cerimônias, um psiquiatra e um árbitro.

Casou-se com Harriet Foster em 1941, com quem ficou até 1965, tendo quatro filhos com ela. Em 1966 ele se casou com o modelo Sybille Siegfried. Robert Aldrich morreu de insuficiência renal em 5 de dezembro de 1983 em Los Angeles , Califórnia.

História real

Robert Aldrich comprou os direitos de exibição da peça de Frank Marcus em abril de 1967. Ela foi inspirada em um incidente real que atraiu muita atenção da mídia na Grã-Bretanha no início dos anos 60. Uma novela de rádio, "Mrs. Dale's Diary", estava em exibição desde 1940, quando a BBC repentinamente decidiu substituir os atores principais e mudar o cenário para uma nova cidade, com novos personagens de apoio.


A atriz que interpretou a Sra. Dale por tanto tempo, Ellis Powell , nunca se recuperou desse golpe na carreira e morreu relativamente pouco depois, principalmente como resultado do alcoolismo.



A Versátil lançou “O Cinema de Robert Aldrich”, caixa em luva reforçada com 3 DVDs que reúne 6 clássicos inéditos do mestre Robert Aldrich (1918-1993), o diretor de “Os Doze Condenados” e “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?”, todos em versões restauradas, e quase uma hora de extras, incluindo especiais sobre os filmes. Edição Limitada com 6 cards.
  
Disco 1:

“A GRANDE CHANTAGEM” (The Big Knife, 1955, 114 min.)
Com Jack Palance, Ida Lupino, Wendell Corey. 

⇨ SinopseO ator Charles Castle não aceita renovar seu contrato, mas o chefe do estúdio não aceitará um “não” como resposta... Uma obra-prima sem concessões sobre o universo do cinema. Prêmio de Melhor Direção no Festival de Veneza. 
  
“MORTE SEM GLÓRIA” (Attack!, 1956, 107 min.)
Com Jack Palance, Lee Marvin, Eddie Albert. 

⇨ SinopseNa Segunda Guerra, em meio a combates sangrentos com os alemães, o capitão e o tenente de um batalhão de infantaria entram em conflito. Um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos. Prêmio Especial no Festival de Veneza.

  
Disco 2:

“RESGATE DE UMA VIDA” (The Grissom Gang, 1971, 128 min.)
Com Kim Darby, Scott Wilson, Tony Musante. 

⇨ SinopseDurante a Depressão, filha de milionário é sequestrada após uma atrapalhada tentativa de assalto. Brilhante remake do clássico filme noir britânico “No Orchids for Miss Blandish” (1948), do romance de James Hadley Chase. 
  
“A DEZ SEGUNDOS DO INFERNO” (Ten Seconds to Hell, 1959, 94 min.)
Com Jack Palance, Jeff Chandler, Martine Carol.

⇨ SinopseBerlim, 1945. Após o fim da Segunda Guerra, seis ex-soldados alemães são contratados para formar um esquadrão para desarmar bombas dos aliados na cidade. Tenso e muito bem dirigido, este é mais um ótimo filme de guerra de Aldrich.


Disco 3:

“TRIÂNGULO FEMININO” (The Killing of Sister George, 1968, 140 min.)
Com Beryl Reid, Susannah York, Coral Browne.

⇨ SinopseUma atriz de meia idade está prestes a perder seu emprego na TV e ainda desconfia que sua jovem namorada está saindo com outra mulher. Fascinante drama de Aldrich e um dos primeiros filmes sobre lesbianismo do cinema norte-americano.

“PÀNICO EM SINGAPURA” (World for Ransom, 1954, 82 min.)
Com Dan Duryea, Gene Lockhart, Patric Knowles

⇨ SinopseEm Singapura, um detective particular e as autoridades britânicas estão atrás de uma organização criminosa que sequestrou um físico nuclear. Inventivo filme noir B que antecipa temas e soluções visuais de “A Morte Num Beijo”.

Informações técnicas da edição:

Títulos em português: A Grande Chantagem, Morte Sem Glória, Resgate de uma Vida, A Dez Segundos do Inferno, Triângulo Feminino, Pânico em Singapura
Títulos originais: The Big Knife, Attack!, The Grissom Gang, Ten Seconds to Hell, The Killing of Sister George, World for Ransom
País de produção: EUA
Ano de produção: 1954-1971
Gênero: Drama, Policial, Guerra
Direção: Robert Aldrich
Elenco: Ida Lupino, Jack Palance, Wendell Corey, Lee Marvin, Eddie Albert, Kim Darby, Jeff Chandler, Martine Carol, Scott Wilson, Beryl Reid, Susannah York, Coral Browne, Dan Duryea, Gene Lockhart, Patric Knowles
Idioma: Inglês
Áudio: Dolby Digital 2.0
Legenda: Português
Formato de tela: Widescreen anamórfico 1.85:1, Fullscreen 1.33:1
Tempo de duração:  665 min.
Região: 4
Colorido e Preto & Branco
Faixa etária: 16 anos
Extras: Especiais sobre os filmes (36 min.), Trailers (10 min.)



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