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    terça-feira, 9 de junho de 2015

    O QUE É BLAXPLOITATION ?



    BLAXPLOITATION

    Blaxploitation foi um movimento cinematográfico norte-americano que surgiu no início da década de 1970, que tinha como publico alvo, principalmente, os negros norte-americanos. . A palavra é uma junção de black ("negro") e explotaition ("exploração").

    Esses filmes ganharam características próprias, eram dirigidos e interpretados por atores negros, tinham trilhas sonoras sofisticadas e fantásticas, compostas por alguns dos maiores artistas da época e abarcavam muito mais coisa do que se pode ver à primeira vista. “Os filmes blaxploitation geralmente têm um herói ou heroína afro americano que atua à margem das instituições e da lei. Para vencer suas batalhas, o herói blax jamais recorre à polícia ou a qualquer outro aparelho governamental, mas sim a grupos de ativistas negros, como o Panteras Negras.

    Nos filmes, nenhuma instituição oficial é confiável ou tem interesse legítimo pelo que se passa nas comunidades afro americanas. Os problemas das comunidades negras só são resolvidos pela ação direta dos próprios membros dessa comunidade” .

    Atores/atrizes como Pam Grier que se consagraria em Coffy (1973), de Jack Hill e 18 anos depois, em Jackie Brown de Quentin Tarantino, Richard Roundtree de Shaft, o campeão de caratê Jim Kelly que contracenou com Bruce Lee em Enter the Dragon, se destacaram como os principais artistas deste gênero. Shaft, dirigido por Gordon Parks lançado em 1971 com orçamento da MGM, foi o filme que mais se popularizou no gênero. Outros clássicos da blaxploitation também se destacaram como Superfly e Trouble Man, de 1972, Black Caesar, de 1973 dirigido pelo consagrado Larry Cohen, Coffy, Blacula e Cleopatra Jones, de 1973, Black Belt Jones, Willie Dynamite e Foxy Brown, de 1974, Bucktown e Dolemite, de 1975, Black Samurai, de 1977, entre outros. O filme Com 007 Viva e Deixe Morrer, o oitavo da franquia James Bond, foi frequentemente referido como um filme blaxploitation. Jackie Brown, de 1995, apesar de não ser um blaxploitation propriamente dito, tem forte inspiração nesse gênero.

    A origem do blaxploitation está lá atrás, nos acontecimentos que transformaram a vida dos afro americanos no século XX, como o grande movimento migratório dos negros do sul segregacionista para os centros urbanos do norte, que também viviam em climas e segregacionista, porém, mais velado. A partir daí surgiram as grandes comunidades negras, mais tarde transformadas nos guetos retratados pelos criadores do cinema blaxploitation. O resultado desse êxodo foi o aparecimento da música antes do cinema negro. A indústria musical, cujo principal produto, o disco, requer gastos de produção bem menores que os de um filme, saiu na frente e registrou com sucesso as vozes negras desde o início. O blues e o jazz se tornaram rapidamente o esteio da indústria fonográfica norte- americana.
    A presença das vozes afro americanas nas rádios e nos aparelhos de reprodução de discos pelo mundo afora mostrou a capacidade dos artistas negros de ocupar grandes espaços na cultura industrial, mas a indústria cinematográfica decidiu, com pequenas exceções, ignorar a experiência social e o talento dos artistas negros durante cerca de 50 anos.

    UM NOVO FILÃO

    Um anseio e uma pressão não declarados já pediam pelo aparecimento de um movimento que retratasse a sociedade afro-americana nas telas de cinema em uma cultura que adquiriu um domínio tão completo da arte cinematográfica. O surgimento da briga pelos direitos civis e o basta que a comunidade negra queria dar à segregação racial foram importantes para isso, um processo que começou nos anos 50, e só ganharia a tela de maneira definitiva em 1971.

    Apesar de experiências anteriores com produções com diretores e elenco totalmente negros (o primeiro filme assim data de 1919 e se chama The Homesteader), foi a aventura pessoal empreendida pelo fotógrafo e ativista Melvin Van Peebles, que é considerado o marco zero do blaxploitation. A produção Sweet Sweetback’s Badaaasss Song reunia pela primeira vez todas as características que definiram o gênero: produção independente de baixo orçamento, tendo como personagem principal um anti-herói negro em conflito com o poder estabelecido. E claro, uma trilha sonora matadora do Earth, Wind and Fire. 

    A partir do filme de Melvin Van Peebles, e com a porta aberta graças às filas que o público formou nas portas dos cinemas para assistir a obra, a indústria cinematográfica percebeu que havia ali um nicho a ser explorado e abriu suas portas para que outras produções do mesmo estilo surgissem e a sequência de títulos se tornou longa, com filmes - alguns muito bons, outros nem tanto - surgindo na esteira dessa nova descoberta. Mas uma coisa que era quase unanimidade eram as ótimas trilhas sonoras que apareceram. 

    Claro que alguns filmes eram melhores que os outros, e esses se sustentam, tinham bons enredos e tudo mais. Nas trilhas foram as primeiras produções a darem chance para os grandes arranjadores de jazz e soul no cinema. Antes disso, só Quincy Jones havia aparecido. Depois veio Curtis Mayfield, Isaac Hayes, James Brown, Barry White, Marvin Gaye,Willie Hutch. Esses filmes refletiam a importância da música nas comunidades negras.

    LISTINHA BÁSSSSICA DOS MELHORES


    CLEOPATRA JONES (1973)

    Cleópatra Jones é uma agente especial norte-americana (interpretada por Tamara Dobson) apostada em derrubar o narcotráfico mundial, em particular a organização liderada pela “madrinha” Mommy.
    No universo das personagens iconográficas que resultaram da era do “blaxploitation”, Cleópatra jones ocupa um dos lugares de reverência. Tal como em outros filmes blaxploitation, são inegáveis as influências de outros sucessos comerciais de Hollywood na criação do personagem (aqui bem patente na alusão clara feita a saga do 007).
    Já a sua influência dentro da cultura afro americana e até cinematográfica continua bem presente nos dias de hoje, talvez um dos maiores exemplos disso seja o papel protagonizado pela cantora Byoncé (Foxxy Cleopatra) no filme de 2002, Austin Powers.

    THREE THE HARD WAY (1974)

    Quando uma organização que advoga a supremacia branca, engendra um maquiavélico plano que inclui envenenar a rede pública de água dos EUA com uma toxina letal apenas para os negros. A única salvação da “nação negra norte-americana”, reside nos 3 magníficos!
    Este é um dos filmes que melhor simboliza o carácter manifestamente “over the top” de grande parte dos filmes blaxploitation, assim como as suas concepções de natureza político social. Já do ponto de vista estritamente cinematográfico, esta é uma das obras mais marcantes do género por incluir 3 dos mais famosos atores dos filmes blaxploitation (Fred Williamson, Jim Brown, e Jim Kelly) para além de ser dirigida por um dos mais destacados realizadores do subgênero, Gordon Parks Jr.

    BLACULA (1972)

    Um príncipe vampiro africano que foi mordido à seculos atrás pelo Drácula, surge em plena Los Angeles moderna.
    Os filmes de Blaxploitation não se resumiram aos títulos de ação, tendo explorado toda uma vasta gama de gêneros cinematográficos, incluindo terror. Blacula é claramente um dos exemplos de filmes blaxploitation inspirados em sucessos anteriores de Hollywood (aqui claramente nos filmes clássicos do Drácula, em particular O Horror de Drácula-1958 com Christopher Lee). Embora nos dias de hoje o filme resulte melhor do ponto de vista de paródia aos filmes de Drácula do que como filme de terror, continua a ser o filme referência em matéria de terror blaxploitation (no ano seguinte foi lançada uma sequela, O Terror de Blacula, em que o vampiro contou com a companhia de Pam Grier).

    FOXY BROWN (1974)

    A voluptuosa Foxy Brown infiltra-se como prostituta num bordel da alta classe gerido pela máfia, para tentar descobrir a identidade do assassino do seu namorado, morto quando se encontrava a investigar o dito bordel (toda a trama aqui está ao serviço de Foxy Brown, que emana sensualidade a rodos, com múltiplas cenas carregadas de erotismo inebriante, e muita ação a mistura).
    Esta sequela oficiosa do popularíssimo Coffy-1973 ajudou a estabelecer Pam Grier como a rainha dos filmes blaxploitation, e fez do personagem Foxy Brown a par de Shaft, o mais famoso de toda era do blaxploitation (o filme de Quentin Tarantino, Jackie Brown-1997 que conta com Pam Grier como protagonista, é em certa medida uma homenagem a todo o género, e muito em particular a iconográfica personagem). Curiosamente Foxy Brown é um dos raros clássicos de blaxploitation que foram realizados por um cineasta branco (Jack Hill).

    SUPER FLY (1972)

    “Super Fly aka Priest”, é um traficante de cocaína que se apercebe que no seu mundo apenas existem duas saídas: a cadeia, ou a morte. A menos que surja uma terceira via… Um último golpe, que o liberte do “game” (está é uma das histórias recorrentes e clássicas dos filmes de gangsters, mas que aqui veio revestida de muitos elementos que foram pioneiros no cinema).
    Detentor de uma das mais míticas bandas sonoras na história do cinema, assinada por Curtis Mayfield (autor de muitas das coloridas bandas sonoras funk & soul que distinguiram os mais aclamados filmes blaxploitation). Este foi também o filme da era Blaxploitation, a par de Mack-1973 com maior influência na cultura Hip hop dos nossos dias. Das roupas espalhafatosas e coloridas, aos carros e estilo cool, a banda sonora. Também do ponto de vista social, este foi um filme que antecipou comportamentos, incluindo a explosão da cocaína como a nova droga de eleição a partir dos finais dos anos 70, e década de 80.
    Por tudo isso, Super Fly é um dos mais emblemáticos filmes blaxploitation, e apenas um dos 3 a ter a honra de figurar na lista dos “1001” FILMES PARA VER ANTES DE MORRER”.

    BLACK CAESAR (1973)

    Tommy Gibbs é um jovem do ghetto que cresceu a pulso nas ruas do Harlem, sonhando tornar-se um dia no “Padrinho de Harlem”. Revoltado contra sociedade racista em seu redor, ele traça um plano, e dá início a uma luta sanguinária entre gangues com o intuito de chegar ao poder a todo custo.
    Comumente chamado de “O Padrinho Negro”, Black Caesar tem na realidade mais elementos do Scarface do que do Padrinho propriamente dito! Uma vez que a sede insaciável de poder vingativo que conduz o personagem principal, assume o papel de principal catalisador do filme.
    A obra é uma das mais celebradas pelos fãs do blaxploitation, surgindo praticamente todas as listas dedicadas aos melhores filmes do gênero. Outra das razões para tamanha reverência, prende-se com protagonista Fred Williamson, que é a maior estrela masculina do blaxploitation (The Legend of Nigger Charley-1972, Hammer-1972, Cidade do Crime-1973, Boss Nigger-1975, Bucktown-1975, etc.)

    SWEET SWEETBACK’S BAADASSSSS SONG (1971)

    Depois de impedir o linchamento de um jovem negro pertencente aos Panteras Negras, as mãos de dois policias racistas brancos. Sweetback’s um prostituto negro, passa a integrar a lista dos mais procurados, e apenas pode contar com ajuda da comunidade do ghetto para escapar ao “The Man”.
    A obra-prima de Mario Van Peebles (um dos primeiros realizadores negros a trabalhar em Hollywood) é uma espécie de orquestra dos 7 instrumentos de um homem só (já que Van Peebles escreveu, realizou, protagonizou, e compôs a banda sonora). O filme parte drama de consciência social, parte thriller psicadélico, parte soft pornô! È um daqueles casos em que não existe meio-termo, ou se ama, ou se odeia. Vanguardistas em muitos aspetos, quer ao nível da narrativa, da cinematografia, e especialmente da crítica social (particularmente por ser uma das primeiras obras em que uma minoria crítica abertamente o establishment, utilizando o sistema a partir de dentro) tornou-se num dos filmes pioneiros “do movimento Blaxploitation”. Sendo ainda hoje a obra do gênero mais aclamada pela crítica, integrando a prestigiada lista “Dos 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer (o filme que custou a data pouco mais de 120 mil dólares, rendeu mais de 15 milhões nas bilheteiras, tornando-se então no filme independente mais rentável da história).

    A MÁFIA NUNCA PERDOA (1973)

    Quando 3 ladrões de pequena monta do Harlem roubam de forma surpreendente 300 mil dólares a Mafia Italiana. Torna-se claro para eles que acabaram de assinar as suas sentenças de morte, sendo apenas uma questão de quem os encontrara primeiro, a mafia, ou os dois detectives de métodos pouco ortodoxos (protagonizados por Anthony Quinn e Yaphet Kotto).

    Na verdade esta é uma obra que extravasa o gênero blaxploitation, e que se assume como um dos melhores filmes de crime já mais produzidos, mostrando-se bastante a frente do seu tempo em comparação com muitos dos filmes na sua época (incluindo os personagens multidimensionais, diálogos elaborados, e sobretudo sendo capaz de evitar os típicos estereótipos dos filmes de policia branco, vs policia negro). Numa palavra, uma verdadeira obra-prima que merece ser redescoberta pelo público atual (mas para mais, tem um dos temas musicais originais, mais célebres no cinema, assinado pelo lendário Bobby Womack).

    COFFY (1973)

    Uma enfermeira negra torna-se na derradeira vigilante na luta contra os traficantes de drogas, apôs a sua irmã se ter tornado na mais recente vítima do flagelo das drogas.

    O filme que abriu as portas do Blaxploitation ao duo Pam Grier (atriz) e Jack Hill (realizador) que se haviam notabilizado nos chamados filmes “de prisão de mulheres”. Teve ainda o condão de introduzir aquela que viria a ser considerada a “rainha” do blaxploitation”, e que num curto espaço de tempo revelou-se como maior ícone feminino do gênero. Tornando-se num dos maiores ícones cinematográficos da história do cinema, ao redefinir para todo sempre os filmes de ação protagonizados por mulheres.


    Shaft é um detective negro nova-iorquino, que é contratado pelo chefão do crime no Harlem para encontrar a sua filha, que se supõem ter sido raptada pela Mafia italiana.
    Lançado pouco depois de Sweet Sweetback’s Baadasssss, Shaft baseado na personagem dos livros policiais, protagonizado por Richard Roundtree, é relembrado como primeiro filme blaxploitation da história (na medida em que foi a primeira obra produzida conscientemente por Hollywood para capitalizar junto da crescente demanda do público negro nas salas de cinema). Pela primeira vez a audiência foi introduzida a um herói negro cool, que não acatava ordens nem de brancos nem de negros, que falava a linguagem das ruas, e fazia piadas contra os poderes instituídos. Num misto de machismo exacerbado, virilidade temerária, e estilo super cool, Shaft tornou-se num herói transversal (arrecadando mais de 23 milhões nas bilheteiras, só nos EUA).
    O primeiro herói negro de filmes de ação, alterou para sempre a paisagem racial e cultural no cinema, e entrou diretamente para o panteão das mais célebres personagens do cinema de ação: ao lado 007, Rocky, Exterminador, Rambo, ou Indiana Jones.
    Seguiram-se duas sequencias, O grande golpe de Shaft-1972 e Shaft em África-1973, e um remake em 2000 com Samuel Jackson como protagonista, mas nenhum dos filmes conseguiu repetir a áurea do original! Can You Dig It?



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