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    sexta-feira, 25 de setembro de 2015

    A ARTE DE ANDREI TARKÓVSKY - PELA VERSÁTIL


    O Cinema de Andrei Tarkovsky é complexo. Andrei Tarkovsky era complexo. Afirmou que "por meio do Cinema era necessário apontar os problemas mais complexos do mundo". E ele, de fato, situou os problemas do mundo em seus trabalhos. Era um existencialista, queria conhecer a fundo a consciência do Homem. Assistir a um filme de Tarkovsky é como dialogar com a filosofia. Intimista, detalhista, racional. Entretanto, este excesso de racionalismo é, por vezes, compensado por uma dose de fantasia, o que deixa seus filmes ainda mais intrigantes.

    Nascido em 1932, filho do poeta russo Arseni Tarkovsky, estudou música e pintura quando jovem, evidenciando que herdara a veia artística do pai. Formou-se em Geologia, mas abandonou a profissão por amor ao Cinema. Começou sua carreira com o renomado "Andrey Rublev" (1966), sobre a vida do pintor russo de ícones religiosos. Considerado por muitos críticos sua obra-prima, o filme trata sobre fé e espiritualidade. Logo após veio Solaris (1972), uma profunda análise existencial que mistura ficção científica e filosofia. Em 1974 lançou "O espelho", quase um diário de memórias do diretor, com uma narrativa amparada nas poesias do próprio pai, o que confere um ar romântico ao enredo. É neste filme que Tarkovsky atiça todos os sentidos com uma originalidade surpreendente para a época. Em 1979 lançou "Stalker", também com traços autobiográficos, e venceu o "Prêmio da Crítica do Festival de Cannes", em 1980. "Stalker" trata, com maestria, as relações entre os indivíduos.

    A sede pelo autoconhecimento levou o cineasta a produzir uma obra que pode ser considerada uma das mais pessoais de todo o Cinema, uma obra quase que inteiramente autobiográfica, a qual buscava conceitos absolutos como a Verdade, o Amor, a Liberdade, a Consciência.

    Por ser inspirador foi chamado de "Dostoievski do Cinema". E pelo mesmo motivo foi alvo de uma extrema censura, sendo profissionalmente muito prejudicado na URSS, o que o levou a abandonar seu país. Porém, seus trabalhos continuaram com a mesma temática e em 1983 lançou "Nostalgia", com o qual regressa à infância em uma verdadeira odisseia de lembranças. Seu último filme foi "O Sacrifício", de 1986, permeando temas como determinação e esperança, levando quatro prêmios em Cannes. À época, o cineasta já estava combatendo um câncer de pulmão que o levou à morte naquele mesmo ano.

    O cineasta exige de seu público certa introspecção, por serem seus temas sempre enigmáticos e apoiados em correntes filosóficas. Certamente que não agrada a muitos que buscam na arte apenas um entretenimento leve, como tantos outros filmes que são assistidos e esquecidos na manhã seguinte. Mas o Cinema de Tarkovsky não pode ser esquecido. Seus filmes são poesias em película.
    Durante seus anos de trabalho com as câmeras escreveu o livro "Esculpir o Tempo", um conjunto de reflexões sobre o Cinema. Um verdadeiro elogio à sétima arte, no qual compara o trabalho do diretor ao de um escultor que, "guiado pela visão interior de sua futura obra, elimina tudo o que não faz parte dela".

    O Cinema europeu sempre rendeu excelentes estórias. O Cinema de Tarkovsky rendeu excelentes percepções. E muitos se renderam à sensibilidade com a qual ele enxergava a complexidade do mundo.

    A versátil dedica uma caixa ao grande diretor, com três de suas obras primas e uma incrível documentário sobre a produção de uma delas.

    A seguir os filmes:

    “Nostalgia” 

    (“Nostalghia”, 1983, 126 min.)
    Com Oleg Yankovskiy, Erland Josephson e Domiziana Giordano.


    Jornada mística do poeta russo Andrei Gorchakov à Itália em busca de um novo modo de vida.

    Depois de 3 meses, viajando em companhia de Eugenia, uma atriz italiana, chegam a um pequeno vilarejo ao norte da Itália. Frustrado e deprimido por ainda não ter encontrado seu caminho, Gorchakov mergulha em seu passado, isolando-se em impenetrável silêncio. Mas ao encontrar Domenico (Erland Josephson - "O Rosto", "A Hora do Lobo", "Gritos e Sussurros"), um velho lunático, assim chamado por seu estranho e solitário modo de viver, ele consegue compreender sua angústia e o segredo de sua própria Nostalgia.

    Primeiro filme feito fora da Rússia do cineasta e poeta Andrei Tarkovsky. Recebeu três premiações no Festival de Cannes (1983) - melhor diretor, prêmio do juri ecumênico e prêmio FIPRESCI. Foi indicado para Palma de Ouro.


    “A infância de Ivan”

    (“Ivanovo detstvo”, 1962, 95 min.)

    Com Nikolai Burlyaev, Valentin Zubkov e E. Zharikov.

    O jovem e desconhecido na época Andrei Tarkovsky emocionou plateias e a crítica internacional com seu primeiro longa metragem "A Infância de Ivan". Foi o grande vencedor do Leão de Ouro em Veneza, desbancando filmes dos consagrados Godard, Kubrick e Pasolini. Este extraordinário e sensível filme retrata de forma poética e comovente a guerra pelos olhos de uma criança. Na história, Ivan, um menino de aproximadamente 10 anos fica orfão e passa algum tempo refugiado solitário lendo revistas até que um dia ele sai para atravessar o rio que vem sendo atacado por nazistas a todo o momento, o pequeno menino russo consegue atravessar o rio e ao chegar à outra margem e encontrar os soldados russos pede para falar com os homens do QG que o conheciam e assim continua trabalhando ao lado dos soldados. Ele tem continuas e frequentes lembranças de sua mãe, seus amigos e as suas irmãs durante todo o filme. Depois de muitos acontecimentos e da morte do seu grande amigo que pretendia adota-lo após a guerra, Ivan e mais dois dos homens russos tentam a travessia para a outra margem pelo mesmo rio cheio de nazistas e a todo momento bombardeado, Ivan insiste em ir na frente e assim eles se separam. Ao fim da guerra e em meio a comemoração dos russos, são feitas as buscas dos arquivos com as fotos e os nomes dos prisioneiros que os nazistas mantinham e mataram durante a guerra, nisso é encontrado o arquivo de Ivan, que fora feito prisioneiro e enforcado.

    “O espelho”

     (“Zerkalo”, 1975, 106 min.)
    Com Margarita Terekhova, Oleg Yankóvski e Alla Demidova.

    O Espelho’ (1975) é o quarto dos sete longas-metragens de Andrei Tarkovsky (1932-1986). Pensado nos anos 60, foi um projeto inicialmente rejeitado pela burocracia soviética. O filme acabaria por ser rodado na década seguinte mas, após o sua exibição, as autoridades permitiram apenas uma distribuição limitada na URSS e proibiram  no Festival de Cannes (no qual ‘Andrei Rublev’ (1969) e ‘Solaris’ (1972) tinham sido premiados e ‘Stalker’ (1979), ‘Nostalgia’ (1983) e ‘O Sacrifício’ (1986) viriam a sê-lo). ‘O Espelho’ adquiriu entretanto a reputação de ser o filme mais pessoal – e talvez o mais difícil – de uma obra composta por filmes que não poderiam ter sido feitos por nenhum outro realizador e que são certamente exigentes.

    O Espelho inspira-se fortemente na própria infância Tarkovsky. As memórias da infância, tal como na evacuação das pessoas de Moscovo para o campo durante a guerra, a perda do seu pai e mãe, que trabalhava como revisora de imprensa, tal como é de facto mostrado no filme.

    Num contexto mais amplo, O Espelho retrata os pensamentos e as emoções de Alexei (Ignat Daniltsev) e o mundo que o rodeia. A estrutura do filme é descontínua e não cronológica, sem um enredo convencional, e combina as memórias da infância com metragens da atualidade. O filme alterna três diferentes momentos, o tempo de pré-guerra, a guerra e do pós-guerra de 1960, constituindo quase uma autobiografia, pois Alexei passa pelos mesmos problemas, alegrias e tristezas que o realizador, Andrei Tarkovsky, passou na sua infância.

    “Tempo de viagem” 

    (“Tempo di Viaggio”, 1983, 62 min.)
    Com Andrei Tarkóvski e Tonino Guerra.

    Tempo de viagem mistura reflexões pessoais de Andrei Tarkovsky com lindas cenas de sua viagem a Itália junto do lendário roteirista Tonino Guerra durante o período de pré-produção de Nostalgia. Originalmente feito para exibição rede de televisão RAI, esta produção certamente chama a atenção de todos aqueles que querem descobrir mais sobre Tarkovsky e sua concepção sobre cinema. Mas ao contrário do que eu imaginei, o filme não é totalmente direcionado a Tarkovsky. Em várias ele aparece perguntando sobre arquitetura e história, em uma tentativa de conhecer mais sobre o país visitado. Mas é óbvio que as cenas mais interessantes acontecem quando Andrei está sentado e passa a refletir sobre sua carreira, seus trabalhos e suas influências.

    Uma passagem marcante diz respeito às dicas do soviético para aqueles que querem começar na carreira do cinema. Ele afirma que o diretor é um artista sujeito a pressões e problemas do mesmo nível que um compositor, poeta ou músico. Por isto é fundamental não se distanciar de suas origens e sempre se lembrar de suas raízes e influências ao começar um longa. As palavras poéticas do diretor, aliadas a sua franqueza chegam a emocionar. Ao discutir sobre seus diretores favoritos, Andrei cita Michelangelo Antonioni como um homem que revolucionou a ação apresentada nas telas. Para tal constatação, Andrei toma por exemplo o filme L’Avventura (cujo roteiro foi escrito por Tonino Guerra). Jean Vigo é considerado como “o pai do cinema francês”, enquanto Robert Bresson seu maior expoente. O soviético ainda cita seu gosto pelas películas de Federico Fellini (não pelo lado comercial, mas sim pela forma como elas são construídas). Aliás, é justamente esta palavra “comercial” que Andrei não gosta nem um pouco. Ao analisar sua carreira, ele diz que não gostou do resultado final de Solaris pois teve que ficar preso ao gênero de ficção cientifica, que tinha uma base estética apelativa e voltada quase sempre para o estouro nas bilheterias. É por isto que até 1983 ele considerava Stalker como um filme completo, já que ele rompeu todas as barreiras impostas pelo estúdio.

    Entre passeios e lindas tomadas que capturam um pouco da essência da Itália que Tonino tanto queria apresentar para seu amigo. Para quem quer saber mais sobre a vida deste grande cineasta, recomendo dois livros:  Time Within Time (lançado no Brasil com o título Diários 1970 – 1986) e  Sculpting in Time: Tarkovsky The Great Russian Filmaker Discusses His Art (Esculpir o Tempo).



    Marcus V.R.Pacheco
    Cinéfilo, colecionador e ocupado vendo filme

    DADOS TÉCNICOS DOS DISCOS


    DISCO 1

    “Nostalgia” (“Nostalghia”, 1983, 126 min.)
    Com Oleg Yankovskiy, Erland Josephson e Domiziana Giordano. 
    “A Infância de Ivan” (“Ivanovo detstvo”, 1962, 95 min.)
    Com Nikolai Burlyaev, Valentin Zubkov e E. Zharikov.

    DISCO 2

    “O Espelho” (“Zerkalo”, 1975, 106 min.)
    Com Margarita Terekhova, Oleg Yankóvski e Alla Demidova.
    “Tempo de Viagem” (“Tempo di Viaggio”, 1983, 62 min.)
    Com Andrei Tarkóvski e Tonino Guerra.

    Extras:

    Análise de “A Infância de Ivan” (31 min.) 
    Análise de “O Espelho” (11 min.)


    Todos em aspecto Widescreen Anamórfico 1.66:1 ou Fullscreen 1.33:1  e legendas em português.


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