• ÚLTIMAS...

    FIO DA NAVALHA (1984) - FILM REVIEW


    Com mais um lançamento pedido por muitos, a Obras primas do cinema coloca no mercado "Fio da navalha", que é a segunda versão da história de William Somerset Maugham. No filme, Bill Murray é Larry Darrell, um jovem americano que vive uma experiência no front da Primeira Guerra que o faz reavaliar a sua vida. Decidido a encontrar respostas para seus anseios mais espirituais, ele abdica de um grande amor e sai pelo mundo em busca do sentido da vida. 

    Por um Fio

    O livro é narrado de uma forma inusitada. Apesar de contar a história da vida do personagem Larry Darnell, quem a conta é o próprio escritor, que inclusive interage com os demais personagens. Publicado em 1944, a estória se passa entre as décadas de 20 e 40.

    Tudo começa quando Larry retorna dos campos de batalha europeus da Primeira Guerra Mundial. Na guerra, Larry viu seu melhor amigo morrer no front, no momento em que lhe salvou a vida. Ou seja, seu amigo morreu para para que Larry ficasse vivo.  O episódio nunca mais deixou Larry em paz consigo. Foi a partir dali que Larry se deparou de maneira impactante com possibilidade real da morte; de sua própria morte. Além disso, considerava estar vivo apenas por uma questão contingencial, afinal era para ele ter morrido, e não seu amigo.  Após a Guerra, Larry, até então um jovem burguês, retorna aos EUA (Chicago) e, traumatizado, passa a se questionar, a reavaliar seus relacionamentos, a analisar o comportamento e os valores das pessoas em sociedade. Larry mergulha em uma crise existencial em busca do sentido da vida; em busca de um sentido para sua vida. É assim que, após romper o noivado com Isabel, ele passa a viajar por vários lugares do mundo, como França, Nepal, Índia etc., em busca de respostas; em busca, como ele mesmo diz, de sabedoria.


    Nesse ponto, merece destaque a passagem em que Isabel, questiona-lhe: “mas por que você quer a sabedoria?” E Larry responde: “ainda não estou certo, mas quando atingi-la, seguramente, vou saber o que fazer...”. As viagens representam uma espécie de iluminação. Nesse caminho, após ler muito, realizar trabalhos braçais, o destaque fica para o capítulo VI, quando em que se dá o diálogo de Larry com o líder espiritual Shri Ganesha, de tradição Hinduísta, o qual foi fundamental para sua busca.   

    Apesar das viagens, Larry mantém vínculos com seus amigos americanos, com quem costuma se encontrar ao longo desses 20 anos, caso não só de Isabel, sua ex-noiva, mas também com Gray, marido dela, e de Elliot, tio de Isabel, todos os quais com valores focados no dinheiro, no trabalho e em eventos da alta sociedade.

    Neste aspecto, há uma forte crítica aos costumes aristocráticos da época, além de realçar  uma vida vazia de sentido por parte de seus membros. Não por acaso, a expressão “Fio da Navalha” é oriunda dos Upanixades, ligada às escrituras Hinduístas, foca-se em questões existenciais e valores transcendentais como uma verdadeira  forma de desprendimento, libertação e felicidade.


    O filme

    A produção de 1984 foi dirigida por  John Byrum, que assina o roteiro com Bill Murray. Filmado na França , Suíça e Índia com um orçamento de US $ 12 milhões, ele rendeu apenas 6, sendo considerado um fracasso de público. O que, como sabemos, não quer dizer muito, pois grandes obras primas do cinema nunca se pagaram. Infelizmente, o grande público nem sempre é o termômetro de bons filmes.

    Durante as filmagens na Índia, toda a equipe de produção ficou doente devido a intoxicação alimentar por conta de um frango, incluindo o diretor Byrum. O diretor, que  estreara em 1974, com uma obra profundamente interessante e surpreendente, “Inserts”, prosseguira-a depois com Os Beatniks (1980), que é um filme muito bem visto. Mas depois de Fio da navalha, nunca mais voltou a dirigir, construindo uma lenda em torno de si como realizador impossível de se trabalhar. 

    Mas curiosamente, um dos papéis mais emblemáticos de Bill Murray, o Peter Venkman em Os Caça-fantasmas, está atrelado ao filme Fio da navalha. Este não encontrava financiamento para o filme, e foi quando Dan Aykroyd sugeriu ao estúdio que Murray participasse dos Caça-fantasmas em troca de produzir o filme de  Byrum. Interessante é que Caça-fantasmas foi um estrondoso sucesso, rendendo mais do que o remake em 2016 (e olha que hoje o valor do ingresso é absurdo e o filme foi feito em 3D, gerando maior receita). Enquanto que Fio da navalha não se pagou. 

    Vale a pena conferir as duas versões, e ver que são retratos de seu tempo, com incorreções e acertos. Ambos filmes tem fãs ardorosos e críticos que detonam. Enfim..cinema é isto. Uma sucessão de frames que nos levam para longe, nos transformam e continuam sua jornada. Todo filme tem sua importância, e se você não a encontrou é porque não precisou dele. Talvez um dia precise, e talvez não.


    E Para terminar, uma frase do livro que acho bem reflexiva:

    “Nada no mundo é permanente, e somos tolos em desejar que uma coisa perdure, mas mais tolos seriamos se não apreciássemos enquanto a temos”. 


    COMENTE USANDO SEU FACEBOOK:

    Nenhum comentário:

    Postar um comentário

    Scroll to Top