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    HOMEM DO RIFLE (1958 a 1963) - SÉRIE REVIEW


    As lojas de departamento dos Estados Unidos esgotaram todo o estoque de rifles de brinquedo no Natal de 1958. E praticamente não havia um único menino que rodando orgulhosamemte o presente trazido por Santa Claus não se imaginasse o próprio Lucas McCain, personagem da série “O Homem do Rifle” (The Rifleman). Essa produção era o grande sucesso entre as séries da TV norte-americana após seu lançamento às 19 horas de uma terça-feira, dia 30 de setembro de 1958, pela rede ABC. “O Homem do Rifle” superou muitos de seus rivais e conquistou logo o quarto lugar no Nielsen Ratings, o que explica a febre dos garotos que não perdiam nenhum episódio da nova atração, devidamente acompanhados pelos papais que também eram fãs da série. Qual seria a explicação para o estrondoso sucesso de “O Homem do Rifle”?

    A CRIAÇÃO DA SÉRIE 

    Cada nova série western procurava inovar com um herói diferente para conquistar a audiência. O grande achado de “O Homem do Rifle” era, sem dúvida, o mocinho que ao invés de revólveres usava um rifle. E que rifle e com que agilidade! Rifles nunca foram novidade nos westerns mas a lembrança mais forte sempre foi a de John Wayne sobre uma diligência em desabalada carreira disparando contra os índios. Anos mais tarde a história do lendário rifle Winchester 73 também deixaria sua marca, visto no cinema nas mãos de James Stewart. O mesmo Duke criaria novo personagem inesquecível com seu rifle em “Caminhos Ásperos” (Hondo) e três anos mais tarde em “Rastros de Ódio” (The Searchers) Duke Wayne usaria mais um rifle que o próprio revólver que trazia no coldre. É difícil afirmar com precisão qual personagem influenciou mais na criação de “O Homem do Rifle”, mas uma coisa é certa: ao contrário do que se costuma escrever, não foi Sam Peckinpah o responsável único pelo surgimento do personagem de Lucas McCain com seu rifle. Os produtores Arthur Gardner, Jules V. Levy e Arnold Laven haviam formado uma produtora independente e Levy queria produzir uma série com o título “The Rifleman” que já havia registrado. O trio pediu a diversos escritores-roteiristas uma história sobre um personagem que utilizasse com perícia uma Winchester no Velho Oeste. Sam Peckinpah já era um nome conhecido pelas histórias que havia criado para as séries “Gunsmoke” e para outras séries westerns de TV. E Peckinpah havia acabado de roteirizar a história “The Authentic Death of Hendry Jones”, próximo filme a ser estrelado por Marlon Brando, roteiro que não foi utilizado no filme que afinal se chamou “One-Eyed Jacks” (A Face Oculta). Gardner-Levy-Laven procuraram Sam Peckinpah.

    Quando o trio de produtores lhe pediu que escrevesse algo compatível com o homem e seu rifle, Peckinpah desengavetou uma história sua chamada “The Sharpshooter” que havia sido recusada pela produção de “Gunsmoke”. Sam Peckinpah adaptou-a para um exímio atirador armado com uma Winchester modificada e a mostrou para os produtores Laven, Gardner e Levy. Arnold Laven era um diretor com alguma experiência, tendo dirigido alguns filmes, entre eles “Não Há Crime Sem Castigo”, com Broderick Craword; “Deus é Meu Juiz”, com Paul Newman e Lee Marvin; “Chuva de Balas” (Gunsight Ridge), faroeste com Joel McCrea; “O Monstro que Desafiou o Mundo”, com Tim Holt; “Ana Lucasta”, drama sobre uma prostituta negra com Eartha Kitt e Sammy Davis Jr.; e o excelente policial “Assassinato na 10.ª Avenida” com Dan Duryea, Walter Matthau, Jan Sterling e Julie Adams. Arnold Laven fez alguns ajustes na história de Peckinpah, um deles fundamental que foi colocar uma criança como filho do personagem principal Lucas McCain. Com o roteiro em mãos Laven-Levy-Gardner procuraram a produtora Four Star, fundada por Dick Powell, Ida Lupino, Charles Boyer e David Niven. A poderosa Four Star, dirigida por Dick Powell conseguiu em menos de um mês o patrocinador e a distribuição pela American Broadcasting Company (ABC).


    Para interpretar Lucas McCain foi contratado Chuck Connors, ator de 37 anos que já havia participado de 20 filmes. Entre esses filmes dois foram os grandes sucessos “Da Terra Nascem os Homens” (The Big Country), faroeste de William Wyler e “Meu Melhor Companheiro” (Old Yeller), da Disney, estrelado por Dorothy McGuire e Fess Parker. Chuck Connors era um gigante de 1,97m de altura que antes de se tornar ator tinha sido soldado durante a II Guerra Mundial, jogador de basquetebol do Boston Celtics, e também jogador de baseball do Los Angeles Angels. Segundo relatos de jornais da época, Connors fez bem em abandonar essas atividades esportivas nas quais ele era apenas sofrível. A príncipio os produtores recusaram o salário pedido por Chuck Connors para atuar na série, mas após vê-lo contracenando com Tommy Kirk em “Meu Melhor Companheiro” não tiveram dúvidas que ele deveria ser Lucas McCain. Além disso Connors mostrou aos produtores que manuseava a Winchester .44 com a mesma facilidade com que rodava um taco de baseball. Para interpretar o menino Mark McCain foi escolhido o ator infantil Johnny Crawford, então com 12 anos, que já havia participado de inúmeros episódios de outras séries de TV, entre elas “The Lone Ranger”, “O Paladino do Oeste”, “Caravana” e “The Restless Gun”, este último estrelado por John Payne. Nem Chuck Connors nem o pequeno Johnny Crawford poderiam imaginar que se tornariam personagens inesquecíveis da história da televisão.

    Desde a primeira vez que Lucas McCain surgiu na televisão caminhando por uma rua disparando oito tiros em cinco segundos com sua Winchester .44 na abertura de “O Homem do Rifle”, o público percebeu que aquela seria uma de suas séries favoritas. “O Homem do Rifle” conquistou a América logo com o primeiro episódio, justamente “The Sharpshooter”, escrito por Peckinpah e dirigido pelo próprio Arnold Laven. Fizeram parte do elenco daquele episódio inicial, além de Connors e Crawford, Dennis Hopper, Leif Erickson, Sidney Blackmer, R.G. Armstrong e Mickey Simpson. Nos episódios seguintes, foi mantida a qualidade da série e entre os diretores que se revezavam com Arnold Laven estiveram Joseph E. Lewis, Jerry Hopper, William Conrad, Richard Donner e outros. Sam Peckinpah pediu a Arnold Laven que o deixasse dirigir um episódio e no quarto episódio da série, intitulado “The Marshal”, Peckinpah foi o diretor. Essa história, também escrita por Peckinpah introduziu o personagem do marshal Micah Torrance, interpretado pelo veterano Paul Fix. Em quase todos os episódios o ex-alcoólatra delegado Torrance se mostrava incapaz no enfrentamento dos bandidos que tentavam infernizar a cidadezinha de North Fork, no território do Novo México, sendo então ajudado por Lucas McCain. Nas proximidades de North Fork vivia o rancheiro viúvo Lucas McCain com seu filho Mark. A série já iniciava com muita emoção com o Chuck Connors, sua Winchester  e o tema musical de abertura de “O Homem do Rifle”, deautoria de Herschel Burke Gilbert.

    Sam Peckinpah dirigiu mais três episódios da série, fornecendo roteiro para outros cinco episódios, indicando de certa forma o estilo a ser seguido pela série. Com episódios de meia hora de duração filmados em preto e branco, “O Homem do Rifle” injetou novidades nos faroestes da TV, a começar pela destreza com que Lucas McCain posicionava e disparava sua Winchester .44, o que fazia em inacreditáveis três décimos de segundo. A educação de Mark através dos ensinamentos em cada episódio era um aspecto que cativava especialmente o público adulto, em contraponto com a violência exibida em alguns episódios.

    O sucesso continuou na segunda temporada e a partir da terceira temporada os produtores perceberam que era preciso operar algumas mudanças. Ocorreram então as tentativas de participações efetivas de personagens femininos para uma espécie de tentativa de humanizar Lucas McCain. Primeiro foi a balconista Milly Scott interpretada por Joan Taylor, com quem McCain flertava abertamente. Como Joan Taylor não deu certo, surgiu então Lou Mallory, a dona do hotel de North Fork, vivida por Patricia Blair. Na quinta temporada ficou evidente que Chuck Connors já não tinha o mesmo interesse das primeiras temporadas, cansado de interpretar The Rifleman. E o então adolescente Johnny Crawford projetava novos horizontes para sua vida artística que o levaria a se destacar mais como cantor e músico que propriamente como ator.

    Em abril de 1963 foi ao ar o episódio de n.º 168, o último da série “O Homem do Rifle”, episódio intitulado “Old Tony”, dirigido por Joseph Lewis. O elenco era o mesmo, naturalmente cinco anos mais velho, e o público ávido por novidades queria ver outros heróis entrarem em sua casa através da televisão. Havia duas temporadas que “O Homem do Rifle” saíra da lista dos 25 programas mais assistidos, o que levou a série a ser cancelada. Quando isso aconteceu, Chuck Connors com o prestígio adquirido passou a ganhar mais pelas participações nos filmes que estrelou para o cinema e Johnny Crawford chegou por diversas vezes aos primeiros lugares do hit-parade como cantor. Patricia Blair recuou no tempo e se transformou em Rebecca Boone, a esposa de Daniel Boone, na série estrelada por Fess Parker. Sam Peckinpah já havia então impressionado enormemente a crítica com seu primeiro longa-metragem, “Pistoleiros do Entardecer” (Ride the High Country), e se preparava para sua primeira viagem ao inferno com “Juramento de Vingança” (Major Dundee). Arnold Laven, por sua vez, viria a dirigir alguns faroestes no cinema, mas o que faria de mais importante era, juntamente com os sócios Jules V. Levy, Arthur Gardner e Lou Morheim produzir outra série de grande sucesso na televisão norte-americana, “The Big Valley”. “O Homem do Rifle” é uma série verdadeiramente clássica, uma das melhores entre a mais de uma centena criada nos bons tempos da TV em preto e branco, nos saudosos anos 50.



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