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    sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

    HELLRAISER NO CINEMA


    HELLRAISER (1987)

    Título Original: Hellraiser
    Ano: 1987 • País: UK
    Direção: Clive Barker
    Roteiro: Clive Barker
    Produção: Christopher Figg
    Elenco: Andrew Robinson, Clare Higgins, Ashley Laurence, Sean Chapman, Oliver Smith, Robert Hines, Anthony Allen, Leon Davis, Michael Cassidy, Frank Baker, Oliver Parker, Doug Bradley, Nicholas Vince, Simon Bamford

     Eu vi o futuro do Horror… E seu nome é Clive Barker – Stephen King

    Essa famosa e profética frase do consagrado escritor Stephen King é verdadeira e indicativa do que os apreciadores do gênero fantástico seriam brindados através do fascinante universo ficcional de horror criado pelo genial Clive Barker. Autor inglês nascido em 1952, ele escreveu uma série de coletâneas de contos intituladas Livros de Sangue (Books of Blood), lançados no Brasil pela Editora Civilização Brasileira.

    Sua literatura é recheada de situações de horror explícito aliadas a elementos de sexo e sadomasoquismo, apresentando todo tipo de monstros e criaturas malignas, não poupando sangue, violência e sadismo em suas histórias sobrenaturais.

    Alguns de seus contos foram adaptados para o cinema, e Clive Barker decidiu também se aventurar nessa mídia estreando em 1987 na direção de um filme que se tornaria um marco e referência do horror nos anos 1980, considerado hoje um clássico moderno do gênero, Hellraiser – Renascido do Inferno (Hellraiser). Produzido a partir de um roteiro do próprio Barker, baseado em seu conto The Hellbound Heart, o filme acabou dando origem a uma consagrada franquia com vários filmes posteriores e apresentou um personagem que tornou-se imortalizado na galeria de monstros do cinema: Pinhead, o líder cenobita Cabeça de Prego, interpretado em todos os filmes pelo ator Doug Bradley, num papel que lhe conferiu notoriedade.

    Pinhead juntou-se a um famoso time de personagens monstruosos e psicopatas assassinos do cinema moderno de horror, responsáveis por dezenas de filmes e por toda uma história do gênero, ao lado de Michael Myers (da saga Halloween), Jason Voorhees (Sexta-Feira 13), Freddy Krueger (A Hora do Pesadelo), Leatherface (O Massacre da Serra Elétrica), e Dr. Hannibal Lecter (O Silêncio dos Inocentes).

    Em Hellraiser, um homem inescrupuloso, Frank (Sean Chapman), comprou uma misteriosa caixa mágica e num ritual de magia negra ele descobriu uma forma de abri-la, permitindo dessa forma o contato entre o nosso mundo e uma dimensão paralela habitada por criaturas infernais chamadas cenobitas, que tinham como função capturar almas e proporcionar experiências fora da compreensão humana, através de horríveis torturas na carne, com o uso de correntes e ganchos pontudos, misturando dor e prazer.

    Liderados por Pinhead (Doug Bradley), o macabro grupo de cenobitas ainda era formado por outras três criaturas bizarras, uma mulher com a garganta dilacerada (Grace Kirby) e dois homens, um com a boca sempre escancarada e esticada tendo os dentes batendo-se entre si numa ação constante e perturbadora (Nicholas Vince), e outro mais obeso com um óculos escuro cravado no rosto (Simon Bamford). Seus corpos eram todos marcados por cortes profundos e enormes cicatrizes.

    Uma vez entrando em contato com os cenobitas, Frank foi capturado e passou a conhecer níveis incalculáveis de dor, ficando com sua alma presa no piso do sótão da velha casa de sua mãe falecida, local onde ele havia realizado o ritual. Mais tarde, seu irmão Larry Cotton (Andrew Robinson, de Brinquedo Assassino 3 e Pumpkinhead: O Retorno), mudou-se para a mesma casa, acompanhado da nova esposa Julia (Claire Higgins), que também havia sido amante de Frank. Sua filha Kirsty (Ashley Laurence, de Warlock 3: O Fim da Inocência) não o acompanhou, preferindo alugar um quarto em outra casa, devido a pequenas desavenças com a madrasta Julia. No momento da mudança, Larry sofreu um acidente ao transportar uma cama e rasgou sua mão em um prego, fazendo com que várias gotas de sangue caíssem sobre o piso do sótão e com isso permitissem o retorno de Frank ao nosso mundo, inicialmente como uma massa gosmenta de carne, ossos e músculos (interpretado por Oliver Smith). Seduzindo novamente a ainda apaixonada Julia, Frank conseguiu convencê-la a trazer outros homens até o sótão, atraindo-os com a falsa proposta de fazer sexo, e matando-os a golpes de martelo, para que Frank possa sugar-lhes o sangue e poder assim regenerar seu corpo novamente.

    Porém, os cenobitas não sabiam da fuga de Frank de seus domínios e quando a jovem Kirsty descobriu o plano maquiavélico de Julia e Frank para trazê-lo de volta à vida, ela roubou a caixa mágica e abriu as portas dimensionais para o submundo da dor, sendo perseguida por uma enorme criatura deformada e entrando em contato com os temíveis cenobitas. O próprio Pinhead se encarregou de fazer sua apresentação para a desesperada moça: Nós somos os exploradores das regiões profundas da experiência. Demônios para alguns. Anjos para outros. Kirsty então revelou a fuga de Frank para as macabras criaturas em troca de sua saída do inferno. Entretanto, ajudada por seu namorado Steve (Robert Hines), a jovem ainda teria que lutar muito por sua vida e para escapar da fúria sangrenta dos cenobitas.

    Hellraiser – Renascido do Inferno tornou-se uma franquia de sucesso com a comercialização de bonecos, revistas em quadrinhos e todo tipo de material relacionado à série, além principalmente da produção no cinema de outras continuações. Hellraiser – Renascido do Inferno II (Hellraiser II – Hellbound, 1988), dirigido por Tony Randel; Hellraiser III – Inferno na Terra (Hellraiser III – Hell on Earth, 92), de Anthony Hickox; Hellraiser IV – A Herança Maldita (Hellraiser – Bloodline, 96), de Alan Smithee, numa história com elementos de ficção científica, ambientada no futuro numa estação espacial; Hellraiser V – Inferno (Idem, 2000); Hellraiser VI – Caçador do Inferno (Hellraiser – Hellseeker, 2002), Hellraiser VII – O Retorno dos Mortos (Hellraiser: Deader, 2005) e Hellraiser: O Mundo do Inferno (Hellraiser: Hellworld, 2005), os três de Rick Bota;  Todas essas sequências foram estreladas por Doug Bradley como o líder dos cenobitas Pinhead e suas histórias foram inevitavelmente inferiores ao original. Em 2011, foi feita uma parte 9, intitulada Hellraiser: Revelações (Hellraiser: Revelations), com o ícone Pinhead interpretado, de forma irregular, por Stephan Smith Collins.


    HELLRAISER - HELLBOUND (1988)

    Título Original: Hellbound: Hellraiser 2
    Ano: 1988 • País: USA, UK
    Direção: Tony Randel
    Roteiro: Peter Atkins
    Produção: Christopher Figg
    Elenco: Doug Bradley, Ashley Laurence, Clare Higgins, Kenneth Cranham, Sean Chapman, William Hope, Barbie Wilde, Simon Bamford, Nicholas Vince, Angus MacInnes

    O sucesso comercial de Hellraiser impulsionou a criação de uma franquia, e apenas um ano depois foi lançada a continuação Hellbound: Hellraiser II, dessa vez com direção de Tony Randell e tendo Clive Barker apenas na produção. Bem mais sangrento que o anterior e tendo à disposição mais dinheiro para a criação dos efeitos especiais, agora os cenobitas aparecem mais tempo que o filme original, e quase toda a história é ambientada no inferno com a revelação de vários elementos para uma maior compreensão do universo ficcional de Hellraiser.

    A história complementa os eventos ocorridos no primeiro filme, com Kirsty Cotton (Ashley Laurence) internada num hospital psiquiátrico, ainda atormentada pela experiência traumática com os cenobitas. O sanatório é dirigido pelo Dr. Philip Channard (Kenneth Cranham), que demonstra um interesse maior pela incrível história de Kirsty, cuja versão não é levada a sério pelo detetive da polícia Ronson (Angus McInnes). O assistente do Dr. Channard, Kyle MacRae (William Hope), acaba descobrindo que seu patrão é um estudioso da Configuração dos Lamentos e que tem como objetivo conhecer o mundo dos cenobitas ajudando Julia (Clare Higgins) a ressuscitar do inferno (visto no filme anterior), cedendo-lhe vítimas humanas para recuperar suas energias, e contando também com o auxílio de uma jovem adolescente internada na clínica, Tiffany (Imogen Boorman), que não falava por causa de um trauma envolvendo sua mãe, e que possuía um oportuno dom peculiar para a solução de enigmas com caixas e cubos.

    O jovem Kyle decide então ajudar Kirsty a fugir do hospital e tentar resgatar do inferno seu pai que fora capturado pelos cenobitas, percorrendo um perturbador labirinto de corredores estreitos sob o domínio demoníaco de Leviathan. A partir daí, ela passa a enfrentar seus piores pesadelos, entre eles o traiçoeiro tio Frank (Sean Chapman), na forma de uma massa de carne sem pele, e os terríveis cenobitas comandados por Pinhead (Doug Bradley), que tem a cabeça coberta de pregos, além de Chatterer (Nicholas Vince), com seus dentes rangendo sem parar, Butterball (Simon Bamford), obeso e com um óculos cravado no rosto, e Female (Barbie Wilde), a única que também fala e que tem a garganta aberta, com todos eles apresentando cortes profundos no corpo e vestindo roupas de couro.

    Hellbound: Hellraiser II possui duas diferenças significativas em relação ao filme original. Apresenta muito mais violência e cenas sangrentas, e é bem exagerado na fantasia de sua história, com a maior parte do roteiro sendo ambientada no inferno dos cenobitas. De uma forma geral, é um pouco inferior ao filme de Clive Barker, mas ainda assim bastante divertido, com algumas cenas bem perturbadoras como a visita do Dr. Channard aos subterrâneos da clínica psiquiátrica, onde seus pacientes estão presos em celas individuais, e um deles em especial tem o insano hábito de mutilar o próprio corpo violentamente pensando estar sendo devorado vivo por vermes; ou a sequência de transformação do próprio Dr. Channard num horrendo cenobita suspenso pela cabeça por um enorme tentáculo, apresentando uma infinidade de objetos cortantes em suas mãos, e que a toda hora faz comentários irônicos e trocadilhos médicos e cirúrgicos; ou ainda a cena mostrando vários cadáveres decompostos pendurados por cordas no sótão da casa do Dr. Channard, os quais estavam apodrecendo lentamente em meio às moscas e vermes pestilentos depois de servirem de alimento para Julia recuperar a pele e forma física.

    Tanto Hellbound quanto o terceiro filme da série, Inferno na Terra (92), foram lançados em DVD por aqui com um preço mais acessível em outubro de 2004, recebendo os nomes Hellraiser 2 – Renascido do Inferno e Hellraiser 3 – Inferno na Terra. Ambos ocupando os dois lados de um mesmo disco, e trazendo como material extra apenas sinopses curtas e pequenas biografias de alguns dos atores. Aliás, em Hellbound, foi cometido um erro grotesco ao colocarem a foto da atriz Ashley Laurence na biografia de Clare Higgins.

    Curiosamente, o ator inglês Doug Bradley encarnou o personagem Pinhead em oito filmes da franquia, ficando eternamente associado à imagem do principal cenobita de Hellraiser, num caso similar ao de Robert Englund, o homem por trás do psicopata assassino dos sonhos (ou pesadelos) Freddy Krueger na saga A Hora do Pesadelo. Já a cenobita Female foi a única das criaturas infernais que mudou de atriz, passando de Grace Kirby em Hellraiser para Barbie Wilde em Hellbound. E Ashley Laurence somente participou ativamente dos dois primeiros filmes da franquia, tendo depois pequenas e discretas aparições em Hellraiser III – Inferno na Terra e Hellraiser VI – Hellseeker (2002).


    HELLRAISER 3 - INFERNO NA TERRA (1992)

    Título Original: Hellraiser III: Hell on Earth
    Ano: 1992 • País: EUA, CANADÁ
    Direção: Anthony Hickox
    Roteiro: Peter Atkins
    Produção: Christopher Figg, Lawrence Mortorff
    Elenco: Terry Farrell, Doug Bradley, Kevin Bernhardt, Lawrence Mortorff, Ken Carpenter, Paula Marshall, Robert C. Treveiler, Christopher Frederick, Lawrence Kuppin, Brent Bolthouse, Paul Vincent Coleman

    Em Hellraiser III – Inferno na Terra (Hellraiser III – Hell on Earth), dirigido por Anthony Hickox em 1992, Pinhead (Doug Bradley) está preso numa escultura macabra comprada em um antiquário por um jovem empresário da noite, J. P. Monroe (Kevin Bernhardt), que guarda a obra bizarra em seu bar noturno, The Boiler Room. Quando num acidente um pouco de sangue espirra na escultura, Pinhead inicia seu processo de libertação e vem à Terra para alimentar-se dos prazeres da carne, começando por um massacre sangrento dos frequentadores da boate, justificando no melhor estilo um de seus lemas, Apetite saciado, desejo satisfeito.

    Enquanto isso, uma jovem repórter decadente em busca de uma boa matéria jornalística para levantar sua carreira em crise, Joey Summerskill (Terry Farrell, a Tenente Comandante Jadzia Dax da série de TV Star Trek: Deep Space Nine), presencia uma cena bizarra num hospital, onde um homem tem sua cabeça explodida e vários ganchos e correntes cravados em seu corpo. Ela decide então investigar a ocorrência, com a ajuda do fotógrafo Daniel Fisher (Ken Carpenter), apelidado de Doc, e entra em contato com Terri (Paula Marshall), ex-namorada do dono do clube noturno, que lhe fornece informações importantes sobre o caso, como uma série de materiais pertencentes anteriormente à Clínica Psiquiátrica Channard (de Hellbound), com desenhos de caixas mágicas que permitem uma passagem para o inferno, e fotos de Kirsty Cotton (Ashley Laurence), além de um depoimento dela gravado em vídeo, onde revela a existência dos cenobitas e o perigo que eles representam para a humanidade.

    Joey tem constantes pesadelos onde ela aparece num campo de batalha nas selvas do Vietnã, e vê seu pai sendo morto pelo fogo inimigo, além de visões perturbadoras onde se encontra numa espécie de limbo, uma região entre o paraíso e o inferno, andando sobre os escombros e cadáveres em decomposição de soldados abatidos na guerra, entrando em contato com um misterioso homem, Capitão Elliot Spencer (Doug Bradley), que pede sua ajuda num confronto com Pinhead.

    A partir daí, Joey passa a enfrentar a fúria de novos cenobitas, criados para aumentar a legião de Pinhead, tentando desvendar os segredos da configuração dos lamentos, e travando uma luta incansável para evitar que o Inferno venha definitivamente à Terra.

    Entre as curiosidades interessantes de Hellraiser III, em uma tomada noturna rápida da cidade de New York, podemos ver as imponentes torres gêmeas do World Trade Center, sendo que ninguém imaginaria que seriam alvos de um ataque terrorista quase dez anos depois que causou suas quedas e a morte para milhares de pessoas. Tem também uma cena onde o fotógrafo Daniel Fisher, que tem um destino cruel ao se transformar num cenobita com uma câmera de vídeo no lugar de um dos olhos, está dormindo quando é interrompido no meio da noite por um telefonema da repórter Joey Summerskill, que lhe pede ajuda para investigar um massacre de jovens ocorrido momentos antes num clube noturno. Ela pede a ele para ligar a televisão e procurar pelo noticiário, e quando o fotógrafo pega o controle remoto e passa aleatoriamente pelos canais, aparece uma imagem super rápida do próprio diretor do filme, Anthony Hickox. Aliás, o cineasta, assim como o produtor Lawrence Mortorff, o roteirista Peter Atkins e o editor James D. R. Hickox aparecem em pontas no filme. Outro detalhe interessante é a presença da banda de Heavy Metal Armored Saint, interpretando a si mesma num show no mesmo clube noturno do massacre, com a música Hanging Judge. Uma das músicas que faz parte da trilha sonora é chamada de Hellraiser, escrita por Ozzy Osbourne e Lemmy Kilmister, e tocada pela lendária banda de metal Motorhead.

    Hellraiser III é bastante intenso em violência, apresentando cinco novos cenobitas depois que os anteriores Chatterer, Butterball e Female foram destruídos no filme anterior. As novas criaturas infernais são três homens, um com vários CD´s cravados na cabeça, outro com um câmera de vídeo servindo de olho, e o último com um aparelho mecânico em constante movimento no interior do cérebro, além de duas mulheres, sendo uma com arames farpados cobrindo-lhe o rosto e que solta fogo pela boca como se fosse um daqueles dragões mitológicos, e outra com um cigarro aceso pendurado por uma abertura exposta na garganta.

    Uma cena em especial é digna de registro por sua extrema ousadia. Ambientada no interior de uma igreja católica, a sequência é bastante ofensiva aos princípios religiosos cristãos, com Pinhead derretendo um crucifixo na mão de um padre (Clayton Hill), e simulando a sua própria crucificação retirando pregos da cabeça e cravando-os nas palmas das mãos, vociferando com a voz gutural e em tom de deboche: Eu sou o caminho!.

    Aliás, nesse mesmo momento, existe ainda um diálogo hilariante entre a repórter Joey e o padre.

    Ela grita em desespero: Eles continuam vindo! Os demônios!

    E vem a resposta calma do padre: Demônios não são reais, são apenas metáforas, parábolas….

    A repórter então retruca em tom de ironia: Então que porra é aquela?, apontando para a entrada da igreja, onde aparece na porta, de forma imponente e ameaçadora, a figura de Pinhead.


    HELLRAISER 4 - HERANÇA MALDITA (1996)

    Título Original: Hellraiser: Bloodline
    Ano: 1996 • País: EUA
    Direção: Kevin Yagher
    Roteiro: Peter Atkins
    Produção: Nancy Rae Stone
    Elenco: Bruce Ramsay, Valentina Vargas, Doug Bradley, Charlotte Chatton, Adam Scott, Kim Myers, Courtland Mead, Louis Mustillo, Pat Skipper, Christine Harnos

    O quarto filme da série Hellraiser, lançado em 1996 com o subtítulo A Herança Maldita (Bloodline), tem uma tagline promocional muito bem escolhida, dizendo em poucas palavras a síntese da história desse episódio da franquia. Pois ao mostrar eventos ocorridos tanto no passado, na França do século 18, explicando a origem da caixa mágica que permite a abertura dos portões do inferno, passando pelo período presente da produção, em meados dos anos 90 em New York, e chegando até o futuro no século 22, numa estação espacial, podemos concluir que todas as épocas se encontram nos cruzamentos do inferno, com a exaustiva tentativa da família do fabricante de brinquedos que construiu a caixa e seus descendentes, ao longo dos séculos, de destruírem os cenobitas livrando a humanidade de sua ameaça, e fechando definitivamente as portas que permitem sua entrada em nosso mundo.

    A história se inicia no ano 2127 na Base Espacial Minos, onde um cientista, Dr. Paul Merchant (o canadense Bruce Ramsay), sequestra uma nave que ele mesmo havia projetado e é surpreendido por uma equipe de segurança no momento em que está invocando o surgimento do demônio Pinhead (o inglês Doug Bradley, presença marcante em oito filmes da série), o líder dos cenobitas, as criaturas do inferno que celebram a dor e o sofrimento eternos. O grupo de agentes é formado por cinco policiais, Edwards (Paul Perri), Carducci (Pat Skipper), a bela Rimmer, a única mulher da equipe (Christine Harnos), Parker (Wren T. Brown) e Chamberlain (Tom Dugan). O cientista é preso e ao ser interrogado por Rimmer, ele conta a história de sua família e a herança maldita que é passada por gerações através da missão de impedir o domínio dos cenobitas entre os homens.

    Voltando no tempo para o século 18, na França, seu ancestral Phillip L’Merchant (também Bruce Ramsay) é um habilidoso fabricante de brinquedos que vive com sua esposa grávida Genevieve (Charlotte Chatton). A pedido de um misterioso ocultista obcecado por magia negra, Duc de L’Isle (Mickey Cottrell), ele fabrica uma complexa caixa que num ritual se transforma na Configuração dos Lamentos, um cubo com várias combinações de movimentos que permite a abertura dos portais do inferno e o acesso de demônios ao nosso mundo. O assistente do mágico, Jacques (Adam Scott), requisita os serviços de uma prostituta (a chilena Valentina Vargas), que passa a servir de hospedeira para a possessão de um demônio, recebendo o nome de Angelique.

    A ação vai então para o ano de 1996, época presente da produção do filme, onde um famoso arquiteto, John Merchant (novamente Bruce Ramsay), vive com sua esposa Bobbi (Kim Myers) e o filho pequeno Jack (Courtland Mead) nos Estados Unidos, na cidade de New York. Porém, sua vida torna-se um pesadelo quando aparece Angelique em seu caminho com o objetivo de destruí-lo para evitar que construa uma caixa que possa eliminar o efeito da Configuração dos Lamentos, através do projeto complexo de um sistema que permitiria a formação de luz perpétua, seguindo os instintos ancestrais de sua família, que acidentalmente permitiu o surgimento dos cenobitas.

    Retornando para o futuro na estação espacial, o cientista Dr. Paul Merchant tenta convencer a policial Rimmer do perigo mortal que estão todos enfrentando com a materialização de Pinhead, juntamente com outros cenobitas como Angelique (com a cabeça aberta e a pele repuxada e fixada por ganchos nos ombros) e dois irmãos gêmeos unidos grotescamente pela cabeça e que tem o poder de se separarem quando quiserem, além de uma fera similar a um cachorro, conhecida como Chatter Beast, por causa do incessante e perturbador bater dos dentes.

    Hellraiser – A Herança Maldita mantém a característica da série e apresenta uma significativa dose de violência e sangue, não faltando os tradicionais ganchos e correntes que rasgam a frágil carne humana, cenas caprichadas de decapitações e vísceras expostas, transformações bizarras de cenobitas (como na unificação sangrenta de dois irmãos gêmeos que eram guardas de segurança num prédio), além da presença de um cachorro mutante e a participação sempre imponente, ameaçadora e indispensável de Pinhead, com seus discursos sobre a essência da dor.

    A direção é na verdade de Kevin Yagher, mais conhecido como técnico em efeitos especiais, e que por discordar de vários cortes no filme impostos pelos produtores, decidiu em protesto não colocar seu nome nos créditos, adotando o famoso pseudônimo Alan Smithee, que sempre é utilizados pelos diretores quando não concordam com a interferência externa significativa na condução de seus filmes. Aliás, o cineasta Joe Chappelle rodou algumas cenas também e não foi creditado, aparecendo seu nome apenas no final dos créditos como um colaborador recebendo um agradecimento. O roteiro é de Peter Atkins, que também escreveu as histórias das partes 2 e 3 da série Hellraiser, além de criar a franquia O Mestre dos Desejos (Wishmaster, 97), que teve ainda mais três sequências.

    Curiosamente, a exemplo do que também aconteceu no filme anterior, Hellraiser III – Inferno na Terra (92), quando a ação é ambientada na época presente na cidade de New York, aparece uma tomada noturna muito rápida onde podemos ver ao fundo as imponentes torres gêmeas do World Trade Center, as quais não existem mais por causa dos terríveis atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001, que culminou com suas quedas e consequentemente a trágica morte de milhares de pessoas.

    A quarta parte da saga infernal dos cenobitas, Hellraiser – A Herança Maldita, foi lançada no Brasil em dezembro de 2004 no formato DVD pela NBO Editora, com distribuição nas lojas dos supermercados Extra, com um preço popular de R$ 9,90. Porém, para encontrar o filme era necessário um enorme esforço na procura, já que normalmente estava perdido no meio de um monte de outras tranqueiras espalhadas (eu mesmo perdi cerca de longos trinta minutos para encontrar a minha cópia). Como material extra temos apenas uma breve sinopse e uma biografia simples do ator Doug Bradley.


    HELLRAISER - INFERNO (2000)

    Título Original: Hellraiser - Inferno
    Ano: 2000 • País: EUA
    Direção: Scott Derrickson
    Roteiro: Paul Harris Boardman, Scott Derrickson
    Produção: W.K. Border, Joel Soisson
    Elenco: Craig Sheffer, Nicholas Turturro, James Remar, Doug Bradley, Nicholas Sadler, Lindsay Taylor, Matt George, Michael Shamus Wiles, Sasha Barrese, Kathryn Joosten, Carmen Argenziano, Christopher Neiman, Christopher Kriesa

    Quando um filme é lançado e faz muito sucesso, de público e crítica, é comum que seja criado um mito em torno de tal película, que muitas vezes passa a ser tratada como um clássico, e por tal motivo, uma obra que não possa ser mexida. Desta forma, a palavra “sequência” é capaz de provocar mais medo do que qualquer cena já vista. Analisando de forma geral, as famosas “parte 2” raramente conseguem ser tão boas quanto o original.

    Desta forma, a ideia de clássico do original ganha ainda mais força. Certa vez, o produtor David O. Selznick declarou que “não importaria o quão bom meus filmes futuros pudessem ser. Todos seriam comparados e julgados inferiores ao …E O Vento Levou”, que ele produziu em 1939. Se trouxermos tal afirmação para alguns filmes de terror, podemos fazer uma comparação com certas sequências que não são necessariamente ruins, mas que, apenas pelo fato de pertencerem à determinada série e de não seguirem a mesma linha narrativa, já são tachados como inferiores. Neste caso, podemos utilizar a expressão “diferentes”.

    De todos os possíveis exemplos desta teoria, talvez um dos mais injustiçados e incompreendidos filmes responda pelo nome de Hellraiser: Inferno (Hellraiser: Inferno). Lançado no ano 2000, a película de Scott Derrickson é um bom filme, mas que foi incompreendido por parte dos fãs da série por um único motivo: não ser um clone da produção original.

    Clássico indiscutível do gênero, Hellraiser – Renascido do Inferno (Hellraiser, 1987) é uma das maiores referências do cinema de horror da década de 1980. Com o sucesso, Clive Baker carimbou seu nome no hall da fama dos filmes de terror. Uma sequência foi lançada um ano depois e os elementos do primeiro filme foram expandidos em uma trama que dava continuidade direta aos eventos vistos no anterior. Podemos dizer que Hellraiser 1 e 2 são praticamente uma história única.

    Mas se já é difícil para um raio cair duas vezes no mesmo lugar, imaginem três. Os dois filmes seguintes da franquia Hellraiser tentaram seguir o formato já explorado nos episódios anteriores. Desta forma, mesmo sendo tramas que pareçam diferentes, no fundo tínhamos a mesma linha narrativa: personagens enfrentando Pinhead (Doug Bradley), que passou a ser o vilão principal.

    Quando um Hellraiser 5 estava sendo produzido, os roteiristas Paul Harris Boardman e Scott Derrickson poderiam ter seguido a mesma linha já vista nos primeiros filmes. No entanto, a dupla decidiu seguir um caminho mais arriscado, que seria o de dar um novo rumo para a série. O resultado foi bastante diferente, quando comparado com os quatro filmes anteriores, e muita gente pode ter se assustado (de forma negativa) com isso. Se pensarmos que os fãs da série estavam acostumados com um tipo de enredo, talvez eles tenham até se perguntado onde estavam os elementos conhecidos do grande público, quando assistiram ao filme pela primeira vez. No entanto, tais características estão presentes no Hellraiser 5… Só estão organizados de uma maneira bem diferente.

    Hellraiser: Inferno nos apresenta ao personagem Joseph Thorne (Graig Sheffer, de Turbulência 2). Ele é um policial corrupto de Los Angeles que mergulha em um mundo de mistérios e mortes quando tenta solucionar o caso de uma criança desaparecida. Tudo parece estar relacionado com um estranho cubo mágico que ele adquiriu.

    Ao ler tal sinopse, talvez a maioria das pessoas tenha imaginado que Joseph iria abrir a caixa, ser perseguido pelos cenobitas ou tragado pelas correntes para o inferno. Não exatamente, pois a dupla de roteiristas que assina este quinto exemplar da franquia optou por um caminho oposto a tudo isso, que vai mostrar uma batalha do policial para compreender os mistérios que passam a fazer parte da vida dele, ao mesmo tempo em que tenta salvar a vida da criança.

    Estranhas mortes começam a acontecer e Joseph precisa solucionar o mistério para não ser a próxima vida. A solução desta charada e a conclusão da trama são tão fortes quanto o destino de Frank Cotton no original. A diferença é que em Inferno, tudo é mais voltado para o lado psicológico, o que gera resultados bastante aterradores. Vale lembrar aqui a citação da personagem de Catherine Tramell, em Instinto Selvagem 2: Tudo que é interessante, começa na mente.

    Não que este Hellraiser 5 seja um filme apenas psicológico, mas vai ser nesse campo que parte da ação será desenvolvida. Acompanhamos Joseph como uma testemunha ocular e com as mesmas informações que ele tem referente ao que está acontecendo. A lógica apresentada pelo roteiro é de jogar o personagem, assim como o telespectador, neste emaranhado de mistérios enquanto o tempo está correndo. No percurso, vamos recolhendo algumas pistas que farão sentido ao final da trama.

    Mudar o foco de uma trama que leva o nome Hellraiser foi algo corajoso. Por que repetir o que estava sendo feito se existia uma outra opção? No entanto, parte dos fãs da série talvez tivesse preferido o velho feijão com arroz. Na verdade, o segredo para gostar de Inferno é esquecer o que foi visto nos filmes anteriores e se deixar levar pela trama.

    E se o filme pega leve em violência, quando comparado com o original e a parte 2, temos um ótimo trabalho para quem gosta de produções obscuras e macabras. Os cenários são simples, como casas, corredores e quartos, mas tudo foi criado com um formato fora do real, seja simplesmente pela iluminação ou mesmo pelos objetos de cena. Soluções baratas e práticas.

    Além disso, os cenobitas voltam a ser apenas fios condutores e não vilões principais como transformaram Pinhead nos Hellraisers 3 e 4. Aqui, tais seres estão tão macabros quanto no filme original, com destaque para duas fêmeas, que são ao mesmo tempo macabras e sensuais. Não que alguém vá querer ir para a cama com elas, mas os cenobitas sempre utilizaram elementos simbólicos que podem remeter ao sexo. O prazer, a indumentária preta e de couro… Em Inferno, elas chegam a sussurrarem enquanto atormentam Joseph.

    No entanto, tais características, que para alguns foram motivo de elogio, não foram tão bem recebidas por outras pessoas. Em Inferno, não temos a mocinha bonitinha que é vítima dos cenobitas feios. O herói aqui é um policial corrupto que trai a esposa, engana os amigos e não liga para os pais idosos. Trabalhar no plano psicológico com sequências que nem sempre fazem sentido também pode ter prejudicado o interesse de alguns fãs, enquanto a pequena participação dos cenobitas também possa ter deixado a desejar. Um outro detalhe que não pode ser esquecido é o baixo orçamento de Inferno. Diz a lenda que a produção foi tão barata que utilizou resto de material não aproveitado da Hellraiser 4, de quatro anos antes.

    Mas as soluções encontradas pelo diretor Derrickson foram bem criativas. Aliás, Scott Derrickson e Paul Harris Boardman são dois nomes que, mesmo com um currículo pequeno, merecem respeito. Em 2005, eles fizeram o excelente O Exorcismo de Emily Rose; depois Derrickson se especializaria na direção de filmes como O Dia em que a Terra Parou (2008), o ótimo A Entidade (2012) e o recente Livrai-nos do Mal (2014).


    HELLRAISER - CAÇADOR DO INFERNO  (2002)

    Título Original: Hellraiser: Hellseeker
    Ano: 2002 • País: CANADÁ, EUA
    Direção: Rick Bota
    Roteiro: Carl V. Dupré, Tim Day
    Produção: Michael Leahy, Ron Schmidt
    Elenco: Dean Winters, Ashley Laurence, Doug Bradley, Rachel Hayward, Sarah-Jane Redmond, Jody Thompson, Kaaren de Zilva, Michael Rogers, Trevor White, Kyle Cassie

    O cinema de terror talvez seja o gênero cinematográfico que mais trabalhe com a utilização dos mesmos personagens em sequências. Sobreviver em um filme de horror é quase como garantir a presença na “parte 2”. Muitas vezes, tal retorno não acontece na continuação direta, mas sim em um terceiro ou quarto filme. Quando estamos diante de uma série querida pelo grande público, trazer tais personagens de volta pode ser visto como uma homenagem ao próprio enredo original. Quem não se lembra do retorno de Jamie Lee Curtis em Halloween H-20? Grande parte das pessoas foi assistir a este filme com o objetivo de rever a atriz dando vida novamente a Laurie Strode.

    No entanto, trazer um ator de volta para uma série que não anda bem das pernas também pode significar uma coisa: desespero por parte dos produtores em faturar em cima do que já não está mais dando lucro.

    Kirsty Cotton era apenas uma jovem com seus 20 anos, quando conheceu o inferno. Seu pai foi assassinado pelo próprio irmão, que libertou demônios ao abrir uma misteriosa caixa em formato de quebra cabeça. Com a família destruída, ela sobreviveu apenas para descobrir que o hospital psiquiátrico, ao qual fora enviada, era administrado por um pesquisador da misteriosa caixa. Mais uma vez, Kirsty terminou a trama viva para ser apenas uma lembrança na memória dos fãs. Esses são os enredos de Hellraiser – Renascido do Inferno (Hellraiser, 1987) e Hellraiser 2 (Hellbound: Hellraiser 2, 1988), dois grandes filmes do gênero da década de 1980 e que, até hoje, são referências.

    A intérprete que deu a força para Kirsty é a atriz norte-americana Ashley Laurence. Nascida em 28 de maio de 1966, ela fez sua estreia no cinema em Hellraiser, sendo nesta produção, seu maior sucesso. Ela ainda participou de outras obras do gênero como Mikey (1992), Warlock III (Warlock III: The End of Innocence, 1999), além de seriados como Plantão Médico e Barrados no Baile. Ashey ainda faria uma aparição especial em Hellraiser 3 – Inferno na Terra (Hellraiser 3 – Hell on Earth, 1992), dando adeus a sua personagem Kirsty. Mas o hiato duraria pouco.

    Depois da saída de Ashley, a série Hellraiser não foi mais a mesma. Os filmes 3 e 4 deixaram a desejar no quesito roteiro e o 5, apesar de ter uma história bem consistente, não agradou a maioria dos fãs. A produtora Miramax Films sabia que algo precisava ser feito para melhorar a imagem da franquia e uma das saídas encontradas, quando um novo filme começou a ser pensado, foi olhar para o passado e trazer Kirsty de volta. A notícia agradou a maioria dos fãs. Já o resultado…

    Assistir Hellraiser – Caçador do Inferno (Hellraiser – Hellseeker) é uma experiência curiosa. O sexto filme da série iniciada em 1987 tinha tudo para ser uma boa produção do gênero, com uma história diferente do usual, um elenco que não chega a atrapalhar e até um final surpresa. Infelizmente, quando os créditos anunciam que o filme acabou, a impressão que fica é que mais uma boa ideia foi desperdiçada.

    Na trama de Hellseeker, conhecemos Trevor (Dean Winter) que é casado com Kirsty. Logo no começo do filme, o casal, que está no interior de um carro, acaba sofrendo um acidente e, aparentemente, apenas Trevor consegue sobreviver. Ele acorda em um hospital e percebe que Kirsty não foi localizada após a tragédia.

    Podemos dizer que é a partir de então que o filme começa. Trevor começa a ter estranhas visões ao mesmo tempo em que pessoas próximas a ele começam a desaparecer misteriosamente. A polícia, que investiga o desaparecimento de Kirsty, começa a acreditar que Trevor possui alguma ligação com as pessoas que sumiram e tudo parece estar relacionado a uma estranha caixa enigmática que ele pediu para a esposa abrir antes da tragédia.

    Mesmo com esta trama aparentemente interessante, o filme não decola e isso acontece por diversos motivos. Mas talvez os inúmeros problemas na estruturação do roteiro tenham sido os principais responsáveis por tais resultados. A impressão que fica é de que o roteirista Carl V. Dupré decidiu clonar a ideia da “trama psicológica” do filme anterior. No entanto, o resultado saiu mais para confuso do que interessante. A verdade é que parte do enredo se passa entre as lembranças, alucinações e sonhos de Trevor, o que complicaram ainda mais o que deveria ser o fio condutor da trama. Os cenobitas também estão meio sem função e Pinhead (Doug Bradley) está aparentemente fora de forma…

    Para os amantes da série, os problemas não param por ai. A participação de Kirsty na história talvez tenha sido o que mais atrapalhou um maior interesse pela produção, uma vez que se trata de uma das personagens chaves da série. Depois de 11 anos sem dar notícias, seria interessante ouvir algumas explicações de Kirsty, como saber o que ela fez depois do segundo Hellraiser. Ela conseguiu se recuperar após os eventos dos primeiros filmes? O que aconteceu com Tiffany (Imogen Boormen, da parte 2)? Trevor sabia do seu passado, quando lhe deu a caixa?

    É interessante observar que esses diálogos iriam acrescentar ao filme no máximo cinco minutos a mais de duração. Mais interessante ainda é saber que essas falas existiram, foram gravadas, porém, deixadas de lado pelo diretor Rick Bota. “Não queria entediar ninguém com essas informações desnecessárias“, afirma Bota, explicando que pessoas que nunca assistiram a saga iriam ficar perdidas com relação à história. Bom, se o interesse dele era esse, então por que trazer Ashley de volta para a série, já que apenas os fãs de carteirinha conhecem-na?

    Nem no esperado reencontro entre Pinhead e Kirsty as coisas melhoram. Para se ter um exemplo prático disto, assista a terceira cena deletada do DVD, onde existe um diálogo muito mais bem elaborado, onde eventos do passado são mencionados, levando a crer que Kirsty superou sim os acontecimentos. Para ter mais raiva, assista essa mesma cena com o comentário do diretor.

    Talvez esse seja o principal problema dos atuais filmes de terror, onde as questões psicológicas e emocionais dos personagens são deixadas de lado em troca de cenas banalizadas e gratuitas de sangue e terror, que não acrescentam nada para a narrativa.

    Outro problema grave do filme é a falta de criatividade do diretor para superar o baixo orçamento. Tudo bem que trabalhar com poucos recursos interfere no resultado final do produto, mas para toda regra existem exceções, afinal, filmes clássicos como O Massacre da Serra Elétrica (1978), Psicose (1960), A Noite dos Mortos Vivos (1968), Evil Dead (1982), além do primeiro Hellraiser foram rodados com orçamentos bastante simplórios e nem por isso deixaram de ser os clássicos que são. No caso do Caçador do Inferno, até as famosas correntes são feitas de um material plástico vagabundo.

    No entanto, Hellseeker não é o pior da série. O próprio Rick Bota dirigiria posteriormente Hellraiser: O Retorno dos Mortos (Hellraiser: Deader, 2005) e Hellraiser 8: O Mundo dos Mortos (Hellraiser: Hellworld, 2005), que conseguem ser os pontos mais baixos de toda a saga. Mas realmente este sexto exemplar deixa a desejar em vários aspectos e talvez seja justamente o retorno de Kirsty que mais tenha decepcionado os fãs da série. Da forma como foi conduzido, teria sido melhor que ela tivesse encerrado sua participação no Hellraiser 3.


    HELLRAISER - RETORNO DOS MORTOS (2005)

    Título Original: Hellraiser: Deader
    Ano: 2005 • País: EUA, ROMÊNIA
    Direção: Rick Bota
    Roteiro: Benjamin Carr, Tim Day
    Produção: David S. Greathouse, Ron Schmidt, Stan Winston
    Elenco: Kari Wuhrer, Paul Rhys, Simon Kunz, Marc Warren, Georgina Rylance, Doug Bradley

    Em outubro de 2005, a Europa Filmes lançou em DVD no Brasil o sétimo filme da franquia Hellraiser, com o subtítulo de O Retorno dos Mortos (Deader no original, que significa algo como Zumbi). Esse episódio tem direção de Rick Bota (que também fez as partes 6 e 8), o roteiro é de Benjamin Carr e Tim Day, e traz novamente Doug Bradley no papel que o imortalizou na galeria dos monstros modernos do Horror, o cenobita Pinhead, além da bela Kari Wuhrer (de Malditas Aranhas!), como uma jornalista investigativa que se infiltra num submundo perigoso, cercado de eventos sobrenaturais.

    Ela é Amy Klein, jornalista bem sucedida na Inglaterra, conhecida por trabalhar em matérias onde enfrenta situações de risco como uma investigação com um grupo de jovens viciados em crack. Seu chefe, Charles (Simon Kunz), convida-a a viajar para Bucareste, a capital da Romênia, para investigar a origem de uma fita de vídeo VHS enviada à redação do jornal por Marla (Georgina Rylance), que mostra cenas de uma seita de jovens liderada por Winter (Paul Rhys). Eles praticam o suicídio e retornam misteriosamente da morte. A repórter aceita o desafio e entra em contato com um universo de horror que lhe traz lembranças de um passado traumatizante na infância, e descobre segredos que abrem portas para uma dimensão de dor, de onde pode não retornar mais.

    Em O Retorno dos Mortos, parece que não existe mais potencial a ser explorado nesse universo ficcional, e os executivos da indústria de cinema deixam evidente a intenção em insistir na franquia para faturar com a marca já consagrada. Esse sétimo episódio é confuso, numa mistura exagerada de ilusão e realidade e os interesses maiores ficam resumidos quase que exclusivamente à presença maligna e sempre imponente de Pinhead, que ainda assim aparece pouco em cena (sua primeira aparição só acontece com vinte e cinco minutos de projeção), e pelas cenas sangrentas, que são uma característica da série e que aqui continuam, apesar de menor quantidade quando comparado aos filmes 2 e 3, por exemplo. Temos cabeça estourada à bala, corpo despedaçado por correntes, facadas e sangue espalhado para todos os lados. Fora isso, é apenas outro filme convencional em meio a tantos que são produzidos anualmente, do qual esperava-se mais por se tratar de um episódio de Hellraiser. E é justamente nesse ponto a falha maior do filme, pois ele originalmente não foi escrito para fazer parte da mitologia da série, sendo depois adaptado pelos roteiristas através de uma relação de parentesco entre o líder da seita Winter e o fabricante de brinquedos que construiu a misteriosa caixa que permite abrir as portas do inferno.

    Hellraiser (1987) é o primeiro filme de uma extensa franquia com mais oito episódios: Hellbound – Hellraiser II (88), de Tony Randel; Hellraiser III – Hell on Earth (92), de Anthony Hickox; Hellraiser IV – Bloodline (96), de Alan Smithee (Kevin Yagher) e Joe Chappelle (não creditado); Hellraiser V – Inferno (2000), de Scott Derrickson;  três com direção de Rick Bota, Hellraiser VI – Hellseeker (2002), Hellraiser VII – Deader e Hellraiser VIII – Hellworld (ambos de 2005) e Hellraiser: Revelations (2011), de Victor Garcia. Com exceção deste último, todos os demais filmes foram estrelados por Doug Bradley como o líder dos cenobitas Pinhead.

    Por todos os motivos mencionados acima, não precisa fugir deste filme apenas porque quase todo mundo já falou mal dele. Inferno pode não ser o clássico que o Hellraiser original indiscutivelmente é, mas se trata de uma produção que merece respeito principalmente por não ser um clone do que já havia sido feito antes. No entanto, o formato de Inferno também foi vítima de plágio através dos filmes seguintes da série. Mas isso, já é uma outra história.


    HELLWORLD - HELLRAISER (2005)

    Título Original: Hellraiser: Hellworld
    Ano: 2005 • País: EUA, ROMÊNIA
    Direção: Rick Bota
    Roteiro: Joel Soisson, Carl V. Dupré
    Produção: Ron Schmidt
    Elenco: Lance Henriksen, Katheryn Winnick, Christopher Jacot, Khary Payton, Henry Cavill, Victor McGuire, Doug Bradley, Stelian Urian, Catalina Alexandru

    O cinema de suspense e terror deveria ter um órgão semelhante ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o famoso Iphan, que cuida para que as construções antigas tombadas pela Unesco continuem preservadas. Como seria bom se um Instituto do Patrimônio das Produções de Suspense e Terror existisse e pudesse, por exemplo, impedir que sequências aleatórias fossem produzidas e acabassem por sujar o nome de uma película original de qualidade. Se pensarmos dessa forma, a série Hellraiser seria uma das primeiras a ter a maioria das sequências “interditadas”.

    Hellraiser: O Mundo do Inferno (Hellraiser: Hellworld, 2005) é a parte 8, a penúltima sequência da respeitada série iniciada em 1987. O filme original, Hellraiser: Renascido do Inferno (Hellraiser), foi um dos pilares do terror na década de 80 e, até hoje, uma referência para o gênero.
    A trama, dirigida pelo inglês Clive Barker e baseada na série de romances Livros de Sangue, conta a história de um cubo quebra-cabeças que, quando montado, abre as portas para o inferno e liberta os Cenobitas, criaturas que sentem prazer com o sofrimento humano. Infelizmente, com exceção de Hellraiser 2 (Hellbound: Hellraiser 2, 1988), as demais sequência não repetiram o êxito das primeiras partes.

    Como um elevador que desce para o inferno, o nível das sequências foi caindo gradativamente com cada filme que era lançado. E quando se pensava que já se tinha assistido ao pior da série, eis que chegava mais um capítulo nas locadoras. Isso mesmo, com o passar dos anos, os lançamentos, que eram feitos nos cinemas, passaram a acontecer direto no mercado de vídeo (posteriormente DVD), o que mostrava que, além da qualidade, a série também estava ficando sem público.

    Se o nosso fictício Instituto do Patrimônio das Produções de Suspense e Terror fosse fazer uma comparação entre a trama original e as sequências, talvez chegasse a conclusão de que o principal problema possa ser resumido em duas palavras: Dimension Films. A produtora de terror, que ficou famosa com Pânico (Scream, 1996), comprou os direitos da série depois da Parte 2 e lançou Hellraiser 3: Inferno na Terra (Hellraiser 3: Hell on Earth, 1992), que não é um filme ruim, mas é visivelmente inferior aos dois episódios anteriores.

    Coincidência ou não, foi depois que a Dimensions Films comprou os direitos da série que o formato original foi mexido. Antes tínhamos filmes com forte teor de violência, sangue, gore e tramas bem costuradas que geravam momentos de tensão e repulsa. Já a partir do Hellraiser 3, tivemos que nos contentar com enredos não tão bem construídos e uma violência apenas sugerida, o que provocava apenas alguns sustos e muito tédio.

    E se Clive Barker é um nome lembrado com carinho pelos fãs da série, o mesmo não deve acontecer com Rick Bota, diretor dos filmes 6, 7 e 8. Responsável pela direção de fotografia de algumas séries de TV, ele realmente não teve muita sorte na cadeira de diretor, tanto que, com exceção dos Hellraisers, dirigiu apenas um episódio da série de TV L.A. Doctor, em 1999, episódios de outras séries como Supernatural e Harper´s Island, além dos thrillers Love Me (2012) e Damaged (2014).

    O fã de verdade sempre tem uma esperança de que aquele filme tão aguardado seja bom, mesmo que os antecedentes afirmem o contrário. Por exemplo, mesmo sendo dirigido pelo mesmo Rick Bota e lançado direto no formato DVD, algumas pessoas devem ter criado expectativa quando leram o enredo do Hellraiser 8.

    Em O Mundo do Inferno, acompanhamos um grupo de jovens amigos que são fãs do universo Hellraiser e viciados em um jogo de computador chamado Hellworld. Tudo vai muito bem até que Adam (Stelian Urian, que por enquanto só fez este filme), acreditando que, através do jogo, estava dando a sua alma para os Cenobitas, comete suicídio. O pai de Adam, interpretado pelo canastrão Lance Henriksen (de Aliens Vs Predador, 2004) decide se vingar dos amigos do filho e organizar uma Festa Hellraiser, na qual os convidados incluirão Cenobitas de verdade.

    Achou o enredo acima interessante? Muita gente deve ter pensado o mesmo afinal o uso de metalinguagem no cinema costuma gerar resultados satisfatórios. Infelizmente O Mundo do Inferno nada mais é do que aquilo que já foi visto dos filmes fracos da série. A trama começa até de forma interessante, com toda a questão do universo Hellraiser sendo explorada pelos personagens, como quando um rapaz fala que comprou uma máscara do Cenobita Chatterer, aquele que sempre fica batendo os dentes, no Ebay.

    No entanto, o roteiro, assinado por Joel Soisson (de Dracula 2000), simplesmente não consegue prender a atenção do público e em pouco mais de 10 minutos, se perde o interesse em acompanhar o desenrolar do filme. A trama apenas vai mostrando o destino de cada um dos personagens, que vão morrendo de formas estranhas para os padrões Hellraiser. Quem se lembrar das carnificinas dos dois primeiros filmes vai sentir saudades dos grilhões do inferno que rasgavam as carnes alheias.

    O problema é tão grande que nem os Cenobitas conseguem salvar o filme. O próprio Pinhead (Doug Bradley), que costumava ser o Senhor do Inferno e apenas a voz deixava qualquer pessoa com medo, é extremamente mal aproveitado. Em uma das piores cenas de toda a série, o General do Inferno mata um dos personagens com uma simples faca. Ao final, o roteiro ainda tenta dar uma reviravolta para (tentar) explicar o que realmente aconteceu.

    Se formos procurar uma qualidade para Hellraiser 8, talvez a mais forte seja o fato do filme ter mostrado para os produtores que a série já estava esgotada. Mas no lucrativo mundo do cinema, no qual o dinheiro fala mais alto do que qualquer outro argumento, logo teremos um remake do filme original. A aparente boa notícia é que Clive Barker parece estar ligado ao projeto, uma vez que o nome dele está sendo creditado como produtor. Será um retorno aos bons tempos dos Cenobitas ou mais um filme que o Instituto do Patrimônio das Produções de Suspense e Terror deveria embargar?


    HELLRAISER - REVELAÇÕES (2011)

    Título Original: Hellraiser: Revelations
    Ano: 2011 • País: EUA
    Direção: Víctor García
    Roteiro: Gary J. Tunnicliffe
    Produção: Aaron Ockman, Joel Soisson
    Elenco: Tracey Fairaway, Fred Tatasciore, Steven Brand, Nick Eversman, Daniel Buran, Sanny van Heteren, Jay Gillespie, Jolene Andersen, Adel Marie Ruiz, Stephan Smith Collins, Sebastien Roberts, Devon Sorvari, Sue Ann Pien, Camelia Dee

    Se é muito ruim esse NONO?? filme da série Hellraiser? Bem, digamos que já fiz tratamentos de canal que foram muito mais divertidos. Consta que foi filmado e lançado às pressas apenas porque os direitos da franquia iriam expirar e a Dimension não queria perdê-los, o que já dá uma bela ideia do que esperar. Nem o ator Doug Bradley, que interpretou o vilão Pinhead nos oito episódios anteriores, quis segurar o rojão e pulou fora da barca furada, sendo substituído por um zé-mané qualquer.

    Hellraiser: Revelations (esqueça o subtítulo, pois não há revelação alguma) acompanha dois jovens babacas que vão para a fronteira com o México em busca de farra e prostitutas, mas desaparecem sem deixar rastros. Algum tempo depois, as famílias dos jovens se reúnem para um jantar e a irmã de um deles encontra uma certa caixinha amaldiçoada.

    O único mérito do filme é o de manter os efeitos de computação gráfica num nível mínimo: todas as cenas de mutilações são representadas com efeitos práticos, como deveria acontecer sempre no gênero. Infelizmente, as cenas sangrentas apresentadas aqui não passam de um repeteco de tudo que a franquia já mostrou antes e melhor, como ganchos arrancando pele ou abrindo gargantas, rostos arrancados e coisas do gênero. Aliás, o filme todo é um engodo, uma refilmagem disfarçada do Hellraiser original, incluindo o personagem que foge do inferno e precisa beber sangue para voltar à velha forma, forçando outro personagem a matar pessoas inocentes. Claro, sem fazer nenhuma justiça à obra de Clive Barker.

    E se você achava que a coisa não podia piorar depois da abordagem “slasher” do episódio anterior, Hellworld (até então o pior da série, agora superado por este), espere só até saber que boa parte da narrativa é composta por imagens gravadas em vídeo, estilo “found footage“! Some a isso péssimos personagens interpretados por péssimos atores e você terá uma atrocidade impossível de assistir sem usar o Fast Foward (embora tenha apenas 75 minutos).

    Se os Cenobitas de Clive Barker realmente existirem, eles já podem aposentar as facas e ganchos e usar Hellraiser: Revelations como tortura em sua antecâmara do inferno.


    Não dá para ser levada a sério mais....


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