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    terça-feira, 13 de janeiro de 2015

    JENNIFER LAWRENCE - ENTREVISTA


    "Oi, eu sou a Jen.” Jennifer Lawrence se apresenta com um aperto de mão leve e apressado, em uma suíte de um luxuoso hotel em Beverly Hills, Los Angeles – antes de começar a entrevista, ela pede licença para ir ao banheiro. Magra e bronzeada, calçando sandálias de salto alto, uma saia justa e uma camisa de cor clara e tecido leve, Jennifer não precisaria se apresentar, obviamente – é a jovem atriz de maior destaque nos últimos quatro anos, desde o trabalho surpreendente em Inverno da Alma (2010), que rendeu a ela, em 2011, a primeira de três indicações ao Oscar.

    Naquela tarde de agosto, dias antes de completar 24 anos, Jennifer parecia segura no posto de estrela amada por todos, sem rusgas em meio ao mar de egos de Hollywood ou histórias suculentas para os paparazzi. “Muita gente vem me dar os parabéns por conseguir ficar fora dos tabloides, mas a verdade é que eu não tenho nenhum controle sobre isso”, diz a atriz, oferecendo um copo d’água enquanto serve a si mesma de uma garrafa plástica.

    “Quando a fama acontece pela primeira vez, é horrível”, diz Jennifer Lawrence.

    Possivelmente nada poderia prepará-la para o que aconteceria algumas semanas depois, quando fotos íntimas dela (e de outras artistas, entre elas Kirsten Dunst, Mary Elizabeth Winstead e Kate Upton) vazaram na internet após uma invasão massiva de arquivos pessoais de celebridades por parte de hackers. O febril e volátil mundo virtual foi congelado por um momento: todos queriam ter acesso ao corpo de Jennifer Lawrence, à pele que não ficava à mostra sob os vestidos da alta-costura exibidos nos tapetes vermelhos. De namoradinha do mundo, Jennifer passou a ser ré – julgada culpada pela exposição involuntária.

    “Eu estava em um relacionamento saudável e amoroso por quatro anos. Era à distância, então ou seu namorado vai olhar para pornografia ou vai olhar para você”, ela afirmou um mês após o vazamento, em entrevista à revista norte-americana Vanity Fair. “Só porque eu sou uma figura pública, porque sou uma atriz, não quer dizer que eu pedi por isso. É o meu corpo, e a escolha deveria ser minha, e o fato de que a escolha não é minha é completamente nojento. Eu não consigo nem acreditar que vivemos em um mundo como este. As pessoas esquecem que nós somos humanos.”

    Jennifer Lawrence não pediu para ter o corpo nu exposto em telas grandes e pequenas ao redor do globo; na verdade, ela sequer pediu para ter uma carreira meteórica como a que teve. Não atuava quando criança; não sonhava desde pequena em ter o nome estampado em cartazes de cinema nem em servir de modelo a ser seguido em consultórios de cirurgia plástica. Nascida em Louisville (Kentucky), nos Estados Unidos, ela desenvolveu o humor descarado no convívio com os dois irmãos mais velhos. Foi só quando tinha 14 anos, de férias com a família em Nova York, que viu nascer a possibilidade de atuar. Foi abordada na rua por um agente e, algum tempo depois, se mudou para Los Angeles com os pais para investir na carreira. A certeza de que havia encontrado um norte para si veio quando leu um roteiro pela primeira vez. “Lembro-me de sentir: ‘É, é isso. Consigo entender isso’”, conta, gesticulando com as mãos. “Eu sempre tive problemas na escola, nunca me senti esperta como os outros – os outros entendiam o que queriam, e eu não. E, quando eu li aquele roteiro, senti que entendia.”

    Depois de passar por pequenos papéis e pela série de TV The Bill Engvall Show (2007-2009) Jennifer destruiu qualquer possibilidade de crítica com a atuação em Inverno da Alma. Em seguida veio o papel de Mística, em X-Men: Primeira Classe, mas não seria esse o blockbuster que faria dela um dos rostos mais reconhecíveis do último triênio. Na pele da heroína Katniss Everdeen, na franquia Jogos Vorazes, ela ocupou o vazio deixado por outras cinesséries jovens já finalizadas, como Harry Potter, por exemplo. Mas com um apelo ainda mais amplo – se Harry Potter cativava adultos que haviam lido os livros de J.K. Rowling quando mais novos, nos cinemas Jogos Vorazes abraça não só o fã da literatura da autora Suzanne Collins, que escreveu a saga, mas também um público adulto que nunca chegou perto – nem tem intenção – dos livros. O terceiro e penúltimo capítulo nos cinemas, Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1, estreia em 19 de novembro no Brasil.

    Vocês rodaram os dois últimos Jogos Vorazes ao mesmo tempo. Como foi voltar para casa depois de terminar as gravações?
    Minha cabeça ainda está no mesmo lugar, ainda não caiu a ficha. Não sei quando vai cair, talvez quando eu terminar de gravar meu próximo filme e eu voltar mesmo para casa. Eu não senti nada ainda... Não caiu a ficha, mesmo.



    Katniss acabou se tornando uma espécie de modelo – e, como consequência, você acabou se tornando um modelo também para as fãs da personagem. Costuma pensar sobre isso?
    É uma coisa sobre a qual eu tenho que pensar. Tendo eu buscado isso ou não, é a minha realidade – o que quer que seja fotografado, o que quer que eu diga, jovens garotas estarão ouvindo. É definitivamente uma responsabilidade que eu não... É uma responsabilidade da qual eu tenho que estar ciente.

    É por isso que você não tem redes sociais?
    Eu não tenho muito interesse em redes sociais, não gosto de ficar muito tempo no celular. Quero até me livrar do meu e-mail. Não consigo me imaginar escrevendo ali... é simplesmente algo de que não gosto. Não gosto nem de tirar fotos com as pessoas – sempre tenho que pedir desculpas, porque tem a coisa das redes sociais, e a gente não tem controle. Eu quero tirar a foto, ser simpática, é grosseiro dizer não, mas aí essa foto vai para a internet, daí para uma revista, daí as pessoas ficam sabendo onde eu estou, e de repente está fora de controle.

    Você quer mesmo apagar seu e-mail?
    Sim, quero me livrar de tudo.

    Você começou a gravar Jogos Vorazes com 20 anos e era difícil imaginar o tamanho da febre que a franquia se tornaria. Nestes quatro anos, houve algum momento em que pensou algo como “Acho que não vou conseguir lidar com essa loucura toda à minha volta”?
    Sim, eu tenho momentos desses o tempo todo. Muita gente vem me dar os parabéns por conseguir ficar fora dos tabloides, mas a verdade é que eu não tenho nenhum controle sobre isso. Eu tento ao máximo não ser fotografada, porque uma vez que os paparazzi conseguem uma foto, vai existir uma falsa manchete para que eles possam publicar a foto. Mas quando eles fazem de você um alvo, quando um filme está para sair, por exemplo... eles caçam você, te perseguem, é impossível controlar. Então, tem momentos em que a sensação é de que não dá para viver, tipo “não consigo mais fazer isso”. Mas, felizmente, passa. Vem em ondas: “Ok, está assim agora, mas vai passar”.

    Você se machucou nos primeiros filmes. Teve mais problemas físicos desta vez?
    Não, graças a Deus. Liam [Hemsworth] quebrou o tornozelo, então acho que o acidente dele valeu por todos nós [risos]

    O número de figuras heroicas masculinas é infinitamente maior que o de heroínas. Você acha que esse é um dos motivos do sucesso da Katniss?
    Acho que sim, acho que ela é um símbolo de poder para as mulheres, mas acho que ela tem essa simbologia para todas as pessoas, na verdade. Ela representa a força que pode estar presente em apenas uma voz. Mas acho ótimo que a Suzanne Collins tenha aceitado o risco de colocar uma protagonista feminina em uma história com tanta ação.

    Você provavelmente está cansada de ouvir que é uma das jovens atrizes mais pé no chão hoje em Hollywood.
    Ah, obrigada, não estou cansada de ouvir isso, não [risos].

    Mas imagino que ter um monte de gente te tratando o tempo todo como uma deusa tem o potencial de mexer com a sua cabeça. Você tem que se policiar nesse sentido?
    Não. Sou simplesmente eu. Tenho sempre as mesmas pessoas ao meu redor há anos. São meus mesmos amigos, nada mudou. Se eu fosse dizer algo do tipo “Meu Deus, não é um saco quando seu jatinho está atrasado?”, 1 milhão de pessoas viriam me questionar: “O que diabos você está falando?” Não preciso fazer um esforço [para manter os pés no chão], mas acho que é por causa das pessoas que eu tenho na minha vida.


    Você se lembra onde estava quando soube da morte do Philip Seymour Hoffman?
    Eu não quero falar sobre isso, desculpe.

    Jogos Vorazes não apenas tem uma mensagem política mas também fala muito da morte, da banalização da vida. Você tem medo da morte?
    Acho que todo mundo tem medo da morte, não? Eu gostaria de falar que não, gostaria de poder ser uma daquelas pessoas que dizem: “Ah, você só vive uma vez! Nunca se sabe o dia de amanhã! Blá-blá-blá”. Mas não, eu vou ao médico, tento ter cuidado. A morte é uma coisa assustadora, especialmente quando você pensa nas pessoas com quem você vive. Quando você perde pessoas de maneira inesperada... é a pior coisa que eu já senti. A morte deveria ser temida. Deveria ser respeitada pelo que é, essa porra dessa coisa poderosa.

    Você acha que atuar é a melhor coisa que faz na vida?
    Sim. Quero dizer, eu não me vejo como uma pessoa com muitos talentos. Sinto que tenho muita sorte de ter achado a minha paixão, aquela única coisa na qual eu poderia ser boa, e ganhar dinheiro com isso.

    Houve um momento decisivo em que você se deu conta de que atuar era o que queria ter como profissão?
    Quando eu li meu primeiro roteiro. Estava em Nova York, tinha acabado de ser descoberta e fiquei sabendo que umas agências queriam se encontrar comigo. Eu nunca tinha pensado em atuar, mas eles me deram um roteiro. Eu li e lembro-me de sentir: “É, é isso. Consigo entender isso”. Eu sempre tive problemas na escola, nunca me senti esperta como os outros – os outros entendiam o que queriam, e eu não. E, quando eu li aquele roteiro, senti que entendia.

    Li que você costumava mentir muito quando era criança.
    [Risos] É.

    Por quê?
    Não eram mentiras! Bom, eram mentiras, mas mentiras brancas, histórias. Eu tinha muitas histórias na minha cabeça, coisas que eu tinha que colocar pra fora. Pensava em diálogos engraçados, e pensava que esses diálogos fariam as pessoas rirem. Eu precisava expressar aquilo. Agora posso escrever ou colocar em um filme. Minha cabeça estava constantemente cheia de histórias. Só que eu me lembro de sempre ter medo de mentir. Ainda hoje, se eu conto uma mentirinha, ela vem junto com um monte de ansiedade e de culpa – porque mentir é terrível, não é nada atraente. Eu lembro que naquela época eu só queria fazer alguém rir, entreter aquela pessoa.

    Desde Inverno da Alma, você basicamente só teve filmes bem-sucedidos. Sabe lidar com a possibilidade do fracasso?
    Eu lidei com o fracasso por anos. Sempre vou lidar com o fracasso, ainda vou ter muitos fracassos. Felizmente eles ainda não foram lançados ou eu ainda nem os gravei. Mas isso faz parte do trabalho de todo mundo, você ganha, você perde.

    E um fracasso profissional te afetaria profundamente?
    Não, trabalho não é uma coisa pessoal. Se um filme que eu fizer for uma desgraça total, não vai arruinar sequer uma hora do meu dia. Eu simplesmente gosto de fazer filmes, de atuar. É maravilhoso quando as pessoas gostam, é maravilhoso quando a bilheteria vai bem – obviamente, ninguém quer um fiasco –, mas é apenas trabalho. Não deveria afetar a sua vida pessoal.

    Você tem emendado um filme no outro. Sente falta de férias?
    Eu tive algumas folgas, graças a Deus. Mas eu sempre sinto que tenho que voltar ao trabalho.

    Sério?
    Eu sei! Preciso parar, preciso achar alguma coisa para fazer que não seja trabalho.

    Você se definiria como uma workaholic?
    Sim, mas é que eu sou o tipo de pessoa que, quando acorda, precisa ter alguma coisa para fazer ou algum lugar para ir. Não é que nesse exato momento eu queria estar gravando um filme, mas preciso ter algo para fazer. Eu queria que existisse uma reabilitação para workaholics [risos]. Porque nunca vou ficar feliz em acordar e não ter nada para fazer no dia. Não me sinto bem.

    Em frente às câmeras, você sempre parece ser divertida. Se permite não estar de bom humor diante do público?
    Não me permito, não em frente às câmeras. Tenho pessoas à minha volta com quem posso ficar de mau humor.

    E não é difícil ter de estar sempre radiante?
    Todo mundo tem que fingir às vezes. É como quando você vai para o trabalho e alguém pergunta se está tudo bem, e você tem que responder que sim. Você simplesmente finge.

    Na sua primeira capa para a Rolling Stone EUA, em 2012, você não se sentia muito à vontade com a coisa da maquiagem, de se vestir para as premiações. Se sente confortável agora?
    Sim, mas acho que isso faz parte do processo de crescimento mesmo. Quando você é mais jovem, não quer ter que fazer as unhas ou usar saltos... e aí você fica mais velha e quer ter unhas bonitas, quer se vestir bem.
    Hoje eu me divirto mais com esse lado glamouroso.

    Você sofreu para lidar com a indústria de egos de Hollywood?
    Com os egos das outras pessoas ou com o meu?

    Das outras pessoas.
    Sofri, sim. A vida em Hollywood é isso, é se manobrar em meio aos egos e tentar “desmanipular” as manipulações [risos]. Mas acho que isso não acontece só aqui. É fácil as pessoas ficarem inseguras e na defensiva. Tirando o ego de lado, é só mais um trabalho. Tipo: “Essa tomada simplesmente não ficou boa. Faça de novo”. Sem ressentimentos.

    E com o seu ego?
    Eu não... Quero dizer, tenho certeza de que tenho um ego, todo mundo tem, mas o meu não tem a ver com atuação. Eu não tenho nenhum ego quando vou ser dirigida ou quando me dizem que algo não ficou bom, porque não sinto que aquilo é meu. Sinto que é algo que me deram – não sou nem um pouco coruja em relação a isso.

    Hollywood tem o poder de transformar franquias insossas em sucessos arrasadores, sejam elas inspiradas em livros ou não (sejam eles bons ou não): Transformers, Crepúsculo, Missão: Impossível e Velozes e Furiosos são apenas alguns dos exemplos em que o entretenimento vem na forma de um roteiro vazio e sem graça. Há de se fazer a ressalva: às vezes, o que se quer é apenas esquecer o resto do mundo diante de um balde de pipoca e uma sequência de diálogos descerebrados. Jogos Vorazes, apesar da base mais encorpada oferecida pelos livros de Suzanne Collins, poderia ter caído na mesma vala comum. Felizmente, não foi assim – e, se muito se deve à maneira como os diretores (Gary Ross no primeiro filme e Francis Lawrence nos demais) e roteiristas têm conduzido a história, outro tanto do sucesso é graças à forma contundente com que Jennifer Lawrence dá vida a Katniss Everdeen. A heroína que vive na miséria e acaba sendo escolhida como a face de uma revolução contra um governo opressor é altamente magnética. Destemida e carregada de sofrimento, Katniss é o avesso dos heróis musculosos e com superpoderes que inundam as telas. A dor – e o carisma – da Katniss dos livros são mastigados e regurgitados por Jennifer Lawrence de maneira a respingar diretamente nos olhos do telespectador. A Esperança – Parte 1 ainda é uma incógnita, mas Katniss é uma heroína real, por quem fica difícil não torcer.

    por BRUNA VELOSO

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