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    segunda-feira, 30 de março de 2015

    A VILA (2004) - PEDIDO DA LEITORA CAROLINE DAUCEN


    A VILA 

    Ficha técnica

    Gênero: Suspense
    Direção: M. Night Shyamalan
    Roteiro: M. Night Shyamalan
    Elenco: Adrien Brody, Bryce Dallas Howard, Joaquin Phoenix, Sigourney Weaver, William Hurt
    Produção: M. Night Shyamalan, Sam Mercer, Scott Rudin
    Fotografia: Roger Deakins
    Trilha Sonora: James Newton Howard
    Duração: 110 min.
    Ano: 2004

    Sinopse

    Passado na Pensilvânia rural de 1897, o filme conta a história da pequena vila de Covington. O vilarejo de apenas 60 habitantes é cercado por uma floresta, habitada por uma raça de criaturas imaginárias que assombra o local. Neste cenário nasce o romance entre Ivy Walker (Bryce Dallas Howard), filha do líder da vila, e o jovem Lucius (Joaquin Phoenix), que questiona a política de confinar os habitantes dentro das fronteiras da aldeia.

    Resumo e análise

    Apresentarei a seguir um resumo escrito que compreende todas as partes do filme “A vila”. É vital que aqueles que desejarem lê-lo, ou a sua posterior análise filosófica, vejam anteriormente o filme, pois tanto o resumo quando a análise filosófica revelam partes importantes do enredo do mesmo, o que prejudicaria muito a surpresa, envolvimento e importância que o filme teria para alguém que ainda não o tivesse visto.

    O filme começa com o enterro de uma criança que morreu em decorrência de uma doença, em uma vila isolada cujos moradores trajam vestimentas que nos remetem a tempos antigos. Essa vila está cercada por uma floresta, que os moradores acreditam ser habitada por monstros que são temidos por eles. Em uma cena posterior todos os moradores da vila aparecem em um almoço de domingo, reunidos em torno de uma longa mesa.

    Há também uma cena onde mulheres enterram uma flor vermelha, que possui uma cor que os habitantes temem por associarem com as criaturas que os cercam. O professor da vila e seus alunos encontram um animal com pele completamente removida. Ao voltarem para a sala de aula, o professor conversa sobre o achado com as crianças. Ele diz que elas devem temer “aqueles que não falamos os nomes” e que eles não podem invadir a fronteira dessas criaturas como condição para que a fronteira da vila também não seja invadida por elas.

    Um dos personagens principais da história, Lucius Hunt, aparece no conselho dos anciões e pede para atravessar a floresta proibida em busca de medicamentos que melhorassem a vida dos moradores que estivessem doentes, mas seu pedido é negado.

    Posteriormente, ele conversa com um amigo, que fica em uma torre no período noturno vigiando as fronteiras como forma de assegurar que essas não fossem invadidas. Um novo animal é encontrado morto, o que provoca uma reunião com todos da vila.

    Na reunião, uma conselheira fala que a morte do animal deve ter sido provocada por um predador, possivelmente um lobo ou coiote. Desse modo, ela afirma não acreditar que as fronteiras da vila tenham sido invadidas pelas criaturas que eles tanto temiam.

    A personagem Kitty Walker fala com seu pai que está apaixonada por Lucius, e se declara para seu amado. Há uma elipse (recurso de linguagem cinematográfica que pode ocorrer através da omissão de uma cena, que fica subtendida pelo espectador), e na cena seguinte ela já está chorando no colo de sua irmã cega, Ivy, confessando ter sido rejeitada por seu pretendente. Lucius encontra com o pai de seu amigo vigia da torre e os dois conversam. Ele diz que, um dia, a tristeza encontrará Lucius, e olha para um baú misterioso que todos os anciões possuem. Jovens locais se desafiam a ficar próximos da fronteira com a floresta, em cima de um toco. Um tempo depois, Noah, um personagem que tem retardo mental e é amigo e admirador da cega Ivy Walker, está brigando com os outros. Ivy o interrompe e quase o coloca no quarto de castigo, mas ele promete não bater em ninguém novamente. 

    Os dois apostam uma corrida até uma pedra, e lá encontram com Lucius Hunt. Ivy diz que mesmo sendo cega, sabia que Lucius estava lá, pois o reconheceu por sua cor, e que tem a capacidade de ver cor em algumas pessoas, mas que não dirá qual é a de Lucius. Diz saber também porque ele recusou sua irmã: “As vezes não fazemos o que queremos e os outros não saberão o que queremos fazer”, completa a garota. Nesse intervalo, Noah entra na floresta e de lá traz para Ivy frutinhas vermelhas. Lucius então revela para Ivy que as frutas são vermelhas e, assustada, ela alerta que essa cor atrai os monstros e, portanto, afirma que as frutas devem ser enterradas.

    Lucius Hunt relata ao conselho que Noah entrou na floresta, pegou as frutas vermelhas e afirma que devido a sua inocência, as criaturas não o atacaram. Disto Lucius conclui que ele tem uma chance de atravessar a floresta sem ser atacado, dado que as criaturas podem perceber que ele é bem intencionado e, daí, decidir não agredi-lo. 

    Mais tarde, em sua casa, a mãe de Lucius conta que seu pai foi assassinado na cidade por ladrões. Lucius diz que há segredos em toda a vila, apontando para o baú de sua mãe, que é uma das anciãs. Sua mãe diz que o baú é para ela não esquecer os segredos do seu passado, e não cometer os mesmos erros novamente. Lucius diz que Edward Walker (pai de Ivy) guarda sentimentos pela mãe de Lucius, e que ele notou isso porque ele nunca a toca. 

    Em outro momento, Lucius atravessa a fronteira entre a vila e a floresta e pega frutas vermelhas. Na vila, ele encontra com Ivy e a deixa em casa, conversando sobre uma possível ida à cidade e o casamento da irmã da cega, que encontrou um novo amor. À noite, o amigo de Lucius que fica de vigília na torre, vê um monstro e toca o sino. Moradores se desesperam e se escondem em seus porões. Ivy espera por Lucius, e os dois também vão para o porão. 

    No dia seguinte, no conselho, uma anciã lê uma carta de Lucius dizendo que atravessou a fronteira e que, por isso pede perdão. Isso explicaria porque os monstros invadiram a vila. Em uma tentativa de evitar nova invasão, os moradores jogam pedaços de carne para as criaturas na floresta. No casamento de Kitty, que ocorre em um galpão mais afastado das casas, a senhora Clarck conversa com Ivy e diz que também teve uma irmã quando era jovem, mas que essa foi assassinada. Sr Walker não cumprimenta a mãe de Lucius e ela nota que ele realmente mantem um distanciamento dela. Gritos de criança cessam a festa de casamento. Elas dizem que os monstros estão na vila, que deixaram mais sinais e querem que os moradores partam.

    Vários animais mortos e sem pele estão espalhados pelo local. Em outro momento, durante a noite, Ivy e Lucius se sentam na varanda. Eles se declaram um para o outro, e se beijam. No outro dia, moradores conversam com os conselheiros que tentam descobrir porque a barreira entre a vila e a floresta foi violada pelas criaturas. Na conversa também surge a notícia de que Ivy irá se casar com Lucius. Mas os planos do casal são violentamente quebrados: Noah esfaqueia Lucius por ciúme. Noah mostra as mãos de sangue para familiares e diz “a cor ruim!”. Todos procuram por algum ferido e Ivy encontra o corpo machucado de Lucius. Desesperada, ela diz que não consegue ver a cor dele.

    Uma conselheira diz que, em breve, Lucius vai morrer. Ivy bate em Noah, e pede permissão aos conselheiros para atravessar a floresta, pegar medicamentos na cidade e salvar a vida de Lucius. O médico da vila diz que os medicamentos da cidade são a única chance de salvá-lo. Tentando impedir a viagem, uma conselheira diz ao pai de Ivy que ele prometeu não voltar à cidade, mas ele ressalta que Ivy não fez a promessa. Ele conta a sua filha que seu avô foi assassinado e era muito rico, e que diz isso para que ela entenda suas razões; 

    Mostra para sua filha que os monstros que aterrorizam a vila se tratam apenas de fantasias, e que ele as inventara a partir de lendas do povo criadas para impedir que as pessoas fossem para a cidade. Ivy, seu cunhado e o amigo da torre entram na floresta trajando um capuz amarelo considerado uma cor de proteção contra os monstros. Ela dá pedras aos seus companheiros de jornada e diz que são pedras mágicas capazes de proteger o grupo. 

    Com isso ela conquistaria companhia para sua ida até a cidade. Seu cunhado, Cristoph, desiste de acompanha-los. Ivy e Finton (o amigo da torre) ficam na floresta, na chuva. Finton diz que as criaturas terão pena dela por ser cega, e não a matarão, mas o que mesmo não vai acontecer com ele. Ele vai embora e Ivy fica sozinha.

    Edward, pai de Ivy, fala para Alice, mãe de Lucius, que deixou Ivy ir para cidade salvar seu filho porque isso era tudo o que ele poderia lhe oferecer. Ela aceita. E os dois continuam sem se tocar.

    Ele diz aos conselheiros que Ivy e Lucius são a esperança de continuar com a tradição da vila depois que os anciões morressem: “Ivy é mantida pela esperança, deixe-a ir”, “Ela é mantida pelo amor, e o mundo se move pelo amor, ajoelha-se diante dele em referência”. Na floresta, a mulher cega continua sua jornada e cai em um buraco.

    Ela consegue sair, mas começa a temer que as criaturas realmente existam. Ela corre, esbarrando em gravetos, desesperada. Encontra-se, então, rodeada de frutos vermelhos. Surge um monstro que corre atrás dela, mas ela percebe que está próxima do buraco, e arma uma emboscada para tentar fazer o inimigo cair dentro dele. A criatura era Noah, que havia achado uma fantasia que ficava sobre o assoalho do local onde ficou de castigo. Noah cai no buraco e fica  preso dentro dele. 


    Ivy, então, encontra a estrada que a levará a cidade. Na vila, Edward abre seu baú. Nele há jornais e lembranças dos parentes assassinados  dos anciões, sendo que nessa cena é possível ouvir esses membros da vila “em off” dando seus depoimentos de como os parentes morreram, bem como a sugestão de Edward, na época professor da Universidade da Pensilvânia de criação da comunidade da vila.Um guarda de uma reserva florestal encontra Ivy batendo em um muro, e dizendo ter vindo da floresta. Ela dá a lista de medicamentos para o guarda e pede que ele os encontre para ela rapidamente. Ela lhe dá um relógio de ouro como pagamento e ele acha que está sendo enganado. Pergunta a Ivy seu nome, no que ela responde. A cega fica tranquila, pois nota bondade na voz do homem da cidade, algo que ela não esperava.

    O guarda vai aos postos que têm medicamentos caso alguém receba uma mordida de algum animal. Um colega de trabalho diz que eles só têm que manter os demais afastados da floresta, sendo que até o governo foi pago uma época para manter aviões longe de lá, e que não é para ele se meter em conversas. Ele pega os medicamentos discretamente, e vai embora, para entrega-los a mulher que veio da floresta. Na vila, um garoto diz que Ivy voltou da cidade com medicamentos e também que ela encontrou um dos monstros na floresta e o matou. A mãe de Noah se lamenta, pois sabendo que Noah fugiu do castigo com uma das fantasias, deduz que ele foi o monstro assassinado. Walker diz que vai dar um bom enterro a Noah e falar que as criaturas o mataram, e que graças a ele, a vila e sua história prosseguiriam, caso todos os anciões estivessem de acordo. Ivy entra no quarto com os medicamentos. Ao pé da cama, diante de seu amado, diz as palavras finais do filme: “Eu voltei Lucius!”.


     Reflexões filosóficas gerais inspiradas no filme

    2.1- A cor ruim

    Algo a se refletir, a partir do filme, é o comportamento que os moradores têm com a cor vermelha que eles consideram ruim, por estar associada às criaturas que os apavoram. O livro de teoria da cor “Da cor a cor inexistente” de Israel Pedrosa (PEDROSA, 1977), fala do uso místico e simbólico do vermelho que “está relacionado com necessidades afetivas, afetos e suas manifestações, das mais suaves às mais violentas, em direção extroversiva”(isto é, na direção de uma atitude mais extrovertida). Fazendo uma analogia entre a escolha de vida do povo que se isolou na vila e a relação dessa escolha com o vermelho, podemos julgar que os moradores da vila evitavam uma vida com maiores extroversões e sentimentos. Por temerem o ódio que levou parentes dos anciões a serem assassinados, eles também evitavam qualquer outro tipo de manifestações intensas de afeto, tais como o amor (por isso Edward Walker não consegue nem mesmo cumprimentar a mãe de Lucius Hunt, por exemplo). O bloqueio em relação ao vermelho é também uma metáfora de como a maioria dos personagens do filme eram bloqueados em relação aos seus sentimentos mais profundos, tantos positivos, quanto negativos.

    Na obra citada acima, Pedrosa afirma que o amarelo tem o significado de corresponder “a anseios volitivos e liga-se à disposição afetiva e à iniciativa”. Podemos entender como volitivos, o processo cognitivo em que uma pessoa toma uma decisão para praticar uma ação específica. Então acho que o amarelo poderia estar associado diretamente com essas fortes decisões tais como o anseio ou vontade de isolamento dos anciões, sustentando a iniciativa que criar uma mentira pensando em proteger seus conterrâneos. Para os moradores da vila o amarelo é considerado uma cor de proteção e serve para repelir os monstros. 

    Ainda sobre o vermelho, o mesmo autor diz ser “a cor que mais se destaca visualmente e a mais rapidamente distinguida pelos olhos”. Além disso, ainda no livro de Pedrosa, são exibidas também as seguintes observações de Kandinsky “O vermelho, tal como o imaginamos, cor sem limites, essencialmente quente, age interiormente como uma cor transbordante de vida ardente e agitada. No entanto, ela não tem o caráter dissipado do amarelo, que se espalha e se desgasta de todos os lados. Apesar de toda a sua energia e intensidade, o vermelho dá prova de uma imensa e irresistível força, quase consciente de seu objetivo”. Os moradores da vila então, ao evitarem essa importante cor que está muito presente na vida de todos, talvez estivessem evitando também uma vida mais rica em ações e força, mais aberta, ardente e ilimitada. “Cor de fogo e do sangue, o vermelho é a mais importante das cores para muitos povos, por ser a mais intimamente ligada ao princípio da vida”. Talvez por isso, na vila do filme dirigido por Shyamalan, com o medo da violência, os anciões reprimiam as pessoas de viverem suas vidas em plenitude, ao criar uma violência psicológica muito mais terrível: o medo do desconhecido.

    2.2- A questão da crítica e da consciência

    Podemos estabelecer também relação entre o filme “A vila” e um trecho em que Gramsci ilustra, em seu caderno 11, o problema da crítica e da consciência: “Após demonstrar que todos são filósofos, ainda que a seu modo, inconscientemente - já que, até mesmo na mais simples manifestação de uma atividade intelectual qualquer, na "linguagem", está contida uma determinada concepção do mundo -, passa-se ao segundo momento, ao momento da crítica e da consciência, ou seja, ao seguinte problema: é preferível "pensar" sem disto ter consciência crítica, de uma maneira desagregada e ocasional, isto é, "participar" de uma concepção do mundo "imposta" mecanicamente pelo ambiente exterior, ou seja, por um dos muitos grupos sociais nos quais todos estão automaticamente envolvidos desde sua entrada no mundo consciente (e que pode ser a própria aldeia ou a província, pode se originar na paróquia e na "atividade intelectual" do vigário ou do velho patriarca, cuja "sabedoria" dita leis, na mulher que herdou a sabedoria das bruxas ou no pequeno intelectual avinagrado pela própria estupidez e pela impotência para a ação), ou é preferível elaborar a própria concepção do mundo de uma maneira consciente e crítica e, portanto, em ligação com este trabalho do próprio cérebro, escolher a própria esfera de atividade, participar ativamente na produção da história do mundo, ser o guia de si mesmo e não mais aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade?” 

    A grande maioria dos moradores da vila, preferiam pensar de acordo com o que os anciões impunham, acreditando nos dogmas e mentiras que lhes foram impostos. Eles optaram pela atitude, mencionada por Gramsci, de serem moldados pela sociedade na qual estavam inseridos, pensar sem ter consciência crítica, participar de uma concepção de mundo “imposta” mecanicamente pelo ambiente. 

    Dessa forma, adotaram a concepção de que eles estavam cercados por criaturas ameaçadoras e que deveriam viver na base do medo. Ivy e  Lucius fogem à regra e, portanto, são aqueles citados no trecho de Gramsci como sujeitos que preferem elaborar a própria concepção de mundo de maneira consciente e crítica.

    Quando eles decidem atravessar a floresta para pegar medicamentos na cidade, eles estão participando ativamente da história da vila, são guias de si mesmo e saem de um papel servil para irem a um papel de agente transformador. Como disse o pai de Ivy no momento do filme em que ele vai revelar para ela que os monstros eram meras fantasias, “Seu avô (...) me disse para comandar quando os outros apenas seguiam (...) você é forte Ivy, você comanda enquanto os outros seguem, você vê luz onde só há escuridão. Eu confio em você. Eu confio em você dentre os demais”. 

    Na sua nota Nota I do caderno 11 Gramsci ainda completa:  “Pela própria concepção do mundo, pertencemos sempre a um determinado grupo, precisamente o de todos os elementos sociais que compartilham um mesmo modo de pensar e de agir. Somos conformistas de algum conformismo, somos sempre homens-massa ou homens-coletivos. O problema é o seguinte: qual é o tipo histórico de conformismo, de homem-massa do qual fazemos parte? 

    Quando a concepção do mundo não é crítica e coerente, mas ocasional e desagregada, pertencemos simultaneamente a uma multiplicidade de homens-massa, nossa própria personalidade é compósita, de uma maneira bizarra: nela se encontram elementos dos homens das cavernas e princípios da ciência mais moderna e progressista, preconceitos de todas as fases históricas passadas estreitamente localistas e intuições de uma futura filosofia que será própria do gênero humano mundialmente unificado. Criticar a própria concepção do mundo, portanto, significa torná-la unitária e coerente e elevá- la até o ponto atingido pelo pensamento mundial mais evoluído. Significa também, portanto, criticar toda a filosofia até hoje existente, na medida em que ela deixou estratificações consolidadas na filosofia popular. 

    O início da elaboração crítica é a consciência daquilo que é realmente, isto é, um "conhece-te a ti mesmo" como produto do processo histórico até hoje desenvolvido, que deixou em ti uma infinidade de traços acolhidos sem análise crítica. Deve-se fazer, inicialmente, essa análise”. Trazendo essa recomendação de Gramsci ao contexto ficcional do filme A Vila, poderíamos imaginar que ele sugere que temos de ser cada vez mais como Ivy e Lucius, que questionam a realidade imposta para eles a fim de transformá-la, e, por conseguinte, sermos cada vez menos como os anciões da vila, que mantêm uma estrutura de limitação intelectual e mentiras. Devemos sempre criticar nossa própria concepção de mundo e criar novas, se quisermos construir uma concepção mais evoluída.

    2.3 -Conhecimento finito e vontade infinita. Uma análise filosófica do filme a Vila

    Um interessante paralelo entre o filme “A vila” e uma teoria apresentada por Descartes em seu livro “meditações sobre filosofia primeira” é exibida na obra “Cine filô – as mais belas questões da filosofia no cinema”, de Ollivier Pourriol (POURRIOL, 2009). Em
    “meditações sobre filosofia primeira”, Descartes expõe a ideia de que os seres humanos têm duas faculdades: uma finita que é o entendimento ou a compreensão; a outra, infinita, que é a vontade. Todos nós vivenciamos diariamente essa dicotomia, de querermos infinitamente as  coisas, mas termos uma capacidade cognitiva limitada. 

    “Não podemos saber de tudo, mas podemos querer tudo”. Uma das personagens principais do filme, Ivy Walker, como qualquer ser humano, tem um conhecimento finito. Além disso, ela é cega, e essa limitação torna seu contato com o mundo material ainda mais limitado. Quando colocada em uma situação limite com o seu noivo à beira da morte, ela terá, então, de usar de sua vontade infinita para tirá-lo desse risco de morrer. E essa vontade infinita é capaz de vencer barreiras, ultrapassar limites, transpor desafios. 

    Quando Ivy, apesar das suas dificuldades físicas e psicológicas, pensando em salvara vida de Lucius, atravessa a floresta para pegar medicamentos para seu amado que está ferido, ela encara o seu temor pelo desconhecido e através da vontade infinita de salvar o amado, vence as barreiras do medo mesmo tendo um conhecimento com finitude. Lucius Hunt também têm um conhecimento muito limitado do mundo ao seu redor. Ele não tem ideia, por exemplo, de que os monstros que tanto teme não são reais. Porém, sua vontade de mudança, sua gana por saber mais sobre o desconhecido em uma sociedade acomodada, revelam nele uma força de vontade sem limites. Além disso, a imensa vontade dos anciões da vila de proteger seus entes queridos da violência faz com que eles limitem ainda mais o conhecimento de todos que estão ao seu redor, com a imposição da mentira de criaturas imaginárias para amedrontar os demais.

    2.4 As muitas vilas espalhadas pelo mundo

    O filme “A Vila” retrata a que ponto o ser humano pode chegar para se defender de seus medos, no caso em questão, do medo da violência. Apesar de nem sempre os protagonistas da formação das culturas e das ideologias chegarem ao extremo de criarem monstros para imporem medo às comunidades às quais pertencem, é possível constatar a criação de outras estratégias por meio das quais surgem pelo mundo pequenas “vilas”, ou seja, comunidades que buscam se isolar para se protegerem de algum tipo de violência. Condomínios residenciais poderiam de certo ponto de vista, serem considerados “vilas”. Neles são instalados diversos equipamentos de segurança e subterfúgios para deixar os moradores relativamente isolados do resto do mundo. Assim, de certo modo, habitantes de condomínio vivem em suas próprias “bolhas” ou universos particulares. 

    Outro tipo de vila metafórica que pode ser associada aquela apresentada no filme são os países que criam um clima de terror e pânico aqueles que são diferentes e aos estrangeiros através da xenofobia. Alguns países vêm demonizando certos estrangeiros, de forma a tratá- los como verdadeiros monstros e impedem que os mesmos saiam de seus territórios e “invadam” as terras que não são as suas de origem. Como na Vila de Shyamalan é criada uma cultura do medo pelo desconhecido desde cedo, através até mesmo dos ensinamentos nas escolas, e essa cultura é reforçada por diversos dogmas passados pelas figuras de maior credibilidade e prestígio perante a sociedade, que na vila do filme são representados pelos anciões. Para ilustrar, com pelo menos um exemplo, podemos citar o caso dos Estados Unidos, que após o onze de setembro, com o trauma da violência que sofreu, transformou muçulmanos em monstros para justificar a xenofobia e descriminação contra eles.

    2.5- Sair da caverna é sair da vila: Ivy Walker e a caverna de Platão

    Há outro paralelo filosófico que é possível realizar a partir do filme “A vila”, ao resgatarmos a alegoria da caverna de Platão. Nessa alegoria presente no capítulo 7 do livro “A República”, o filósofo imaginava os seres humanos como estando presos em uma caverna, aprisionados por correntes, desde seu nascimento e de costas para a entrada dela. Uma chama proveniente do exterior da caverna permitia a projeção nas paredes da mesma das sombras de tudo o que havia no mundo real, do lado de fora dela. Além de observar essas sombras, os humanos podiam ouvir os ecos das vozes dos seres que passavam próximos da porta da caverna. 

    Os prisioneiros voltados de costas para a realidade exterior à caverna conheciam apenas as sombras dessa realidade e acreditavam que essas sombras constituíam a própria realidade, por não poderem conhecer formas verdadeiras e ideais. Desse modo, os seres da caverna viviam em um mundo ilusório, que continha cópias imperfeitas das formas ideais. 

    Para Platão, o único mundo não ilusório é o mundo das ideias. Esse mundo do lado de fora da caverna têm as formas ideais, diferente de tudo o que os habitantes da caverna conheciam que eram baseados na experiência de sombras imperfeitas. Assim sendo, eles não tinham um conhecimento genuíno da realidade, que é a externa. Essas pessoas presas na caverna não são muito diferentes dos moradores da vila.

    Enquanto na alegoria da caverna elas veem o mundo através das sombras projetadas na parede, os moradores da vila veem o mundo através do medo dos monstros. Nas duas situações, o conhecimento acessado é ilusório e o conhecimento da realidade está obstruído. Ainda no mito de Platão, um dos seres que está acorrentado, se liberta após muita dificuldade, e sai da caverna.

    Ele se depara com o mundo lá fora e não pode acreditar que tudo aquilo que ele viveu era uma mentira. O clarão do sol que ele nunca havia visto, o deixa perturbado e ofusca sua visão, o que faz com que ele volte para a caverna a fim de mostrar para os outros sua descoberta.

    Mas ao regressar, seus amigos não acreditam nele, dizendo que aquilo que ele diz é um devaneio. Após uma discussão, eles o matam e, assim, esgotam toda a possibilidade que eles tinham de encontrarem a verdadeira realidade.

    Essa pessoa que consegue sair da caverna pode ser associada à personagem Ivy, que, devido a sua persistência de sair da floresta para salvar seu noivo, conseguiu quebrar as correntes que a prendiam à realidade ilusória criada e propagada pelos anciãos. 

    Ela consegue se libertar de sua “caverna de Platão”, com a diferença que não será assassinada ao regressar  do mundo exterior, como na alegoria do filósofo.

    Mas, o futuro da vila é incerto, porque a cega parece ter ficado em dúvida sobre a existência dos monstros, após o ataque de Noah, bem como porque os próprios anciões depositam a esperança de que ela vai continuar iludindo os moradores de maneira a manter coesa a comunidade da vila.

    Portanto, como o filme acaba antes de sabermos no que ela está acreditando, e se ela vai ou não libertar os outros moradores “das correntes que os prendem”, o espectador do filme fica sem saber se ela libertará seus conterrâneos de viver uma mentira. Isso fica como nosso encargo: imaginarmos nós mesmo um fim para essa história.

    Considerações finais: Nossa vila interior e o medo do desconhecido.

    A partir do filme A Vila, realizei algumas reflexões filosóficas e existenciais a partir das quais pretendi mostrar que o filme é interessante e pode nos fazer pensar em diversos aspectos da vida. Eu acredito que todos nós temos uma espécie de vila do Shyamalam dentro de nós: criamos nossos próprios medos a partir de nossos traumas e muitas situações desagradáveis que acreditamos ser causadas por fatores externos têm origem dentro de nós. Para nos livrarmos dessas amarras e do medo do desconhecido, precisamos achar dentro da gente nosso lado Lucius Hunt, questionador e que quer quebrar paradigmas e barreiras. Caso o Lucius dentro de nós corra risco de vida precisamos mobilizar, então, nosso lado Ivy Walker, capaz de vencer o limite do conhecimento finito com uma força de vontade infinita. Além disso, nosso lado Ivy deve ser capaz de criticar a própria concepção de mundo para criarmos novos paradigmas e ampliarmos essa concepção de maneira consciente e melhor. É apenas enfrentando nossos próprios monstros interiores e o desconhecido que seremos capazes de evoluirmos de forma a trazermos benefícios para nós mesmos e para aqueles que estão ao nosso redor.

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