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    sexta-feira, 23 de outubro de 2015

    O LOBO DE WALL STREET (2013) - ANÁLISE DO FILME

    FICHA TÉCNICA

    Título original: The Wolf of Wall Street
    Direção: Martin Scorsese
    Elenco:  Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie 
    Duração: 180 min

    SINOPSE

    Durante seis meses, Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) trabalhou duro em uma corretora de Wall Street, seguindo os ensinamentos de seu mentor Mark Hanna (Matthew McConaughey). Quando finalmente consegue ser contratado como corretor da firma, acontece o Black Monday, que faz com que as bolsas de vários países caiam repentinamente. Sem emprego e bastante ambicioso, ele acaba trabalhando para uma empresa de fundo de quintal que lida com papéis de baixo valor, que não estão na bolsa de valores. É lá que Belfort tem a ideia de montar uma empresa focada neste tipo de negócio, cujas vendas são de valores mais baixos mas, em compensação, o retorno para o corretor é bem mais vantajoso. Ao lado de Donnie (Jonah Hill) e outros amigos dos velhos tempos, ele cria a Stratton Oakmont, uma empresa que faz com que todos enriqueçam rapidamente e, também, levem uma vida dedicada ao prazer.

    SOU FANÁTICO COM O FILME

    Para os acostumados com os filmes de Scorsese, O Lobo de Wall Street pode ser considerada a mais atual e ousada obra do diretor. Causou polêmica antes mesmo de chegar aos cinemas e continuou após a distribuição mundial (quando indicado ao Oscar, o principal argumento foi a vontade de renovação da premiação). É tragicômica esta relação entre o cinema (ou qualquer outra representação artística) e o “vulgar”. Como produto cultural, o cinema pode (e deve) expressar os mais diversos anseios, dúvidas, tristezas e felicidades humanas; sejam elas de modo direto ou indireto – o segundo sempre traz algo especial e inesperado. Repudiar o cinema por indagar e provocar é o mesmo que condenar um escritor romântico por ser ligado ao passado.

    Acusado de promover sexo e drogas, afastou parte do público ao ser rotulado de imoral e promíscuo. Assim como outros filmes que abordam os temas, teve seu propósito desviado pela mídia, causando um falho compreendimento da película. 

    Obras como Anticristo, Ninfomaníaca (volumes 1 e 2), A Professora de Piano, A Bela da Tarde, Salò ou os 120 Dias em Sodoma  – sexo – e Réquiem para um Sonho, Trainspotting, Scarface – drogas -, sofreram da mesma difamação e preconceito.

    Apesar de ser reconhecido por grande parte do público como “aquele filme que  DiCaprio transa com todo mundo e toma aqueles remedinhos”, é muito mais que isso; é uma análise profunda sobre a atual era: o capitalismo pós-industrial. A influência do dinheiro e sua capacidade de corromper e comprar pessoas e pensamentos. Acredito que tenha incomodado por causa de sua representação crua e forte de um mundo regado de “ações ilícitas e imorais”; é natural do ser humano se sentir cutucado por algo que critique seu próprio comportamento ou daqueles ao seu redor.

    Existem aqueles filmes que exigem diversas visitas para a total compreensão de seu objetivo; ao revê-lo, me surpreendi positivamente e passei a admirá-lo mais. Existe uma tênue linha entre o exagerado (ou real, neste caso) e o caricato; Scorsese passeia por ela sem nunca transpô-la. Casa muito bem com a aura de irrealidade, apesar de ser mais real do que qualquer um gostaria de imaginar.

    Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) se diz um viciado em drogas, como o ápice de seus exageros. Discordo. Acima de tudo, ele é viciado em dinheiro e toda a ilusão e falsa sensação de liberdade que traz. Ao ter quantas prostitutas quisesse, ao fazer bolinhas de dólares e jogá-las no lixo, ao ter carros, drogas e casas, não percebe que está preso ao capital, limitado e controlado por ele.

    O escopo de influência do rapaz é tão grande que atinge o próprio filme (em seu status de arte e forma midiática). Após o logo da Paramount ser mostrado, o símbolo da Straton Oakmont (firma de Belfort) pode ser visto como se estivesse produzindo o próprio filme (um tanto quanto metalinguístico, não?). Desde o início, o público é introduzido na trama, torna-se cúmplice e não um mero espectador. A quebra da quarta parede introduz este pensamento na interpretação d’O Lobo de Wall Street. Este artifício de separação entre os personagens da história e quem a assiste (de modo didático, uma parede entre a tela e a plateia), pode ser usado no cinema, tv, literatura e teatro. Quando a quarta parede é quebrada, o público recebe outro sentido: deixa de ser passivo e torna-se ativo, parte da narrativa. A alienação é eliminada e a partir de então, o espectador tem consciência do que vê e sente. Dois exemplos podem ser citados: momentos em Belfort fala diretamente para a câmera e, consequentemente, para quem assiste; trombada que dois funcionários da Straton Oakmont dão na câmera. O Lobo tem seu público como cúmplice, ao dizer saber que preferimos as mulheres e drogas à explicação técnica da bolsa de valores. Estará ele certo?

    A narração em off tem um tom nostálgico e saudosista, sendo de grande importância para a construção da trama (como em qualquer filme do Scorsese, diga-se de passagem). Através dela somos guiados pelas falcatruas, desejos e pensamentos do milionário; um paralelo pode ser estabelecido entre este e Os Bons Companheiros: Henry Hill e Jordan Belfort. Sonhadores e possuidores de uma idealização da vida perfeita e cheia de grana; a mesma que os derrubaria e destruiria suas vidas. Como não remetê-lo a Cassino e a grandiosidade do império de Sam? Particularidades ocorrem no mais novo trabalho de Scorsese: Jordan não apenas possui o poder narrativo, mas também o de mudança do audiovisual (o que o público vê e ouve); é exatamente isso que ocorre na já famosa cena da Ferrari. Vemos uma vermelha, que é rapidamente corrigida por Belfort. Ela era branca.

    A beleza do roteiro é tão grande que o filme nunca cai no moralismo. Diversas películas assumem essa postura e acabam se perdendo – o didatismo toma conta. Adaptado de dois livros (“O Lobo de Wall Street” – Jordan Belfort e “A Caçada do Lobo de Wall Street” – Jordan Belfort), o esqueleto do filme foi desenvolvido de maneira exemplar e concisa – apesar de ter quase três horas de duração, não é cansativo e em nenhum momento passa a sensação de que partes poderiam ser cortadas. Mesmo soando um paradoxo, a habilidade da equipe “scorsesiana” (sua constância é incrível!) é ao mesmo tempo enxuta – não se estende demais nem soa prolixa – e altamente subjetiva. Só mesmo um mestre da arte cinematográfica para  contar uma história tão complicada e complexa como essa, e mesmo assim, manter o espectador grudado na poltrona (afinal, o “cinema inteligente” é raramente visto como forma de entretenimento). Ah… o “real” Jordan faz uma ponta na cena final do filme!

    Scorsese encontra-se em plena forma, como evidenciado por seus últimos dois filmes (este e A Invenção de Hugo Cabret). Suas técnicas e aplicações continuam afiadas como nunca, o poetismo subjetivo e necessário e, claro, os roteiros cada vez melhores. A câmera sempre precisa do diretor, usa mão do artifício da câmera lenta: este mecanismo como um microscópio, um aumento da realidade, um aprofundamento da criticidade. Além do maravilhoso “still frame”.

    A montagem de Thelma Schoonmaker (constante colaboradora de Scorsese) trabalha em conjunto com a direção, proporcionando uma concordância entre o ritmo e o propósito do filme. O aspecto jovial e inovador foi mantido através do maravilhoso trabalho da montadora; este, pode ser observado em títulos como: Touro Indomável, Taxi Driver, Cassino, Os Bons Companheiros e O Aviador (comprovação do talento de Schoonmaker, já que são todos altamente diversificados e únicos).


    Protagonizado por Leonardo DiCaprio, o filme revela-se – a depender do ponto de vista – um estudo de personagens. O ator vive seu melhor momento, com uma atuação cheia de nuances e altamente madura; considero que, talvez, só perca para O Aviador (também de Scorsese). Como de costume, este “method actor” se destaca em cada olhar, alteração de tom e movimento corporal (junto, claro, com a belíssima mise-en-scène do diretor), conferindo uma realidade absurda para Jordan Belfort. Diversos atores comentam sobre a dificuldade de interpretar alguém que realmente existe/existiu, pois o compromisso de veracidade é incomparavelmente maior. Jonah Hill – anteriormente conhecido por comédias de gosto duvidável – está excelente como o escudeiro de Belfort; consegue ser tragicômico e chega a roubar algumas cenas. Hill, inteligentemente, esquiva-se do maniqueísmo e entrega uma performance equilibrada e “over the top” nos momentos adequados. Um filme que parece ter devotado bastante atenção à escolha de elenco, compôs um belo cast coadjuvante, repleto de personagens interessantes e essências para a trama. A decepção reside no papel feminino de destaque: Naomi. A australiana Margot Robbie se sai bem e convence como a sedutora esposa de Belfort; o ponto negativo encontra-se na construção da mesma.

    A meu ver, a cena que resume e exemplifica a habilidade não só de DiCaprio, mas também de Scorsese, é a em que Jordan e Donnie consomem os venerados “Lemmons”. A maestria do diretor e do roteiro é tamanha que, por um momento, esquecemos que Belfort ingeriu essas drogas. Mas quando o efeito se manifesta, cai em cima de nós como uma bomba! A sequência que se segue é ao mesmo tempo angustiante e triste (para alguns, engraçada… não me perguntem como!), evidenciando a perda de controle de Belfort; ele sucumbiu às tentações. Consumido pelos excessos, a tomada se mostra um verdadeiro sofrimento para o público e para o personagem. Ao chegar em casa “intacto”, se depara com Donnie usando o telefone grampeado, onde uma comprometedora conversação acontece. Em seguida, um estranho combate acontece, terminando com Azoff engasgado com um rolinho de presunto (!).  Se visto com atenção, um grande “plus” pode ser observado: quando Jordan, na beira de uma paralisia, cheira sua “fiel companheira” – a cocaína – enquanto assiste ao desenho Popeye. Fica a dica… Cena importantíssima para o entendimento do arco do personagem.

    Humor negro, drama, estudo de personagem? Um trabalho plural de um dos melhores diretores da atualidade; sendo capaz de discutir e dividir opiniões, entrega um filme de alta qualidade e potencial. A magia de Scorsese reside na sua capacidade de transpor as telas e “fazer pensar”. Suas obras permanecem nas mentes de seus espectadores por muito tempo, sendo alvos de debates e reflexões. O Lobo de Wall Street não é diferente. E eu sou fanático com o filme.




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