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    quarta-feira, 1 de julho de 2015

    JOHN WATERS - BIOGRAFIA COM FILMOGRAFIA COMENTADA


    JOHN WATERS: O ÚLTIMO REBELDE DE HOLLYWOOD

    Por quase vinte anos, John Samuel Waters Jr. tem sido um embaixador do kitsch, um pesquisador do brega, um filósofo do exagero, um crítico insano do american way of life. Seus filmes – repletos de atores caricatos, tramas absurdas, diálogos melodramáticos e muita, muita escatologia – são considerados por muitos como exemplos de cinema incompetente e repulsivo. Sob essa fachada de desleixo, no entanto, escondem-se obras interessantes e críticas, que fazem um raio-x da vida mundana da classe média americana.


    O que Waters conseguiu em filmes como Pink Flamingos, Female Trouble, Polyester e mesmo seu filme mais comercial até hoje, Hairspray, foi fazer inteligentes sátiras à hipocrisia de pessoas que se consideram puras e exemplares, mas que na verdade ocultam perversões sexuais, tendências fratricidas e pura e simples esquizofrenia. A estética de Waters é suja e mal acabada, tal qual a vida dos personagens que ele usa em seus filmes. Waters é aquele niilista que está sempre nos lembrando que aquela menina bonitinha que nos chamou a atenção na pista de dança pode muito bem sofrer de um caso agudo de hemorroidas ou quem sabe ser uma assassina serial procurada pelo FBI. John Waters é um mal necessário.


    O diretor nunca desviou suas balas da classe média americana, até mesmo quando se rendeu ao mainstream, como nas comédias Mamãe é de Morte (foto ao lado) ou Clube dos Pervertidos, de 2004. Na primeira, a atriz Kathleen Turner é uma mãe coruja que leva a extremos o termo “super protetora”, eliminando todos aqueles que ameaçam a felicidade de seu lar e de seus filhos. No segundo, Tracey Ullman interpreta uma dona de casa que após uma concussão se torna viciada em sexo.
    O diretor sempre preferiu filmar em Baltimore, onde ele nasceu e mora até hoje. A cidade fica no estado de Maryland, costa leste do país, e é uma típica cidade de classe média suburbana dos Estados Unidos, com pequenas casas espalhadas em ruas arborizadas e vizinhos que se cumprimentam de manhã quando saem para o trabalho. Por trás dessa cortina de aparente paz e tranqüilidade, porém, a cidade esconde problemas comuns às megalópoles urbanas, como alto número de desemprego e crimes. Em outras palavras, Baltimore é o laboratório perfeito para as experiências desmistificadoras da “pureza” da classe média que Waters realiza em seus filmes. “Já me acostumei a morar aqui, e não vejo razão para mudar para uma cidade maior”, diz o diretor.


    John Waters passa seu tempo assistindo a antigos filmes B dos anos 50 e 60. Ele tem ido pouco ao cinema, culpa, segundo explica, da má qualidade dos filmes atuais. “Quando eu era adolescente havia dezenas de cinemas de arte que passavam filmes europeus, além de um monte de velhos cinemas de subúrbio, onde eu via todos os filmes de horror e sexploitation Hoje quase todos os cinemas legais fecharam.” Waters disse uma vez que uma das épocas mais tristes de sua vida foi o meio dos anos 70, quando o cinema de sexo explícito europeu invadiu a América e praticamente destruiu a sexploitation. “O cinema hardcore acabou com a ingenuidade do pornô original, que era muito mais sugestivo e cheio de criatividade”, explica. Portanto, não espere encontrar Waters na fila de algum megaplex para assistir ao blockbuster do verão. Seus filmes preferidos passam longe da lista dos mais assistidos, e entre seus passatempos preferidos está ir ao supermercado e jogar produtos estranhos dentro dos carrinhos de outras pessoas só para ver a reação delas, como vinte frascos de remédio para prisão de ventre, ou dez tubos de espermicidas, lubrificantes ou coisas do tipo. “Também adoro jogar quilos de mortadela vagabunda no carrinho de ricaços”, conta.

    FILMES ESTRANHOS, GENTE ESQUISITA

    Desde pequeno John Waters já dava sinais de que não era muito normal. Filho de uma família de classe média alta de Baltimore, o pequeno John desenvolveu na infância uma bizarra curiosidade por temas pouco comuns à sua idade, como serial killers e acidentes de automóvel. Durante a adolescência, Waters dirigiu diversos curtas, influenciado pelo cinema B. Ele punha amigos para atuar em filmes de títulos estranhos, como Eat Your Makeup (Coma Sua Maquiagem) ou seu primeiro filme, de 1964, Hag in a Black Leather Jacket (traduzindo, ''bruxa em jaqueta de couro preta''), um curta-metragem de 17 minutos que mostra o casamento de um homem negro com uma garota branca, sendo que um membro da Klu Klux Klan se apresenta como padre durante a cerimônia. Filmado em 8MM, foi exibido somente uma vez, rendendo trinta dólares, o suficiente para o diretor ter lucro. Dois anos depois, filmou Roman Candles, um trabalho importante não apenas por ser blasfemo, mas por ser a estréia de Divine no cinema.

    Nos anos 70, Waters montou sua própria produtora, Dreamland, na verdade uma reunião dos tipos bizarros que trabalhavam em seu time. O elenco habitual de Waters parecia uma família saída de O Massacre da Serra Elétrica. Incluía Divine, um travesti de 150 quilos, Edith Massey, uma garçonete de dentes horrivelmente tortos, e outras figuras cartunescas, como Mink Stole e Cookie Mueller. Se Martin Scorsese tinha Robert De Niro (a atualmente Leonardo Di Caprio) como seu ator preferido, e Marcelo Mastroianni viveu seus melhores papéis pelas lentes de Fellini, assim, guardadas as devidas proporções, é claro, para John Waters o ator que mais se identificou com seu trabalho foi Harris Glenn Milstead (foto à direita), mais conhecido como Divine (foto à esquerda), que trabalhou em seis filmes do diretor, com quem manteve uma longa amizade desde os tempos do primário e que só a morte do ator, em 1989, conseguiu colocar um fim.

    Aos 24 anos, dirigiu Mondo Trasho, de 1970, seu primeiro longa metragem, produzido com um simbólico orçamento de 2000 dólares emprestados pelo pai. Sem diálogos do primeiro ao ultimo take, a protagonista surge morta mais de dois terços do filme, depois de atropelada pela personagem de Divine, que recolhe o cadáver e, pela sua boa ação, é visitada pela Virgem Maria. Nas palavras de Waters: "Naquela altura, dependíamos muitos de locações. Na última cena do filme, quando Divine está numa pocilga no meio dos porcos, nunca perguntei ao fazendeiro se podia filmar ali. Simplesmente estacionamos do lado de fora, saltamos a cerca, filmamos a cena e fugimos." No ano seguinte, ele dirigiu Multiple Maniacs, que já trazia a marca registrada de seu estilo cinematográfico: violência, ataques à classe média, à religião e ao consumismo, e uma trama envolvendo uma família suburbana.

    Em 1972, Waters dirigiu seu filme mais cultuado, Pink Flamingos,sobre um concurso para eleger a pessoa mais nojenta do mundo. Por trás de cenas grotescas e imagens repelentes que incluem um estupro com uma seringa e a famosa cena final, na qual Divine come as fezes de um cão, os críticos viram um novo talento surgindo, e Waters se tornou herói do circuito cult.

    Esse sucesso, no entanto, se restringiu ao circuito de cinemas de arte. “O público médio nunca entendeu filmes como Pink Flamingos”, diz Waters. “Fui exibir o filme numa prisão e os detentos quiseram me linchar. Eles me chamaram de tarado e pervertido. E olha que esses caras eram todos assassinos e estupradores!”

    Nos dez anos seguintes, Waters aperfeiçoaria seu estilo criando pérolas da baixaria como Female Trouble (1975), Desperate Living (1977) e Polyester (1981). Para este último, o diretor mandou confeccionar cartelas de “odorama” que deveriam ser arranhadas em determinadas cenas do filme, para que o espectador pudesse sentir o cheiro correspondente à ação que se passava na tela.

    O relativo sucesso no circuito independente levou grandes produtoras a se interessar por John Waters. Em 1988 ele dirigiu Hairspray – E Éramos Todos Jovens, uma engraçada crônica da vida suburbana da Baltimore dos anos 50, época de penteados “bolo de noiva”, mobiletes, rock’n’roll e do início da integração racial na cidade. Hairspry, apesar de estar longe do grau de escatologia de Pink Flamingos, provou que Waters tem razoável potencial comercial. Com esse filme ele conseguiu se manter como um contumaz crítico dos hábitos consumistas da classe média, ao mesmo tempo em que tornou sua arte acessível ao público mainstream. O filme fez tanto sucesso que em 2003 se tornou um musical que ganhou os palcos da Broadway e recebeu diversos prêmios Tony, além de uma festejada versão para cinema em 2007, com John Travolta no papel que foi de Divine.

    Depois de um período em que andou meio sumido, durante o qual dirigiu o fracassado Cry-Baby e tentou sem sucesso filmar a continuação de Pink Flamingos, Waters retornou à ribalta com Mamãe é de Morte, recebido medianamente nos Estados Unidos mas que se tornou um inesperado sucesso na Europa. Seu projeto seguinte foi Cecil Bem Demente, de 2000, uma sátira ácida a Hollywood, em que Waters realiza um discurso contestador disfarçado de filme de estúdio, cujo momento mais simbólico é quando um assistente de produção amarra um executivo de smoking com metros de celulóide. Seu último trabalho na direção foi Clube dos Pervertidos, de 2004, em que voltou a expor ao ridículo as perversões da classe média dos Estados Unidos.


    Além dos quais em que também foi o diretor e roteirista, Waters trabalhou como ator em diversos filmes, como Poucas e Boas, de Woody Allen, de 1999, e O Filho de Chucky, de 2004, além de uma participação especial no episódio Homer’s Phobia, no desenho Os Simpsons, e no seriado Segura a Onda da HBO, do qual foi produtor executivo.Em 2005, participou do documentário Inside Deep Throat, sobre o famoso pornô dos anos 70, e em 2006, estrelou o documentário The Filthy World, dirigido por Jeff Garlin, no qual Waters celebra a sua carreira e o seu gosto singular, contando anedotas sobre o passado e oferecendo um retrato do seu mundo pessoal, com todos os seus fascínios e obsessões.





    FILMOGRAFIA BÁSICA COMENTADA

    1972: PINK FLAMINGOS: O mais nojento. Entre as atrocidades cometidas nas telas estão o estupro com uma seringa e um banquete com fezes de cachorro. Naquela época, os filmes ‘underground' passavam à meia-noite, junto com os pornôs. ‘Pink Flamingos', só com a divulgação boca-a-boca, atraiu multidões. Waters afirmou em uma entrevista que nunca faria um outro filme nos moldes de ‘Pink Flamingos', talvez por acreditar ser impossível superá-lo; entretanto, os dois que se seguiram – ‘Female Trouble' e ‘Desperate Living' - quase realizam essa proeza.

    1975: FEMALE TROUBLE: Menos asqueroso que o anterior, mas ainda assim um desafio: a visão dos 150 quilos do travesti Divine fazendo um striptease num bordel não é das mais agradáveis. Foi também marca o início da carreira de Divine como cantora, com a música tema do filme, composta pela dupla Waters/Divine. Anos depois, na década de oitenta, Divine gravou vários álbums de disco music que alcançaram relativo sucesso. Foi também o último filme com o genial David Lochary, que até então vinha participando de todos os trabalhos de Waters, como ator, maquiador e assistente de produção. Lochary morreu em julho de 1977, vítima de uma overdose.

    1977: DESPERATE LIVING: Waters exercita todo o seu repertório, que incluem operações de troca de sexo, presidiários comendo baratas e ração para cães, além de uma atuação imperdível de Edith Massey no papel de rainha Carlota. Por alguma razão desconhecida, Divine não atua em ‘Desperate Living', mas isso não diminui o valor do filme. Cenas inesquecíveis, como a da lésbica transexual recém operada se castrando com uma tesoura a pedido da amante, ou como o bar para lésbicas com shows de espancamento de homens, fazem de ‘Desperate Living' um dos melhores filmes de Waters.

    1981: POLYESTER: Após um período de inatividade, Waters retorna com um cinema mais comercial e bem produzido, dando início a uma nova fase em sua carreira. ‘Polyester', de 1981, traz Divine como uma mãe de família lutando para salvar seu casamento e seus filhos. Menos perturbador que os anteriores, se destaca pela cartela de odorama, que o espectador deveria arranhar durante determinadas partes do filme para sentir o “cheiro” da cena.

    1988: HAIRSPRAY: O sucesso no circuito independente trouxe fama a Waters e ele dirigiu esta comédia sobre os anos 50, envolvendo jovens de subúrbio e satirizando os programas de televisão da época. Divine faz dois papéis: o da mãe da protagonista, e o do proprietário das redes de televisão, mostrando-se bem convincente em um papel masculino, como já o tinha feito em ‘Female Trouble'. ‘Hairspray' é o último filme de John Waters com Divine, que morreu no ano de seu lançamento, vítima de um ataque cardíaco.

    1990: CRY-BABY: Já dentro do mainstream, ainda dá para notar o toque pessoal de Waters por causa dos cenários cafonas dos anos 60, dos temas absurdos e das caricaturas dos personagens vividos por Johnny Depp, Willem Dafoe e a estrela pornô Traci Lords, mas que não trazem quase nada da escatologia de seus filmes anteriores.

    1993: MAMÃE É DE MORTE: Com uma produção razoável e atores como Kathleen Turner e Sam Waterston, é mais radical que os dois filmes anteriores: a cena em que a velhinha é morta a golpes de pernil lembra o Waters dos velhos tempos.

    1998: O PREÇO DA FAMA: Também se passa em Baltimore (cidade natal do cineasta), o sucesso de jovem fotógrafo (Edward Furlong) abala a rotina de sua família. O surrealismo de algumas situações e o gosto pelo exagero ainda se percebe aqui, mas já longe do antigo estilo que o consagrou.

    2000: CECIL BEM DEMENTE: Um cineasta marginal rapta estrela de Hollywood para convencê-la a protagonizar seu novo filme. Mais uma sátira à mídia e ao culto às celebridades, estrelada por Melannie Griffith e que colocou Waters de vez no modelo hollywoodiano..

    2004: CLUBE DOS PERVERTIDOS: Proprietária de uma loja de conviniências fica viciada em sexo após uma concussão e começa a sentir desejos sexuais que fogem ao seu controle.

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