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    quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

    ORSON WELLES - LANÇAMENTOS PELA VERSÁTIL


    Neste mês a versátil lança algumas obras primas deste ícone do cinema, que atuou mais que dirigiu afim de custear sua singular visão cinematográfica.
    Um grande diretor, com um lançamento à altura. Duas caixas lindas, com cards colecionáveis e extras e mais extras. Aliás os documentários são um capítulo a parte. Para curtir bem o tempo, se deliciando com depoimentos, em especial de Peter Bogdanovich, que fala sobre Welles em extras, discos e épocas diferentes, mostrando o quão genial foi o diretor para sua época.
    Imperdível.

    DISCO 1

    O PROCESSO (The Trial, 1962, 119 min.)

    Com Anthony Perkins, Romy Schneider, Jeanne Moreau, Orson Welles.

    Um homem, Joseph K. (Anthony Perkins), acorda em plena manhã e encontra a polícia em seu quarto. É informado de que será preso. Não lhe apresentam os motivos. O processo corre em segredo. A partir daí K. enfrenta caótica peregrinação. Apontam-lhe pessoas que poderiam influenciar e manipular o julgamento e garantir a absolvição, inclusive um advogado (Orson Welles) antigo, muito versado nos assuntos do tribunal. Ao procurar entender os mecanismos que movem seu processo, K. se torna paranoico e passa a acreditar numa enorme conspiração.

    Baseado no livro homônimo de Franz Kafka, "O Processo" é mais uma excelente realização do grande cineasta Orson Welles.  Além de apresentar uma direção consistentemente boa e de atuar, Welles foi também responsável pela construção do seu ótimo roteiro. Um de seus maiores feitos foi o de conseguir transmitir para a tela a atmosfera sombria e claustrofóbica apresentada na obra kafkiana.


    Fiel a esse clássico da literatura mundial, Welles procura atacar a burocracia desumana inerente aos governos autoritários, no caso representado por um sistema judicial corrupto, com processos que demoram anos a serem resolvidos. Com uma narrativa surreal, várias sequências parecem confusas e de difícil entendimento, o que exige do espectador um maior esforço para acompanhar o desenvolvimento da trama. Além do belo trabalho de Welles, merece atenção a música barroca de Tomaso Albinoni.

    Para começar a tecer de vez sua técnica visual e narrativa, o quadro que abre o filme (cujo à principio parece imparcial e inocente), nos joga a primeira pista (do acordar, tanto de despertar para a vida, ou de abrir os olhos após um sonho ou pesadelo). O nosso personagem protagonista, Josef K (interpretado magistralmente por Anthony Perkins), que nada conhecemos, levanta-se da cama sendo acusado por dois policiais rudes, estranhos e intolerantes, é preso e levado para responder processo, sem aparentemente ter ideia do que é acusado. 


    Nos remete a também obra-prima e pesadelo kafkiano de Hitchcock, O Homem Errado (The Wrong Man, 1956), no qual narra-se a história de um homem comum confundido com um assaltante de banco, que depois acaba sendo preso. Mas enquanto Hitchcock aposta em ratificar o próprio nivel de realidade na decorrência de acontecimentos, do infortúnio crível, Welles resigna qualquer formato de realidade, interessa a denotação da visão de pesadelo, dos absurdos.


    A essência da obra de Kafka permanece com o mesmo vigor no mundo opulento de Welles. A critica para com os atributos de justiça e ética dos processos e julgamentos nos tribunais - remontando ao estado totalitário no qual vivia Kafka. Josef K, passa pelas etapas de seu processo que extrapolam qualquer parcela de imparcialidade e moral, com busca para o motivo no qual está sendo julgado (ao passo que começa a ficar atordoado, á beira da loucura). Crianças dão depoimentos, advogados e juízes são indiferentes, policiais corruptos. O circo está armado. No mais, nada é realmente tangível, a qualidade metafisica da obra é ainda mais dimensional. Nem mesmo do nosso protagonista temos certeza, ele mesmo que se diz sentir-se culpado de coisas que não sabe ao certo se fez e que ao alegar inocência, é respondido "inocente do que?"; seria culpado por não admitir a própria culpa? por falta de humanidade? Subentende-se uma relação com a prima menor de idade. Ademais, Josef K seduz (e é seduzido) por mulheres dúbias afim de propósitos individuais, pondo em cheque a genuinidade de sua "inocência".

    Os ângulos conseguidos por Welles mostram exatamente como o sistema vai engolindo o personagem. Uma obra prima, aliás, mais uma obra prima de Orson.

    Nos extras tem uma cena excluída fabulosa.

    A DAMA DE SHANGAI (The Lady from Shanghai, 1948, 87 min.)

    Com Orson Welles, Rita Hayworth, Everett Sloane.

    Fascinado pela beleza da Sra. Bannister, o marujo Michael vai trabalhar em um iate e acaba envolvido numa complexa trama de assassinato. Fascinante e polêmico filme noir de Welles com uma das cenas mais famosas do cinema.


    Como em muitos outros dos seus filmes, Orson Welles realizou, produziu, escreveu e protagonizou “A Dama de Shanghai” , adaptado do livro de Sherwood King “If I Die Before I Wake” é um dos film-noir mais aclamados da história. De uma imaginação inigualável em termos de realização e complexidade no que toca ao enredo, este é uma daquelas obras que permanecerão para sempre intemporais pelo seu absoluto fascínio.

    O filme é um magnífico exemplo de trama noir clássica, com reviravoltas que acontecem no momento exato e surpresas inimagináveis. Além disso, o filme possui como clímax uma das sequências mais famosas de todos os tempos: a perseguição dentro de uma casa de espelhos. Fotografada de maneira espetacular por Charles Lawton Jr, a cena – infelizmente encurtada pela montagem criminosa da Columbia – serviu de inspiração para inúmeros longas-metragens que vieram depois. A mente do protagonista (uma mistura de desespero, incompreensão e vontade febril de fugir da morte) ganha uma tradução visual estonteante, de tirar o fôlego mesmo. “A Dama de Shanghai” não é o filme que Orson Welles desejava ter feito, mas ainda assim está acima de maioria dos filmes do gênero a que pertence. 

    Interessante que a história não tem muito a ver com o lugar do título a não ser o fato de Elsa ter passado algum tempo lá quando era criança e ter aprendido a língua, conexão com o título que só fazemos bem perto do final. A viagem de iate desde New York até Acapulco é algo digno de uma cinematografia deslumbrante e é engraçado vermos o contraste entre os ambientes de cada área e a atitude fria e preocupada dos personagens. As fascinantes composições visuais, o uso das luzes, sombras e o brilhante trabalho de câmera, com ângulos vertiginosos ou maravilhosos close-ups faciais, complementam esta história de luxúria e traição mas com todo o charme que é requerido pelo estilo noir. Ele carrega consigo a visão negra de um mundo caótico cheio de manipulação, segundas intenções e a atmosfera sombria de um pesadelo que nos absorve de forma inquietante e energética. Uma obra-prima. 

    DISCO 2

    VERDADES E MENTIRAS (F for Fake, 1973, 88 min.)

    Com Orson Welles, Oja Kodar, François Reichenbach.

    F for Fake é um documentário ensaístico, um filme sobre a fraude, a mentira, nos seus vários ângulos. Nesse último filme dirigido por Orson Welles, ele desmistifica um grupo de falsificadores. Elmyr de Hory, perito em cópias de quadros famosos, e seu confidente Clifford, responsável pela biografia de Howard Hughes que é lembrada como a maior falsificação da década de 70. Welles se coloca em meio aos dois e desvenda as verdades e mentiras existentes nos diversos tipos de arte.


    Na filmografia de Welles, é interessante lembrar das sementes que sempre espalhou em seus filmes antes de ensaiar de forma livre e contemporânea sobre o terreno de ficção e invenção - o cinema é uma sala de espelhos tal como no clímax de A Dama de Shanghai (The Lady from Shanghai, 1947), onde não sabemos diferenciar o objeto real do objeto refletido, o que também está presente na própria formação do signo cinematográfico - como o objeto parece tanto com a coisa em si (não é um signo, ou um ícone, um índice ou um símbolo) por ter em si a questão do movimento, a linguagem só pode ser mesmo um construto, podendo ser organizada e codificada, encenada e plasticizada, modelada em tempo e espaço, e como é próprio do seu dispositivo, montada. Em um filme, que é uma recriação, um recorte, mas também é uma distorção, uma estilização, não seria como seu documentário inacabado sobre o Brasil diz - “É Tudo Verdade”, inclusive a mentira?

    No filme, a mentira é uma verdade, materializada e construída, forjada até a incapacidade do observador distinguir. Uma construção. Os paradigmas do cinema - a recriação do real, a reimaginação, os horizontes de drama, de suspense, de crime, o documento investigador e o documento contemplador, o trabalho com o real e o trabalho com o que parece real. Caminhos estéticos e éticos que refletem culturas, políticas, ideias, todos podem ser utilizados, e Welles os utiliza todos, modelando cada característica e ferramenta para levar o cinema, de forma explícita aqui, a encarar sua própria construção.

    Orson como podem ver, era uma pessoa à frente de seu tempo. E os sucessivos problemas com cortes e produtores aliados ao fracassos dos filmes diz muito sobre isto.

    GRILHÕES DO PASSADO (Mr. Arkadin, 1955, 98 min.)

    Com Orson Welles, Peter van Eyck, Michael Redgrave.

    Guy Van Stratten é um contrabandista americano que trabalha na Europa. Numa cena de assassinato, ele ouve um homem prestes a morrer sussurrar dois nomes, dizendo que eles são muito valiosos. Um deles é Gregory Arkadin. Usando essa informação, Guy vai atrás do milionário e quando chega até ele, o próprio Arkadin pede que ele investigue seu passado, sobre o qual ele não tem memória alguma antes de 1927.


    Grilhões do Passado lembra  Cidadão Kane. Novamente, temos a vida de um magnata sendo vasculhada em busca de uma informação/segredo que poderia trazer luz para a compreensão de sua personalidade atormentada. A diferença encontra-se basicamente no “teor” do que é revelado. Sem dar spoilers de nenhum dos dois filmes, podemos dizer que Kane construiu todo um império para depois sentir falta daquilo que ele tinha de mais simples e inocente e que Arkadin, em um ponto intermediário desse processo, procura conservar a qualquer custo o último foco dessa mesma inocência que lhe restou. Se Kane redime-se diante do espectador ao ser apresentado como uma vítima de si mesmo, Arkadin opta por ser o vilão por excelência e arma um jogo diabólico contra Van Stratten no qual é revelado a origem de sua fortuna e exposto suas maiores fraquezas e defeitos.

    Arkadin é, por assim dizer, o “vilão” do filme, mas, quando olhamos bem, há poucos personagens em Grilhões do Passado que não tenham, assim como o título nacional sugere, alguma mancha no passado, algo que possa comprometê-los tanto ou mais do que o segredo de Arkadin poderia prejudicá-lo diante de sua filha ou daqueles com os quais ele negociava. Quando Van Stratten começa a investigar, os podres começam a aparecer e então Arkadin passa a funcionar como uma âncora arrastando todos aqueles personagens para as profundezas de um passado que eles haviam feito de tudo para superar.

    Apesar de utilizar a estrutura narrativa do Cidadão Kane (inclusive no tocante a não-linearidade temporal), Grilhões do Passado possui atrativos suficientes para ser aproveitado em toda sua individualidade, como as excelentes atuações de todos os atores (destaque óbvio para a personificação sombria dada por Welles para Arkadin), o uso inteligente da fotografia preto e branco para criar cenas memoráveis como a da imagem a cima e ao roteiro repleto de reviravoltas que leva a um final surpreendente e, de certa forma, brutal. Se com 25 anos Welles acreditava que era possível “salvar” a história e a alma de um homem procurando conhecer seu interior a partir de seu passado, com 39 pode-se dizer que ele já estava um tanto quanto mais cético a esse respeito.

    DISCO 3

    SOBERBA (The Magnificent Ambersons, 1942, 88 min.)

    Com Tim Holt, Joseph Cotten, Agnes Moorehead, Anne Baxter.

    A bela Isabel reina na mansão Amberson, a mais espetacular de Indianópolis. Isabel ia casar-se com Eugene, brilhante inventor, mas ele a humilhou em público um dia e ela acabou se decidindo por Wilbur Minafer. O casal tem um filho, George, arrogante, invejoso, intratável. Após a morte de Wilbur, Eugene, agora rico fabricante de automóveis, corteja novamente Isabel, que o aceita. George, porém, deseja a mãe só para si e faz de tudo para atrapalhar o namoro. Com a ajuda da tia Fanny, ele provoca e também acaba vítima de uma série de infortúnios que se abate sobre os Ambersons.
    A narração final é Soberba...


    Baseado no romance de Booth Tarkington, “Soberba” é um magnífico e comovente drama do cinema norte-americano do início dos anos 40. Escrito, dirigido, produzido e narrado pelo grande Orson Welles, sua trama gira em torno de uma família problemática, inicialmente a mais rica da região, que termina na miséria. Amores não correspondidos, aversão ao progresso e uma mãe super protetora, à custa de sua própria felicidade, são alguns dos pontos responsáveis pela derrocada de tal família. 

    A exemplo de “Cidadão Kane”, realizado um ano antes, “Soberba” também procura mostrar que a riqueza nem sempre protege as pessoas contra a infelicidade. É interessante notar como a enorme mansão dos Ambersons, uma vez o centro social da cidade, com seus bailes e serenatas, torna-se um monumento abandonado, vazio. Para quem não sabe, vale a pena dizer que, em “Cidadão Kane”, além de interpretar o personagem-título, Orson Welles também o dirigiu, o produziu e foi um dos que assinaram o roteiro. 

    No elenco, Agnes Moorehead nos brinda com um desempenho magnífico que lhe rendeu sua indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, prêmio que perdeu para a atriz Teresa Wright por sua atuação em “Rosa da Esperança”. O segundo melhor desempenho ficou por conta de Tim Holt no papel do problemático George Minafer. Num patamar um pouco mais baixo, acham-se Joseph Cotten, como o galã romântico, Anne Baxter e Dolores Costello, esta última em seu penúltimo filme.

    ENTRETANTO....

    A duração original do filme seria de pouco mais de duas horas e meia, mas devido ao mau desempenho nas bilheterias, excluiu-se mais de uma hora de filme, por ordem da produtora (RKO Radio Pictures), que acreditava na recuperação do prejuízo nos primeiros dias em função deste corte. Por volta de 1942, Orson Welles estava,  no Brasil, filmando um documentário sobre nordestinos e outras coisas, o que mais tarde se tornaria o É Tudo Verdade, um pedaço de filme  maravilhoso e nada americano sobre a America do sul (Também incluso neste lançamento pela Versátil). Por razão dessa viagem, patrocinada pela própria RKO, Welles não pôde estar presente nos cortes de Soberba. Por isso, escreveu um roteiro explicando detalhadamente como a edição deveria ser feita, mais ou menos o que ele fez com Marca da Maldade. Em 1942, Orson Welles não tinha ainda influência, e portanto suas instruções não foram levadas em conta. O resultado, é um assassinato brutal a um trabalho artístico e cinematográfico. 

    Seus objetivos foram muito provavelmente sufocados em prol dos interesses financeiros do produtores. Merece ser visto por fãs do diretor, que tem interesse pessoal em sua difícil trajetória no meio cinematográfico.

    "Soberba me destruiu" - disse Orson Welles 


    Na análise de “Soberba” , durante 20 minutos é contada a jornada de Welles de dirigir dois filmes ao mesmo tempo, e todos os problemas que este fato acarretou para as produções.

    É TUDO VERDADE (It’s all true, 1942/1993, 85 min.)

    Em 1942, Orson Welles veio ao Brasil fazer um filme sobre a cultura local, porém o projeto não foi terminado. Este documentário mostra porque o filme não foi concluído, relatando os problemas que apareceram e mostrando cenas que chegaram a ser gravadas. O governo americano queria a produção para melhorar o relacionamento com a América do Sul, mas nem o estúdio RKO e nem o governo brasileiro gostaram do primeiro material feito. 

    Começa com a fotografia de um bruxo feiticeiro, o qual um breve depoimento de Orson Welles explica que era um bruxo que encontrara no Rio de Janeiro, quando estava dirigindo o documentário, em parte para o governo norte-americano, mas especialmente para a RKO, o estúdio com o qual tinha contrato. Sua tarefa era fazer um documentário em tecnicolor sobre o carnaval brasileiro, o que o levou a pesquisar o surgimento do samba e acreditar que suas origens residiam no misticismo religioso-pagão das favelas. O feiticeiro da fotografia era um bruxo que Welles pretendia filmar num dos rituais com seu grupo, e o qual desapontou ao anunciar depois do convite feito que não poderia realizar a filmagem pretendida porque o estúdio suspendera a produção, por causa da troca na presidência da RKO.

    Magníficos depoimentos de nomes como Grande Othelo e Percy Ribeiro (filho de Herivelton Martins), incluindo um samba cantado por eles. O documentário também faz um relato do momento político brasileiro e o que ele influenciou no cinema.

    O documentário ainda reconstrói, a partir do material bruto encontrado, uma parte de Four Men on a Raft, no qual Welles conta a emocionante história dos jangadeiros cearenses, que conseguiram através de uma viagem incrível pelo litoral brasileiro (e sem bússola, como descrito) até o Rio de Janeiro, e chegar ao Presidente Getúlio Vargas em busca de direitos para a classe. Esta seria a terceira história do inacabado filme.

    Uma tragedia infelizmente ocorreu: em um dia  no porto da Baía da Guanabara cheio de barcos com velas preparado para encenar a chegada triunfal dos jangadeiros ao Rio, uma onda gigante derrubou a balsa dos jangadeiros, naufragando os quatro homens. Um deles jamais apareceu de volta, justamente o líder Jacaré. O acontecimento marcou Welles e sua equipe, e o diretor tomou a decisão de que terminaria o filme, ao mesmo tempo em que já acreditando que a produção estivesse amaldiçoada, provavelmente por causa do bruxo, que ele conta no início. Contra a vontade do estúdio e com uma pequena quantia que servia de orçamento, permaneceu dois meses filmando a história que pretendia contar entre a comunidade de pescadores pobres que até então nunca haviam visto uma câmera. O documentário conta que Welles estava praticamente sozinho, fazendo uma história que amava sobre pessoas por quem se apaixonou. Ao terminar as filmagens, a equipe retornou a Hollywood e Welles foi demitido pela RKO.

    Os últimos cinqüenta minutos do documentário são uma montagem do episódio da aldeia dos pescadores. O interessante é que o mote principal dos filmes "Found Footage", acabou acontecendo na vida real. "As filmagens foram encontradas" literalmente, após a morte de Welles, em 1985. O assistente da produção, Richard Wilson se reuniu com os críticos Bill Krohn e Myron Meisel montar esta indispensável visão de Welles do nosso país, e da bela e triste história dos jangadeiros.

    EXTRAS:

    Análise de “Soberba” (20 min.)
    Entrevista de Orson Welles (31 min.)
    Sobras de filmagem de “Grilhões do Passado” (19 min.)
    Making of de “A Dama de Shangai” (20 min.)
    Comentários em áudio para “A Dama de Shangai” e “Soberba” (175 min.)
    Entrevista de Clifford Irving sobre “Verdades e Mentiras” (9 min.)
    Introdução de Peter Bogdanovich para “Verdades e Mentiras” (6 min.)
    Trailers (22 min.)
    Cena excluída de “O Processo” (6 min.)

    DISCO 1

    OTHELLO (The Tragedy of Othello: The Moor of Venice, 1952, 93 min.)

    Com Orson Welles, Micheál MacLiammóir, Suzanne Cloutier.

    Baseado na peça de Shakespeare – que conta as tramas de racismo, amor, ciúme e traição ao redor do general mouro Othello, sua esposa Desdemona, do tenente Cássio e do sub-oficial Iago – o filme teve uma das filmagens mais complicadas da carreira de Welles, estendendo-se por mais de 3 anos, devido a problemas com financiamento. Para terminar a obra, ele teve que investir dinheiro do próprio bolso. Othello faz grande sucesso na Europa – ganhando a Palma de Ouro no Festival de Cannes –, mas foi praticamente ignorado nos Estados Unidos. Mais tarde, em 1978, lançaria o documentário Filmando Othello, sobre os bastidores turbulentos do filme.


    Othello é uma produção suntuosa, na qual a virtude está a serviço da expressividade perseguida por Welles, aliás, marca registrada de seu cinema barroco por excelência. O contraste entre luz e sombra é quase onipresente, algo que traz para o plano visual o embate que se adensa no interior de Otelo. As palavras maldosas e as manipulações de Iago, assim como as falsas evidências da infidelidade de Desdêmona, inflamam os ciúmes de Otelo, antes um homem tão devotado ao amor quanto à causa da república, depois alguém devastado pela humilhação, sentindo-se apunhalado pela fonte do carinho responsável por amenizar sua rotina de guerra. Incitado cada vez mais por Iago, o Mouro não vê outra solução para ter restituída a honra, senão a morte de Desdêmona.

    Grande filme, Otelo expõe a ourivesaria de Welles no que diz respeito à imagem, à montagem - muitas vezes invisível, por conta do uso engenhoso da profundidade de campo, - e à exploração eficaz da palavra. O cineasta mantém, como sinal de reverência, a beleza da prosa shakespeariana, contribuindo com sua capacidade de significar por meio dos aspectos visuais. Como ator, Welles encarna Otelo nas dimensões ternas e nefastas, valendo-se de seus recursos dramáticos, nascidos no rádio e no teatro (onde muito encenou a obra do Bardo), aprimorados no cinema, para mostrar essa oscilação que possibilita o embate violento entre carinho e ódio. O olhar apaixonado dá lugar à fúria, estado reiterado pela voz estrondosa de Welles, outro dos elementos que conferem ao protagonista o status de força da natureza, a quem apenas a morte ou o amor podem influenciar determinantemente.

    Há uma pequena pausa durante Othello, para contar uma história de fantasmas. Com a introdução de Peter Bogdanovich, este curta metragem é imperdível para os pesquisadores dos trabalhos de Orson Welles.

    FALSTAFF: O TOQUE DA MEIA-NOITE (Campanadas a medianoche, 1965, 116 min.)

    Com Orson Welles, John Gielgud, Jeanne Moreau, Margaret Rutherford.

    O cavaleiro bêbado e glutão Sir John Falstaff é um grande amigo do herdeiro do trono da Inglaterra. Juntos os dois se divertem, correm riscos, bebem e desenvolvem uma intensa relação. Quando o príncipe assume o trono e se torna Henrique V, Falstaff vislumbra mudanças. E elas acontecem. Grande Prêmio Técnico no Festival de Cannes.


    Neste filme nos encontramos com dois grandes nomes da arte de contar histórias: Orson Welles e William Shakespeare, deixando a difícil arte de fazer crítica frente a algo criado por eles. Assim, Falstaff é um personagem criado pelo dramaturgo inglês para suas peças, um fanfarrão e boêmio e que nesta obra acompanha o filho do rei inglês em sua adolescência, rumo à coroa. A história mostra como esta amizade dá prazer ao jovem príncipe e em como o gorducho e boêmio Jack Falstaff se alegra de ter perto de si o filho de um rei o qual não tem nenhuma estima. O ponto alto do filme se dá com a decepção de Falstaff com seu pupilo, levando-o à profunda melancolia. E, além disso, todas as cenas são feitas como se estivéssemos lendo Shakespeare e seu texto clássico, por vezes, confuso e metódico, mas profundamente poético. 

    Lançado em 1965 contém cenas super produzidas, como a sequência do embate entre as tropas na guerra, digna de grandes filmes mais atuais. Já Welles como ator não deixa nada a desejar, ele se entrega, deixa correr em suas veias o texto de Shakespeare e nos brinda com um personagem autêntico e fugaz. Aliás, Welles foi muito mais ator do que diretor em toda sua longa carreira, já que muita gente não gostava de financiar as polêmicas envolvidas em seus filmes, conseguindo assim, viver mais como ator do que como diretor. É uma obra que vale a pena ser vista com a mente aberta e os ouvidos atentos ao texto que habita os diálogos.

    DISCO 2

    MACBETH: REINADO DE SANGUE (Macbeth, 1948, 118 min.)

    Com Orson Welles, Jeannete Nolan, Dan O’Herlihy.

    Macbeth e Banquo voltam a cavalo de uma vitória militar quando se deparam com três misteriosas bruxas no caminho. As estranhas criaturas fazem previsões sobre o futuro da dupla e Macbeth acredita nelas quando a primeira se realiza quase que imediatamente pelo fato do arquiduque de Cawdor ser preso por traição e o ducado ser dado a ele que passa assim a ser o novo arquiduque. Macbeth conta de uma outra previsão, a de que se tornará rei, à Lady Macbeth, e os dois passam a tramar a morte do Rei Duncan. Quando o Rei chega ao castelo de Cawdor para assistir a execução do arquiduque traidor, a esposa de Macbeth prepara uma poção que misturada ao vinho fará os guardas dormirem embriagados. À noite a poção fez efeito e o casal assassina o Rei, colocando a culpa nos servos dele. Macbeth se torna o Rei da Escócia mas é atormentado por outras previsões das bruxas sobre a sua derrota e na tentativa de evitá-las, provoca a loucura dele e da rainha e com isso comete uma série de assassinatos sanguinários.


    Em 1947, Orson Welles queria filmar um drama de Shakespeare e tentou convencer investidores a financiarem uma adaptação de Otelo. Sem conseguir esse objetivo, ele mudou para Macbeth cuja história definia como "uma mistura perfeita de Wuthering Heights e A Noiva de Frankenstein."

    Apoiado pelo produtor Charles K. Feldman, Welles conseguiu convencer Herbert Yates, fundador e presidente da Republic Pictures, a fazer o filme. Yates queria trazer mais prestígio para o estúdio que crescera com os filmes de Roy Rogers e outras produções de baixo orçamento. Tentativas anteriores foram o filme de Gustav Machaty chamado Jealousy (1945) e a de Ben Hecht, Spectre of the Rose (1946). A oportunidade de contar com Welles representava para ele um grande salto artístico.

    Apesar da intenção, Yates não ofereceu um grande orçamento para Welles. O diretor concordou em filmar Macbeth em três semanas ao custo de 700 000 dólares. Welles se comprometeria ainda a arcar com custos adicionais de seu próprio bolso. Welles tinha sido chamado para dirigir um espetáculo na época chamado de Voodoo Macbeth em 1936, apresentado em Nova Iorque e que contava com um elenco de atores negros e novamente encenado em 1947 em Salt Lake como parte do Centenário de Utah. Ele aproveitou aspectos dessas produções em sua adaptação.

    Macbeth foi a quarta adaptação de Hollywood pós-cinema falado de uma peça de Shakespeare: a United Artists lançara The Taming of the Shrew em 1929, a Warner Brothers fez A Midsummer's Night Dream em 1935 e a Metro-Goldwyn-Mayer produziu Romeu e Julieta em 1936. Nenhuma dessas tentativas alcançou êxito nas bilheterias até que Laurence Olivier com Henrique V (produzido na Grã Bretanha em 1944 mas lançado nos Estados Unidos somente em 1946) obtivesse prestígio e sucesso comercial e isso impulsionara o projeto de Welles.

    Welles seria Macbeth e pensou em Vivien Leigh para Lady Macbeth mas desistiu quando ela se casou com Laurence Olivier. Outras atrizes cogitadas foram Tallulah Bankhead, Anne Baxter e Mercedes McCambridge até que Jeanette Nolan, uma atriz de rádio sem experiência no cinema ou teatro, fosse a escolhida. Welles trouxe o ator irlandês Dan O'Herlihy para o seu primeiro papel nos Estados Unidos e incluiu ao elenco o astro-mirim Roddy McDowall. O filho dele, Christopher, interpretou o filho de Macduff e essa foi a única aparição dele num filme.

    MUDANÇAS

    Ao levar Macbeth para o cinema, Welles fez muitas mudanças no texto de Shakespeare. Ele aumentou a participação das Três Bruxas na história e elas carregam um boneco de barro de Macbeth, usado para simbolizar a ascensão e ruína dele. A frase final também é falada por elas: "Peace, the charm's wound up" (no texto original essa frase está no primeiro ato, durante o primeiro encontro das bruxas com Macbeth).

    A maior mudança foi a introdução por Welles de um novo personagem, o Homem Santo. Ele recita a oração de São Miguel. Welles mais tarde explicou a presença dele como (tradução aproximada) "...o ponto principal que era o confronto entre a antiga e a nova religião. Eu via as bruxas como representativas da religião pagã dos druidas, suprimida pelo cristianismo".Há também a sugestão de que Lady Macbeth esfaqueara o Rei Duncan antes do ataque de Macbeth e ele depois testemunha a cena de sonambulismo e loucura da mulher (na peça, Macbeth não está presente).

    Extras:

    Documentário sobre “Othello” (46 min.)
    “Macbeth Maldito” (25 min.)
    Welles & Shakespeare (14 min.)
    Curta-metragem “O Retorno a Glennascaul”, de Hilton Edwards (1951, 26 min.)

    Visto todos os filmes e extras, não há mais o que dizer sobre Welles. Ele foi "o cara".


    A grata surpresa fica pro final. Depois de algumas pesquisas descobri que várias cópias são versões diferentes das lançadas em VHS. Versões com minutos extras, como anuncia em uma das cópias. Vale a redescoberta destas edições.

    Alguns cinéfilos, como eu, amam versões alternativas.

    Clique no link abaixo e veja o que Rubens falou sobre esta última caixa

    Rubens Ewald Filho

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