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    ATENÇÃO: MOSTRA KENJI MIZOGUCHI DE 20/02 A 06/03


    Entre os dias 20 de fevereiro e 6 de março, o cinema do IMS Paulista, em parceria com a Fundação Japão, dedicará sua programação ao diretor e roteirista japonês Kenji Mizoguchi (1898-1956). Serão exibidos 18 filmes do cineasta, com cópias em 35 mm, 16 mm e DCP, a maior parte proveniente do Japão. Chika Kinoshita, professora da Universidade de Quioto e especialista na obra de Mizoguchi, participará de uma conversa sobre a obra do diretor japonês com o professor João Luiz Vieira (Universidade Federal Fluminense) no dia 6 de março, após a exibição do filme A rua da vergonha, às 18h30, no cineteatro do IMS Paulista. 

    Entre os destaques da programação, estão os clássicos Oharu, a vida de uma cortesã, Amantes crucificados e Crisântemos tardios. Há também cópias restauradas de A canção da terra natal, filme inédito no país, e de O intendente Sansho, apresentado em DCP, e filmes raros como Oyuki, a virgem e Senhorita Oyu. O evento é a maior retrospectiva dedicada a Mizoguchi realizada no Brasil nos últimos 30 anos.

    Entre 1923 e 1956 (ano da sua morte), Mizoguchi realizou 86 filmes, dos quais apenas 30 foram preservados. Entre as fontes de inspiração do realizador, estão o teatro de marionetes bunkaru do século XVII e trabalhos literários de distintos momentos históricos.

    Temas frequentes de sua obra são a condição feminina a partir das relações de poder e os conflitos de classe social. Conhecido pelos longos planos-sequência, e pela realização de uma confluência entre a interpretação dos atores e a exploração do espaço cênico, Mizoguchi, também, era extremamente perfeccionista, como atestam depoimentos de seu roteirista Yoshitaka Yoda no livro Souvenirs de Kenji Mizoguchi, publicado pela Cahiers du Cinema.

    Entre os dias 6 e 21 de março a Mostra Kenji Mizoguchi acontece no IMS Rio.

    OBS: As sinopses dos filmes são fornecidas pelo IMS.



    A canção da terra natal
    Furusato no uta
    Kenji Mizoguchi | Japão, 1925, 50’, 35 mm

    “O argumento foi estabelecido pelo Ministério da Educação com a intenção de aumentar a produção de arroz” ‒ conta o diretor ao falar sobre seus filmes à revista japonesa Kinema Junpô, em janeiro de 1954. Encomendado pelo governo japonês, o filme apresenta dois garotos que cresceram no campo: um deles não pode terminar os estudos primários, e o outro acaba de voltar da cidade. “A canção da terra natal constrói-se sobre uma oposição cidade/campo, denunciando os problemas que se abateriam sobre toda a sociedade japonesa caso não fosse estancado o movimento migratório em massa do campo para a cidade ‒ e, diga-se a este respeito, o filme tinha um objetivo propagandístico concreto [...]. Estes objetivos explicam a simplicidade da estrutura de oposições montada por Mizoguchi”, discorre Luís Miguel Oliveira no livro As folhas da Cinemateca ‒ Kenji Mizoguchi. Único filme mudo apresentado neste ciclo, e exibido pela primeira vez no Brasil, "A canção da terra natal" foi recentemente restaurado pelo National Film Center (NFC), em Tóquio, que recuperou as cores originalmente realizadas com técnicas de tingimento da película. O trabalho foi possível graças a uma cópia em nitrato da época de seu lançamento doada ao NFC. Apesar de muito deteriorada, as cores ainda estavam preservadas em pequenos trechos, o que permitiu a recuperação completa de sua estética original.


    Oyuki, a virgem
    Maria no O-yuki
    Kenji Mizoguchi | Japão | 1935, 76’, 35 mm

    No sul do Japão, durante a revolta de Satsuma, em 1877, Okin e Oyuki, duas jovens gueixas, fogem à aproximação dos rebeldes e conseguem carona em uma carruagem, na qual viajam também uma família aristocrática, além de um comerciante e sua esposa. Um dos primeiros filmes sonoros de Mizoguchi, Oyuki, a virgem é inspirado no conto “Bola de sebo” (“Boule de suif”), de Guy de Maupassant. Protagonizado por Isuzu Yamada (que trabalhou com Kurosawa em Trono manchado de sangue e Yojimbo), Mizoguchi já começa a explorar no filme técnicas que marcariam sua mise-en-scène, como o plano-sequência e o aproveitamento dramático da profundidade de campo. A cópia em 35 mm que será exibida é da coleção do National Film Center, do Museu Nacional de Arte Moderna, em Tóquio.


    Elegia de Osaka
    Naniwa ereji
    Kenji Mizoguchi | Japão | 1936, 69’, 16 mm

    Ayako, jovem telefonista em uma companhia farmacêutica, tenta resistir ao assédio do patrão. No entanto, aceita tornar-se sua amante para pagar uma dívida do pai e evitar que ele vá para a prisão. Nas palavras da crítica Barbara Sharres, “em Elegia de Osaka, a composição visual de Mizoguchi evoca, e sutilmente mina, um contexto no qual os homens detêm o controle e as mulheres servem e aguardam. Esse reino dos homens é uma ilusão potente, construída como um belo brinquedo feito de portas deslizantes, papéis de parede e divisórias finas, cujos ambientes interiores parecem labirínticos e atemporais, graças ao uso que o diretor faz da profundidade de campo e dos planos abertos. As mulheres se curvam, se ajoelham e voltam atrás. Mas a ilusão opera em mão dupla e, mesmo quando Mizoguchi posiciona suas figuras masculinas de autoridade em primeiro plano é, muitas vezes, para envolver seus traços na sombra ou então comprometer seu poder.” Inspirado no romance Mieko, de Saburo Okada, publicado em episódios no jornal Shinchô, o roteiro de Elegia de Osaka é a primeira colaboração entre Mizoguchi e Yoshikata Yoda, que foi um dos seus roteiristas mais frequentes. Conta Mizoguchi à revista japonesa Kinema Junpô: “Procurava uma nova direção e qualquer coisa inovadora em relação aos filmes sobre a época Meiji que estava habituado a fazer. Penso ter percebido bem a personagem feminina.” [Íntegra da crítica de Elegia de Osaka por Barbara Sharres, em inglês, no portal do selo The Criterion Collection: bit.ly/m-osaka]

    As irmãs de Gion
    Gion no shimai
    Kenji Mizoguchi | Japão | 1936, 68’, 35 mm

    Umekichi, uma gueixa do bairro de Gion (tradicional reduto de restaurantes e casas noturnas de Quioto), sente-se na obrigação de ajudar seu amante quando ele vai à falência e abandona a esposa. Omocha, sua irmã mais nova, é contrária à ideia e defende que as duas encontrem amantes melhores. Segunda colaboração entre Mizoguchi e o roteirista Yoshikata Yoda, As irmãs de Gion é baseado no romance Yama, de Aleksandr Kuprin. “Depois de Elegia de Osaka, eu e Yoda pudemos descontrair um pouco e, relativamente falando, as coisas começaram a correr melhor. O que veio depois de Osaka? Quioto. E quando se pensa em Quioto, pensa-se logo em Gion. Também não demoramos muito tempo a fazer esse filme” ‒ conta Mizoguchi à revista Kinema Junpô.


    Crisântemos tardios
    Zangiku Monogatari
    Kenji Mizoguchi | Japão | 1939, 142’, DCP

    Tóquio, meados da Era Meiji (1868-1912). Kikunosuke Onoe é filho adotivo e sucessor de um mestre do teatro kabuki, mas acredita não estar à altura do pai. A única pessoa a lhe dar uma opinião negativa sobre seu talento é Otoku, uma criada da família. Diante de uma crítica sincera, Kikunosuke apaixona-se por Otoku e a toma como conselheira, mas a relação entre os dois será um constrangimento para a família de Kikunosuke. Crisântemos tardios é o primeiro filme dirigido por Mizoguchi na produtora japonesa Shochiku. Segundo Maria João Madeira, no livro As folhas da Cinemateca ‒ Kenji Mizoguchi, o diretor “é radical em Crisântemos tardios. É o mínimo que se pode dizer de um filme que é também de celebração do plano-sequência.” Em seguida, a autora cita o comentário de Mizoguchi sobre a prática: “Comecei a utilizar a técnica do plano-sequência em 1936, consistindo ela em nunca alterar o enquadramento durante toda a sequência enquanto a câmera permanece a uma certa distância [...]. Adaptando esse método, não tive a mínima intenção de representar o estado estático de uma psicologia qualquer. Pelo contrário, cheguei a ele espontaneamente, dando prosseguimento à procura de uma expressão mais precisa e mais específica dos momentos de grande intensidade psicológica [...]. Fui naturalmente levado a seguir uma técnica desse tipo pelo simples desejo de evitar o método clássico da descrição psicológica a partir do abuso dos planos próximos.”


    A vingança dos 47 ronins [partes 1 e 2]
    Genroku Chushingura
    Kenji Mizoguchi | Japão | 1941-1942, 109’ e 109’, 35 mm

    No Japão do início do século XVIII, o senhor Asano contraria o código dos samurais ao desembainhar a espada contra o senhor Kira no interior do castelo do Shogun e é condenado a cometer o seppuku ‒ popularmente conhecido como harakiri, um ritual de suicídio praticado por samurais. O castelo de Asano é confiscado, e seu séquito, disperso como ronins ‒ os samurais sem mestre ‒, decidem vingá-lo. O roteiro, de Kenichiro Hara e Yoshikata Yoda, foi escrito a partir do romance de Seika Mayama, baseado em uma história real (leia aqui) muito popular no Japão. O filme foi dividido em duas partes, lançadas em dezembro de 1941 e fevereiro de 1942, período decisivo da participação do Japão na Segunda Guerra Mundial. Para o crítico Richard Brody, da revista The New Yorker, “A vingança dos 47 ronins é um dos grandes filmes políticos de todos os tempos. [...] É um extraordinário ato de equilíbrio de que Mizoguchi lança mão. Para satisfazer às normas de um esforço de guerra de então, ele exalta os clássicos guerreiros japoneses como homens abnegados de princípio inconteste e, no entanto, enfatiza sua fidelidade à própria consciência e espírito de resistência. É um mundo masculino. Mizoguchi, porém, constrói a história num crescendo de nobreza e derramamento de sangue por meio da intervenção de uma mulher.” [Íntegra do comentário de Richard Brody, em inglês, em: bit.ly/m-ronins].


    Utamaro e suas cinco mulheres
    Utamaro o meguru gonin no onna
    Kenji Mizoguchi | Japão | 1946, 92’, 35 mm

    Utamaro é um célebre pintor que busca por cortesãs do bairro de Yoshiwara, região de bares e bordéis em Tóquio, para compor seus retratos. Em seu primeiro filme realizado no Japão ocupado pelas forças aliadas, após o fim da Segunda Guerra Mundial, Mizoguchi contorna as rígidas normas da censura americana, que restringiam a realização de obras históricas ambientadas antes da abertura do Japão ao Ocidente. Segundo a crítica e pesquisadora de cinema japonês Freda Freiberg, o diretor “precisou garantir que o filme não teria duelos de espada e que seu herói era um homem do povo, um democrata à frente de seu tempo”. O longa é uma adaptação do romance homônimo de Kanji Kunieda, inspirado na vida do pintor japonês Utamaro (1753-1806), famoso por seus retratos de cortesãs – bijin-ga. Segundo Freiberg, “o roteirista regular de Mizoguchi, Yoshikata Yoda, que trabalhou com ele (ou para ele) por 20 anos, afirmou em suas memórias que, nesse roteiro, estava ‘quase inconscientemente’ pintando um retrato de Mizoguchi por meio de Utamaro. A equação Utamaro = Mizoguchi foi irresistível para a maior parte dos críticos, uma vez que os dois tinham muito em comum. Ambos trabalharam com meios de comunicação operados por homens de negócios e tiveram atritos sob sistemas opressivos de censura; ambos frequentaram as ‘zonas de divertimento’ e buscaram a companhia de gueixas; e ambos ficaram famosos por seus retratos de mulheres.” [Íntegra do texto de Freda Freiberg para a revista Senses of Cinema, em inglês, em: bit.ly/M-Utamaro.


    Mulheres da noite
    Yoru no onnatachi
    Kenji Mizoguchi | Japão | 1948, 71’, 35 mm

    No Japão pós-guerra, Fusako, uma jovem viúva de Osaka que perdeu o marido em combate, não tem recursos para tomar conta do filho, que padece de tuberculose. Quando ele morre, ela parte para Tóquio. Lá, Fusako e sua irmã mais nova se verão envolvidas com um contrabandista de ópio. Baseado no romance Joseimatsuri, de Eijiro Hisaita, Mulheres da noite é comumente descrito como um filme de influência neorrealista. Rodado grande parte em locação, na Osaka devastada pela guerra, o longa aborda os efeitos do conflito na vida de suas personagens e no contexto da prostituição.


    Senhorita Oyu
    Oyu-sama
    Kenji Mizoguchi | Japão, 1951, 96’, 35 mm

    Oyu-Sama é uma jovem viúva. A sua irmã mais nova, Shizu, é apresentada a Shinnosuke como pretendente, mas o noivo apaixona-se por Oyu. De acordo com a tradição, Oyu está proibida de casar-se novamente, porque tem que criar o filho como o herdeiro da família do marido. O longa se passa na era Meiji (1867-1912) e é baseado na novela Ashikari (1932), de Junichiro Tanizaki. Em seu livro Lembranças de Kenji Mizoguchi, o roteirista Yoshikata Yoda comenta as dificuldades dessa adaptação: “Na literatura, a história é contada a partir da perspectiva de um homem que o autor diz ter conhecido [...]. A construção da história é feita a partir de três movimentos, três retornos ao passado. Era necessário conservar no filme esse caráter onírico da memória. Então, eu insisti sobre esse aspecto narrativo, pois o regresso no tempo reforçava o mistério. Mas os flashbacks sobrepostos foram injustamente recusados pelo sr. Kawaguchi, o diretor do Estúdio Daiei em Quioto. Arriscava um fracasso comercial. Mas lamento muito.” Ele também ressente a escolha de Kinuyo Tanaka para o papel de Oyu: “A sra. Tanaka não era como Oyu. Não que ela não fosse tão bonita quanto Oyu. Mas a astúcia da sra. Tanaka é composta por essa inteligência sensível atrelada à vida cotidiana. Não podíamos matar essa qualidade.”

    Em seu texto Coreografia do desejo: analisando a atuação de Kinuyo Tanaka nos filmes de Mizoguchi, a pesquisadora Chika Kinoshita comenta essa contradição entre atriz e personagem descrita por Yoda: “A fissura que o olhar opaco de Tanaka abre, na personagem Oyu, não é propriamente desenvolvida e nem reparada pelas demais partes do filme. É uma ameaça constante de levar o filme à contradição. Mas eu acredito que isso torna a personagem intrigante, e não defectiva.”


    Oharu, a vida de uma cortesã
    Saikaku ichidai onna
    Kenji Mizoguchi | Japão, 1952, 148’, 35 mm

    Oharu, interpretada por Kinuyo Tanaka, é uma prostituta de meia idade. Após mais uma noite sem clientes, ela caminha com suas colegas. Uma delas pergunta sobre seu passado na corte imperial, ela se nega a falar sobre o assunto. Mas, em um templo budista, uma das imagens no altar lhe transporta para sua juventude. Então, se lembra de Katsunosuke (Toshiro Mifune), sua primeira paixão. Nas palavras de Chika Kinoshita, “a sequência de sedução de A vida de Oharu é encenada com extrema elegância, pelos atores e pela câmera de Yoshimi Hirano. A coreografia de desejo não é uma expressão crua de luxúria, mas um fluxo refinado de ações e gestos. O que não deve ser ignorado, no entanto, é que todo gesto gracioso registra não apenas o amor do casal, mas também a posição social de cada um. Enquanto Katsunosuke expressa repetidamente sua crença no amor romântico livre do sistema feudal de classes, seu amor romântico nunca é realizado na tela. Por que Oharu desmaia? Discordo do diagnóstico de Robert Cohen de um desmaio por histeria. Eu argumentaria que Mizoguchi não conseguia imaginar a euforia do amor romântico fora do campo das relações de poder. Alain Bergala resume bem a mecânica dessa sequência: ‘Por meio de variações sutis entre o exterior e o interior, a barreira inquebrável de classe que os divide é virada por um abraço tão subversivo que a jovem pode sobreviver apenas com o desmaio’.” Baseado no romance de Saikaku Ihara, Kochoku ichidai onna, escrito no século XVII.


    Contos da lua vaga
    Ugetsu monogatari
    Kenji Mizoguchi | Japão | 1953, 97’, 35 mm

    No Japão do século XVI, uma vez declarada a guerra civil, dois camponeses enxergam a possibilidade de mudar de vida. O ceramista Genjuro procura fortuna. Seu cunhado, Tobei, sonha se tornar um samurai, mas não possui armadura. Mesmo quando avisados do perigo da guerra, eles partem para a cidade e deixam a esposa e o filho de Genjuro na aldeia. Quando Wakasa, uma jovem nobre, se encanta por suas cerâmicas, a vida de Genjuro toma um novo rumo. “É o único dos filmes subsistentes do autor em que o sobrenatural expressamente intervém [...]. O milagre maior de Mizoguchi, neste filme prodigioso, é a fusão dos acontecimentos reais com os acontecimentos surreais, sem usar nenhum dos processos convencionais para passar de uma dimensão à outra”, observa João Bénard da Costa no artigo “Mizoguchi: a quinta essência”. A história de Genjuro, no roteiro de Yoshikata Yoda e Matsutaro Kawaguchi, é baseado em três contos de Akinari Ueda, publicados em 1776. Já o conto francês “Décoré!”, de Guy Maupassant, publicado em 1883, serviu de inspiração para a trajetória do personagem Tobei.


    A música de Gion
    Gion bayashi
    Kenji Mizoguchi | Japão, 1953, 84’, 35 mm

    Eiko perdeu a mãe, que era gueixa, e decide seguir a mesma profissão sob a tutela de Miyoko. A professora lhe ensina que as gueixas são, tanto como a cerimônia do chá ou o teatro Nô, uma tradição japonesa, “um patrimônio cultural vivo”. Esta perspectiva de Miyoko entra em conflito com a da pupila. Como observa João Bénard da Costa, “o próprio princípio que levou ao nome e à profissão (princípio do prazer, princípio da mulher como origem e fonte de prazer para o homem) sofreu com a ocidentalização várias inflexões, que, sobretudo depois da guerra, permitiram uma zona em que as fronteiras se restringiram e a gueixa pôde ser levada a prostituir-se, sobretudo com determinado tipo de clientes.

    O intendente Sansho
    Sansho dayu
    Kenji Mizoguchi | Japão | 1954, 122’, DCP

    No final do período Heian (entre os séculos XI e XII), um governador é mandado para o exílio por desobediência e por defender camponeses pobres. Sua mulher, Tamaki, e os dois filhos, Zushio e Anju, vão ao seu encontro, mas são enganados durante a viagem por traficantes de escravos. Tamaki é levada para a ilha de Sado, onde é forçada a prostituir-se. Anju e Zushio são vendidos como escravos ao intendente Sansho. Dez anos mais tarde, a memória da mãe retorna na forma de uma triste canção que se popularizou em Sado. “A telepatia instantânea transmitida pela música, unindo mãe e filhos através das águas, resgata Zushio e sua irmã do desânimo e reaviva seus corações para a batalha. Seu desdobramento nos leva de volta às grandes tradições do melodrama silencioso, ao cinema de juventude de Mizoguchi, no qual o acompanhamento musical fazia explícita a emoção contida na imagem”, escreve Mark Le Fanu, autor do livro Mizoguchi and Japan editado pelo British Film Institute. Segundo o autor, “é impossível pensar em O intendente Sansho sem a trilha musical: a pontuação de flauta e harpa do colaborador de longa data Fumio Hayasaka é uma das mais delicadas na obra de Mizoguchi.” O intendente Sansho é baseado em um romance de Ogai Mori que, por sua vez, foi inspirado em uma antiga lenda japonesa. [Íntegra do ensaio de Mark Le Fanu para o selo The Criterion Collection, em inglês: bit.ly/m-sansho].


    Os amantes crucificados
    Chikamatsu Monogatari
    Kenji Mizoguchi | Japão | 1954, 100’, 35 mm

    Quioto, final do século XVII. Ishun, um senhor abastado, acredita que sua esposa, a jovem Osan, está tendo um relacionamento com Mohei, um de seus empregados. Para escapar à punição de execução por adultério, Osan e Mohei fogem juntos. O roteiro foi inspirado em uma peça de bunraku, uma forma de teatro de bonecos japoneses intitulada Koi Hakke Hashiragoyomi. Nas palavras do cineasta português Paulo Rocha (Os verdes anos), Os amantes crucificados “é uma adaptação do Chikamatsu, um gênio, que recriava a forma do teatro de marionetes, na época uma forma popularíssima de Osaka. Havia muitos suicídios, e o público gostava muito dessas coisas de faca e alguidar. Por exemplo, uma gueixa apaixonava-se e depois se matava: dois ou três dias depois, publicavam uma balada ou um poema, vendiam pelas ruas, e passada uma semana aquilo estava no teatro. O público ia para lá chorar. Depois havia o coro que contava a história de uma maneira mais lírica, os bonecos mimavam a cena, tornavam todas as cenas muito realistas, e a primazia era do narrador, que cantava e chorava. Ora bem, o Mizoguchi, em Os amantes crucificados, pega, portanto, uma história já elaboradíssima e expõe aquilo que se passa num ambiente de burguesia semi capitalista da época ‒ o dono do negócio é um homem que tem o privilégio de ser o único tipógrafo no Japão a poder imprimir os calendários. Estabelecer o calendário era uma função de poder, com um valor quase religioso, e o governo tinha que autorizar, portanto dava imenso dinheiro. [...] Os argumentistas marxistas aproveitam para fazer uma descrição minuciosíssima sobre as estruturas do poder econômico. Levam em conta os novos estudos históricos, todas as pistas da historiografia oficial marxista, e, portanto, este é provavelmente um dos argumentos mais solidamente escritos de toda a história do cinema de qualquer país. É um prodígio de carpintaria teatral, de síntese histórica etc. É um prodígio de luz, de construção de décors, mas vai muito mais longe, naquelas cenas no lago com o barco aparece um pouco o ‘amour fou’, o lado voluntarista para além da existência normal. O marxista comum não teria coragem de ir tão longe! Em que medida isso é uma espécie de reação espontânea, poética, pessoal, política do Mizoguchi? O que é certo é que ele consegue colocar a câmara no set, pegar num assunto violentíssimo e torná-lo mais aceitável para a sociedade japonesa.” [Íntegra do depoimento de Paulo Rocha para Luís Miguel Oliveira: bit.ly/prmizoguchi].


    A princesa Yang Kwei Fei
    Yokihi
    Kenji Mizoguchi | Japão, Hong Kong, 1955, 98’, 35 mm

    Primeiro filme colorido de Mizoguchi, e o único ambientado fora do Japão, A princesa Yang Kwei Fei é baseado em uma história chinesa do século VIII, quando o imperador Hsuan Tsung adotou uma de suas concubinas como esposa. O estúdio japonês Daiei esperava que a coprodução internacional pudesse trazer um maior público ao filme, e os produtores de Hong Kong, os Shaw Brothers, acreditavam no potencial que o nome de Mizoguchi traria à produção. Em suas memórias, o roteirista Yoshikata Yoda conta que Mizoguchi aceitou o convite com alegria: “Mizoguchi era um grande amante da arte chinesa e um profundo conhecedor da estética e dos costumes da era Tang. Eu, pelo contrário, ignorava tudo. Foi Mizoguchi quem tudo me ensinou.” Ele relata como o diretor pesquisou durante meses as obras dessa era para encontrar as cores do filme, mas diz também que o realizador considerava a cor no cinema um elemento artificial. Foi uma imposição do estúdio, que desenvolvera há pouco uma tecnologia própria, a Daiei Colour.


    A nova saga do clã Taira
    Shin Heike Monogatari
    Kenji Mizoguchi | Japão | 1955, 108’, 16 mm

    No final da era Heian (794 a 1185), o Japão estava dividido entre dois clãs rivais: Taira e Minamoto. Tadanori Taira e seu filho Kiyomori chegam a Quioto depois de uma campanha contra piratas no mar ocidental. A vitória, no entanto, não é festejada pelos membros da corte, que temem o crescente poderio dos samurais. Por conta da exibição do filme no Festival de Cinema de Nova York, em 1964, Eugene Archer escreve para o The New York Times: “As composições líricas em cores pastel ilustram este conto sobre a ascensão dos samurais. Enquanto a câmera vaga pelas multidões em um mercado medieval, um fluxo de contrastes subitamente dramáticos seduz o olhar. Os monges cruéis, os guerreiros violentos, os fracos e assustados aristocratas são vivamente diferenciados pelas cores de seus trajes e comportamento primitivo.” Este é o segundo e último filme colorido de Mizoguchi. [Íntegra do texto de Eugene Archer, em inglês: bit.ly/m-taira].


    Rua da vergonha
    Akasen chitai
    Kenji Mizoguchi | Japão | 1956, 87’, 35 mm

    Em uma rua de bordéis em Tóquio, a “Terra dos Sonhos” abriga cinco prostitutas: Hanae é casada com um homem tuberculoso que não pode trabalhar; Yumeko sonha deixar o trabalho e ser sustentada pelo filho; Yorie planeja se casar com um cliente; Yasumi é zelosa com suas economias; e Mickey, de calças justas e rabo de cavalo, é a mais ocidentalizada do grupo. O título original do filme, Akasen chitai, significa em japonês “a zona da linha vermelha”, em referência à prostituição existente na região de Tóquio onde se passa o filme. Rua da vergonha foi realizado em um momento em que a lei da prostituição era discutida no parlamento japonês. Baseado no romance de Yoshiko Shibaki, Susaki no onna, este é o último filme de Mizoguchi, que faleceu em 1956 aos 58 anos. A lei anti prostituição foi aprovada no mesmo ano. A cópia em 35 mm que será exibida faz parte da coleção do National Film Center, do Museu Nacional de Arte Moderna, em Tóquio.




    20 de fevereiro

    19h

    Utamaro e suas cinco mulheres
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1946. 92’. 35 mm)

    21h30

    Mulheres da noite
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1948. 71’. 35 mm)

    21 de fevereiro

    19h

    As irmãs de Gion
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1936. 68’. 35 mm)

    20h30

    Elegia de Osaka
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1936. 69’. 16 mm)

    22h

    Oyuki, a virgem
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1935. 76’. 35 mm)

    22 de fevereiro

    19h

    A vingança dos 47 ronins [parte 1]
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1941. 109’. 35 mm)

    21h30

    A vingança dos 47 ronins [parte 2]
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1942. 109’. 35 mm)

    23 de fevereiro

    17h15

    Crisântemos tardios
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1939. 142’. Exibição em DCP)

    20h15

    A canção da terra natal
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1925. 50’. 35 mm)

    21h30

    Senhorita Oyu
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1951. 96'. 35 mm)

    Dia 24 de fevereiro

    14h

    A música de Gion
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1953. 84'. 35 mm)

    16h

    Oharu, a vida de uma cortesã
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1952. 148’. 35 mm)

    19h

    Contos da lua vaga
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1953. 97'. 35 mm)

    21h

    O intendente Sansho
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1954. 122’. Exibição em DCP)

    25 de fevereiro

    14h

    A nova saga do clã Taira
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1955. 108’. 16 mm)

    18h

    Os amantes crucificados
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1954. 100’. 35 mm)

    20h

    A princesa Yang Kwei Fei
    de Kenji Mizoguchi (Japão, Hong Kong, 1955. 98'. 35 mm)

    27 de fevereiro

    18h30

    A música de Gion
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1953. 84'. 35 mm)

    20h30

    A canção da terra natal
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1925. 50’. 35 mm)

    21h45

    As irmãs de Gion
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1936. 68’. 35 mm)

    28 de fevereiro

    18h30

    Elegia de Osaka
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1936. 69’. 16 mm)

    20h

    Oyuki, a virgem
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1935. 76’. 35 mm)

    21h45

    Contos da lua vaga 
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1953. 97'. 35 mm)

    1 de março

    18h30

    Oharu, a vida de uma cortesã
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1952. 148’. 35 mm)

    21h30

    O intendente Sansho
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1954. 122’. Exibição em DCP)

    2 de março

    19h

    A nova saga do clã Taira
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1955. 108’. 16 mm)

    21h30

    A princesa Yang Kwei Fei
    de Kenji Mizoguchi (Japão, Hong Kong, 1955. 98'. 35 mm)

    3 de março

    14h

    Senhorita Oyu
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1951. 96'. 35 mm)

    16h

    Rua da vergonha
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1956. 87'. 35 mm)

    18h

    Mulheres da noite
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1948. 71’. 35 mm)

    19h45

    Os amantes crucificados
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1954. 100’. 35 mm)

    22h

    Utamaro e suas cinco mulheres
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1946. 92’. 35 mm)

    4 de março

    14h

    A vingança dos 47 ronins [parte 1]
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1941. 109’. 35 mm)

    16h30

    A vingança dos 47 ronins [parte 2]
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1942. 109’. 35 mm)

    19h

    Crisântemos tardios
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1939. 142’. Exibição em DCP)

    6 de março

    18h30

    Rua da vergonha        
    de Kenji Mizoguchi (Japão, 1956. 87'. 35 mm)

    Conversa sobre Kenji Mizoguchi após a exibição do filme A rua da vergonha, com Chika Kinoshita e João Luiz Vieira 6 de março, terça-feira, às 18h30, Cineteatro IMS Paulista

    Ingressos

    R$ 4,00 (inteira) e R$ 2,00 (meia).

    Meia-entrada com apresentação de documentos comprobatórios para professores da rede pública, estudantes, crianças de 3 a 12 anos, pessoas com deficiência e maiores de 60 anos.

    Cliente Itaú: desconto para o titular ao comprar o ingresso com o cartão Itaú (crédito ou débito). Ingressos e senhas sujeitos à lotação da sala.

    Capacidade da sala: 145 lugares.

    Os ingressos do cinema são vendidos na bilheteria do centro cultural para sessões do mesmo dia e no site ingresso.com

    Devolução de ingressos: Em casos de cancelamento de sessões por problemas técnicos e por falta de energia elétrica, os ingressos serão devolvidos. A devolução de entradas adquiridas pelo ingresso.com será feita pelo site.


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