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    O DIA QUE CLINT EASTWOOD DEMITIU PHILIP KAUFMAN


    Philip Kaufman havia escrito e dirigido em 1972 um western muito elogiado pela crítica que foi “Sem Lei e Sem esperança” (The Great Northfield Minnesotta Raid), filme que narrou a mais famosa aventura de Jesse James (Robert Duvall), ao lado de Cole Younger (Cliff Robertson). Quando a produtora Malpaso, de Clint Eastwood conseguiu aprovação da Warner Bros. para iniciar a pré-produção de “Josey Wales, o Fora-da-Lei” (Outlaw Josey Wales), em 1975, Philip Kaufman foi contratado para escrever o roteiro e dirigir esse novo western de Clint Eastwood, baseado no livro de Forrest Carter. Kaufman, que era um daqueles diretores puxados para a intelectualidade, foi também incumbido de verificar as diversas locações em que “Josey Wales” seria rodado. Finalmente as filmagens foram iniciadas em Lake Powell, no Arizona e no elenco estava uma pouco conhecida atriz chamada Sondra Locke. A contratação de Sondra desagradou Kaufman pois não fora ele quem a indicara e sim Clint Eastwood que tivera um rápido contato com a atriz dois anos antes, quando Sondra não foi aprovada para o elenco de “Interlúdio de Amor” (Breezy), dirigido por Clint Eastwood. No primeiro dia de filmagens de “Josey Wales”, quando Sondra e Clint se encontraram pela primeira vez, ambos se sentiram atraídos um pelo outro. Clint a convidou para jantarem juntos à noite, mas Sondra já havia combinado jantar com Philip Kaufman. O diretor usou o pretexto de conversarem para melhor desenvolver o personagem de Laura Lee, que seria interpretado por Sondra. A atriz falou para Clint participar também do jantar mas Clint não aceitou jantar a três.


    A DISPUTA POR SONDRA LOCKE 

    À noite, durante o jantar, Sondra só pensava em Clint e nem prestava a atenção no que Kaufman dizia. Porém ela não esqueceu de ele ter dito que seu casamento com Rose Kaufman não ia muito bem e que Rose aceitava os relacionamentos que eventualmente podiam ocorrer durante uma filmagem, típica cantada de homem casado. A certa altura Philip Kaufman colocou sua mão sobre a de Sondra e apertando-a. Sondra imediatamente pediu licença e foi para seu quarto no hotel onde a equipe estava hospedada. Lá chegando Sondra encontrou um recado de Clint perguntando: “Podemos jantar amanhã?” Sondra e Clint nem esperaram para conversar à noite pois passaram o dia juntos. Onde Clint estivesse Sondra estava junto a ele, recebendo de Clint todas as atenções. Trocando em miúdos, o namoro havia começado. Sondra era casada com um artista homossexual e Clint era casado há mais de 20 anos com Maggie Johnson mas viviam separados e toda Hollywood sabia que Clint era não só o Number One das bilheterias mas também o primeiro entre os garanhões da terra do cinema, apreciando especialmente as louras como Sondra Locke.

    CLINT DEMITE O DIRETOR 

    Philip Kaufman tinha um estilo de trabalhar diferente do de Clint Eastwood. Muitas vezes Clint filmava o próprio ensaio e gritava “print”, ou seja, podiam revelar os negativos, meio assim como fazia John Ford. O lema de Clint Eastwood como produtor-diretor sempre foi “Abaixo do Cronograma e Abaixo do Orçamento”. Ao perceber que Philip iria fazer um filme assim naquela linha ‘contemplativa’, começou a irritação de Clint. Kaufman se apegava a pequenos detalhes e para Clint o diretor dar muita atenção a detalhes é sinônimo de prejuízo certo. A primeira semana foi de mal a pior no aspecto das filmagens, mas Clint e Sondra estavam no paraíso no campo sentimental. No primeiro dia da segunda semana de filmagem havia uma cena em que os bandidos chefiados por John Quade atacam o local onde se encontra a família de Laura Lee (Sondra) e tentam estuprá-la. Philip Kaufman mostrou como a cena deveria ser feita segurando por trás Sondra Locke, que teve o vestido e ficando praticamente nua. Terminado o ensaio da sequência, Clint Eastwood informou que as filmagens estavam suspensas, para espanto de todos, principalmente de Kaufman. Clint pediu a Robert Daley, seu braço direito na Malpaso, que informasse a Philip Kaufman que ele estava despedido das filmagens. Foi dado um informe geral que Clint passaria a dirigir “Josey Wales, o Fora-da-Lei”.

    REGULAMENTO EASTWOOD 

    Kaufman tomou o primeiro avião para Los Angeles e no dia seguinte estava no escritório da DGA (Directors Guild of America) prestando queixa contra Clint. A base da reclamação é que todos os contratos assinados por diretores contêm uma cláusula segundo a qual, feita a pré-produção e iniciadas as filmagens, nenhum ator poderia demitir um diretor. Porém neste caso Kaufman estava sendo demitido não pelo ator Clint Eastwood, mas sim pelo produtor que não era outro senão o próprio Clint. O caso foi parar na mesa de Robert Wise, então presidente do DGA que imediatamente determinou que as filmagens fossem suspensas. Pelos estatutos dessa espécie de sindicato dos diretores, um diretor dispensado só poderia ser substituído por outro diretor. Acontece que Clint já havia dirigido cinco outros filmes e aparentemente estava dentro das normas do Directors Guild ao assumir a direção de “Josey Wales, o Fora-da-Lei”. A Warner Bros. decidiu intervir com sua força de maior estúdio norte-americano e acabou conseguindo um acordo com Kaufman que nunca revelou quanto recebeu mas que transpirou que foi 500 mil dólares (hoje mais de dois milhões de dólares). Foi aplicada uma multa de 50 mil dólares a Clint Eastwood, multa que certamente foi paga pela Warner Bros. O Conselho Deliberativo do Directors Guild criou então uma regra que passou a ser chamada de “Eastwood Rule” (Regulamento Eastwood), segundo a qual nenhum diretor demitido depois de iniciado um filme poderá ser substituído por alguém do elenco ou da equipe técnica envolvida nesse filme.

    O BOM, O MAU E O MUITO FEIO 

    “Josey Wales, o Fora-da-Lei” foi um dos maiores sucessos de bilheteria de 1976 e para muitos é o melhor western de Clint Eastwood, melhor até que o premiado “Os Imperdoáveis” (Unforgiven). Depois de "Josey Wales" Philip Kaufman passou três anos sem dirigir, fazendo-o no remake de “Invasores de Corpos” que originalmente fora dirigido por Don Siegel, grande amigo de Clint. Kaufman conquistou a crítica em 1983 com “Os Eleitos - Onde o Futuro Começa”, dirigindo depois “A Insustentável Leveza do Ser”, “Henry e June – Delírios Eróticos” e “Sol Nascente”, este com Sean Connery. Já o romance de Sondra Locke com Clint Eastwood resultou numa das mais tempestuosas relações da história de Hollywood com a corajosa atriz processando (e vencendo!) Clint Eastwood e e a Warner Bros. nos tribunais. E ela ainda ganharia dinheiro escrevendo um livro chamado “The Good, the Bad and the Very Ugly”, mostrando um Clint Eastwood pouco conhecido dos fãs de cinema.)


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