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    REPO MAN A ONDA PUNK (1984) - ANÁLISE


    PARA DESCARTAR-SE DE TUDO

    por Fernando Fiorese

    REPO MAN - A ONDA PUNK

    Escrito e dirigido por Alex Cox em 1984, Repo man (no Brasil, Repo Man: a onda punk) não apenas inaugura a obra (irregular) do diretor inglês, mas articula algumas das questões que dominam a cena finissecular das sociedades pós-industriais, principalmente no que concerne ao processo de deserção dos ideais que fundaram a Modernidade.

    Já na apresentação dos créditos, Repo man nos remete à desreferencialização e à desmaterialização, menos como características da narrativa fílmica do que como elementos da condição pós-moderna.

    A fragmentação do espaço geográfico nos convoca a penetrar na ficção como princípio de realidade. Mapas e fronteiras, cidades e estradas, topônimos e legendas são signos de uma superficialidade sem limites. Cenários de idêntica horizontalidade sucedem-se em cortes simultâneos, aleatórios, desconexos. Através de uma carta geográfica em contínua desaparição penetramos na realidade profílmica, mas de forma avessa: do simulacro do espaço geográfico (mapa) à realidade dos simulacros (seja o deserto, seja o cenário em ruínas da cidade contemporânea, seja a representação cinematográfica).

    Sem lei nem rei

    A dissolução domina não apenas o espaço, mas também indivíduos, paradigmas de toda ordem e instituições. O declínio da autoridade e, por conseguinte, das leis e normas que regulavam as relações entre os indivíduos na sociedade de consumo são sintomas que perpassam todo o filme. De acordo com Christopher Lasch em O mínimo eu, tal fenômeno resulta da exacerbação dos “movimentos pela autonomia”, os quais “ocasionaram um ‘relaxamento dos controles externos’ e uma nova ‘flexibilidade dos preceitos sociais’, tornando possível ao cidadão ‘escolher as suas metas pessoais a partir de um escopo mais amplo de fins legítimos’” (LASCH, 1987, p. 35). 

    As reflexões de Lasch encontram tradução na seqüência de abertura de Repo man. Em alta velocidade, um automóvel desliza por uma freeway, conduzindo um homem de óculos (uma das lentes preta) na travessia do deserto. Os signos automóvel e óculos indiciam uma visão de mundo urdida na velocidade do deslocamento e na mediação do olhar fragmentado. No entanto, mesmo na superfície sem profundidade ou referência do deserto, exsurge o símbolo da Lei: um policial e sua motocicleta. Mas a autoridade revela-se pura aparência, trompe l’oeil dos mecanismos de manutenção da ordem social. O processo de dissolução das normas equivale nas cenas seguintes à própria desmaterialização física do representante da Lei.

    Também a trajetória do protagonista de Repo man, Otto Maddox (interpretado por Emilio Estevez) remete ao ocaso da autoridade e ao afrouxamento dos preceitos sociais. Quando as exigências do emprego ameaçam as suas metas pessoais, o personagem exibe não apenas um completo desprezo pelo poder do patrão, mas evidencia a perda das ilusões quanto ao sistema produtivo, como ressalta Jair Ferreira dos Santos em O que é o pós-moderno: “... não crê no valor moral do trabalho nem vê na profissão a única via para a auto-realização” (SANTOS, 1986, p. 93). Não há qualquer temor no desacato ao empregador e ao guarda-de-segurança, nem atenção para com os apelos do colega de serviço. O que ressalta é uma paradoxal ausência de agressividade, mesmo nessas relações de conflito. Todo o sentimento parece exilado da cena do encontro humano – seja amigável ou inamistoso –, talvez pela crise de legitimidade que transtorna as relações sociais e as metas individuais.

    Neste sentido, a representação tragicômica da família Maddox é modelar. As figuras materna e paterna, representantes de um american way of life futurista, encarnam a degeneração de um passado dúbio, uma vez que as alternativas das gerações rebeldes – o misticismo e as drogas – foram absorvidas pelo ciclo inelutável de produção e consumo. A amoralidade das palavras do Rev. Larry (Bruce White) anuncia a realização mediática da utopia, recorrendo seja ao paraíso natural do êxtase religioso seja ao paraíso artificial dos psicotrópicos. É a expressão do fracasso das grandes narrativas e dos princípios utópicos da Modernidade, logo convertidos em instrumento de controle, em mercadoria ou ornamento. De forma que mesmo a afetividade familiar se converte à logística do consumo, condenando o indivíduo a usufruí-la tão-somente nas mensagens publicitárias e nos produtos industriais (sopa enlatada).

    Nostalgia da Modernidade

    A percepção da crise da afetividade, quando do rompimento com a namorada, determina a mudança de rumo de Otto em direção ao passado, expressa pela negação do grupo social que integrava e pela busca do Chevrolet Malibu. A metamorfose do protagonista – da máscara punk à máscara repo man – indicia o desinvestimento no futuro para abismar-se na perspectiva de um retorno ao tempo perdido. Indivíduo encarregado de resgatar automóveis com prestações em atraso, o repo man representa metaforicamente o sujeito da Modernidade: um sujeito entregue ao novo, à aventura e ao imprevisto; um sujeito que odeia, acima de tudo, gente comum e covarde, como afirma Bud (Harry Dean Stanton), personagem que introduz Otto na profissão.

    É significativo que o objeto a ser ressarcido e reintroduzido no processo de consumo seja o automóvel. 

    Recuperá-lo representa preservar um dos símbolos da Modernidade e, concomitantemente, restaurar os ideais decaídos do crédito, da ordem e do progresso. 

    O repo man Bud participa de uma espécie em extinção, pois ainda acredita na respeitabilidade e na ética do mercado: “Crédito é uma confiança sagrada. É a fundação da nossa sociedade livre” (COX, 1984). Assim sendo, a morte de Bud remeteria ao fim de toda a crença no futuro da sociedade de consumo. Já o comportamento do repo man Lite (Sy Richardson) reitera as considerações anteriores de Lasch quanto ao alheamento do indivíduo em relação às normas e regulamentos sociais, empenhado que está na meta pessoal de resgatar automóveis. Para tanto, Lite recorre a um arsenal de estratagemas capaz de preservar a continuidade do projeto da Modernidade, ou seja, o domínio da matéria sobre a mente. Não por acaso Lite recomenda a Otto a leitura do livro Dioretix: the science of matter over mind.

    O avesso das alegorias

    Nas palavras de Nelson Brissac Peixoto em Cenários em ruínas: a realidade imaginária contemporânea:

    A saga do detetive privado e do faroeste são, junto com a ficção científica, as alegorias básicas dos tempos atuais. (...) Figuras daqueles que desapareceram como heróis, daqueles que, ao morrerem, tiveram iluminações, compreenderam o seu itinerário e o seu tempo (PEIXOTO, 1987, p. 174).

    Repo man parece-nos não apenas a narrativa deste desaparecimento “heróico”, mas a realização conjunta dos avessos de tais alegorias. A trajetória de Otto é o somatório do revés dos mitos cinematográficos. Em primeiro lugar, o private eye que, privado (sem trocadilho) de métodos ou artifícios, procura um Chevrolet Malibu, muito embora a busca refira-se antes a Leila (Olivia Barash). Como na narrativa do filme noir, a investigação em torno do automóvel tem início quando do contato com a mulher, mas esta acaba se revelando representante da Lei e da Ciência, tudo que Otto renega. 

    Também abordado a partir de uma leitura avessa, o mito do far-west retoma o símbolo do herói civilizador instaurado por Hollywood: o cowboy. Assim como o detetive particular, o western man simboliza a potência da ordem legal, do respeito à propriedade privada e das normas de convivência que distinguem a civilização da barbárie. Neste sentido, podemos afirmar que Bud, utilizando-se de métodos assépticos e não violentos, seria o arquétipo do private eye contemporâneo, enquanto Lite assemelha-se ao cowboy, pois que disposto ao enfrentamento com o inimigo e ao emprego de quaisquer recursos (mesmo os não-éticos) para a manutenção dos princípios da civilização ocidental.

    O aprendizado de Otto com Bud e Lite, acrescido das lições de Miller (Tracey Walter), engendra um repo man híbrido, com características das três alegorias citadas, sendo que aquelas que fundamentam o private eye e o cowboy remetem necessariamente ao passado, enquanto que a science fiction encarnada por Miller aponta para o futuro. Na realidade, a mise en abîme de Otto revela um ser condenado a habitar um presente imóvel, em muito semelhante à descrição do homem pós-moderno publicada no Le Monde em 22 de abril de 1984: 

    Pragmatismo e cinismo. Preocupações a curto prazo. Vida privada e lazer individual. Sem religião, apolítico, amoral, naturista. Narcisista. Na pós-modernidade, o narcisismo coincide com a deserção do indivíduo cidadão, que não mais adere aos mitos e ideais de sua sociedade (apud SANTOS, 1986, p. 101).

    Bastaria acrescentar a esta descrição um comportamento anafetivo e de total descompromisso em relação ao outro para obtermos o perfil deste personagem construído no avessismo dos mitos cinematográficos. Nem mesmo a morte violenta do “amigo” Duke (Dick Rude) sensibiliza Otto, pois ele sabe que todos os discursos foram capturados pelos meios de controle social e qualquer rebeldia funciona antes como mecanismo de distensão. Cite-se, como exemplo, o diálogo entre Otto e Duke, repleto de clichês e rostos sem mobilidade dramática: “Eu sei”, diz um Duke agonizante, “que esta vida de crime me levou a este final. No entanto, eu condeno a sociedade. A sociedade me fez o que eu sou” (COX, 1984). Diante das palavras desgastadas do “amigo”, Otto simplesmente responde: “Isso é conversa” (COX, 1984). Tantas palavras e tão poucas palavras. Resta apenas descartar-se de tudo, fugir do supermercado e abandonar na cena do crime o repo man ferido, Bud.

    No período de desbravamento do Oeste norte-americano, a solidariedade traduzia um princípio civilizatório determinante para a sobrevivência dos colonos e para o advento dos heróis. 

    A distinção entre mocinhos e bandidos correspondia à instauração da civilização e da crença no progresso da cultura cristã ocidental. Sob a égide da condição pós-moderna, exacerbam-se as dificuldades de diferenciação entre os representantes e os transgressores da Lei, principalmente ao considerarmos o papel desempenhado pelos repo men: indivíduos que utilizam recursos ilícitos para preservar as regras do sistema de produção e consumo.

    Em suma, poderíamos afirmar que o western clássico retratava as sagas do sujeito da civilização ocidental em direção ao estabelecimento da Lei, de forma a elevar-se acima da barbárie e realizar um projeto de futuro. Em Repo man, a desmaterialização da Lei indicia o avanço da barbárie como resultado das contradições de um sistema que, paradoxalmente, é compelido a transgredir suas próprias regras para manter de pé as ruínas da história e do futuro prometido.

    O sujeito pós-moderno “perdeu o senso de continuidade histórica”, pois, “em vez de crer e atuar na história”, está se concentrando em si mesmo e procurando viver “sem as tradições do passado e sem um projeto de futuro” (SANTOS, 1986, p. 91). 

    Ao personagem avesso importaria tão-somente a desconstrução da história e o presente das aparências, afirmando a sua distância em relação às figuras do mito e do herói, uma vez que não há projetos para a renovação do tempo ou para a construção do futuro. 

    As palavras de Otto, quando do rompimento com Debbi (Jennifer Balgobin), explicitam a máscara deserta e superficial do protagonista: “A gente não quer falar de nada, de coisas que a gente não sabe. Nós nos dedicamos a nossos shows favoritos. Saturday Night Live! O futebol! Dallas! Os Jeffersons! Gillingan’s Island! Os Flintstones!” (COX, 1984) E ainda, a assertiva de Miller: “As pessoas ficam nessa de detalhes e perdem o conceito do geral” (COX, 1984). Os heróis estão mortos, e a consciência da maldade radical conduz à constatação de que o projeto de construção da história e do futuro foi apenas um engenhoso ardil do poder para mobilizar as forças do trabalho e da imaginação em benefício do sistema produtivo. Por que arrastar os despojos do herói? Apenas o assassínio do último mito por Miller, ao afirmar que John Wayne era homossexual, parece anunciar a utopia possível.

    A utopia possível

    A saga da ficção científica é representada ao avesso pelo personagem Miller, o profeta da utopia que clama entre as ruínas e o fogo:

    Tem muita gente que realmente não entende o que está acontecendo. Eles vêem a vida como um monte de incidentes mal conectados, sem se dar conta de que há uma certa coincidência por cima de tudo isto. (...) E não tento achar explicação. É tudo parte do inconsciente cósmico (COX, 1984).

    A mística de Miller sugere a conjunção entre passado, presente e futuro, bem como a existência de seres extraterrestres e viagens no tempo. Miller duvida das aparências e, sem rebeldia ou nostalgia, busca a utopia possível entre as ruínas contemporâneas. 

    Através deste personagem, delineia-se uma possível estratégia de resistência à produção da identidade pela sociedade de consumo, uma vez que Miller empenha-se na incineração de objetos e documentos que identifiquem os proprietários dos automóveis resgatados pelos repo men.

    O comportamento de Miller nos remete a uma afirmativa de Doris Lessing citada por Lasch: “... realmente, a experiência mais saudável é ir até o fim, descartando-se de tudo” (LASCH, 1987, p. 75): dos mitos, dos heróis, das identidades.

    A tarefa do personagem é descartar-se das individualidades, fazendo-as arder no fogo para alcançar a utopia de uma coletividade múltipla, após a desaparição de quaisquer objetos ou traços que remetam à identidade do proprietário do automóvel. Apenas uma simbólica árvore de Natal de papel permanece no interior do veículo.

    As relações entre Miller e Otto assemelham-se àquelas que se realizam entre mestre e discípulo, uma vez que o primeiro domina a palavra, enquanto o segundo se afirma no exercício do ouvir. O personagem Miller parece-nos representar o indivíduo que se equilibra entre apocalípticos e integrados. Ou melhor, revela a visão apocalíptica do futuro em sua forma secular contemporânea, afirmando “a possibilidade da sobrevivência e da transformação humana”, fundamentado “precisamente no argumento de que os homens e as mulheres são infinitamente adaptáveis e plenos de recursos” (LASCH, 1987, p. 73). Profeta entre ruínas, Miller se recusa a ser profeta da ruína para refletir sobre os tempos atuais, para agir na destruição das aparências, do presente imóvel e imutável, das marcas da propriedade privada. Em Miller, o extermínio do “pessoal intransferível” remete ao acaso, ao impossível.

    Num mundo onde as pessoas desaparecem sem qualquer explicação, onde a desmaterialização do sujeito é apenas a exacerbação de sua dessubstancialização, a Ciência alia-se à Lei e encontra no cinismo uma forma de abolir o acaso: “As pessoas explodem. Coisa normal” (COX, 1984). Contra as explicações científicas e históricas, Miller prefere acercar-se do fogo ancestral para destruir as mitologias de todos os tempos e construir a utopia possível. Neste sentido, a metamorfose do Chevrolet Malibu em veículo espacial é a materialização do avesso dos discursos da Verdade, da Ciência, da Lei e da Religião. Apenas as palavras utópicas e proféticas de Miller e a inocência desiludida de Otto são capazes de penetrar nos domínios onde o tempo é pura viagem.

    Nota do autor

    Embora escrito originalmente em 1988, pretendemos que o presente trabalho, com as emendas e, principalmente, as supressões efetuadas ao longo dos anos, possa acrescentar-se, mesmo que minimamente, às reflexões acerca do cinema contemporâneo.

    Referências 

    COX, Alex. Repo man. Produção: Edge City. Com Harry Dean Stanton (Bud), Emilio Estevez (Otto Maddox), Tracey Walter (Miller), Miguel Sandoval (Archie), Sy Richardson (Lite). Estados Unidos, 1984, 92 min., son., col..

    LASCH, Christopher. O mínimo eu: sobrevivência psíquica em tempos difíceis. Trad. Ana Maria L. Ioriatti. São Paulo: Brasiliense, 1987.

    PEIXOTO, Nelson Brissac. Cenários em ruínas: a realidade imaginária contemporânea. São Paulo: Brasiliense, 1987.

    SANTOS, Jair Ferreira dos. O que é pós-moderno. São Paulo: Brasiliense, 1986.  



    Fernando Fábio Fiorese Furtado nasceu em 21 de março de 1963 na cidade de Pirapetinga, Minas Gerais. Reside desde 1972 em Juiz de Fora, onde exerce o magistério superior na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), desenvolvendo pesquisas nas áreas de Literatura e Imagem e Poesia Brasileira Moderna e Contemporânea. 

    Dentre outros livros, publicou Trem e cinema: Buster Keaton on the railroad (ensaio, 1998), Corpo portátil: 1986-2000 (reunião poética, 2002), Dicionário mínimo: poemas em prosa (2003), Murilo na cidade: os horizontes portáteis do mito (ensaio, 2003), Um dia, o trem (poemas, 2008) e Aconselho-te crueldade (contos, 2010). Em 2015 lança o seu primeiro romance.

    Poemas, contos, traduções e artigos de sua autoria figuram em jornais, revistas, coletâneas e antologias publicadas no Brasil e no exterior (Argentina, Espanha, EUA, França, Itália, Portugal e Suíça).

    Blog “Corpo Portátil”: http://corpoportatil.blogspot.com.br/



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