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    quinta-feira, 5 de novembro de 2015

    007 CONTRA SPECTRE - ANÁLISE POR R.E.F.


    007 Contra Spectre (Spectre)

    Inglaterra/EUA, 15. 148 min. Direção de Sam Mendes. Roteiro de John Logan e Neal Purvis, Robert Wade e Jezz Butterworth. Com Daniel Craig, Ralph Fiennes, Christoph Waltz, Lea Seydoux, Monica Bellucci, Naomi Harris, Ben Whishaw, Dave Bautista, Rory Kinnear, Judi Dench.

    O filme anterior Skyfall (12) era um pouco mais curto (142 min) e muito mais bem sucedido, tendo sido o primeiro da série a render mais de um bilhão de dólares em todo o mundo (exatamente 1 bilhão e 108 milhões). Como é costume nesses casos, esta nova aventura que repete basicamente o elenco e o diretor, já esta sendo criticada porque é menos surpreendente (e também lembra incomodamente os episódios recentes de Missão Impossível), não tem as tradicionais Bond Girls (Monica Bellucci tem apenas uma ponta e a francesa Lea Seydoux, do filme erótico Azul é a Cor mais Quente e também de outro Missão Impossível, Protocolo Fantasma, é sem graça, mantém uma única expressão e não convence como o interesse romântico !). Há uma falta de mais e melhor humor e principalmente de um vilão mais divertido e cínico como o Silva de Javier Bardem. Todo mundo se leva a serio demais inclusive o protagonista Daniel Craig, que parece sempre tenso e mal humorado, como se preferisse estar em outro lugar. E nunca sua frieza em matar e sua invencibilidade (ah, e também o merchandising de automóveis e relógios ) ficaram tão evidentes. Engraçado como os Bonds anteriores de Connery a Pierce Brosnan, sempre tiveram um charme e elegância que nos fazia perdoar seu sangue frio. Isso não acontece com Craig. E tem mais, a trilha musical que no filme anterior parecia intensa agora ficou apenas barulhenta (ainda assim a música tema estourou na Inglaterra assim como o filme!).

    Não vou cometer a heresia de dizer que o filme é ruim, nem tanto. Acho que Mendes errou em retomar o projeto (deve ter levado uma enorme soma como salário) e não dar melhor texto para os protagonistas (Ralph Fiennes que assumiu o personagem de M, é o primeiro deles a ter uma participação ativa na ação da trama, mas é outro que parece aborrecido e chateado). Teve gente que sentiu falta de um vilão mais forte, já que Christoph Waltz é um ator que só funciona mesmo quando Tarantino está no comando (o que já lhe valeu dois Oscars de coadjuvantes). Todo o roteiro faz um esforço para ressuscitar a antiga organização chamada Spectre que estava em ação nos primeiros filmes (há até a intenção de afirmar que outros vilões de filmes anteriores, visto em fotos, já pertenciam a ela) e mostrar mesmo uma filiação de Waltz (Oberhauser) como outro vilão clássico. Mas é particularmente frágil a figura do outro bandido da historia, o chamado C que é feito fragilmente por um ator irlandês chamado Andrew Scott (que já esteve melhor como Moriarty na série de TV do Sherlock Holmes!). Resta Q que também entra na dança assim como a Moneypenny, mas ainda assim sem nada de consequente.

    Acho que a melhor coisa do filme certamente é um tour de force com um sequência prólogo rodada espetacularmente nas praças principais de Cidade do México durante um grande desfile de Dias dos Mortos (onde tradicionalmente se vestem de caveiras). É um enorme plano sequência, muito bem filmado e que culmina com uma perseguição a pé do vilão e Bond, que continuam brigando a bordo de um helicóptero. Quem tiver olhos atentos, conseguirá perceber que não há efeitos digitais, mas fica visível que em certos momentos Craig está substituído por um dublê e, pior que isso, na complicada luta há alguns planos onde eles usam a famigerada back projection (projeção de fundo), coisa de filmes dos anos cinquenta para trás.

    O mais curioso é que apesar de tanta restrição Spectre tem ação solida, orçamento generoso, belas locações exóticas (Áustria com neve, Marrocos com deserto, Roma, Cidade do México, e naturalmente Londres). Só não é um grande momento de James Bond.


    Best Sellers: Ian Fleming, O Escritor Que Nós Amamos
    Por Adilson de Carvalho Santos

    Os fãs mais novos de 007 talvez não saibam mas o novo filme do agente secreto (o 24º da série) coroa a volta de elementos literários que eram proibidos aos filmes. Tudo começou em 1959 quando o produtor Kevin McClory propôs uma história original para um filme de James Bond e que se chamaria “James Bond, Secret Agent” com Richard Burton no papel de 007. Um roteiro foi escrito por McClory, Jack Whittingham em conjunto com Fleming, e uma das ideias era que Bond deveria deixar de lado a SMERSH, a agência de contra-espionagem soviética (que aliás era baseada em uma agência real homônima), de forma a desvincular 007 da guerra-fria. McClory e Whittigham pensaram em uma organização apolítica, sem ligação direta com a antiga União Soviética, o que ampliaria o campo de ação das tramas. Assim nasceu a SPECTRE, como um adversário mais genérico em sua natureza, podendo se ajustar em qualquer contexto político global, mas com potencial destrutivo imenso. Seu líder seria o megalomaníaco Ernest Stravos Brofeld, criado para ser o nêmesis de Bond tal qual o professor Moriarty para Sherlock Holmes. Fleming aceitou a colaboração de McClory e Whittingham e interagiu com ambos durante um bom tempo, mas acabou mudando de ideia, assinando com Harry Saltzman e Albert Broccoli para a adaptação de todos os livros escritos por Fleming, deixando de fora do contrato apenas “Cassino Royale”, justamente o primeiro livro escrito por Fleming, e que havia sido adaptado para a Tv em 1954 com Barry Nelson como 007 e Peter Lorre como o vilão Le Chiffre, um operativo da SMERSH.


    Broccoli julgou a história meio parada, sem ação e por isso a ignorou, buscando no 5º livro escrito por Fleming, “Dr.No”, a história para a estreia cinematográfica de 007, ignorando também que o livro fazia menção a eventos ocorridos nos livros anteriores. A estreia de 007 nos cinemas aconteceu em Outubro de 1962 no Reino Unido e, somente sete meses depois nos Estados Unidos. No ano anterior, Fleming, contudo, utilizou as ideias de McClory (a organização SPECTRE substituindo os vilões comunistas e o vilão Brofeld, que foi batizado por Fleming com o sobrenome do pai de um amigo dos tempos de colégio etc...) para a história que passou a se chamar “Thunderball” e que publicou sem dar crédito a McClory e Whittingham. A SPECTRE demonstrou-se tão funcional dentro das aveturas de 007 que os filmes de Broccoli passaram a mencioná-la em substituição a SMERSH, mas Brofeld nunca aparece completamente nos filmes, ficando como um manipulador de todos os eventos. Para os fans ele era apenas um vulto com um gato persa no colo (satirizado décadas mais tarde por Mike Myers e seu Dr.Evil) que era feito nos primeiros filmes por Anthony Dawson até que Donald Pleasance, Telly Savalas e Charles Grey vivessem o personagem respectivamente no 5º, 6º e 7º filme da série.

    O sucesso de vendas do livro “Thunderball”, com uma tiragem de mais de 50 mil exemplares, levou Broccoli a adaptá-lo como o quarto filme da série. No Brasil, o livro foi inicialmente batizado de “Operação Relâmpago” e editado pela Civilização Brasileira ainda em 1961, sendo rebatizado a partir de 1965 de “Chantagem Atômica” assim como o filme dirigido por Guy Hamilton. O filme deixaria de fora o passado de Brofeld, explicado no livro e troca o nome de uma das principais assassinas sob suas ordens, Fatima Blush, que no filme tornou-se Fiona, interpretado pela atriz Luciana Paluzzi. Dois anos antes da estreia do filme, um acordo feito fora dos tribunais deu a Fleming os direitos sobre o livro e a McClory o crédito de produtor ( no lugar de Broccoli & Saltzman) e escritor do texto original, além do direito de refilmar a história depois de um período de 10 anos.


    Fleming voltou a citar a SPECTRE nos livros escritos na sequência : “O Espião que me Amava” (1962), “A Serviço de Sua Majestade” (1963), e “A Morte no Japão” (You Only Live Twice), mas a saúde do autor havia debilitado muito e o processo judicial movido por McClory lhe garantiu uma indenização de 50 mil libras de indenização. Para Fleming, o desgaste emocional da peleja legal contribuiu para o ataque cardíaco fatal que sofrera em 12 de Agosto de 1964.

    As adaptações de seus livros se seguiram, mas a relação entre McClory e a EON Productions de Albert Broccoli se deteriorou ainda mais com o primeiro vetando qualquer menção a SPECTRE e Brofeld nos filmes que se seguiram após “007 Os Diamantes São Eternos” (Diamonds are Forever) de 1970, onde Brofeld foi interpretado por Charles Grey. Broccoli, por sua vez, usou de todos os recursos a sua disposição para impugnar os direitos de refilmagem de “Thunderball” concedidos a McClory.

    Em 1981, como uma resposta a McClory de que 007 era maior que sua contribuição, Broccoli produz “007 Somente Para seus Olhos” (For Your Eyes Only”) onde Bond (Roger Moore) mata Brofeld, sem que seu nome seja mencionado e sem que seu rosto seja visto.

    McClory eventualmente conseguiu fazer sua refilmagem em 1984, se associando ao produtor Jack Schwartzman e rebatizando o filme de “Nunca Mais Outra Vez” (Never Say Never Again) trazendo Sean Connery de volta ao personagem e justificando o título escolhido (Connery havia prometido antes nunca mais interpretar Bond) depois que Broccoli conseguiu proibir judicialmente que McClory usasse o nome “James Bond” ou o código famoso 007 no nome de sua versão. Também não poderia usar a célebre sequência em que Bond atira na direção da câmera, nem usar o clássico tema musical de Monty Norman e John Barry. Curiosamente, a EON pictures lançou pouco antes de MacClory seu filme tido como oficial “007 Contra Octopussy” (Octopussy) com Roger Moore que se saiu melhor na bilheteria que a refilmagem de MacClory. Depois de anos sem ouvir falar da SPECTRE ou Brofeld novamente em qualquer filme, todos os fans foram pegos de surpresa quando foi anunciado o nome do novo filme com Daniel Craig, uma vez que MacClory já havia falecido, permitindo a EON Pictures negociar com os herdeiros dele a utilização desses elementos que comprovam a ideia inicial de que Bond deveria estar acima da guerra fria, livre das amarras da contextualização em que foi inicialmente criado, mas ainda a serviço do equilíbrio de forças em um mundo em que, mais de 50 anos depois de sua criação, ainda precisa de 007 para lutar contra as forças do mal.


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