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    CASSINO (1995) - ANÁLISE COMPLETA


    FICHA TÉCNICA

    Título original: Casino
    Direção: Martin Scorsese
    Elenco:   Robert De Niro, Sharon Stone, Joe Pesci
    Duração: 178 min

    SINOPSE

    Um retrato de Las Vegas dos anos 70 é criado através de três personagens centrais: um especialista em garantir a integridade do cassino, por meios bons ou maus (Robert De Niro), uma prostituta (Sharon Stone) e um gângster recém chegado à cidade (Joe Pesci). Indicado ao Oscar de Melhor Atriz - Sharon Stone. História baseada na vida do chefe de cassino Frank "Lefty" Rosenthal.

    SOU FANÁTICO COM O FILME

    Martin Scorsese bem sabe que seu ponto forte é a representação cinematográfica da máfia ítalo-americana e dos gângsters. Pôde prová-lo em Bons Companheiros, Os Infiltrados, Gangues de Nova York, Caminhos Perigosos e O Lobo de Wall Street – em um tom um tanto quando moderno e distorcido. Se não aborda os mafiosos diretamente, disseca a ganância humana; neste quesito estão 80% dos seus filmes. O diretor poderia, facilmente, cair na mesmice, mas não o faz, já que em suas tramas principais, subtramas são inseridas, aumentando o escopo de trabalho.

    Não faltam críticas que considerem Cassino uma cópia de Os Bons Companheiros (1990) – está aí a grande causa de sua subestimação. Pessoalmente prefiro o segundo (que assisti, pasmem, mais de 100 vezes), mas Cassino não pode, de nenhuma forma, ser diminuído por seu antecessor.

    Ambos abordam o mundo do crime? Sim. Trazem Pesci como um cara explosivo e altamente perigoso? Sim. Mostram mulheres com problemas e ligadas ao passado? A resposta permanece a mesma. Ok… E daí? (com o perdão pela alta coloquialidade). Muitos diretores iriam se repetir e não acrescentar absolutamente nada, mas Scorsese aborda realidades diferentes, mundos distintos.

    Passando-se majoritariamente em Las Vegas, o filme – adaptado de fatos reais – relata sua história através de três personagens básicos: um diretor de cassino com um passado comprometedor (Robert De Niro – Sam “Ace” Rothstein); uma prostituta de alta classe capaz de dominar todos, menos o seu cafetão (Sharon Stone – Ginger McKeena); e um gângster violento e responsável por tomar conta de seu melhor amigo (Joe Pesci – Nicky Santoro).

    Ambientado nos anos 70 quando a máfia controlava o jogo até o surgimento das grandes corporações que, segundo Rothstein, transformaram os cassinos em uma grande Disneylândia.

    Seguindo a tradição de muitos de seus filmes, a narração em off revela-se um importante artifício – mas, desta vez, de modo curioso. Dois personagens a utilizam por quase todo o filme: Sam e Nicky – guiando o espectador por todos os esquemas envolvendo o cassino do primeiro e a crescente entrada na máfia do segundo. Além disso, esclarecem diversos pontos dos conflitos e contribuem com opiniões pessoais (muitas vezes, divergentes).

    No meio do filme algo estranho acontece: mais um personagem, desta vez coadjuvante, faz uso do mencionado off, Frankie. Este narra um breve relato de sua decisão a ser tomada. Na película Scorsese utilizou a still image (imagem parada) no momento do voice over. Um verdadeiro truque de mestre, pois quebra a expectativa do público e insere mais uma importante voz na história.


    Podendo ser visto como uma metáfora para o mundo hollywoodiano, o filme conta com atuações fantásticas de seu elenco principal e coadjuvante.

    Um inspirado De Niro dá vida ao diretor do cassino com uma classe impecável. Durante a progressão da trama percebe-se uma gradual mudança do personagem. De início pacato e reservado, torna-se explosivo e descontrolado, fato muito relacionado à vertiginosa queda de sua esposa. Esta, interpretada por Sharon Stone, revela-se uma mulher controladora e impulsiva. Não sendo capaz de desvencilhar-se de seu passado, carrega por toda sua relação com Sam o vício em álcool e drogas pesadas. Talvez por não suportar ser “domesticada”, pois anteriormente era independente.

    Joe Pesci, mais uma vez, dá luz a um mafioso altamente instável. Apesar de ser considerada por muitos uma repetição de seu trabalho em Os Bons Companheiros, devo discordar. Em Goodfellas seu personagem é unidimensional e vazio – mesmo promovendo um alívio cômico (?) para o filme. Já em Cassino, Nicky possui um arco e é parte indispensável da história.

    Os produtores, após a rodagem do “rough cut”, ficaram preocupados com a capacidade de identificação do público com os personagens. O fato das figuras dramáticas não serem simpáticas levantou uma bandeira vermelha em toda a pós-produção. Martin for finalmente capaz de mostrar para eles a importância deste sentimento, pois, deste modo, os personagens não seriam facilmente julgados pelos espectadores.

    A criação do roteiro foi dada de forma muito rigorosa, pois Nicholas Pileggi, ao ler em um jornal todo o desmembramento dos esquemas do cassino, resolveu escrever um livro sobre o acontecido. Contactou Scorsese e expôs a possibilidade de adaptação para um roteiro e, consequentemente, um filme. Martin sugeriu a inversão da ordem: juntos, escreveriam o roteiro, e dai, Pileggi escreveria o seu romance. Por sinal, o roteiro e o livro tiveram como base, entrevistas com o reais envolvidos no esquema. Esta oportunidade foi inteligentemente abordada por Pileggi, que retirou grande parte da linguagem real dos mafiosos e a inseriu na película. Assim, a autenticidade relacionada ao modo de falar foi garantida.


    O figurino e a direção de arte são um show à parte, pois aproveitam todas as possibilidades de destaques no filme. Por retratar um mundo de excessos, não havia limites, um deleite para qualquer um responsável pelo visual de uma película.

    Vamos analisara composição dos figurinos de Sam e Ginger:

    – no início da projeção, Sam utiliza ternos sóbrios e conservadores – uma referência a sua estabilidade e capacidade de controle de tudo ao seu redor. Já do meio para o fim, com o agravamento de sua relação pessoal com Ginger e crescente dificuldade no mundo crime, suas roupas tornam-se extravagantes e chamativas – uma alusão ao seu interior caótico.

    – uma relação inversa pode ser estabelecida com o figurino de Ginger. Quando ela primeiro aparece, suas roupas brilhantes e esvoaçantes chamam a atenção – a personagem era leve, independente e segura de si. Um contundente contraste com o estilo anterior pode ser observado em sua decadência, já que o uso de roupas mais escuras e sérias representaram um endurecimento de sua persona. Uma curiosidade interessante encontra-se no uso de couro pela jovem, pintando uma espécie de armadura ao seu redor – uma constante busca por proteção.

    O uso da luz é presente de modo sutil, mas essencial, durante todo o filme. Apesar de parecer algo simples, já que, aparentemente, no cassino todo o trabalho de iluminação já estava pronto – um casino de verdade foi utilizado – Robert Richardison enfrentou um desafio: a presença maciça de luzes no local não poderia interferir nas roupas e atuações dos atores. Através do uso de luzes pontuais em algumas cenas, a atenção do público foi atraída para diversos momentos específicos da trama, realçando as interpretações e trabalhos de cena.

    Particularmente, considero Cassino o recipiente de uma das melhores trilhas sonoras do Cinema dos anos 90 (o filme capta as décadas de 70 e 80). As músicas transmitem muito bem o clima da época e são inteligentemente usadas. A presença da “Wir Setzen uns mit Tranen Nieder”, de Bach, traz um contraste com o filme. Uma composição inundada de um tom religioso inicia – e encerra – uma obra altamente profana e mundana. Como descrita por Scorsese, a cena inicial representa a ida de Sam ao inferno.

    Mais uma parceria entre Scorsese e Thelma Schoonmaker é celebrada em Cassino. Os cortes rápidos passam a sensação frenética do submundo do jogo e da efemeridade das conquistas dos personagens. Uma das cenas mais belas do filme é muito bem trabalhada pela dupla: a explicação do funcionamento do local. A capacidade de ambos de alternar cenas altamente explosivas com momentos mais calmos e íntimos confere ao filme uma tensão palpável.
    Um grande exemplo desta maestria é perceptível na conversa entre Sam e Ginger no quarto do casal. Aliás, esta cena, apesar de programada, é vista no filme em forma de ensaio. Sharon Stone conseguiu transmitir uma leveza muito grande no experimento e Scorsese resolveu ligar a câmera e filmá-la.

    Um dos melhores filmes de Scorsese é uma contundente marca de sua habilidade na direção e coordenação de todos os setores de um filme. Com a capacidade de questionar a sociedade, o nova-iorquino – a cada obra – garante seu espaço entre os maiores diretores de todos os tempos.



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