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    A ARTE DE DARIO ARGENTO E PHENOMENA

    Talento e capacidade de transformação estiveram sempre presentes no cinema italiano. Assim, diretores trabalharam brilhantemente no desenvolvimento de alguns dos principais gêneros da sétima arte, alheios à inegável hegemonia da indústria de Hollywood. Além de faroestes e comédias, a obra italiana foi decisiva para a construção das diversas ramificações do suspense e do horror, ganhando vida graças à percepção de Mario Bava, a experimentação de Lúcio Fulci e, sobretudo, a genialidade ótica e metafórica de Dario Argento. Slasher e Giallo foram alguns dos sub-gêneros que estes caras inventaram e exploraram.
    Nascido em Roma, filho de um produtor cinematográfico italiano e de uma fotógrafa brasileira, o diretor de 71 anos começou cedo seu cinema. Além de uma evidente influência paterna, ainda jovem atuou como colunista e escreveu roteiros, o que lhe possibilitou trabalhar com Sérgio Leone. A experiência com o lendário diretor de bang bangs resultou em sua participação no roteiro do clássico "Era uma vez no oeste", na escolha de sua profissão e uma influência permanente em seu trabalho, ainda que em outro tipo de filme. Argento sempre teve verdadeira paixão por histórias policiais, de suspense e terror, o que, com a sua admiração pelo diretor americano Alfred Hitchcock, definiu o caminho que trilharia no cinema.

    A versátil lança este mês a Arte de Dario Argento, disponibilizando cópias restauradas da trilogia dos bichos e "Terror na ópera." E ainda vem com os cards colecionáveis que se tornaram tradicionais. Eu particularmente, só assisti estes filmes em VHS, e portanto, não havia saboreado os detalhes que um filme do diretor nos proporciona. Bravo Versátil !!!

    “Pássaro das plumas de cristal”

    (“L’uccello dalle piume di cristallo”, 1970, 97 min.)

    Com Tony Musante, Suzy Kendall e Enrico Maria Salerno.

    O escritor americano Sam Dalmas (Tony Musante), que vive em Roma, testemunha uma bela mulher sendo atacada por uma figura misteriosa - provavelmente a responsável por vários assassinatos que estão acontecendo na cidade. Como a polícia não resolve o caso, ele parte para investigar os crimes por conta própria.

    O Pássaro... é o primeiro filme de Argento e já mostra a que o diretor veio. O filme tem início com o escritor americano Sam Dalmas na Itália, prestes a voltar ao seu país de origem, quando testemunha uma tentativa de homicídio.  Como o próprio local sugere, uma galeria de arte, Argento consegue compor uma espécie de quadro. Em uma cena angustiante e belíssima, é impossível não associar estar assistindo a uma vitrine de assassinato. O que mais chama a atenção é que em alguns filmes de Argento toda a trama poderia ser solucionada logo nos primeiros frames, mas é tão bem conduzido, que o óbvio se torna questionável.

    Ao longo do filme vamos acompanhar o escritor, impedido de retornar ao lar, fazendo o trabalho da polícia, investigando os assassinatos que não param de acontecer. Sendo ameaçado e perseguido pelo assassino vestido de couro. Até a culminância do final jamais imaginado.  Quem conhece outros trabalhos do diretor, vai perceber que aqui ele criou todo o padrão de Giallo que seguiria em seus próximos filmes. Nos mesmos moldes, o perfeito Profondo Rosso, segue basicamente a mesma ideia, inclusive com alguns personagens bastante similares.

    Este é o filme que inicia a conhecida 'Trilogia dos Animais' de Argento, seguido por O gato de Nove Caudas (1971) e finalizado por Quatro Moscas no Veludo Cinza (1971). E antes que você se pergunte, os nomes têm sim relação com os filmes, tanto que neste, apesar da singela participação do tal pássaro de cristal, ele é de essencial importância para a solução dos assassinatos.

    E para quem acha antológica a cena do banheiro do Iluminado (1980), acho que Stanley Kubrick andou assistindo este Argento. Espia lá, e tenta não associar!

    “Gato de nove caudas”

    (“Il gatto a nove code”, 1971, 112 min.)

    Com James Franciscus, Karl Malden e Catherine Spaak.

    Um repórter e um jornalista cego aposentado tentam resolver uma série de assassinatos conectados a experimentos secretos feitos por uma indústria farmacêutica. Os dois viram alvos do assassino.

    Ironicamente, foi por causa dos americanos que o filme foi feito. "Pássaro das plumas de cristal"estava fazendo tanto sucesso nos Estados Unidos, que a USA National General contactou a empresa Titanus (a produtora que produziu "Pássaro"...), dizendo que ele era amado por eles e que queriam imediatamente um outro filme de Argento e que a National General co-produziria o filme. A Titanus, no entanto, queria ter um elenco famoso nos EUA do que na Itália. Em particular, James Franciscus foi escolhido para participar no filme por causa do sucesso de De Volta ao Planeta dos Macacos, o precursor de Planeta dos macacos. As filmagens do filme começaram em 3 de Setembro de 1970 e terminaram em 29 de Outubro do mesmo ano.

    Devido a um problema com o distribuidor italiano, Goffredo Lombardo, o filme estrearia em Janeiro de 1971, mas acabou estreando na Itália em 14 de Fevereiro de 1971. O filme saiu muito bem na arrecadação, tendo arrecadado duas vezes mais do que o seu antecessor. Um final para o filme foi cortado. Essa cena se passaria depois do confronto dele com o assassino, que mostraria Giordani, personagem interpretado por James Franciscus, deitado numa maca e com muitas ataduras, e do lado dele estaria Anna (Catherine Spaak). Juntos, eles se reconciliaram. Mas, Luigi Cozzi (um amigo e colaborador de Argento), recomendou o diretor a cortar essa cena, e o final ficou como ele está.

    “Quatro moscas sobre o veludo cinza”

    (“Quattro Mosche di Velluto Grigio”, 1971, 104 min.)

    Com Michael Brandon, Mimsy Farmer e Jean-Pierre Marielle.

    Este filme se utiliza de uma velha lenda urbana, que afirma que as retinas de um morto registram a última coisa vista. Ao olhar nos olhos de uma vítima de assassinato, o músico Roberto Tobias, que é perseguido pelo mesmo assassino misterioso, vê justamente quatro moscas sobre veludo cinza. Descobrir de onde veio aquela imagem é o único caminho que encontra para se livrar dos problemas em que se envolveu.

    Última parte da chamada “Trilogia dos Bichos” (compreendendo “O Pássaro das Plumas de Cristal” e “O Gato de Nove Caudas”), “Quatro Moscas Em Veludo Cinza” não só é melhor que seus predecessores como é, se não um dos melhores, pelo menos o mais divertido filme do mestre Dario Argento. A trama segue à risca os mandamentos hitchcokianos do suspense, indicando que, no que diz respeito ao roteiro, Argento ainda não havia se libertado do modelo tradicional de se fazer cinema. O que não é necessariamente ruim, haja visto que os filmes legitimamente autorais de Argento contam com roteiros que, por vezes, beiram o retardo mental.

    Por outro lado, com um currículo à época respeitável, aqui Argento começa a investir em sua marca característica, ainda que de forma contida: o visual. A mistura do roteiro convencional com um visual experimental, além da belíssima trilha sonora de Ennio Morricone, resulta em um filme extremamente bem equilibrado e empolgante. O inventivo desfecho é um daqueles finais que garantem um singelo sorriso no rosto toda vez em que são lembrados.


    “Terror na ópera”

    (“Opera”, 1987, 107 min.)

    Com Cristina Marsillach, Ian Charleson e Urbano Barberini.

    Uma maldição paira sobre a montagem da ópera 'Macbeth', de Verdi. No Scala de Milão, corvos aparecem degolados, operários são assassinados e holofotes caem na platéia, reforçando a crença de que a peça estaria sendo mal assombrada. A insegura soprano Betty (Cristina Marsillach) recebe a oportunidade de substituir a atriz principal, misteriosamente atropelada durante os ensaios, e desde então passa a ser o principal alvo da maldição, sendo perseguida por um cruel psicopata.

    Terror na Ópera é um filme sobre as coisas dando errado, seja por predestinação ou por probabilidade. Pode ser a longo prazo, planejado, pode ser no impulso. Dario Argento sempre teve uma atração irresistível de filmar tipos errados e sentimentos que fogem à moral dita civilizada. Azar dos homens ou azar da divina providência, vai saber, o fato é que a violência, as obsessões e psicopatias estragaram qualquer idealismo e desejo altruísta.

    Não à toa que o filme se passa durante a encenação da ópera Macbeth, famosa por trazer azar para quem a encena, que tem a sua cantora principal substituída por uma iniciante, vítima da obsessão de um assassino que, durante a maior parte do tempo, parece não ter muito a ver com a história. E não à toa que o filme começa com planos detalhe e super closes em um corvo, pássaro identificado como mau agouro nas artes desde o poema homônimo ao pássaro de Edgar Allan Poe.

    Como alguém com plena consciência do seu ofício e até onde pode chegar para manipular o espectador (mesmo que certas vezes os filmes sejam tocados num ritmo quase irracional de tão frenético), Argento aqui é genial ao se utilizar do conceito repetição, só que aqui de forma macabra, amarrando a protagonista a cada encontro, prendendo seus lábios com fita adesiva e colando agulhas embaixo dos seus olhos. A protagonista é nada mais que o próprio espectador, amordaçado à cadeira, estupefato em silêncio, que não se atreve a piscar enquanto o diretor, na figura do assassino, procura nos providenciar a morte perfeita, o prazer que nos é proibido, como uma obra de Shakespeare subvertida, e então vá embora para nos deixar atordoados.


    É essa câmera constantemente ativa e participativa do cinema de Dario Argento (não apenas pelo conceito de “subjetiva assassina”) que é tão eficiente; assim como De Palma, sua câmera despreza qualquer noção de olho  e passa por lugares impossíveis ou improváveis, dá atenção, através da decupagem, a detalhes que nenhum outro diretor daria na hora de filmar um assassinato ou filmar um clímax improvável (e olha que Terror na Ópera tem ao menos três deles) e usá-la, em conjunto com o roteiro, para jogar com nossas expectativas o tempo todo até desaguar em um final que contraria tudo que foi filmado até então de maneira irônica pela abordagem cafona ao se fazer e bela e poética, jogando a atenção mais uma vez em animais e mais uma vez no azar. 


    TRAILER


    DETALHES TÉCNICOS DOS DISCOS

    DISCO 1

    “O Pássaro das Plumas de Cristal” (“L’uccello dalle piume di cristallo”, 1970, 97 min.)
    Com Tony Musante, Suzy Kendall e Enrico Maria Salerno.

    “O Gato de Nove Caudas” (“Il gatto a nove code”, 1971, 112 min.)
    Com James Franciscus, Karl Malden e Catherine Spaak. 

    DISCO 2

    “Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza” (“Quattro Mosche di Velluto Grigio”, 1971, 104 min.)
    Com Michael Brandon, Mimsy Farmer e Jean-Pierre Marielle.

    “Terror na Ópera” (“Opera”, 1987, 107 min.)
    Com Cristina Marsillach, Ian Charleson e Urbano Barberini.

    Extras:

    Depoimento de Dario Argento sobre “O Pássaro das Plumas de Cristal” (18 min.)
    Depoimento de Ennio Morricone (8 min.)
    Entrevistas sobre “O Gato de Nove Caudas” (14 min.)
    Trailers e Spots de TV (23 min.)


    Formato de tela: Widescreen Anamórfico 2.35:1


    PHENOMENA

    “Phenomena” é um suspense italiano estiloso e encantador. O visual do filme é uma festa aos olhos, o que o torna absolutamente delicioso de se assistir. Foi filmado nos Alpes suíços, e somente um cineasta com fogo e paixão na alma como Argento poderia pincelar a tela com tanta fantasia, tantas cores, exageros e magias. Agregando ao filme, adivinhem quem faz o papel da mocinha?Aquela cujos olhos sempre parecem tristes e misteriosos, de uma beleza melancólica e difícil de desvendar – Jennifer Connelly. Em “Phenomena”, Jennifer Connelly tinha quinze anos de idade, ainda uma menina, mas já se via que estava destinada a coisas extraordinárias. Dito e feito, dezesseis anos mais tarde, já uma mulher, estava merecidamente ganhando um prêmio da Academia.

    Jennifer Connelly interpreta uma menina rica inteligente e estudiosa, que é enviada pelos pais a um conceituado colégio para garotas, nos Alpes suíços. Ela é sonâmbula, e tem especial apreço por insetos. Quando uma série de homicídios sacode a tranquilidade da cidade, Jennifer alia-se a um perspicaz entomologista (interpretado por Donald Pleasence) e faz uso de seu dom com os insetos para descobrir o culpado, enquanto é hostilizada pelas colegas e vigiada pela misteriosa diretora do colégio, a sua própria vida correndo riscos a cada nova descoberta.

    O filme foi inspirado por uma informação que Dario Argento descobriu sobre investigações criminais, em que insetos são, as vezes, usados para investigar crimes. A ideia do visual da criança assassina surgiu de um disfunção que causa deformações na face chamada Síndrome de Patau. Por esse motivo, ele se chama Patau. Porém, essa informação não foi exposta no filme. O papel de Patau foi interpretado por um homem de 26 anos, anão e repleto de maquiagem. Para finalizar, o figurino conta com a participação do estilista Giorgio Armani.

    TRAILER

    DADOS TÉCNICOS DOS DISCOS

    Título: Phenomena
    Título original: Idem
    País de produção: Itália
    Ano de produção: 1985
    Gênero: Terror
    Direção: Dario Argento
    Elenco: Jennifer Connelly, Donald Pleasence, Daria Nicolodi
    Idioma: Inglês, Itália
    Áudio: Dolby Digital 2.0
    Legenda: Português
    Formato de tela: Widescreen anamórfico 1.66:1
    Tempo de duração: 116 min. (Duração que por si, é um extra, pois é uma versão inédita)


    Extras: Making of (17 min.)
    Documentário sobre o filme (26 min.)
    Entrevistas especiais (21 min.)
    Clipes musicais (8 min.)
    Créditos alternativos (2 min.)
    Trailer (3 min.)

    Além de um Poster do filme...para a felicidade dos cinéfilos e colecionadores.



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