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    terça-feira, 16 de junho de 2015

    O QUE É GORE / SPLATTER ?


    Então...

    Traduzindo do inglês,  gore é um termo usado de várias maneira, entre elas para indicar “sangue coagulado”. O termo gore (também conhecido como Splatter) é constantemente associado ao terror por razões bem simples, já que o uso de violência gráfica com o intuito de provocar no espectador sentimentos de repulsa e espanto não é recente. Entretanto, nos últimos anos houve um grande aumento na procura por esta violência tão extrema que permitiu a existência de filmes como O albergue, A centopeia humana, Fome animal e Náusea total (ambos os primeiros longas do renomado Peter Jackson), além de um longo grupo de estranhos e doentios títulos japoneses como Grotesque ou Tokyo gore police. Estaríamos ficando mais sádicos? Ou então a liberdade para que produções deste nível se tornem mais acessíveis e permitidas acabou nos insensibilizando a ponto de que sejamos atraídos e fiquemos cada vez mais indiferentes aos horrores do sofrimento alheio? Ou ainda sofremos uma regressão moral com a flexibilidade das censuras?

    É historicamente comprovado que a violência, o sofrimento e a morte são apreciados pela humanidade desde há muito tempo. Na antiga Roma, os famosos coliseus atraíam centenas e até milhares de espectadores para assistirem escravos lutarem contra animais famintos e se dilaceraram uns contra os outros; cristãos eram executados publicamente. E não pense que isto seja um pensamento momentâneo: durante a Revolução Francesa os inimigos foram decapitados como verdadeiras atrações populares. A literatura e o cinema, por fim, podem até ser considerados modos mais saudáveis de atender a sede e a fome humanas por sangue e tripas, um sentimento que foi reprimido por valores morais, mas ainda atuante através do instinto de autopreservação e do medo de agressões ao próprio corpo. O que antes era algo impensável de se mencionar ou representar agora surge com frequência graças a uma banalização da violência. Porém, não estamos discutindo a violência em si, mas uma das suas representações mais radicais, o gore.

    Um pouco antes do gênero ganhar corpo,  a cultura americana era patrulhada pelo código Hays, idealizado por William H. Hays, que tinha a proposta de preservar os valores morais e familiares, proibindo a reprodução de cenas de assassinatos, o mesmo valendo para as demais infrações criminais, as cenas de sexo e de nudismo, de consumo de álcool,  de profanação e tantas outras condições imorais ou deprimentes para os padrões da época. Com o fim desta autocensura, em 1967, os produtores se viram livres para poderem experimentar e se deslumbrar com as possibilidades artísticas reprimidas pela Guerra Fria. No final da década de 1960 e começo de 1970, o uso do sangue e da sexualidade, bem como encenações que profanavam a fé cristã, foram os primeiros elementos a se destacarem, como pode ser visto em célebres produções como O bebê de Rosemary, Carrie, a estranha e O exorcista.

    Durante os anos 1970, a violência gráfica começava a se tornar mais intensa até chegar aos anos 1980, onde houve um aumento da confiança para se iniciar uma total exploração do repulsivo e macabro nas películas. Ainda não abordando os filmes trashs, vários títulos surgiram e se tornaram famosos por entrarem de cabeça nesta onda, como Kubrick em O iluminado e George A. Romero, um pouco antes, com O despertar dos mortos. A menção a Romero é muito importante, pois O despertar dos mortos pode ser considerado o primeiro gore verdadeiro, mas, mesmo com produções louváveis como Evil dead, a consolidação do que viria a ser gore surgiu na Inglaterra com Clive Barker. Repulsivo e horripilante até mesmo nos dias atuais, Hellraiser é de se esfriar o sangue com sua incrível maquiagem e seu nenhum receio em representar ferimentos e deformações bizarras com um toque de “carne viva”. Mas fora um ou outro sucesso, o gore não era propriamente popular.

    Durante os anos 1980 e 1990, este subgênero acabou caindo nas mãos de produções menos favorecidas, os filmes B e alguns independentes que eram filmados fora dos Estados Unidos. Apesar dos infames títulos dos estúdios Troma, foram os filmes de Peter Jackson feitos na Nova Zelândia que melhor representaram a continuidade deste conceito. O mesmo até pode ser dito sobre a polêmica película de Ruggero Deodato, Holocausto canibal, cujo realismo até hoje é inspiração para diretores que se dedicam em produzir um terror grotesco. Holocausto canibal, já aproveitando a menção, talvez mereça o mérito de ser o gore mais realista e convincente feito até ali, não querendo defender os métodos utilizados como, por exemplo, a execução real de animais durante as filmagens. Já vale ressaltar também que a maioria dos títulos que seguem esta linha costumam ser polêmicos, como o longa francês Martyrs e o recente A centopeia humana 2. Mas nem sempre a presença deste elemento resulta necessariamente em algo totalmente repulsivo, sendo uma exemplificação eficaz deste uso mais leve a série Premonição (Final Destination) e o primeiro título da série Jogos mortais baseados essencialmente em mortes elaboradas, criativas e brutais. Mas, claro, uma das principais características do gore é o exagero.

    Para nós, ocidentais, a estética japonesa sempre foi peculiar de várias formas, mas não existe melhor conceito prático de bizarro do que um filme gore japonês. Extremamente apelativo e, muitas vezes, indiferente à qualidade visual, este ramo do terror nipônico é até digno de permanecer na obscuridade devido ao tamanho radicalismo, apesar de, ocasionalmente, gerar filmes merecedores de atenção, como o já mencionado Grotesque, que exige uma frieza que muitos espectadores de fato não possuem. Representando o primeiro grupo, pode-se listar Z is for Zetsumetsu, um dos curtas metragens que compõe a antologia The ABC’s of death. Quando o assunto é produzir algo verdadeiramente bizarro, os japoneses são mestres exímios em nos surpreender. Apesar de uma proposta simples, o gore é mais do que nunca um dos segmentos que mais exige técnicas de efeitos visuais e de montagem , pois mesmo com a grande tendência de ser extremamente exagerado, o que mais pesa é a qualidade do como a violência gráfica é reproduzida, ou seja, a capacidade de ser convincente. Por isso Holocausto canibal acaba liderando o ranking deste subgênero.

    Mas o que faz o gore tão popular? Se pensarmos em praticidade chegaremos à conclusão de que violência gráfica funciona de modo mais simples e rápido do que algo mais sutil ou elaborado, como um terror sobrenatural ou criminal. Tão aterrorizador quanto a possibilidade de uma morte induzida, é uma morte antecedida por dores e sofrimentos além da compreensão de uma pessoa comum. É desse modo aparentemente básico que o gore funciona, provocando, primeiramente, o desconforto visual e, em seguida, valendo da competência individual de cada título, conseguindo com que o espectador se coloque na pele da própria vítima. Portanto, não se limita a um desejo sádico, mas sim a jogos de masoquismo psicológico.

    Obviamente também existe uma satisfação do sadismo existente em todo ser humano, que é reprimido e, muitas vezes, negado: assistir a um filme gore seria um modo de liberar este desejo e a agressividade natural e primitiva da nossa natureza que não é bem aceita pelos valores sociais e morais com os quais convivemos desde o nascimento. Gerar algo tão repugnante e brutal a ponto de ser impossível fechar os olhos e produzir sensações (sofrimentos agonizantes) parece ser o fim deste subgênero cinematográfico.

    Mesmo com esta compreensão, ainda pode parecer meio confuso entender o que leva uma pessoa a assistir algo como o gore. Bem, o princípio é o mesmo equivalente ao próprio gênero de terror em toda sua abrangência.

    O segredo para este mistério está em um hormônio simpaticomimético e neurotransmissor que se deriva da tirosina e é produzido nas glândulas suprarrenais, cuja função é ser um estimulante cardíaco e muscular. Caso nosso leitor não domine a biologia, estamos falando da adrenalina, uma substância que reage em nosso corpo em momentos de estresse e ansiedade. No cinema, muitos consideram algo relacionado quase que exclusivamente ao gênero de ação, mas o medo é um elemento emocional que também ocasiona a liberação de adrenalina por estar ligada ao instinto de sobrevivência, preparando o corpo para uma reação, seja um confronto, uma fuga ou um grito. Pela mesma razão que você vê um filme de ação, você assiste a um filme de terror. Esta é, inclusive, uma das justificativas por este gênero ser mais consumido pelo público jovem. Desta forma, cada geração possui novas preocupações, medos e sensibilidades que diferem da anterior, o que explicaria a razão por muitos não darem importância a títulos do terror mais elaborados e místicos e preferirem algo mais cru e chocante como o gore.

    Com isto em mente, podemos afirmar que a procura por esta maior violência gráfica é um sintoma de uma geração viciada em estímulos visuais que dá prioridade a algo mais direto. Porém, da mesma forma que ouvir heavy metal não significa que o individuo seja agressivo, gostar de ver gore não faz do espectador um possível genocida.


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