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    sábado, 7 de março de 2015

    O CONDE DRÁCULA (1970) & CONDE DRÁCULA (1970)

    DOIS DRÁCULAS COM O MESMO ATOR, NO MESMO ANO????
    SÓ AQUI NO BRASIL...


    Resolvi desatar um nó na cabeça do cinéfilo curioso. Existem dois filmes do mesmo gênero, no mesmo ano, com mesmo nome (nacional) e mesmo ator. A diferença fica a cargo do artigo. Foi uma tremenda picaretagem deixarem passar esta.


    CONDE DRÁCULA (1970)


    Titulo original: Nachts, wenn Dracula erwacht
    Direção:   Jesús Franco
    Elenco:    Christopher Lee, Herbert Lom, Klaus Kinski
    Duração: 98 min
    País de Origem: Itália / Alemanha

    Sinopse

    Jonathan Harker viaja até um castelo numa remota zona da Transilvânia para encontrar-se com seu excêntrico proprietário, o Conde Drácula, que pretende comprar uma nova propriedade na Inglaterra. Aos poucos, Harker começa a perceber que há mais do que excentricidade naquela figura, e seu anfitrião se revela uma terrível criatura que se alimenta de sangue humano.

    Uma das mais fiéis adaptações do romance de Bram Stoker, escrita e dirigida pelo prolífico Jess Franco.

    Crítica

    Por ser um dos poucos a tentar revelar nas telas a história original do livro concebido por Bram Stoker em fins do século XIX, esse Count Dracula (também conhecido como Il Count Dracula ou Bram Stoker’s Count Dracula, lançado em 1970) merece uma menção especial, quase honrosa, não fosse o fato de ser, em termos gerais, uma produção extremamente medíocre. É verdade que a história até então nunca havia tido uma versão em película fiel ao original; tanto o Nosferatu de Murnau quanto o Drácula estrelado por Bela Lugosi foram apenas resumos bem livres do texto, com variações totalmente independentes; esse Count Dracula, por assim dizer, tentou remediar isso – o que não significa que conseguiu.

    Nessa produção espano-ítalo-germânica dirigida pelo hoje “cult” Jesus Franco (ou Jess Franco, como ele preferia), ninguém menos que Christopher Lee aparece como um Drácula até que bastante semelhante ao descrito por Stoker, com o bigodão branco característico do personagem e a palma da mão peluda. Contudo, está bem distante da imagem satânica e cruel que criou ao longo de sua bem sucedida carreira enquanto ator na Hammer Films. Para dizer a verdade, nessa época ele ainda estava na ativa no famoso estúdio inglês de filmes de terror, sendo que já em 1973 voltaria a interpretar o Conde mais uma vez em Os Ritos Satânicos de Drácula (The Satanic Rites of Dracula), um dos piores exemplares da série. Antes desse, porém, em 1972, ele apresentaria o ótimo documentário A Verdadeira História de Drácula (In Search of Dracula), dirigido por Calvin Floyd a partir do livro homônimo dos especialistas em vampirismo Raymond T. McNally e Radu Florescu, segundo o roteiro de Ivonne Floyd. Esse documentário – que nada tem a ver com a Hammer – apresenta vários trechos de filmes famosos e não tão famosos sobre Drácula e vampirismo, inclusive dessa obscura e desconhecida obra de Jesus Franco.


    O CONDE DRÁCULA (1970)

    Titulo original: Scars od Drácula
    Direção:  Roy Ward Baker
    Elenco:   Christopher Lee, Dennis Waterman, Jenny Hanley
    Duração: 96 min
    País de Origem: Reino Unido

    Sinopse

    O Conde Drácula, o mais cruel vampiro da história, renasce das cinzas para atormentar os moradores de um pequeno vilarejo da Inglaterra. Um jovem fugitivo da polícia esconde-se no castelo do vampiro sem saber o que o espera. O povo revoltado invade o castelo e tenta destruir o antro de perversão do monstro. Porém, o Príncipe das Trevas está de volta mais terrível do que nunca e dará início a um ritual sádico e perverso em busca de vingança. Christopher Lee mais uma vez representa seu mais importante papel no cinema, no filme considerado o mais violento da série.

    Crítica

    O filme “Conde Drácula”, dirigido por Roy Ward Baker, de 1970, foi anunciado como um dos mais sanguinolentos da série Drácula. O apelo a sangue é visível em algumas cenas, quase já prenunciando os filmes de horror das décadas seguintes, como o clássico O Massacre da Serra Elétrica, etc (é importante salientar que nessa linha de horror dos mortos-vivos, em 1968, foi lançado o clássico A Noite dos Mortos-vivos, de George Romero).

    Em “Conde Drácula”, a representação estética do horror clássico incorpora elementos impressionistas, quase decadentistas. Mas não é apenas o decor que é atingido pelo novo espírito do tempo. A própria caracterização de Drácula possui um certo matiz. O vampiro é apenas um inimigo pavoroso que mora ao lado, alguém com a qual a comunidade local convive, mas à distância. É um estranho tolerável que apenas se procura evitar. A passividade da população local atinge até mesmo a figura do padre, que evita enfrentar o vampiro, apelando apenas para orações não muito eficientes. É uma figura passiva e resignada, mas ainda horrorizada, com a representação do Mal (é bastante evidente o contraste com a figura ativa do padre Sandor, de “Drácula, o príncipe das trevas”).

    Drácula seria a própria modernidade perversa, tolerável em sua absurdidade ontológica. Falta no filme “Conde Drácula”, a insurgência humana típica contra o Mal. Mesmo quando ela ocorre, é assistemática, casual e oportunista. Novamente os atingidos são jovens incautos – sempre jovens casais perdidos – e totalmente ignorantes sobre os perigos do castelo macabro. Não é perceptível uma “ciência” do vampiro, técnicas para combate-lo. Até um certo momento, o poder de Drácula é quase-absoluto. No final, ele é derrotado, casualmente, por um raio que atinge uma lança de metal em suas mãos. O vampiro morre eletrocutado.

    Além do apelo sanguinolento no decor, o vampiro Drácula é cercado por mulheres voluptuosas e exuberantes. Aliás, nesse filme, além de Klove, Drácula possui uma “discípula”- vampira, destruída por ele ao ser pega em “traição”. O filme vincula a libido e a cor vermelha (de sangue, mas também da insurgência operária?) - com o Mal de Drácula (é curioso que as vitimas de Drácula, no filme, são sempre personagens de caráter libertino, como o jovem Paul Carlson e a filha do dono da estalagem local, o que sugere um enredo moralista).

    A passividade local não atinge só a figura do padre, mas da policia local, que foge da região do Castelo. A caracterização de Klove é curiosa. Diferentemente do Klove de “Drácula – Príncipe das Trevas”, o serviçal de Drácula é um personagem desgrenhado, nada parecido com o estilo clássico do mordomo Klove do filme de 1965. Klove aqui é quase voyeur, fascinado pela gravura da bela jovem Sarah Fremsen, próxima vítima de Drácula. É por ela que Klove se insurge contra o Mestre. É um detalhe curioso, pois demonstra que, apesar do poder quase absoluto de Drácula sobre seus “discípulos”, ele enfrenta dissensões – uma crise de hegemonia? - em suas próprias hostes discipulares. Klove é movido pelo desejo reprimido e pelo ódio ressentido pelo Mestre que o trata como um animal. Enfim, é uma caracterização decadentista do serviçal de Drácula.

    A diferença de decor e de caracterização entre os dois filmes da série Drácula da Hammer não é meramente casual. Decorre de uma forma particular-concreta de se apropriar do caractere clássico da figura de Drácula, mediada pelo espírito do tempo histórico, de crise do mundo burguês, de elementos do entorno político e cultural que se incrustam no enredo e no estilo do vampiro. No resto, o interessante da serie da Hammer é que ela cobre todo um período significativo do capitalismo do século XX – do seu ápice até sua crise, a crise da alta modernidade. Através dela é possível apreender, através desses e outros detalhes a forma de ser Drácula.


    A matéria completa sobre este filme e suas continuações, você encontra aqui: DRÁCULA DA HAMMER STUDIOS


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