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    sábado, 6 de junho de 2015

    CORRA LOLA CORRA - ANÁLISE ESTRUTURAL DO FILME



    Os elementos estruturais e símbolos contidos no filme Corra, Lola, Corra
    O filme “Corra Lola, Corra” pode ser considerado uma daquelas produções cinematográficas onde cada elemento tem uma função estrutural fundamental. Antes dos créditos iniciais, surge na tela uma carranca que logo identificamos como um pêndulo de relógio. Segue-se uma figura de um relógio monstruoso que nos abocanha. A música inspira um suspense típico de filmes de terror: acorde dissonante suspenso predominantemente no grave. Dessa forma o diretor apresenta o personagem principal da trama: o tempo. Depois estamos num campo neutro cheio de indivíduos anônimos onde, vez por outra alguma figura é destacada “ao acaso” e somos obrigados a reparar nela e atribuir-lhe qualidades. 

    Os personagens destacados são todos atores que participam do filme. É a maneira do diretor os apresentar como pessoas colhidas da multidão. O último destaque é o segurança do banco do pai de Lola que chuta uma bola para cima. A câmera sobe como se representasse a visão da bola para a multidão lá embaixo e todos se reposicionam, fundindo-se, formando no chão, a frase Lola Rennt (Corra, Lola) que é o título original do filme. Pequenas ocorrências aparentemente insignificantes contribuindo para a construção do todo. Surgem os créditos onde Lola é retratada como um desenho animado em desabalada corrida enfrentando inúmeros perigos no percurso. Entre eles, um relógio monstruoso. A personagem dá socos nos créditos e alguns deles, ao acaso, transformam-se em monstros ou coisas do tipo. Uma cena de videogame com trilha sonora tecno.

    Todo o filme é estruturado a partir de algumas constantes temáticas: a ideia da repetição, dos relógios, da influência do acaso, do número 20, da cor vermelha, da espiral e da relação entre gritos e vidros quebrando. Essas figuras servem como costura essencial para o filme e conferem a ele uma unidade sólida.
    Para falar sobre cada um desses itens e da maneira como cada um deles está manifesto no filme, vou realizar uma operação de acaso que definirá a estrutura dessa parte do trabalho...

    O acaso - Um dos mais importantes elementos temáticos do filme. A sua estrutura ternária serve para mostrar o quanto pequenas mudanças aleatórias de conduta, observadas em perspectiva, podem acarretar em significativas alterações no futuro. Lola tem 3 chances para salvar Manni dos gangsteres e em cada oportunidade, devido a pequenos detalhes, os resultados variam entre o desastre de causar a própria morte ou do namorado e a possibilidade de resolver o problema e ainda ficar com o dinheiro. Em várias oportunidades durante o filme, quando Lola de alguma forma intercepta outros personagens, surgem os flashfowards: são rápidas sequências fotográficas que representam cenas do futuro de cada pessoa interceptada e que pretendem mostrar para o espectador que dependendo da maneira como Lola os aborda, seus futuros tomam caminhos totalmente diferentes.
    A senhora com o carrinho de bebê, por exemplo, na primeira corrida acaba perdendo a guarda do bebê, enlouquecendo e tornando-se uma sequestradora de crianças; na segunda corrida, ganha na loteria e na terceira corrida, acaba se filiando a uma seita religiosa. Nas escadarias de seu apartamento, logo no começo das corridas, dependendo da maneira como a protagonista interage com o menino com o cachorro – simplesmente se esquivando com medo, enfrentando-os e sendo derrubada escada abaixo ou voando por sobre os dois – interfere consideravelmente no desenrolar de cada corrida; A secretária Jutta só tem tempo de dizer ao pai de Lola que o seu filho não é dele quando, por acaso, Lola se atrasa na segunda corrida devido ao tombo nas escadas do seu prédio e, como na primeira corrida, distrai Herr Meier, momentos antes, na saída de sua garagem – ele estava se dirigindo ao banco para pegar o pai de Lola - fazendo com que o seu carro colida com outro na rua; é o acaso que permite a Lola salvar o homem na ambulância na terceira corrida, que faz com que ela se dirija ao cassino, para que, apostando no acaso (na roleta), ganhe os 100 mil marcos. Vale observar que a chave para tantas variantes se encontra em grande medida nas mudanças de atitude de Lola frente à missão que tem pela frente. O diretor constrói o personagem não como alguém que vive uma mesma situação 3 vezes, mas como alguém que possui 3 chances de alcançar o sucesso: um personagem de video-game com 3 “vidas”! Lola parece aprender com as experiências passadas a evitar novos erros fatais.

    Repetição – Outra referência fundamental dessa produção. Temos uma estrutura formal onde a mesma situação é repetida 3 vezes, como já foi dito antes, até que a protagonista consiga alcançar o seu objetivo; ao telefone, na introdução, Lola e Manni repetem várias vezes a palavra die Tasche (a bolsa) quando é relatada a situação da blitz no metrô; o tique-taque dos segundos que restam para o fim do prazo estipulado, onipresentes, soando subliminarmente; os passos de corrida de Lola; a fotografia toda baseada em padrões repetitivos: colunas em fila debaixo dos trilhos do metrô, prédios com janelas idênticas, o próprio metrô, a fileira de freiras no caminho, o chão por onde Lola corre visto de uma tomada do alto com padrões quadrados, o eletrocardiograma dentro da ambulância, a faixa listrada do lado direito da cena da morte de Manni; a escolha de uma trilha musical baseada em padrões repetitivos tecno que funcionam como uma espécie de substituto para os sons dos ponteiros do relógio: um fator de incremento para a tensão nos momentos de corrida. As letras das canções também trazem versos repetitivos como em Running Three (tema da terceira corrida): “I want to go/ I want to fight/ I want to rush/ I want to run/ I want to see you again/ under the setting sun/...”
    Gritos e vidros quebrando – Um dos elementos que acrescenta um componente fantástico ao filme, e que está relacionado a um gesto genérico: um momento de acúmulo de tensão que leva a um fim explosivo seguido de profundo silêncio, que pode ser encarado como uma miniatura da estrutura formal de cada uma das duas corridas iniciais com respeito a seus desfechos e mesmo ao seu conteúdo musical: depois de 20 minutos de tensão ao som de uma trilha musical tecno alucinada, ocorre, inevitavelmente o momento crucial da morte de um dos protagonistas, seguida da execução de um fragmento da estática e tranquila textura homofônica de cordas que forma a base para a obra The Unanswered Question do compositor norte-americano Charles Ives que possui relação com o silêncio depois do explodir dos vidros.

    Tal efeito fantástico ocorre na introdução quando Lola pede calma a Manni ao telefone, no escritório de seu pai durante uma discussão na primeira corrida e no cassino, na terceira corrida quando ela acaba ganhando o dinheiro. Aqui, além de quebrar todos os vidros do ambiente, Lola consegue influenciar a roleta a seu favor através desse recurso. Na segunda corrida, o gesto grito-vidros quebrando está presente de forma sutil na relação: sirene de ambulância-chapa de vidro quebrando no cruzamento. Aqui, porém, como nas cenas que acabei de citar, Lola é a responsável pelo “efeito”, pela colisão, por ter distraído o motorista momentos antes.


    Espiral - O gesto espiral permeia todo o filme. Voltando para a estrutura formal macro fórmica, temos uma estrutura circular, que acaba sendo retomada continuamente depois de transcorrido todo o seu percurso, mas que nunca é retomada como antes, como um padrão espiral. O fato de Lola parecer estar sofrendo um constante aprimoramento como se estivesse aprendendo com os próprios erros entre uma corrida e outra, acaba sugerindo que a cada nova tentativa, Lola estaria num estágio superior como ser-humano: desde a criança tola que não sabe o que fazer e que acaba morrendo violentamente (primeira corrida), até o ser angelical que salva um paciente terminal dentro de uma ambulância em movimento a caminho do ponto de encontro com Manni apenas olhando em seus olhos e segurando sua mão. Pode-se visualizar a imagem de uma espiral divergente. Em termos de cenário, maquiagem e fotografia, temos diversos momentos onde aparecem espirais: na apresentação dos créditos como uma textura de fundo; a câmera na cena onde a mãe de Lola fala ao telefone descreve um percurso espiral ao seu redor que acaba transportando a cena para o desenho animado de Lola na TV da sala; no início de cada uma das corridas (em formato de desenho animado) ao percorrer as escadarias do seu prédio, que nesses momentos parecem não ter fim e possuem o formato de espiral convergente; a porta de seu prédio possui um ornamento em forma de espiral; o nome do prédio de onde está situada a cabine telefônica de onde Manni se comunica com Lola se chama Spiralle; os desenhos da cama de Lola e Manni nas cenas de flashback que sucedem ambas as mortes são em formato de espiral; o cabelo da moça no fim da cena do cassino na terceira corrida foi penteado em formato espiralado. 

    Por fim, o movimento circular da roleta, que apesar de ser circular sempre aponta para um destino diferente, é imitado por Lola na introdução quando a protagonista se concentra para tentar achar em sua mente alguém que possa lhe emprestar o dinheiro: a câmera descreve um movimento circular em torno da personagem e vão aparecendo “resultados parciais” em sua mente até que o movimento giratório vai perdendo força (como na roleta) e o personagem sorteado acaba sendo o seu pai.
    A trilha musical que acompanha Lola em suas 3 corridas é constituída de músicas que possuem a mesma estruturação formal, mas que apresentam sempre arranjos e letras diferentes, enfatizando a novidade de cada corrida apesar do início idêntico: a música é retomada mas nunca da mesma forma. As letras, como já foi visto no item repetição, possuem, em grande medida, versos que apesar de iniciarem de forma idêntica, logo são variados como mais uma alusão subliminar ao padrão espiral. Vale dizer que o diretor Tom Tykwer declarou-se grande admirador do cineasta Alfred Hitchock e chegou a afirmar que a ideia das espirais em seu filme pretendia ser uma homenagem: uma referência explícita ao filme “Vertigo”.


    Relógios – Sendo o tempo o grande protagonista, e vilão, da estória, não podiam deixar de faltar inúmeras referências a ele no decorrer da trama. Um relógio surge monstruoso antes da introdução e durante os créditos firmando-se como elemento fundamental de costura do filme. Relógios foram dispostos em diversos locais do percurso de Lola em direção a Manni para por o espectador a par do tempo que resta a Lola para evitar que seu namorado assalte o supermercado em frente à cabine telefônica e salvar sua vida. O relógio mais importante, sem dúvida, é o que fica situado ao lado do supermercado: é ele que Manni consulta para saber se é a hora de entrar no estabelecimento e realizar o assalto. Há um relógio no quarto de Lola que serve como start para que o espectador “acerte o seu relógio”, outro na sala de seu pai que, por ser de vidro se espatifa quando Lola grita na primeira corrida e uma senhora dá as horas a Lola quando esta sai do banco. O formato do relógio também faz parte do design geral: circular e fragmentado (roleta), divide o tempo marcando os segundo em tique-taque (repetição). O relógio define os lapsos temporais dentro dos quais os eventos se sucedem e funciona como um tirânico mecanismo de precisão que deve servir como fria referência na luta da personagem principal pela vida de seu amor.
    A trilha musical tecno é utilizada nos momentos em que Lola se encontra correndo contra o tempo, nas ruas, e cessa toda vez que surge uma situação de diálogo alheia a isso: quando se perde a noção do tempo e se faz necessário perguntar as horas para reiniciar a corrida. Existe uma relação estreita, portanto, entre o correr dos segundos no relógio e os momentos em que Lola literalmente aposta corrida com o tempo, nas ruas. Nos momentos em que o tempo pára, nos finais, cessa também o ritmo tecno, que é substituído por algo que dá a idéia de suspensão temporal: os acordes prolongados em pianissimo e a harmonia ambígua de Charles Ives, ou mesmo o simples silêncio dos momentos íntimos à cama.

    O Número 20 – Existem 4 referências importantes a esse número no decorrer do filme: a primeira é bastante óbvia e diz respeito ao prazo de 20 minutos que Manni estipula para iniciar o assalto ao supermercado. Nesse lapso de tempo Lola deve conseguir 100 mil marcos para dar ao gangster patrão de Manni, caso contrário seu amado será assassinado. O segundo é o tempo de duração real, para o espectador, de cada corrida é sempre equivalente aos 20 minutos estipulados por Manni. Todos os eventos mostrados durante as 3 corridas ocorrem quase simultaneamente a elas, sendo que os eventos paralelos à corrida de Lola foram filmados com técnicas diferentes e possuem uma imagem levemente desfocada. O filme possui, portanto 81 minutos, sendo que mais ou menos 20 para a introdução e mais ou menos 60 para as 3 corridas (20 cada). O terceiro não é tão significativo e diz respeito ao dinheiro necessário para Lola comprar a ficha de 100 marcos na entrada do cassino, faltam 20 centavos de marco, e o quarto é que Lola ganha o dinheiro de Manni apostando insistentemente no número 20 da roleta, na terceira corrida.

    A cor vermelha – Existem várias referências à cor vermelha no decorrer do filme: o cabelo de Lola, cuja corrida acaba nos remetendo à corrida de um portador da tocha olímpica, a ambulância, o cenário e a luz dos momentos íntimos entre Manni e Lola, a primeira bolsa, do assalto ao supermercado, além de referências aqui e ali por toda parte. Outra referência relacionada a cores é muito importante e diz respeito à maneira sutil como o diretor procurou dar a dica de como deveríamos encarar cada uma das corridas. Em todas as corridas, inevitavelmente, Lola consegue o dinheiro e o deposita em bolsas. Na primeira corrida, depois de assaltar o banco, ambos fogem com o dinheiro em bolsas vermelhas; na Segunda corrida o dinheiro do assalto ao banco do pai é colocado em uma bolsa verde e o dinheiro ganho no cassino, numa bolsa dourada (amarela).

    Tais cores remetem às cores de um semáforo: pare, siga e preste atenção. Em outras palavras, a primeira corrida está sob o signo da insensatez e insegurança e Lola age como um carro desgovernado; foge de medo do cão nas escadas, se submete à autoridade do pai, não consegue o dinheiro, é levada a participar do assalto ao supermercado e acaba morta. Coincidentemente a palavra falada por Lola quando de sua ressurreição é stop (pare); na segunda corrida Lola assume as rédeas da situação e se impõe, procura enfrentar o garoto das escadas e sofre a queda (a deixa para entendermos que ela está sendo guiada por uma determinação extremada que pode levar ao desastre), consegue o dinheiro passando por cima da autoridade paterna, chega a tempo de evitar o assalto, mas não consegue evitar a morte de Manni que não vê o sinal verde para a ambulância, que o atropela. A letra da canção tecno que acompanha sua segunda corrida diz: “Just go go, never stop and never think/ To do do do do the right thing/...”; e finalmente, a terceira corrida é a corrida da reflexão, da inspiração divina, da atuação de forças transcendentais: depois de não conseguir encontrar o pai, Lola reza por uma saída correndo de olhos fechados pedindo um sinal e um caminhão a acorda quando por pouco não a atropela, e com isso Lola visualiza o cassino, gastando os últimos segundos de sua corrida apostando tudo o que pode na roleta. Por fim ajuda a ressuscitar um paciente terminal dentro da ambulância.


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