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    domingo, 14 de fevereiro de 2016

    O ASSASSINATO DE PIER PAOLO PASOLINI

     

    SOBRE ELE

    Era filho de Carlo Alberto Pasolini, militar de carreira, e de Susanna Colussi, professora primária, natural de Casarsa della Delizia (Friul), ao norte da Itália. Teve um irmão chamado Guidalberto Pasolini (1925 - 1945), que faleceu em uma emboscada lutando na Segunda Guerra Mundial. Em 1926, o pai de Pasolini foi preso por dívidas de jogo, e sua mãe mudou-se para a casa de sua família em Casarsa della Delizia, na região de Friuli.

    Em 1939, Pasolini graduou-se em literatura pela Universidade de Bologna. Era homossexual assumido e um artista solitário. Antes de ficar famoso como cineasta, Pasolini havia trabalhado também como professor, poeta e novelista. Entre seus livros mais conhecidos, estão Meninos da Vida, Uma Vida Violenta e Petróleo (livro). De porte atlético e estatura média, Pasolini usava óculos com lentes muito grossas.

    Em 26 de janeiro de 1947, Pasolini escreveu uma declaração polêmica para a primeira página do jornal Libertà: "Em nossa opinião, pensamos que, atualmente, só o comunismo é capaz de fornecer uma nova cultura." A controvérsia foi parcialmente devido ao fato de ele ainda não ser um membro do Partido Comunista Italiano, PCI. Após sua adesão ao PCI, participou de várias manifestações, e, em meados de 1949, participou do Congresso da Paz, em Paris. Observando as lutas dos trabalhadores e camponeses, e vendo os confrontos dos manifestantes com a polícia italiana, ele começou a criar seu primeiro romance. No entanto, em outubro do mesmo ano, Pasolini foi acusado de corrupção de menores e atos obscenos em lugares públicos. Como resultado, foi expulso pela seção de Udine do Partido Comunista e perdeu seu emprego de professor que tinha obtido no ano anterior em Valvasone, ficando em uma situação difícil. Em janeiro de 1950, Pier Paolo Pasolini se mudou para Roma com sua mãe.

    MORTE (1ª VERSÃO)

    Pasolini encontrou Pelosi, então um garoto de programa,  na zona de prostituição próxima da estação ferroviária Termini de Roma, às 22h30 do dia 1º de novembro de 1975. Três horas depois, às 01h30 do dia 02, Pelosi foi detido em Ostia quando dirigia um Alfa Romeo em alta velocidade. O carro foi identificado como pertencente à Pasolini e o corpo do cineasta encontrado duas horas depois com sinais de espancamento e atropelamento.  Naquela madrugada entre 1º e 2 de novembro de 1975 Pasolini foi brutalmente assassinado, tendo sido agredido com uma barra de ferro e depois atropelado com seu próprio automóvel numa praia de Óstia. O massacre durou meia hora. 

    O cadáver foi encontrado por uma senhora às 6h30min. Foi seu amigo Ninetto Davoli que reconheceu o corpo. O homicídio foi cometido por um garoto de programa chamado Giuseppe "Pino" Pelosi, à época com dezessete anos, já conhecido pela polícia por roubos de veículos, tendo sido detido na mesma noite por estar guiando o carro de Pasolini. Pelosi afirmou que abordou Pasolini nas cercanias da Estação Termini, no Bar Gambrinus da Piazza dei Cinquecento, quando foi convidado a entrar em seu veículo (uma Alfa Romeo 2000 GT Veloce) mediante promessa de um soma em dinheiro .

    Depois de um jantar oferecido pelo escritor, na trattoria Biondo Tevere próximo à Basílica de São Paulo Extramuros, os dois se dirigiram à periferia de Óstia. A tragédia, de acordo com a sentença judicial, teve início depois de uma discussão sobre as pretensões sexuais de Pasolini às quais Pelosi estava relutante, que acabou por se precipitar numa altercação fora do veículo. O jovem foi ameaçado com um pau que depois conseguiu tomar de Pasolini, tendo-lhe golpeado diversas vezes até fazê-lo cair gravemente ferido mas ainda com vida . Então Pelosi entrou no veículo e atropelou o escritor diversas vezes, destruindo-lhe a caixa torácica e causando-lhe a morte. Preso, a única coisa que o preocupava era ter perdido um anel com a inscrição "United States of America", que ganhara de um marinheiro americano, e seu maço de cigarros.

    Pelosi foi condenado em primeira instância por homicídio doloso em 4 de dezembro de 1976, sentença confirmada pela Corte de Apelo, pelo assassinato com a participação de cúmplices desconhecidos, que acabaram sendo excluídos no veredito final.
    A versão oficial acima explicitada não se sustenta mais, existem muitos documentos e depoimentos que atestam a sua falsidade.

    "Vamos dar uma volta? Se você sair comigo, eu te dou um presente!"

    Pasolini encontrou Pelosi, então um garoto de programa com 17 anos,  na zona de prostituição próxima da estação ferroviária Termini de Roma, às 22h30 do dia 1º de novembro de 1975.
    Três horas depois, às 01h30 do dia 02, Pelosi foi detido em Ostia quando dirigia um Alfa Romeo em alta velocidade. 

    INVESTIGAÇÃO

    Teria este sido um crime político, uma cilada? Teria Pasolini agredido Pelosi antes de ser massacrado? O que levou Pelosi a assumir a exclusiva responsabilidade pela morte de Pasolini, quando todos os indícios parecem demonstrar que houve participação de terceiros? Por que a justiça italiana não levou a investigação até o fim, contentando-se com a versão de Pelosi? Por que as forças progressistas não fizeram nenhuma pressão para a reabertura do processo? Não seria a hora de romper, de uma vez por todas, esta conspiração do silêncio?

    Durante o processo,  os investigadores não demoraram a encontrar pontos falhos no relato. Pelosi descrevia o crime em Ostia como uma série continua de ações e reações encadeadas; mas a camisa de Pasolini foi encontrada, ensanguentada, perto do carro: ele teria tido tempo de retirá-la, após uma primeira pancada na cabeça, e limpado nele seu sangue, andando cerca de 70 metros, e aí então recebendo um violento chute nos testículos que o deixou prostrado, sendo finalmente coberto de golpes que laceraram diversas partes de seu corpo. A agressão teve duas fases bem distintas. A morte ocorreu, finalmente, quando Pelosi, embora tendo espaço suficiente para manobrar o carro e retomar a estrada, preferiu passar por cima de um Pasolini todo ferido, e de uma forma que só poderia ser qualificada de intencional. Que Pelosi tenha logo confessado o crime e chamado a atenção para o anel e o maço de cigarros, encontrados no local do crime, pareceu uma indicação de que, não tendo agido sozinho, recebera a incumbência de inculpar-se. Além disso, foram encontrados quatro pedaços de pau, com sangue e cabelo de Pasolini: por que Pelosi teria necessidade de quatro diferentes bastões para golpear a vítima, experimentando ou trocando sucessivamente suas armas? Finalmente, como explicar que o corpo de Pasolini estivesse todo ensanguentado e Pelosi sujo de sangue apenas na barra da calça e na sola do sapato? Como seria possível que um homem forte como Pasolini não tenha conseguido dominar um rapazinho, ou pelo menos lutado para defender-se? Até a direção do carro estava limpa, não contendo nenhuma mancha de sangue, havendo apenas alguns traços sobre o capô. As feridas do "agressor" Pasolini ainda sangravam doze horas depois de sua morte, seu corpo estava coberto de equimoses e lacerações, enquanto o "agredido" Pelosi tinha apenas uma pequena ferida na testa, proveniente, por certo, de uma batida contra o vidro do carro, ao ser parado pela polícia.

    Dacia Maraini, que entrevistou Pelosi na prisão, saiu convencida de que ele era o assassino, mas não excluiu a possibilidade de mais agentes. No inventário dos objetos encontrados no carro de Pasolini havia uma palmilha para pé de sapato direito que não pertencia nem a Pasolini nem a Pelosi, além de uma malha verde, igualmente sem dono. Graziella Chiarcossi, a sobrinha de Pasolini, havia limpado o carro no dia anterior e nada havia encontrado, o que não exclui, porém, que Pasolini pudesse ter recolhido outro "rapaz da vida" entre a hora da limpeza e a noite do crime, e que aquele tivesse esquecido estes pertences no carro. O que intriga mais é o uso de quatro bastões, provenientes de uma tabuleta verde, partida em duas, e de dois pedaços de madeira, também originalmente apenas um. Uma explicação possível é que Pelosi tenha partido os dois pedaços em quatro de tanto espancar Pasolini. Outra é que não tenha mesmo agido sozinho, que o massacre tenha sido iniciado por terceiros, permanecendo Pelosi apenas assistindo à luta, ou dando alguns chutes, o que explicaria a ausência de sangue sobre si.

    O jornalista Furio Colombo esteve no local do crime e recolheu um depoimento que, apesar de publicado no jornal La Stampa, a 4 de novembro de 1975, não foi levado em conta pela polícia: "Chamo-me Salvetti, disse um homem robusto, com os cabelos brancos - vivo aqui (indica a barraca). Vi como ele estava... Sei quem é Pasolini. Ouvi como ladravam os cães. Vivo aqui. Chamo-me Salvetti. Estou acostumado com esta vida. Acredite. Eram muitos". Furio entrevistara Pasolini um dia antes de sua morte e o cineasta havia sugerido o título da matéria: "Estamos todos em perigo". Outro jornalista, Moreno Marcucci, parece ter encontrado aquela testemunha, que se Ihe apresentou sob o nome de Ennio Salvitti, e que apenas um dia depois afirmou nada ter ouvido durante toda a noite, passada na barraca com a mulher e a filha. Ninguém se lembrou de interrogar a mulher e a filha, nenhum Salvetti ou Salvitti foi convocado pelo tribunal. Oriana Fallaci, numa famosa reportagem para L'Europeo de 15 de novembro de 1975, mencionou a existência de três assassinos: Pelosi e dois jovens que chegaram depois, montados numa motocicleta. Estes teriam espancado Pasolini, e deixado Pelosi sozinho. Aflito, Pelosi passou com o carro sobre o corpo e fugiu. Parece que nas unhas de Pasolini foram encontrados resíduos de pele, que não pertenciam a Pelosi: ele teria tentado, então, desesperadamente defender-se.

    Mas o mistério maior permanece: quem eram esses rapazes? E por que Pelosi nega até hoje a cumplicidade de outros agentes, insistindo em ser o único assassino de Pasolini? (Mauro Volterra, o jovem jornalista que colaborou com a Fallaci na famosa reportagem, especializado em investigar o neofascismo, morreu em 1989, precipitando-se de uma janela de seu apartamento, em circunstâncias nunca claramente esclarecidas.)

    A culpa de Pelosi foi estabelecida em 26 de abril de 1976, e a pena foi de 9 anos, 7 meses e 10 dias de prisão, com multa de 30 mil liras, por homicídio voluntário "em concurso com desconhecidos". Mas a Procuradoria Geral impugnou esta sentença, estabelecendo, enfim, a responsabilidade exclusiva de Pelosi, como forma de encerrar definitivamente o caso, sem esclarecê-lo. Marco Tullio Giordana qualifica, por isso, o assassínio de Pasolini como um "delito italiano", um crime típico de seu país, com as seguintes características:


    1. É um crime significante, que exprime uma mensagem, gera informações, sintetiza uma situação. 2. É um crime semi-impune, que se investiga e se castiga apenas parcialmente, ocultando-se os verdadeiros responsáveis. 3. É um crime fartamente interpretado, pois, devido às próprias falhas do processo, ele se torna aberto às especulações. 4. É um crime mediático, transformado em espetáculo, como uma execução pública que os espectadores devem tomar como um exemplo. De fato, o jornal L'Expresso acabou por divulgar as fotos do corpo mutilado de Pasolini, inescrupulosamente obtidas nos gabinetes dos médicos legistas e da polícia, e publicadas para causar sensação e também para mostrar como um homossexual, que transgride as normas da sociedade, pode acabar se persiste em dar vazão aos seus instintos. Giordana observou ainda que nem o governo nem a presidência da República enviaram qualquer mensagem de condolências para a mãe de Pasolini. Somente o Presidente do Conselho, Aldo Moro, enviou um telegrama, a título pessoal (Três anos mais tarde, Aldo Moro morreu assassinado, em circunstâncias misteriosas, nas mãos das Brigadas Vermelhas, depois de permanecer 55 dias sequestrado).

    Ironicamente, Pelosi recebeu, durante sua prisão, centenas de cartas de admiradores anônimos, algumas cheias de dinheiro, mensagens de solidariedade e até propostas de casamento. Teve sua pena reduzida a 7 anos por "bom comportamento", saiu do cárcere mas foi outras vezes detido por furtos, estupros, tentativas de assassinato. Encontra-se, cumprindo pena, na prisão de Rebbiba, em Roma, pelo roubo de um carro-forte. Continua a declarar, obsessivamente, que não é homossexual e nunca foi garoto de programa. Pretende escrever um livro com sua versão do crime.

    CRIME POLÍTICO?

    Pier Paolo Pasolini é conhecido por fazer um “Cinema político” com críticas e ataques às instituições sociais, representadas pelos poderes econômicos, políticos e religiosos. Sua luta foi contra o conservadorismo e a moral burguesa italiana. A postura marxista de Pasolini foi além da sua filiação ao Partido Comunista Italiano, está presente nos seu filme “Teorema” que ataca a ideologia, a futilidade e a alienação burguesa. No filme “Gaviões e passarinhos”, o cineasta filma com o comediante italiano Totò (1898-1967) uma fábula alegórica da luta de classes, na qual um corvo marxista acompanha um pai e um filho em uma estrada, apresentando de forma simplificada conceitos relacionados à análise e crítica da sociedade burguesa. 

    Pier Paolo Pasolini utiliza-se da alegoria no seu filme mais conhecido e polêmico: “Saló”. A história se passam em 1944 na Itália onde um grupo de quatro senhores, cada um representando uma parcela do poder da sociedade italiana: um presidente de um banco, que representa o poder econômico; um bispo, representando a igreja; um duque, que representa a nobreza e um juiz, que representa o poder judiciário. Eles selecionam um grupo de jovens para serem objetos de tortura e sadismo durantes cento e vinte dias. O filme é dividido em três partes, chamadas de “círculo”: “Círculo das manias” com a satisfação dos desejos sexuais; “Círculo das fezes” com cenas de escatologia, e o “Círculo de sangue” centrado em punições e castigos sádicos. 

    Pasolini é uma figura controversa, amado por uns, odiado e repugnado por outros. Enquanto artista, é um dos mais importantes do século XX, sendo um dos grandes cineastas do seu tempo com filmes importantes para a história do cinema, com os quais o seu nome é propagado para além da cultura italiana influenciando cineastas como Bernardo Bertolucci, Julio Bressane e Abel Ferrara, que dirigiu, prestando homenagens, o filme “Pasolini”, retratando a vida, a morte do homem, do artista. A proposta estética e política de Pier Paolo Pasolini era escandalizar para atacar a moral, utilizando o corpo, a nudez, o sexo, demonstrando o grotesco como forma de denúncia e reflexão. No seu cinema, do desgosto, do mal-estar, surgem a reflexão, universo este que facilmente poderia ter ocasionado seu crime.

    PETRÓLEO

    Um suposto capítulo desaparecido do romance "Petróleo" -livro inacabado de Pier Paolo Pasolini- é apontado como uma das hipóteses para explicar a morte do cineasta. O senador e bibliófilo italiano Marcello Dell'Utri afirmou, no começo de março, que iria apresentá-lo durante a Mostra do Livro Antigo, em Milão. Dell'Utri declarou à imprensa italiana que o texto, que segurou "por alguns minutos, esperando poder lê-lo com calma depois", lhe foi apresentado por uma pessoa cuja identidade não foi, até agora, revelada. "Creio que o capítulo tenha sido roubado do escritório de Pasolini. É inquietante para a ENI [companhia petrolífera italiana], de grande interesse, porque se liga à história do país, a Eugenio Cefis, à morte misteriosa de Enrico Mattei e do próprio Pasolini", disse. Cefis e Mattei são ex-diretores da empresa.

    No entanto, o texto não apareceu e Dell'Utri, reafirmando tê-lo visto, declarou à imprensa que a pessoa que lhe havia prometido o capítulo desapareceu. O anúncio do senador -que é aliado do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi e foi condenado pela Justiça, em 2004, a nove anos de prisão por ligações com a Máfia- motivou especulações sobre o que, de fato, teria ocorrido na noite em que Pasolini foi barbaramente assassinado. Intitulado "Lampi sull'ENI" (Relâmpagos sobre a ENI), o suposto capítulo do livro no qual Pasolini trabalhava quando morreu trataria de questões políticas e criminais envolvendo o conglomerado energético italiano, Eugenio Cefis e Enrico Mattei.
    A primeira edição italiana de "Petróleo" (ed. Einaudi, 1992) tem mais de 500 páginas e foi organizada na forma de "appunti" (anotações) por Graziella Chiarcossi, sobrinha e herdeira de Pasolini, e Aurelio Roncaglia. Estrutura-se como um romance e narra a história de um engenheiro da ENI que tem dupla personalidade -católico e empenhado, de um lado, e sensual e diabólico, do outro. A empresa é descrita como um centro de poder obscuro.

    Além disso, Pasolini discute no livro temas como a mutação antropológica -que, segundo ele, nivelava as diferenças na formação de uma nova burguesia-, o desaparecimento do subproletariado e a identificação dos democratas cristãos com os fascistas. O capítulo desaparecido discutiria a relação entre o então diretor da ENI Eugenio Cefis e atentados ligados à indústria petroleira e tramas internacionais.

    MORTE (2ª VERSÃO ?)

    Pelosi retirou sua confissão em 2005 durante uma entrevista para a TV em que afirma que Pasolini teria sido morto por três outras pessoas, ligadas a um partido neofascista. Pelosi declarou que dois irmãos e um outro homem mataram Pasolini, xingando-o de “veado” e “comunista sujo” enquanto o surravam. Segundo Pelosi, eles frequentavam o ramo Tiburtina do partido neo-fascista MSI.

    "Não matei Pasolini. Hoje não tenho medo. Os que me ameaçaram e ameaçaram minha família estão velhos ou mortos", afirmou.

    A perícia apontou, durante a apuração, a possibilidade de participação direta de outras pessoas na morte do cineasta. 

    Reaberto em 2009 pela polícia de Roma, o caso teria uma nova testemunha que, segundo o jornal "La Republica" do último dia 2, está disposta a declarar que Pasolini não foi morto apenas por Pino Pelosi. 

    Outras versões indicaram que Pasolini teria sido vítima de um chantagista. Um amigo de Pasolini afirmou, por sua vez, que alguns dos rolos do seu último filme, Saló ou os 120 dias de Sodoma, haviam sido roubados e que Pasolini tinha ido encontrar os ladrões. Apesar da polícia ter reaberto a investigação depois da retratação de Pelosi, os juízes encarregados do caso consideraram que não havia base suficiente para continuarem o inquérito. 

    Mas em 2010, o ex-prefeito de Roma Walter Veltroni, exigiu que o caso fosse reaberto “baseado na convergência de circunstâncias estranhas e carregadas politicamente.” 

    Em 1 de dezembro de 2014 foi descoberto vestígios de DNA na roupa que o artista italiano usava na noite de seu assassinato. Bateram nele a sangue frio diante dos meus próprios olhos. Eram romanos. Dois eram os irmãos Borsellino (Franco e Giuseppe, já mortos). Foi vítima de uma emboscada detalhadamente planejada", assinalou Pelosi, solto em 1983. A emboscada foi planejada, segundo a testemunha, para roubar o dinheiro que o artista estava oferecendo em troca de rolos do filme "Saló ou os 120 dias de Sodoma" (1975), que haviam sido roubadas (corroborando com a outra versão acima). O convenceram a ir a Ostia com a desculpa de negociar a venda dos rolos de 'Saló', roubadas um pouco antes. Ele tinha consigo o dinheiro, era uma desculpa para roubá-lo", contou. Pelosi afirmou que na noite do crime, sob a tapeçaria do veículo de Pasolini, havia "três ou quatro milhões de liras que nunca foram encontrados". No local havia "três automóveis, uma motocicleta e pelo menos seis pessoas", que não pôde identificar.

    Pelosi disse que junto do Alfa GT de Pasolini, "havia um Fiat 1.300 e outro Alfa idêntico" ao do diretor de "Desajuste Social" (1961) e de "O Evangelho segundo São Mateus" (1964). Ele testemunhou lembrou que "era uma noite muito escura" mas que após fugir, chegou a ver "duas pessoas Pasolini e o tiravam do veículo". "De onde estava pude escutar Pier Paolo gritar e pedir ajuda, mas logo depois nada", assinalou.

    O assassinato de Pasolini, se não foi político no sentido de uma conspiração neofascista, de uma armadilha montada pela extrema-direita, de um crime planejado e executado por profissionais, a serviço de grupos poderosos, incomodados por suas denúncias, foi político no sentido de demonstrar a verdade das coisas horríveis que ele vinha experimentando em seu corpo, sentindo aí, como nenhum outro intelectual, as transformações pelas quais passava a juventude italiana. Pasolini amava tanto esta juventude que não podia suportar sua mutação, operada pela economia politica. Os últimos livros que leu, ou ainda lia, foram encontrados em seu carro: Sobre o futuro de nossas escolas, de Nietzsche; e 1843 - Cartas do jovem Marx aos seus amigos. O futuro da juventude, sua educação, a revolução da escola e da sociedade foram as suas preocupações, até o fim. O sexo era, para ele, mais do que para outros homossexuais, um instrumento de conhecimento da realidade: graças aos contatos diários que mantinha com os jovens do povo, pode perceber, antes de todos, que eles se convertiam lentamente em jovens criminosos sem identidade, sem esperança e sem escrúpulos, prontos para matar, formando uma camada social favorável a um sistema de terror, exércitos de reserva para o advento do novo fascismo, que chegou, nas últimas eleições italianas, a posições de poder. O assassinato de Pasolini foi um crime político, cuja responsabilidade recai tanto sobre seus agentes diretos quanto sobre o modelo econômico adotado pela sociedade italiana, que, como tantas sociedades agrárias e pouco industrializadas, decidiu enriquecer depressa através do genocídio.

    Pode ser enfim, que seu filme mais pervertido o matou. Portanto, corram e assistam Saló - 120 dias de Sodoma.


    ABAIXO ALGUMAS FOTOS DO BRUTAL ASSASSINATO




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