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    MOVIMENTO EM FALSO (1975) - LANÇAMENTO "OBRAS PRIMAS DO CINEMA"





    Título Original: Falsche Bewegung
    Diretor: Wim Wenders
    Roteiro: Peter Handke (roteiro), Johann Wolfgang von Goethe (novela) 
        Elenco: Rüdiger Vogler, Hanna Schygulla, Hans Christian Blech
        Duração: 1h 43min 





    A mãe está velha e cansada de seu filho Wilhelm, um aspirante a escritor que "não gosta de pessoas" e fica em seu quarto o tempo todo, e o manda embora dando-lhe algum dinheiro. Durante a viagem de trem pela Alemanha Ocidental, o jovem faz amizade com uma menina muda e seu velho tio, artistas de rua itinerantes que viajavam sem dinheiro e os ajuda com as despesas. 

    Na estação de Hamburgo ele admira uma mulher que avista na janela de outra composição e ela acha que é um flerte e se encontra com ele em Bonn para um romance, mas ele continua acompanhado da dupla do trem. Pouco depois, o jovem poeta austríaco Bernhard começa a seguir o grupo pelas ruas, pois quer ler seus textos para Wilhelm. Bernhard leva a todos para o que seria a casa de um tio próxima as colinas perto do Rio Reno, mas se engana e entram na residência de um industrial solitário que está prestes a se suicidar.





    Diferente de outros filmes rodados como road movie, “Movimento em Falso” (1975, de Wim Wenders) não se estrutura na estrada, ainda que, permanentemente, a utilize no decorrer das sequências. Portanto, não é a estrada que se constitui como espaço primordial dos personagens, mas, antes de tudo, o deslocamento que, a cada movimento, delineia a travessia. Quando Wilhelm (Rudiger Vogler) se posiciona diante das montanhas geladas, o movimento aparece como vetor do tempo, expansão de horizontes e definidor da dimensão humana (o movimento como ato em si, que encerra o vagar do personagem Wilhelm pelo interior da Alemanha): “Parecia que eu tinha perdido algo e ainda estivesse perdendo com cada movimento novo”. Como em outros filmes de Wim Wenders, o vagar define-se em função do próprio vagar, ainda que, no percurso de Wilhelm, seus anseios estejam vinculados a um dom, possivelmente, adormecido e estejam interpostos em quadro. No entanto, a cada seqüência, a angustia que se inscreve na mente do personagem de Vogler, por conseqüência, encaminha seus passos e, portanto, o deslocamento: a angustia da ausência de talento para a literatura.

    Sob o mundo de Goethe (cujo romance “Wilhelm Meisters Lehrjahre” (1795) é a base do roteiro de Peter Handke) e do espectro da Alemanha Nazista (forjada em um tempo não muito distante de seus movimentos e que, inevitavelmente, aparece no filme através de um dos personagens), a travessia de Wilhelm constrói sua própria lógica. Em seu bojo, o movimento, de início, não é excludente, não recusa indivíduos e suas histórias, cujos sonhos e anseios podem se tornar matéria-prima para anotações, escrita e romance. Mas, ao mesmo tempo, não os tornam parte integrante do seu desenvolvimento pessoal, interior, sobretudo porque tais personagens não afetam, e, de alguma forma, não geram envolvimento, emoção. Assim, a partir de algum ponto do território alemão, a viagem de Wilhelm à cidade de Bonn agrega os personagens que vão aparecendo no meio do caminho, buscando uma certa totalidade do enredo ao retirá-los da condição de figurantes para o centro da narrativa. Especificamente porque, a um escritor em formação, o mundo de suas experiências constitui-se em matéria para o engenho e a arte da literatura. Entretanto, para preencher uma ausência, o movimento só integra até a experiência ser vivida.

    Em contraposição as narrativas fundadas no bildungsroman (romance de formação que, em Goethe, tem seu fundador e maior representante), Wim Wenders tem seu herói distante das afetações em relação ao outro e ao mundo. A lógica de sua travessia pertence à solidão, e, a cada seqüência, entram em deslocamento para chegar a algum lugar (Bonn, Frankfurt), encontrar a força não localizada (talento) e recolher os elementos para a formação, especificamente a experiência do mundo vivido e não, necessariamente, observado, como lembra Wilhelm em um diálogo. Movido por algum impulso, o personagem não sente qualquer afetação nem mesmo pelo seu corpo, quando, logo na abertura, arrebenta o vidro da janela e sua própria mão. Afetação que não sentimos pelo próprio Wilhelm, cuja câmera, numa das sequências iniciais, o abandona à mesa de um restaurante em frente ao mar a escrever em sua caderneta de anotações: "uma câmera preocupada com as ausências". Focando o objeto de suas lentes, a câmera constitui-se, assim, apenas em imagem, quando se move em direção ao mundo e recusa o narrador sem talento. Movimento que, como os de Wilhelm, demarca afastamentos constantes.


    Ao localizar seus personagens em deslocamento, Wenders desenvolve um filme onde o vagabundear é norma moldando a travessia como dimensão em si. Em “Movimento em Falso”, a própria mãe de Wilhelm, ao despedir-se do filho, lembra que é preciso não ter medo quando lhe perguntarem do ofício inútil de ser escritor. Viajar por viajar, portanto, domina os personagens, especificamente Wilhelm e o casal de artistas que encontra no vagão do trem em direção a Bonn: o cantor (Peter Kern) e a jovem malabarista (Nastassja Kinski). No entanto, do início ao fim, a travessia constitui-se no espaço, onde, em movimento, fuga ou liberdade, os indivíduos perdem o “afeto” e os “amigos” de estrada (Wilhelm), fogem de alguma ameaça (o cantor) e/ou se salvam de alguma forma de prisão (Kinski). Com parceiros que, permanentemente, o acompanham em seus projetos de cinema, Wenders tem na fotografia de Robby Muller o cromatismo necessário para o deslocamento dos seus personagens. Em determinada passagem, essencialmente, sensorial, o deslocamento de um carro quase se materializa na tela, revelando a realidade do seu ato que se basta em si como imagem.

    O filme é parte integrante do Digistack "Trilogia da Estrada" que será lançando no mês de setembro/2016 pela Obras Primas do Cinema.  Confiram o Trailer abaixo:

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