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    YOJIMBO NO CINEMA


    Kurosawa é fonte de inspiração de muitos diretores. Spielberg mesmo o idolatrava. George Lucas copiou elementos de "Fortaleza escondida" em "Guerra nas estrelas".
    Curiosamente, Yojimbo não alçou grandes vôos com remakes, inclusive o de Leone, o mais franco da trilogia que se encerra brilhantemente.. Os 'sete samurais' teve mais sorte...
    Vamos aos filmes:

    YOJIMBO - O GUARDA COSTAS (1961)

    FICHA TÉCNICA

     Direção: Akira Kurosawa
    Roteiro: Akira Kurosawa, Ryuzo Kikushima
    Com: Toshiro Mifune
    Gênero: Ação/Drama
    Origem: Japão
    Duração: 110 minutos

    SINOPSE

    Um samurai desempregado (Toshirô Mifune) chega a uma cidade à procura de um trabalho, só que esta se encontra dividida entre dois mercadores rivais. O samurai oferece os seus serviços para ambos, envolvendo-se em sangrentas batalhas e aproveitando-se totalmente da situação.

    ANÁLISE

    Continuando a mostrar ser o grande mestre do Jidai-geki (filmes de época, com histórias de samurais), Akira Kurosawa juntou ao seu curriculum um dos mais ocidentais filmes do género, “Yojimbo”, a partir de uma história sua, segundo o próprio, inspirada no livro de Dashiel Hammett “The Glass Key”, e com grandes semelhanças com “Red Harvest”, do mesmo autor. O herói de Kurosawa vive no Japão de 1860, durante a queda o Xogunato Tukogawa, quando os samurais se encontravam sem senhor a quem servir, seguindo apenas os seus próprios interesses.

    Um destes samurais sem senhor (ou ronin) é Sanjuro Kuwabatake (Toshiro Mifune), que nas suas deambulações depara com uma pequena aldeia amordaçada pela luta pelo poder de duas famílias rivais, que mantêm o seu povo escravizado. De um lado está Seibei (Seizaburo Kawazu), antigo senhor incontestavel da aldeia, dono do bordel, e que domina Tazaemon (Kamatari Fujiwara), o mercador de seda. Do outro está Ushitora (Kyū Sazanka), antigo número dois de Seibei, e que tem no bolso Tokuemon (Takashi Shimura), o fabricante de sake. Os dois vão contratando tantos guarda-costas quanto podem (os chamados yojimbos), para tentar suplantar o rival, mantendo a aldeia vítima desta guerra fria.




    Ao chegar, Sanjuro, tendo por único aliado o taverneiro Gonji (Eijirō Tōno), vai traçar um plano de pôr as duas famílias uma contra a outra. Para isso finge deixar-se aliciar por cada um dos lados, plantando intrigas no seio de cada casa, de modo a precipitar combates que as fragilizem.
    O seu plano desaba com a chegada de Unosuke (Tatsuya Nakadai), irmão mais novo de Ushitora, que usa uma pistola em vez de espada, arruinando alguns dos planos de Sanjuro, e descobrindo os seus propósitos, prendendo-o e torturando-o. Sempre com a ajuda do taverneiro, Sanjuro vai, no entanto, mostrar-se o mais inteligente, e o mais hábil, conseguindo com a lâmina suplantar a pistola de Unosuke.

    Com uma linguagem visual ocidentalizada (não esquecendo a música de Masaru Satō que, afastando-se o máximo possível da habitual música tradicional dos dramas de época japoneses, se inspirava, segundo o próprio compositor, em Henri Mancini), e um humor negro muito peculiar, não é necessária muita imaginação para reconhecer neste épico de Kurosawa, muitas das imagens de marca do antigo western americano. A chegada à aldeia, onde uma rua com duas filas de casas que se fecham perante o intruso e onde corre um vento poeirento permanente, é bastante ilustrativa. Como inesquecível é a passagem do cão com uma mão humana na boca, sinal suficiente de que chegamos a uma terra sem lei. Temos depois a exposição do oficial da lei corrupto, nas mãos de quem lhe pagar mais, e claro, o taverneiro como única voz amiga.

    Com esta base de fundo, Kurosawa, num filme filmado com brilho e intensidade, cria a figura do herói solitário, sem passado nem história, que chega como um furacão, não deixando nada como estava antes da sua passagem. Ele é um homem que obedece a uma conduta pessoal, seguindo apenas os seus princípios, sobre os quais só aprendemos através da sua ação. É por essa ação que vemos que não é o dinheiro que o move, já que dele abdica várias vezes, e que, embora fale contra a fraqueza dos outros, comove-se e ajuda os mais fracos, como o agricultor que se reunirá à mulher que lhe fora roubada, e o próprio taverneiro, castigado por o ajudar.
    Como não podia deixar de ser, para interpretar tão forte personagem, Kurosawa confiou o papel ao seu herói, Toshiro Mifune. Aqui menos exuberante que noutros filmes, Mifune não é por isso menos intenso. Com trejeitos muito próprios, Toshiro Mifune cria um personagem icônico, que prende cada plano e carrega o filme às costas com cada movimento.

    Tal carisma e iconografia não passariam despercebidos dos autores ocidentais, que viram em “Yojimbo” um paradigma a imitar, sobretudo no campo do Western. O mito do herói solitário, sem agenda, de poucas palavras, expressando-se sobretudo pela sua ação, aparentando rudez e impenetrabilidade, mas capaz de gestos de compaixão, passou a dominar o imaginário dos filmes de heróis.

    Apesar de ter sido considerado, em alguns locais, demasiado violento, “Yojimbo” foi um sucesso tanto no Japão como no Ocidente, inspirando inúmeros filmes. Acima de todos, destaca-se Sergio Leone com a sua trilogia dos Dólares, iniciada com “Por Um Punhado de Dólares” (Per un pugno di dollari, 1964) e com Clint Eastwood na pele do herói sem nome (note-se que Sanjuro Kuwabatake é um nome inventado no momento pelo herói de Kurosawa, fazendo-o por isso também um herói sem nome, como aliás o protagonista do citado livro de Dashiell Hammett), e que viria a marcar todos os westerns que se seguiram. Tão evidentes semelhanças, sem autorização de Kurosawa, levaram mesmo a que o filme sofresse de problemas legais. Adaptação autorizada seria aquela de Walter Hill, com o filme sobre a era da Proibição norte-americana, “O Último matador” (Last Man Standing, 1996), protagonizado por Bruce Willis (cujo personagem, também de nome desconhecido, é chamado apenas John Smith).
    O próprio Kurosawa voltaria a este tema e personagem, no seu filme seguinte “Sanjuro” (Tsubaki Sanjūrō, 1962), também ele com Toshiro Mifune, e o vilão Tatsuya Nakadai, o qual se tornaria um ator importante nos filmes seguintes de Kurosawa.


    SANJURO (Tsubaki Sanjûrô - 1962)

    FICHA TÉCNICA

    Direção: Akira Kurosawa
    Roteiro: Akira Kurosawa, Ryuzo Kikushima
    Com: Toshiro Mifune
    Gênero: Ação/Drama
    Origem: Japão
    Duração: 96 minutos

    SINOPSE

    Depois de superar todos os desafios de filme anterior, Yojimbo, o samurai Sanjûrô Tsubaki (Toshirô Mifune) une-se a um grupo de jovens idealistas que estão determinados a acabar com a corrupção que há em sua cidade. Porém, este cínico samurai está muito aquém dos conceitos ideais que esses jovens têm de um nobre guerreiro.

    ANÁLISE

    Nove idealistas samurais, liderados por Izaka (Kayama) e reunidos no templo, planejam desferir golpe contra o tio deste, acusado de estar envolvido com corrupção. Satisfeitos com a postura adotada e as  manobras políticas realizadas, no caso a comunicação ao superintendente do clã Kikui (Shimizu), os jovens, acusados de traição, vêem-se encurralados pelos guerreiros chefiados por Muroto (Nakadai). Diante desta delicada situação, aparece Sanjûrô (Mifune), que repousando no templo, havia escutado o que havia sido discutido. Decidido a auxiliar os jovens, revelando o autêntico vilão do imbróglio, o ronin se livra momentaneamente da horda de Muroto e, embora visto com desconfiança por desrespeitar o bushido, parte para ajudá-los a desmascarar e derrotar Kikui.

    Figura hipnótica e enigmática, Sanjûrô é um ronin competente, avesso a costumes samurais: seu corte de cabelo desgranhado foge aos padrões dos demais e ele não se incomoda em pedir dinheiro depois da conclusão de um serviço, o que é uma ofensa grave no meio daquela cultura. Resistente à violência, o que deixa claro ao evitar o derramamento de sangue excessivo (ao fazê-lo, repreende duramente os que indiretamente provocaram o massacre, concretizando o ditado: "a espada de um amigo estúpido é pior do que a de um inimigo"), Sanjûrô está sempre esfomeado e preguiçoso, bocejando e se espreguiçando. Também diverte a lei do menor esforço adotada, aproveitando a menor brecha deixada para repousar a cabeça ou recostar o corpo.

    Mas, é o estratagema elaborado o que há de mais peculiar na sua conduta: antevendo os passos do clã de Muroto igual a um enxadrista nato, Sanjûrô põe-se na condição de espectador e enxerga com clareza o panorama completo de suas atividades, apesar dos outros nove comparsas não compreenderem o que ele está planejando. Como poderiam? Sanjûrô é a espécie de herói que levanta mais suspeitas do que inspira confiança, e ignorar as tradições milenares apenas contribui para que não seja visto dignamente. Esta imagem dúbia persiste apenas no imaginário suspeitoso, pois Kurosawa sempre enquadra seu herói em posição de destaque, ou dominando o primeiro plano ou desdenhando as ações dos demais a partir de gestos simples, o que inclusive reforça a sua condição de pária. Assim, ao longo de uma discussão acalorada, Sanjûrô despreocupadamente acompanha com os dedos os contornos de uma flor na parede ignorando completamente o que houvera sido decidido, para surpresa de um estupefato Kurofuji.

    Comoção parecida é provocada no espectador ao descobrir o maiúsculo senso de humor da narrativa: o espirituoso soldado inimigo tomado como refém e aprisionado no armário é dono de momentos de ímpar genialidade. Já a comemoração silenciosa dos nove samurais após uma descoberta importante ou a montagem repetitiva de Sanjûrô acordando ao som da batida da porta levam-nos a refletir a espécie de produto que Kurosawa fabricara pois, mascarado por escassos duelos de espada, o filme se destaca realmente por seu potencial cômico. Ora, muitos plot points são desenvolvidos a partir do atrapalhado comportamento daqueles que mexem as cordas dos obedientes guerreiros, e notar que Kikui não sabe o que fazer revela demais sobre a condição dos nossos líderes.

    Talvez, por causa disso, que Sanjuro não seja completamente satisfatório. A maneira com que costura as pontas da narrativa é decepcionante, exigindo observações esporádicas de alguém alheio ao combate; as camélias no rio revelando uma importante localização e o esconderijo no segundo piso do templo são soluções convenientes para superar os muros construídos pelo próprio Kurosawa. Por sua vez, a luta final falha em causar impacto, apesar da energia dos envolvidos, mas não deixa de ser curioso verificar o longo e silencioso estudo mútuo antes de desembainhar a espada, remetendo o espectador mais atento aos faroestes spaghetti de Sérgio Leone (uma das inspirações do cineasta italiano era justamente a obra de Kurosawa).

    Ao fim, porém, resta na memória a imagem imponente, cínica, ferina e, à sua forma, melancólica, de um personagem cujo nome disfarça a alegoria para aquilo que ele realmente é: um samurai sem nome e sem rumo. Um personagem forte este tal de Sanjuro!

    TRAILER



    POR UM PUNHADO DE DOLARES (Per un pugno di dollari - 1964)

    FICHA TÉCNICA

    Direção: Sergio Leone
    Roteiro: A. Bonzzoni (história), Víctor Andrés Catena (história / roteiro), Sergio Leone (história / roteiro), Jaime Comas Gil (roteiro), Ryuzo Kikushima (roteiro 'yojimbo' não-creditado), Akira Kurosawa (roteiro 'yojimbo' não-creditado), Clint Eastwood (não-creditado)
    Gênero: Ação/Faroeste/Suspense
    Origem: Alemanha Ocidental/Espanha/Itália
    Duração: 99 minutos

    SINOPSE

    Joe (Clint Eastwood) é um pistoleiro barra pesada que chega a uma cidade que está em guerra. Quando percebem o potencial de Joe, ambas as partes se interessam por contratá-lo; é quando ele percebe que pode ganhar um dinheiro com a situação aceitando a proposta dos dois lados.

    ANÁLISE

    Este foi o primeiro filme que Sergio Leone e o compositor Ennio Morricone trabalharam juntos. Inicialmente Leone não pensou em usar Morricone para o filme, mas quando ele ouviu o trompete inicial de Lacerenza em uma música, ele rapidamente deixou todas as suas reservas de lado. Leone e Morricone, que se conheciam desde a 3° série, desenvolveriam uma relação bem próxima devido ao trabalho em conjunto que esteve em todos os filmes futuros de Leone.
    Este foi o primeiro filme descrito como "Spaghetti Western", mas quando ele foi feito já havia uns 25 filmes de faroeste produzidos na Itália. No entanto, este foi o primeiro a receber tamanha atenção internacional.

    Originalmente chamado de "The Magnificent Stranger", algo como "O Estranho Magnífico", o título só foi modificado para "A Fistful of Dollars" três dias antes do filme estrear nos cinemas. Ninguém se preocupou em avisar a ator principal, Clint Eastwood, da mudança. Ele só ficou sabendo do titulo novo três semanas depois.

    O Homem Sem Nome (Clint Eastwood) é chamado de Joe nos diálogos do filme e também nos créditos finais.
    Clint Eastwood ajudou a criar o visual diferente do seu personagem. Ele comprou um par de jeans pretos de uma loja de esportes em Hollywood Boulevard, o chapéu veio de Santa Mônica e os cigarros pretos vieram de uma loja em Beverly Hills. O próprio Eastwood cortou o cigarro em três partes para fazê-lo ficar menor. O ator não é fumante.
    Seguido por Por uns Dólares a Mais (1965) e Três Homens em Conflito (1966).


    ENCONTRO DE GIGANTES / ZATOICHI ENCONTRA YOJIMBO (Zatôichi Tô Yôjimbô  - 1970)

    FICHA TÉCNICA

    Diretor: Kihachi Okamoto
    Escritores: Kihachi Okamoto e Kan Shimosawa
    Com: Toshirô Mifune, Shintarô Katsu, Ayako Wakao
    Gênero: Drama/Ação/Aventura
    Tempo: 79 minutos
    País: Japão

    SINOPSE

    Ichi Zatoichi, à primeira vista, parece ser um inofensivo cego massagista que vagueia pelo Japão feudal, ganhando a vida através do jogo, aplicando acupuntura e tocando música. Entretanto, ele é um espadachim com alta qualificação e habilidades muito acima do comum, especialmente no estilo Iaido; e é tão habilidoso na espada quanto na luta corporal sumô wrestling. Ele não carrega a tradicional Katana; ao invés disto ele carrega uma Shikomizue feita à mão, uma espada considerada fora-da-lei no período Edo. A Shikomizue era geralmente uma espada de gume reto, uma lâmina com qualidade inferior que não se podia comparar com a Katana. Mas a Shikomizue que ele carregava era até superior à katana, pois fora forjada por um mestre bladesmith. O tema principal desta formidável saga de longa metragem é sobre Zatoichi proteger os inocentes da opressão, guerrear contra gangues yakuza e combater a injustiça no geral.

    ANÁLISE

    Dois importantes personagens do cinema oriental fazem um crossover. Em várias traduções, colocam os dois personagens título um contra o outro. Porém isto não ocorre.
    Mifune volta ao papel título pela terceira vez. O filme será mais abordado na sessão dos filmes de Zaitochi, que é o mandante de campo no título do filme.

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    O ÚLTIMO MATADOR (The last man standing - 1996)

    FICHA TÉCNICA
    Direção: Walter Hill
    Roteiro: Walter Hill (roteiro)
    Com: Bruce Willis, Chirstopher Walken
    Gênero: Ação/Drama
    Origem: Estados Unidos
    Duração: 101 minutos

    SINOPSE

    John Smith (Bruce Willis) é um matador profissional, um homem sem passado que faz suas próprias regras e nunca erra seu alvo. Fugindo dos Federais a caminho do México, John vai parar acidentalmente na empoeirada Jericho. Uma cidade dominada por duas gangues rivais que disputam à bala um lucrativo negócio de tráfico de bebidas. John sente que pode lucrar muito com essa disputa e resolve ficar na cidade para ver quem paga mais por seus serviços. Jogando dos dois lados, ele começa uma guerra sangrenta onde ninguém é perdoado e somente um homem poderá sobreviver.

    ANÁLISE

    A trama pode aparentar ser mais um daqueles thrillers que se tornaram a marca registrada de Bruce Willis. No entanto, "O Último Matador" possui uma série de diferenciais:
    - Já em 1996, o clima noir dessa obra antecipa o papel que Willis viria a fazer em "Sin City". O tom testemunhal, com longas narrações, atrai o espectador para o mundo agressivo e sem esperança de John Smith;
    - é quase um filme de faroeste, porém com uma ambientação sui generis. A pequena Jericó, uma cidade fantasma, aproxima-se das villas mexicanas, regiões sem lei e onde a justiça é aplicada a bala. Os tons pardos, a fotografia empoeirada, a sujeira e o sangue são presenças constantes no filme;
    - por fim, e possivelmente o maior trunfo de "O Último Matador", é o roteiro magnífico, assinado por Akira Kurosawa e Ryuzo Kikushima.
    É curioso que um filme tão bem produzido seja considerado como uma obra menor na filmografia de Willis, principalmente tendo em conta os altos e baixos na carreira deste ator.
    Apesar de violações em leis básicas das Física, como pessoas voando após serem baleadas (defeito que se estende a muitos outros filmes hollywoodianos), "O Último Matador" mantém um realismo grotesco do início ao fim.
    Vale destacar também a atuação de Christopher Walken, que morre de maneira estúpida, mas que possui uma presença brilhante na tela.
    Um filme brutal e instigante.

    TRAILER




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