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    FILME NOIR VOL.4 - LANÇAMENTOS PELA VERSÁTIL

    Um pouco de história


    Em 1946, o crítico francês Nino Frank identificou semelhanças estéticas em filmes norte -americanos dos anos 1930 e 1940 e os batizou de filmes noir. Estes filmes teriam surgido no final da década de 30, pouco tempo depois da crise da bolsa em 1929, como um reflexo da recessão que assolava os EUA e criava um ambiente propicio para o crime. Os jovens críticos franceses da revista Cahiers du Cinema (entre eles Godard e Truffaut) adoraram o termo e passaram a utilizá-lo com frequência, levando o conceito de film noir para os EUA, onde eram muito respeitados.

    AS 6 FICHAS COLECIONÁVEIS DO DIGISTACK
    Sobre o termo film noir (do francês, filme preto) podemos dizer que foi atribuído pela primeira vez a um filme pelo crítico francês Nino Frank em 1946. O termo era desconhecido dos diretores e atores enquanto eles “criavam” os films noirs clássicos.

    Com forte influência do expressionismo alemão, o filme noir apresenta uma estética formalista que subverte a realidade para expressar visualmente os sentimentos de autores e/ou personagens, neste caso através dos ambientes sombrios, que, paradoxalmente, situavam-se em lugares realistas, normalmente em grandes cidades, mas sempre num submundo repleto de sujeira e cinismo. Personagens ambíguos e de caráter duvidoso, como os detetives e as femmes fatales, são típicos do universo noir.

    Com seus longos sobretudos cinzentos, chapéus, cigarros no canto da boca e copo de uísque na escrivaninha, os detetives são marca registrada do gênero, mas ventiladores que circulam o ar nos escritórios, femme fatales, policiais corruptos e gatos caminhando entre latas de lixo também são elementos visuais que remetem à estética noir.

    LEIA MAIS SOBRE FILME NOIR AQUI: O QUE É UM FILME NOIR


    A versátil lança 6 obras marcantes de suas respectivas épocas, como vemos à seguir. Quem quiser comprar, é só acessar o link direto do site aqui: ME COMPRE E ME ASSISTA

    E atenção, nos nomes dos diretores abaixo estão links de suas respectivas filmografias (e biografias em alguns casos) para conhecerem mais de suas obras.

    RIFIFI 

    (Du rififi chez les hommes, 1955, 118 min.)

    De Jules Dassin. Com Jean Servais, Carl Möhner e Robert Manuel.


    Tony Stephanois acabou de sair da prisão e está irritado por causa da infidelidade de sua garota. Ele resolve se juntar a seus colegas, Jo e Mario, no planejamento de um ambicioso assalto a uma joalheria. Cercado de uma execução meticulosa, as coisas começam a dar erradas quando um dos integrantes do grupo comete um erro no momento em que tudo estava quase terminado...

    ANÁLISE CRÍTICA:

    Na minha modesta opinião, um dos 100 melhores filmes do cinema, e um dos 5 melhores noir.

    É a história, ou melhor, a radiografia de um grande assalto, desde os antecedentes, os preparativos, até tudo o que ocorre depois. É da mesma linhagem nobre, portanto, de outros belos filmes. John Huston fez O Segredo das Jóias/The Asphalt Jungle, em 1950. Depois veio este Rififi, de 1955. Stanley Kubrick fez O Grande Golpe/The Killing, em 1956. Henri Verneuil fez Os Sicilianos/Le Clan de Siciliens, em 1968. E, em 1970, Jean-Pierre Melville fez O Círculo Vermelho. OK, no filme de Kubrick não são jóias, é dinheiro vivo, mas o princípio, em todos eles, é o mesmo: a anatomia de um crime, de um grande assalto.

    O próprio Dassin voltaria ao tema em Topkapi, de 1964 – e não pode haver dois filmes sobre roubo de jóias mais diferentes entre si do que Rififi e Topkapi. Este último é colorido, alegre, brincalhão. O planejamento, o roubo, tudo é uma grande brincadeira para seus participantes. Rififi é o oposto: é preto-e-branco, é noir até a medula, é tenso, duro, pesado.

    Dassin havia sido posto na lista negra do macarthismo, acusado de comunista, ou filo-comunista, depois de ter feito elogiadíssimos filmes noir, barra-pesadas: Brutalidade, Cidade Nua, Mercado de Ladrões, Sombras do Mal. Exilou-se em Londres, depois em Paris. Paris é uma personagem importante de Rififi. Há diversas sequências passadas nas ruas da maravilhosa cidade, nas grandes avenidas da área central, em ruelas de bairros mais afastados. Diversas vezes a câmara, colocada em um carro, vai percorrendo a paisagem parisiense.


    O protagonista, Tony le Stéphanois (Jean Servais, então um dos maiores astros do cinema francês), um homem aí de uns 50 e tantos anos, acabou de passar cinco anos preso. Desfruta os primeiros dias de liberdade jogando baralho num quarto fechado nos fundos de um bar, fumando muito. Quando o dinheiro acaba, pede socorro ao amigo Jo (Carl Möhner), antigo colega de profissão, agora casado com Louise (Janini Darcey) e pai apaixonado de um filhinho de uns cinco, seis anos, Tonio (Dominique Maurin).

    Jo e seu amigo italiano Mario (Robert Manuel) planejam roubar uma grande joalheria, próxima da Place de la Concorde, o lugar que reúne as mais elegantes joalherias do mundo. O plano deles é, durante o dia, na hora do almoço, de pouco movimento nas ruas, fazer um corte no vidro da vitrine e roubar duas ou três peças, rapidamente. Querem que Tony participe do golpe, mas ele a princípio não se interessa, diz que está velho, cansado.

    Depois de encontrar sua mulher com outro, o anti-herói quer realizar o maior assalto da história. O interesse de Tony, naquele momento, é rever sua mulher, Mado (Marie Sabouretm na foto). Fica sabendo que Mado agora está com outro homem, Pierre (Marcel Lupovici), dono de um cabaré, quase um prostíbulo, na região de Montmartre. Vai até lá, encontra Mado, leva-a para o pequeno apartamento onde está morando e…

    Não, melhor não revelar o que se passa ali; apesar de estarmos ainda bem no início do filme, é uma seqüência chocante, impressionante, e revelar o que se passa nela seria um spoiler. Mas é necessário dizer que é extremamente bem filmada, essa seqüência noir, cruel – toda feita sem nada explícito, mostrando os fatos sem os mostrar às claras. Depois do reencontro com Mado, Tony muda de ideia. Agora não só aceita participar do roubo à joalheria, como quer que seja não um rápido furto de algumas peças: quer que seja um grande assalto, para levar as jóias mais preciosas, as que estão guardadas num grande cofre.

    Para um trabalho de tal vulto, será necessário mais um homem, e Mario tem o nome certo: Cesare, também italiano, um homem que tem a fama de que nenhum cofre resiste a ele – e ele não resiste a nenhuma mulher. Cesare é interpretado pelo próprio Jules Dassin, que se escondeu – como se isso fosse possível – sob o pseudônimo de Perlo Vita.

    A sequência do grande roubo, que está bem na metade do filme, dura mais de 25 minutos, e é extraordinária, antológica. São mais de 25 minutos sem uma única palavra, em silêncio quase total. A música de Georges Auric pára no momento em que o assalto se inicia. Vemos, em silêncio, todos os detalhes da ação. Ouvimos apenas os ruídos produzidos pelas ferramentas – ruídos surdos, suaves, para que o roubo não seja descoberto. O assalto a uma joalheria da Place de la Concorde de O Círculo Vermelho/Le Cercle Rouge, que Jean-Pierre Melville faria em 1970, se parece com esta seqüência impressionante de Rififi, feito 15 anos antes.

    Os acontecimentos que se seguem ao assalto, a trama, a história, é tudo um brilho.O livo que deu origem ao filme popularizou a palavra rififi. Rififi se baseia no livro que tem o mesmo título do filme no original, Du Rififi Chez les Hommes, e que havia sido lançado em 1953, dois anos antes de o filme ser produzido. Foi o segundo livro publicado por Auguste Le Breton.

    Le Breton nasceu em 1913; seu pai foi morto na Primeira Guerra em 1915. Abandonado pela mãe, foi parar em orfanatos, ou “centros de educação vigiada” – autênticas prisões, quase campos de concentração. O primeiro livro que publicou, Les Hauts Murs, os muros altos, era exatamente um relato autobiográfico sobre sua trágica experiência nesses “centros de educação vigiada”. O livro deu origem a um filme excelente, duríssimo, barra-pesadíssima, dirigido por Christian Faure, de 2008, que no Brasil teve o título de Entre os Muros da Prisão. Depois de passar anos naqueles orfanatos-prisões, tinha tudo para virar um marginal, um bandido. Virou escritor. Escreveu cerca de 70 livros, muitos deles histórias policiais, com gangsteres, bandidos de diversos tipos, deserdados da fortuna.

    Diversas de suas obras foram adaptados para o cinema, depois deste Du Rififi Chez les Hommes – em que ele colaborou como co-roteirista e autor dos diálogos. Le Clan des Siciliens, obra de 1967, foi transformada em um ótimo filme por Henri Verneuil em 1969, que aqui teve o título de Os Sicilianos. Le Breton morreria, aos 86 anos, em 1999. Tem-se que foi Le Breton que criou a expressão rififi – criou, ou no mínimo foi o primeiro a divulgá-la na linguagem escrita. A partir do livro, e do filme, palavra se universalizou. Está no Aurélio como sinônimo popular de “rolo”. Para o filme, foi composta uma canção que apresentava a palavra “rififi” às pessoas mais cultas, que não a conheciam. “La Chanson Le Rififi”, de M.Philippe-Gérard e Jacques Larue, é cantada no cabaré-inferninho de Pierre, o novo marido de Mado, por uma das moças que trabalham lá, Viviane (interpretada por Magali Noël, na foto, num papel que transpira sexo).

    Cesare, o arrombador de cofres importado da Itália para fazer o serviço com a quadrilha, irá se apaixonar perdidamente por Viviane. E o advérbio perdidamente é literal. Muito do que acontecerá após o grande roubo terá muito a ver com a paixão do italiano que não resiste a uma bela mulher pela cantora do cabaré – assim como tem a ver pela paixão (e ódio) de Tony por Mado.

    Jules Dassin ganhou o prêmio de melhor diretor por Rififi no Festival de Cannes de 1955. E o filme ganhou todos os elogios possíveis da crítica no mundo inteiro. Diz Georges Sadoul, em seu Dicionário de Filmes: “A seqüência que fez, legitimamente, o sucesso do filme foi aquela quase documentária, da perfuração do teto e do cofre-forte, sem que se pronunciasse uma só palavra, o que tornou tanto mais eficiente a montagem dos ruídos.” Sadoul foi muito econômico. Já o Guide des Films de Jean Tulard se derrama – diz que se poderia falar sobre o filme durante horas, e se estende longamente sobre ele. Alguns trechos:

    “Du Rififi Chez les Hommes é o filme da renovação. Renovação do thriller psicológico à francesa, ele demonstrou que a arte e a ladroagem podem resultar num bom casamento. Nova arrancada após uma travessia do deserto de quatro anos de Jules Dassin, caçado pelos estúdios americanos no macarthismo, acolhido na França por H. Bérard, um produtor inteligente. Se os diálogos e os atores fazem de Rififi um filme tipicamente francês, é no entanto uma oportunidade de Dassin filmar um de seus thrillers neo-realistas de que ele tinha a receita em Hollywood: a mesma atmosfera sombria e pessimista, o mesmo sentido do absurdo… Simplesmente, as ruas (talentosamente filmadas) de Paris ocupam o lugar daquelas de Nova York ou San Francisco. Retorno ao primeiro plano igualmente de Jean Servais (na foto abaixo), na época relegado a um relativo esquecimento. Rosto devastado, voz cavernosa que deixa passar com reticência entre dois lábios contraídos, ele é a imagem viva do fracasso.”

    A imagem viva do fracasso! É exatamente isso que passa Jean Servais (1910-1976), mais um de tantos grandes nomes das artes francesas nascido na Bélgica – como Jacques Brel, Georges Simenon.

    E agora, um pouco do belo texto de uma americana, Pauline Kael: “Um quarteto de ladrões arromba uma joalheria e durante uma tensa meia hora os vemos trabalhar, em silêncio. Parece um documentário muitíssimo hábil sobre como desligar um alarme contra arrombamento e abrir um cofre, e isso é absorvente do começo ao fim, porque vemos os assaltantes como artesãos e celebramos o trabalho de equipe, a elegância, o triunfo deles. Por ironia, nos encontramos simpatizando com seu cansaço honesto após a empreitada desonesta. Daí em diante, o filme, feito na França pelo diretor americano Jules Dassin, segue a tradição de Scarface, Inimigo Público e O Segredo das Jóias (e de Macbeth, anterior a eles), levando as figuras trágicas, acuadas (agora símbolos de nossos próprios instintos anti-sociais), a um acabamento cadavérico. Ao longo do percurso, Dassin mantém as coisas ativamente perversas, com aparições instantâneas de prostitutas do submundo, drogados e um assassino, um sequestro e um (aqui corto fora uma informação que considero spoiler). Rififi é o avô de uma enxurrada de filmes de suspense sobre como desmontar sistemas de segurança e invadir bancos e museus, mas sua distinção particular está no tom sórdido.”

    O livro 501 Must-See Movies diz que Rififi foi fotografado lindamente: “Nenhum estúdio poderia substituir aquelas ruas, cafés e bares. A fotografia preto-e-branca cria um estilo maravilhoso e captura o clima da paris dos anos 50. O assalto em si é um grande exemplo da arte de fazer cinema.”
    É isso aí. Um grande clássico, que merece todos os elogios que recebeu.

    Nos extras há uma entrevista preciosa com Jules Dassin.

    POR AMOR TAMBÉM SE MATA

    (He Ran All the Way, 1951, 77 min.)

    De John Berry. Com John Garfield, Shelley Winters e Wallace Ford.

    Após um assalto que acaba com a morte de seu parceiro e de um policial, o criminoso vivido por John Garfield acaba se escondendo na casa da tímida Peg Dobbs (Shelley Winters) enquanto procura por uma chance de escapar da policia, assim fazendo sua família de refém.

    CONSIDERAÇÕES SOBRE O PERÍODO

    Filme produzido durante o período de atividades do Comitê de Investigação de atividades anti-americanas, o filme conta com vários atores investigados, o que lhes custou suas carreiras.

    O roteiro foi de Dalton Trumbo e Hugo Endore, investigados pela comissão, assim como o diretor do filme.  Endore entrou para a lista negra de hollywood.

    John Berry foi investigado pelo documentário que defendia "os dez de hollywood", que acabou fugindo para a França onde continuou a carreira.

    O ator John Garfield, que na caixa dos FILMES NOIR VOL. 4 está em 4 filmes, foi o exemplo mais conhecido desta "caça às bruxas". O ator negou ser comunista ou se relacionar com eles, mas a investigação fez com que os estúdios não o contratasse mais, Ele viu sua excelente carreira ser arruinada, sendo que faleceu logo após a produção de "Por amor também se mata" (péssimo título que dá um importante spoiler, aliás), aos 39 anos, de infarto.

    Produzido num clima tenso, o filme reflete isto. Outros participantes da produção também passaram por este problema.

    ENTENDA O MACARTHISMO PARA SITUAR O FILME

    Macarthismo foi um movimento iniciado nos Estados Unidos em 1951 pelo senador Joseph McCarthy, esse movimento tinha como finalidade perseguir as pessoas que eram a favor do comunismo, e também as pessoas que realizavam atividades anti norte-americanas. Esse intenso movimento deu-se por causa da política norte-americana, e a disputa entre os Estados Unidos e a União Soviética na Guerra Fria pela hegemonia do planeta após a Segunda Guerra Mundial.

    Tudo começou com o surgimento da lei Lei MacCarran-Nixon, de 1950. Essa lei exigia o que todas as organizações simpatizantes do comunismo se registrassem. McCarthy era o responsável pelas subcomissões de investigação do Senado, que realizavam uma ''caça às bruxas''.

    Até que houve a explosão da primeira bomba atômica soviética. Essa explosão pôs fim ao monopólio atômico norte-americano, dando a vitória aos chineses que eram dirigidos pelo Partido Comunista. Esse partido buscou criar um clima de terror aos norte-americanos, ameaçando-os de um ataque atômico contra o seu território. Isso fez com que os Estados Unidos ativasse um moderno tribunal que se chamava "Comitê de Atividades Anti americanas". Foi aí que o senador Joseph McCarthy conseguiu ser a figura chave do anti comunismo, nesse período o cinema e a arte tornaram-se um dos alvos principais dos "caçadores de comunistas". Daí veio o termo ''caça as bruxas''. Muitos cineastas passaram a ser interrogados levando muitas carreiras a ser destruídas, mas no final das contas apenas dez pessoas foram presas, esse fato ficou conhecido como "Dez de Hollywood". (citado acima)

    McCharty fez o que ninguém esperava, ele traiu o próprio país ao investir violentamente contra o próprio governo republicano e o exército, até que o senador foi afastado. Mas além de deixar sua marca na história, ele nos deixou os seus dois seguidores o inquisidor-mor Richard Nixon e o delator Ronald Reagan. Embora o Bush não tenha feito parte diretamente do acontecimento ele busca todo o tempo ressuscitá-lo.

    Todos pensavam que o macarthismo havia acabado até que uma nova legislação foi aprovada nos Estados Unidos, com o objetivo de combater o terrorismo. Só que não são os comunistas mas, agora são os pacifistas. Bush estabeleceu um novo macarthismo, que só foi possível por causa do terror. Hoje podemos ver o medo que o governo norte-americano busca transmitir através da mídia. O governo americano busca aumentar o nosso medo e consequentemente a paranoia de querer melhorar o mundo de algum jeito.

    Há um incrível documentário no box: os 10 de hollywood, que mostra os acontecimentos citados acima.
     .
    CORPO E ALMA 

    (Body and Soul, 1947, 104 min.)

    De Robert Rossen. Com John Garfield, Lilli Palmer e Hazel Brooks.

    Charley Davis revela-se um prodigioso talento nos ringues amadores. Não tardam em surgir à sua volta vários empresários de uma área mais profissional. Para Charley é uma oportunidade irrecusável de ganhar dinheiro e sair da vida pobre que sempre teve.

    Mas o sucesso rápido, o dinheiro fácil e os jogos sujos daquele meio acarretam um preço a pagar – mãe, a menina amada, amigos e… a alma.

    CONSIDERAÇÕES SOBRE O FILME

    Brilhante combinação de film noir, drama humano e visão de um mundo desportivo, admiravelmente fotografado, escrito e interpretado. Para além de uma “reportagem” sobre o mundo dos ringues, o filme é, em primeiro lugar, uma viagem à alma de um homem que usa (e deixa usar) o corpo para a sua afirmação como indivíduo. Para Charley, o derradeiro combate não será apenas aos murros no ringue, mas o redescobrir da sua alma para mostrar a sua essência de campeão (humano). É esta a essência do filme. É esta a essência dos campeões. É esta a essência do bom Cinema.

    Fantástica fotografia de James Wong Howe (atenção à imagens nos ringues e à forma como a câmara se "participa" dos combates). Exemplar argumento do grande Abraham Polonsky (um senhor que sempre soube escrever muito bem sobre o interior do ser humano e que dirigiu o filme a seguir). Impecável realização do sempre excelente Robert Rossen (que nos daria depois outro admirável filme passado no mundo do jogo – “The Hustler”, sobre o bilhar, com um superior Paul Newman). Fabuloso John Garfield, a carregar todo o peso da dilaceração física e emocional do seu personagem. Encantadora Lilli Palmer, verdadeiro ânimo de alma para o protagonista. Stallone e Scorsese foram buscar aqui (muitas e boas) ideias para as suas obras-primas.

    LEIA AQUI "FILMES SOBRE BOXE"


    A FORÇA DO MAL

    (Force of Evil, 1948, 78 min.)

    De Abraham Polonsky. Com John Garfield, Thomas Gomez e Beatrice Pearson.

    John Garfield, na melhor performance de sua carreira, retrata Joe Morse, um advogado ambicioso que representa os interesses de Ben Tucker (Roy Roberts) - chefe da organização criminosa de jogo de azar que planeja monopolizar o jogo em Nova Yorque.

    Para isso, a organização executa um golpe ousado que faz muitas vítimas, sendo uma delas o irmão de Joe. Dividido entre interesses financeiros e a vida do irmão, Morse é capaz de tudo.

    CONSIDERAÇÕES SOBRE O FILME

    Com “A Força do Mal”, filme baseado no livro de Ira Wolvert, Abraham Polonski traça um retrato negro da América onde até os homens bons (como Leo Morse) vivem do pequeno crime, aceitando-o como parte da vida. Tendo John Garfield como protagonista, Polonski conta uma história de descidas, onde a força do mal que dá título ao filme é a ganância e ambição que parecem tudo corromper. É por isso um filme fortemente politizado, mostrando a luta de vários bandos de gangsteres (subentendendo-se as suas ramificações políticas), dos que são apanhados no meio, e dos que vivem nas áreas cinzentas da lei, como Leo e os seus empregados.

    Mas é principalmente exemplo Joe Morse (Garfield) que, na sua amoralidade, se julga triunfante e intocável, tendo subido acima do irmão Leo (Thomas Gomez), que o educara e vestira após a morte dos pais. Agora Joe pode mostrar o seu dinheiro e roupas caras, com escárnio para a vida modesta de Leo. O monólogo de Joe acerca da imoralidade de se fazer o bem a troco de nada, é talvez o mais emblemático de todo o filme, distorcendo a lógica do politicamente correto, com o seu cinismo prático.

    Mas existe uma força que suplanta esta força do mal, que é a força do amor, o amor fraternal entre Joe e Leo, e o amor romântico, entre Joe e Doris (a estreante Beatrice Pearson, num notável desempenho). É ao ver-se pelos olhos de Doris que Joe questiona o seu mundo, pois ao ver-se pelos olhos da mulher que começa a amar, Joe vê-se pela primeira vez pelos olhos do irmão, que hostiliza, mas a quem quer bem, e cujo infortúnio despoletará nele a necessidade de mudança. É através dessa redescoberta que Joe merecerá a redenção, simbolicamente mostrada quando aceita a mão de Doris e volta a subir.

    E se as descidas do filme nos são mostradas nas várias mortes, temos ainda as descidas literais. Por isso são-nos dadas a ver inúmeras escadarias, as quais se associam a momentos de descida dos personagens, seja aquando de uma rusga policial, ou na bonita sequência final quando Joe (na voz off com que conduz o filme) nos confessa que parece descer até ao inferno. Ainda nessa cena de descida, a minúscula presença de Joe contra uma parede abissal, recorda o filme “A Morte Cansada” (Der Müde Tod, 1931) de Fritz Lang, e esse é apenas um exemplo da influência do Expressionismo Alemão neste filme.

    “A Força do Mal” é, aliás, um dos Film Noir que mais fortemente evoca a estética do cinema expressionista, seja nas diferentes escadas e suas sombras geométricas, nos planos estilizados da cidade (note-se o enquadramento da ponte na sequência final), nas imagens em contraluz, no uso repetido de silhuetas, e no quase omnipresente chiaroscuro   (palavra italiana para "luz e sombra") em que as cenas de maior tensão são filmadas.

    Mas mais que um artifício técnico, “A Força do Mal” vale pela alegoria com que a sociedade moderna nos é mostrada, e pela excelente interpretação de John Garfield. O filme tem recebido inúmeras referências da parte de cineastas modernos, incluindo Martin Scorsese que lhe reconhece influência na sua obra.

    REDENÇÃO SANGRENTA

    (The Breaking Point, 1950, 97 min.)

    De Michael Curtiz. Com John Garfield, Patricia Neal e Phyllis Thaxter.

    O filme é centralizado no barqueiro Harry Morgan, que é pressionado por suas dívidas e sua necessidade de sustentar a família, a aceitar contratos suspeitos.

    O agenciador destes contratos passa a chantagear Morgan, o que o leva a situações a cada dia mais difíceis. Até o ponto de ruptura do título original.

    O roteiro foi baseado num conto de Ernest Hemingway, To Have and Have Not. A cena ambientada no bar tem John Garfield e Patricia Neal, que chegou a ser conhecida como Femme Noir, por suas participações no gênero film noir. A obra de Hemingway já havia sido adaptada anteriormente, em 1944, mas essa versão é considerada mais fiel.

    A edição traz somente o Trailer do filme como extra.

    HOMENS EM FÚRIA

    (Odds Against Tomorrow, 1959, 96 min.)

    De Robert Wise. Com Robert Ryan, Harry Belafonte e Gloria Grahame.

    David Burke é um ex-policial que caiu em desgraça ao se recusar a cooperar com a polícia estadual na investigação de um crime. Ele tem um plano meticuloso de roubar um banco no interior e propõe ao ex-presidiário racista e violento Earl Slater uma sociedade para executar o crime. Eles precisam de um homem negro para se passar pelo mensageiro que todas as noites às vésperas do dia do pagamento leva lanches aos funcionários do banco que preparam os envelopes com o dinheiro. Burke recruta Johnny Ingram, um cantor de boate que está desesperado por dever dinheiro de jogatina ao gângster Bacco. Tanto Burke como Ingram se detestam mas aceitam participar do roubo pelo dinheiro. A falta de confiança e o ódio entre eles, contudo, ameaça o sucesso do plano.

    CONSIDERAÇÕES SOBRE O FILME

    Uma espécie  de O Segredo das Jóias/The Asphalt Jungle da filmografia do diretor Robert Wise. O espectador sabe o tempo todo que não vai dar certo o assalto, mas acompanha com a mesma tensão. Grande, extraordinária fotografia em preto-e-branco de Nova York; a trilha sonora é do genial John Lewis, compositor e pianista, líder do Modern Jazz Quartet, uma das poucas trilhas para o cinema que ele escreveu na vida. O velho Wise estava em grande forma; foi o filme imediatamente anterior a West Side Story. Como Abraham Polonksky estava na lista negra do macartismo, nos créditos ele aparece como John O. Killens. Este que é o terceiro e último filme dele na caixa (dirigiu um filme e roteirizou dois).

    ALGUMAS MÍDIAS FALARAM SOBRE O FILME NA ÉPOCA

    Bosley Crowther chamou a direção de Wise de "precisa e forte" e o filme um "brilhante, duro, melodrama de suspense" com uma "construção de drama acumulado ... de um calibre artístico que é raro de se assistir no cinema"

    A Revista Time resenhou "A tensão bem construída até o climax - graças, parte ao diretor Robert Wise (I Want to Live!), parte a um roteirista negro chamado John O. Killens, mas, principalmente, pelo ator Ryan, que interpreta uma ameaça capaz de disparar balas pelos olhos e sorrir ácido sulfúrico. Mas a tensão é liberada muito cedo e muito rapidamente. O espectador fica com a sensação de que é bem apropriada a cena final do filme, quando a câmera mostra o sinal de rua no qual se lê: PARE—RUA SEM SAÍDA"

    A Revista Variety escreveu: "Em um nível, Odds against Tomorrow é um tenso melodrama sobre crime. Em outro, é uma alegoria sobre racismo, ganância e a propensão do Homem a autodestruição. Não bem sucedido na segunda categoria, se sai bem na primeira "

    Quarenta anos depois, Stephen Holden afirmou que o filme foi "tristemente negligenciado"

    Marcus V.R.Pacheco
    Cinéfilo, colecionador, escritor, cineasta e ocupado vendo filme

    DADOS TÉCNICOS DOS DISCOS


    DISCO 1

    RIFIFI (Du rififi chez les hommes, 1955, 118 min.)
    De Jules Dassin. Com Jean Servais, Carl Möhner e Robert Manuel.

    POR AMOR TAMBÉM SE MATA (He Ran All the Way, 1951, 77 min.)
    De John Berry. Com John Garfield, Shelley Winters e Wallace Ford.

    DISCO 2

    CORPO E ALMA (Body and Soul, 1947, 104 min.)

    De Robert Rossen. Com John Garfield, Lilli Palmer e Hazel Brooks.

    A FORÇA DO MAL (Force of Evil, 1948, 78 min.)
    De Abraham Polonsky. Com John Garfield, Thomas Gomez e Beatrice Pearson.

    DISCO 3

    REDENÇÃO SANGRENTA (The Breaking Point, 1950, 97 min.)

    De Michael Curtiz. Com John Garfield, Patricia Neal e Phyllis Thaxter.

    HOMENS EM FÚRIA (Odds Against Tomorrow, 1959, 96 min.)
    De Robert Wise. Com Robert Ryan, Harry Belafonte e Gloria Grahame.

    EXTRAS

    Entrevista de Jules Dassin sobre "Rififi" (28 min.)
    Curta-metragem "Os Dez de Hollywood" (14 min.)
    Depoimento de Abraham Polonsky (11 min.)
    Análise de "Corpo e Alma" (7 min.)
    Depoimento de Bertrand Tavernier sobre "A Força do Mal" (21 min.)
    Martin Scorsese apresenta "A Força do Mal" (3 min.), Trailers (8 min.)


    TRAILER



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