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    HALLOWEEN NO CINEMA


    E lá vamos nós com mais um listinha temática.



    EUA / 91 min / Direção: John Carpenter / Roteiro: John Carpenter, Debra Hill / Produção: Debra Hill, John Carpenter (não creditado), Kool Marder (Produtor Associado), Irwin Yabians (Produtor Executivo), Moustapha Akkad (Produtor Executivo – não creditado) / Elenco: Donald Pleasence, Jamie Lee Curtis, Tony Moran, Chalres Cyphers

    Alguns dos psicopatas assassinos mais célebres do cinema como Jason Voohrees, Freddy Krueger e Ghostface, têm muito que agradecer a Halloween – A Noite do Terror de John Carpenter. Pois sem Michael Myers para fazer escola, talvez nenhum desses outros vilões tivesse feito tanto sucesso. Fora que Halloween também é responsável por conceber as três regras básicas de sobrevivência dos filmes slasher: 1 – Não fume maconha; 2 – Não faça sexo; 3 – Nunca, absolutamente nunca, diga “eu já volto”.

    Halloween – A Noite do Terror foi um definidor de gêneros. A figura implacável de Michael Myers serviria como estereótipo para todos os outros que viessem depois e se tornou o responsável por colocar os filmes de terror de uma vez por todas no imaginário popular adolescente, quando as suas facas, cutelos, machados e afins, tornam-se instrumentos de uma pesada punição contra jovens estudantes que só querem se divertir, beber, usar drogas, acampar, trepar e dar festas. Por isso Myers é o irmão mais velho e sério dos serial-killers dos slasher movies que seriam produzidos a rodo na década seguinte, até levar o cinema de horror ao seu fatídico esgotamento criativo e quase falência.


    Carpenter é o pupilo mais dedicado de Alfred Hitchock. O voyeurismo, a crescente tensão acompanhada de uma minimalista trilha sonora (faixa tema inesquecível criada pelo próprio Carpenter e que se tornaria um clássico, que você consegue ouvir aqui), o assassino metódico que espreita nas esquinas. Tudo aqui é devidamente inspirado no mestre do suspense. Halloween é seu macabro tributo ao diretor inglês. Sem contar que Jamie Lee Curtis, em seu deu debute no cinema, é filha de Janet Leigh, a Marion Craine de Psicose. Os nomes de alguns personagens do filme também são abertamente inspirados em Hitchcok, como Tom Doyle de Janela Indiscreta e Sam Loomis de Psicose.
    A trama é bem simples: Michael Myers é um garoto psicopata de seis anos que mata sua irmã na noite de Halloween. Simples assim. Depois de 15 anos internado em um manicômio, Myers consegue escapar e volta para a sua cidade natal, a fictícia Haddonfield, típica pacata cidadezinha americana, para tocar o terror e perseguir os adolescentes também no dia 31 de outubro. Um ínterim: Uma coisa que nunca entendi nos filmes adolescentes americanos é porque eles sempre colocam atores com seus 20 anos para interpretar colegiais. Como é o caso de Jamie Lee Curtis nesse filme. 


    Nas sequências posteriores, acaba-se descobrindo que Laurie Strode, a personagem de Jamie Lee Curtis, perseguida pelo vilão, é na verdade sua irmã.  Outro  personagem principal é o Dr. Loomis interpretado por Pleasence), que ficou todo esse tempo estudando o assassino e parte em seu encalço quando ele foge, tentando impedir uma tragédia, já que como ele mesmo diz em determinado momento do filme para o oficial da lei: “A morte chegou em sua pequena cidade, Xerife”.

    A cena de abertura já é fantástica, com toda a sequência filmada pelo ponto de vista do garoto, através de uma máscara de palhaço, enquanto pratica sua execução. A grande inquietação do filme é que Carpenter desconstrói a premissa que o subúrbio em si e o interior de nossa própria casa, são lugares seguros. E Myers sempre aparece no limite do vídeo, como uma sombra nos arbustos, dirigindo um carro, escondido na escuridão, acompanhado por uma pesada respiração ofegante, passando a horripilante sensação de onipresença ao espectador, e mostrando a ele como suas vítimas são completamente indefesas.


    E no final em aberto do filme, quando descobre-se que Myers não é um simples humano, e sim uma força assassina incompreensível, reside a analogia entre o bem e o mal, sendo que o bem é personificado aqui pela virginal e pura Laurie, que enquanto suas amigas estão mais preocupadas com o baile de formatura e em transar com os namorados, ela mantém-se irredutivelmente casta, cuidando das crianças do bairro na noite em que todos querem se divertir. E qual sua recompensa, assim como a recompensa de todas as virgens e moralistas dos filmes de terror vindouros? A sobrevivência. Por isso, Jamie Lee Curtis ganhou o status de Scream Queen definitiva, graças ao papel de mocinha que viria a reprisar em diversas outras produções, como A Morte Convida Para Dançar, por exemplo.

    Algumas curiosidades: Halloween foi filmado em uma cidade da Califórnia durante pleno verão. Para passar a ideia de outono, já que a trama acontece no Dia das Bruxas, os produtores tiveram que pintar algumas folhas e espalhar pelas ruas e calçadas durante as gravações. A máscara sem expressão de Myers foi um improviso, encontrado em uma loja de fantasias pela produção do filme. Um dos filmes que Laurie e as crianças assistem é O Monstro do Ártico, que quatro anos depois, seria refilmado por Carpenter, e ganharia o título de O Enigma de Outro Mundo aqui no Brasil. Halloween – A Noite do Terror é um dos maiores sucessos comerciais do cinema independente de todos os tempos. Teve um orçamento irrisório de 320 mil dólares e faturou mais de 60 milhões nos cinemas ao redor do mundo.



    EUA / 92 min / Direção: Rick Rosenthal / Roteiro: John Carpenter, Debra Hill / Produção: John Carpenter, Debra Hill, Barry Bernardi (Produtor Associado), Joseph Wolf e Irwin Yablans (Produtores Executivos), Moustapha Akad e Dino De Laurenriis (Produtores Executivos – não creditados) / Elenco: Jamie Lee Curtis, Donald Pleasence, Charles Cyphers, Jeffrey Kramer, Lance Guest

    Sequências são sempre um problema na história do cinema. É sabido que pouquíssimas vezes uma “parte 2” consegue manter a qualidade do original. Halloween 2 – O Pesadelo Continua, é um desses felizes casos. E mais ainda, ele é importantíssimo para descobrirmos a verdadeira motivação da matança começada por Michael Myers no primeiro filme, e que continua nesse em escala muito maior.
    Produzido e escrito por John Carpenter, o que já dá uma baita chancela para a coisa realmente ficar boa, o filme começa exatamente onde Halloween – A Noite do Terror terminou, mesmo se passando três anos do lançamento do seu antecessor. Há até uma rápida repetição do final de Halloween para situar o espectador, com o Dr. Sam Loomis, novamente interpretado por Donald Pleasence, salvando a babá Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) alvejando Myers seis vezes até ele despencar da sacada, que mesmo assim, desaparece e consegue fugir.

    Laurie (detalhe é que Jamie estava de cabelo curto na época da filmagem, e teve que usar uma peruca tosca durante todo o filme) é levada para o hospital de Haddonfield para se recuperar do ataque do implacável assassino. Já Michael continua sua contagem de corpos pela cidadezinha outrora pacata, que está em polvorosa devido aos estarrecedores acontecimentos daquela noite de Dia das Bruxas. Sempre acompanhado de sua famosa música tema.


    Obcecado em ceifar a vida de Laurie, Michael parte para seu encalço no hospital que ela está internada, enquanto o Dr. Loomis e o xerife Leigh Brackett tentam encontrar alguma pista de onde o assassino possa estar escondido. Talvez a grande falha de Halloween 2 é exatamente a ambientação do hospital, onde apenas meia dúzia de pessoas estão trabalhando e o local parece quase que abandonado por completo, com corredores escuros e desertos. Sei que isso é para dar aquele clima assustador ao filme, mas espere aí, um hospital sempre é movimentado, mesmo durante a noite, seus corredores são iluminados e é cheio de enfermeiros de plantão. Não colou!

    Essa sequência é mais movimentada, violenta e com maior quantidade de mortes que o Halloween de John Carpenter. A atmosfera de suspense crescente, com Michael Myers sempre à espreita na penumbra, com sua respiração ofegante e máscara branca inexpressiva, continua bem conduzida pelo diretor Rick Rosenthal, muito bem guiado e instruído por Carpenter. Algumas mortes são bastante explícitas, como a clássica cena em que uma enfermeira gostosona nua tem seu rosto mergulhado várias vezes dentro da banheira de hidromassagem da sala de fisioterapia, com a temperatura no máximo, até ela começar a derreter e estourar bolhas de pústulas na face.


    Mas os principais acréscimos de Halloween 2 – O Pesadelo Continua para a franquia é a explicação do porque dessa obsessão de Michael por Laurie Strode, quando descobrimos que na verdade ela é sua irmã, sendo que apenas oficiais gabaritados do estado de Illinois tinham acesso a essa informação. Nem o próprio Dr. Loomis, que tratou de Myers por 15 anos, sabia disso. Além disso, começa a se jogar uma espécie de luz sobrenatural no assassino, dando algumas pistas de porquê atacar sempre na noite de Dia das Bruxas, ou Samhain em celta, festa pagã que celebra a véspera o Dia de Todos os Santos, onde sacrifícios eram praticados nessa noite pelos druidas para cultuar os mortos. E talvez esse seja um dos motivos de Myers ter adquirido uma força descomunal e uma espécie de invencibilidade, que seria marca registrada das fraquíssimas continuações que viriam por aí.

    Vemos aqui também uma evolução nítida na atuação de Jamie Lee Curtis, principalmente se compararmos ao próprio Halloween – A Noite do Terror ou mesmo A Morte Convida Para Dançar. E Myers, diferente do retardado violento Jason Voohrees e do afobado e fanfarrão Freddy Kruger, é um assassino com muita classe, garbo e elegância. Ele é esguio, taciturno, calmo, com uma frieza calculada, que espreita suas vítimas, com um sádico toque de voyeurismo, até atacá-la. Sem dúvida ele é o mais bacana e preza dos serial killers dos filmes slasher. Uma curiosidade é que quando Myers adentra uma das casas para pegar uma nova faca, na televisão está passando A Noite dos Mortos-Vivos de George Romero, uma bela homenagem de Carpenter.



    1982 / EUA / 98 min / Direção: Tommy Lee Wallace / Roteiro: Tommy Lee Wallace, John Carpenter e Nigel Kneale (não creditados) / Produção: John Carpenter e Debra Hill, Barry Bernardi (Produtor Associado), Joseph Wolf e Irwin Yablans (Produtor Executivo), Moustapha Akkad e Dino De Laurentiis (Produtor Executivo – não creditados) / Elenco: Tom Atkins, Stacey Nelkin, Dan O’Herlihy, Michael Currie, Ralph Strait, Jadeen Brabor, Brad Schacter

    Filme estranho que é Halloween III: A Noite das Bruxas. É meio que uma bobagem sem pé nem cabeça, que tem uma história das mais malucas do cinema de horror, não tem Michael Myers, e tem um poderosíssimo valor nostálgico para minha geração de trintões que assistiu ao filme diversas vezes nas reprises do SBT, e que nunca entendiam nada quando crianças.

    E aquela musiquinha? Talvez tão icônico quanto o toque minimalista criado por Carpenter como a música tema de Halloween – A Noite do Terror, seja aquele sintetizador eletrônico em loop chato pra burro com aquela voz de criancinhas esganiçadas cantando “Happy happy Halloween / Halloween, Halloween / Happy happy Halloween / Silver Shamrock”.

    O fato de Halloween III: A Noite das Bruxas ser da mesma equipe responsável por dar vida à Michael Myers, e não ter nenhum dos personagens consagrados nos dois filmes anteriores da série, criou uma tremenda rejeição dos fãs, que sentiram-se enganados pelo longa fazer parte da “franquia”, mesmo com uma história completamente diferente, e fez o mesmo fracassar na bilheteria e ser sumariamente renegado.


    Bem, eu mesmo só assisti três vezes na minha vida: a primeira quando era muito novo e passou no Cinema em Casa do SBT. Não entendi lhufas, mas adorava a musiquinha e as máscaras de Halloween. A segunda há um tempão, ainda bem novo, quando passou provavelmente em mais uma reprise do SBT. Em meu subconsciente lembrava que o filme era uma porcaria, mas não conseguia identificar o porquê. Fui vê-lo novamente agora, só depois de velho, para resenhar aqui para o blog. Confirmei minha conclusão que o filme é uma porcaria, mas não pelos mesmos motivos que todos. Na verdade, até seu final, eu estava impressionado e pensava: poxa, por que todo mundo, eu inclusive, metia o pau em Halloween III, se é um filme bom, climático, que foge do clichê?

    Pois bem, minha resposta veio exatamente na louca reviravolta que ele dá no terceiro ato, quando vira uma babaquice (alguém me explique como um comando feito pela TV por meio de um chip implantando em uma máscara de látex consegue fazer o rosto de uma criança se transformar em cobras peçonhentas e grilos?) e apesar do contexto sinistro do final, das crianças de todos os EUA usarem as máscaras e grudarem o rosto na tela da televisão durante a poderosíssima mensagem subliminar, aquela história de robôs, o herói jogando os buttons que vão causar curto-circuito em todos e ele ligando para as emissoras de TV para tiraram o comercial do ar, enterram todo o clima de suspense que o vinha sendo construído até então, e merece um daqueles: bah!


    Bom, de forma sapiente, mas que não se manteve no futuro próximo, John Carpenter e Debra Hill sabiam que não havia a menor credibilidade trazer Michael Myers de volta, já que ele havia morrido em Halloween 2 – O Pesadelo Continua e não queriam tornar a franquia mais um Sexta-Feira 13  colocando o assassino mascarado matando gente à rodo com toda sua criatividade maléfica. Surgiu a ideia de manter a franquia viva, com novas e diferentes histórias que se passassem durante o Dia das Bruxas. Os produtores dos dois longas anteriores, Irwin Yablans e Moustapha Akkad compraram a ideia e o filme começou a tomar forma, chamando Joe Dante para dirigir e Nigel Kneale (lembra deles, da série Quatermass da BBC e dos filmes da Hammer?) para escrever o roteiro.

    Primeiro, Dante pulou fora e o cargo ficou para Tommy Lee Wallance, que havia editado o primeiro Halloween e A Bruma Assassina para Carpenter, e deveria ter dirigido a continuação, mas estava encarregado do roteiro de Amityville 2 – A Possessão. Segundo, Kneale pulou fora por não gostar do tratamento do roteiro, que envolveria mais gore e mortes escabrosas. Apesar de 60% de a história ter sido escrita por ele, seu nome foi retirado dos créditos.

    Falando em história, ela é BEM bacana, de verdade. Começa com um sujeito fugindo de uns figurões sinistros que querem assassiná-lo, subentendendo-se que ele descobriu algum segredo terrível. Ele consegue escapar, mas é levado a um pronto-socorro, transtornado, segurando uma máscara de látex e gritando que “eles vão matar todos nós”. O médico de plantão, Dr. Dan Challis (Tom Atkins) fica intrigado com o estado mental alterado do paciente, e mais intrigado ainda, quando ele é assassinado por mais um desses figurões que adentra no hospital (aparentemente sem nenhuma segurança, como de praxe nos hospitais da série, vide Halloween 2).



    Dr. Challis e a filha do sujeito, que se descobre ser um comerciante de brinquedos e produtos de Halloween, e por consequência das máscaras da Silver Shamrock, a mesma que ele segurava e bombardeava a televisão com os comerciais da musiquinha cafona, Ellie Grimbridge (Stacey Nelkin), vão até Santa Mira, uma cidadezinha na Califórnia, investigar o que há por trás da nefasta empresa de produtos festivos, fantasias, máscaras e brinquedos.

    Aparentemente há uma conspiração silenciosa por lá, todo mundo age de forma estranha, há toque de recolher, as linhas de telefone ficam mudas, e todos são obedientes ao presidente da empresa, Conal Cochran (Dan O’Herlihy). Daí no fatídico último ato, Challis e Ellie descobrem a vilania por trás do megalomaníaco plano de Cochran, que é simplesmente matar todas as criancinhas dos EUA, usando uma elaborada trama tecnológica que ativaria um dispositivo que as mataria (transformando sua cabeça em cobras e lagartos, sei…), acionado pela propaganda chata. E aparentemente todas as crianças da América tem uma máscara Silver Shamrock, todas elas vão sintonizar a televisão às 21h do dia 31 de outubro e voilá. Cabe aos nossos heróis tentar impedir esse plano maléfico.

    Bom, que fique bem claro que meu problema com Halloween III: A Noite das Bruxas não é o considerar uma enganação, um engodo de marketing, que me senti lesado por usar o nome da franquia Halloween e não ter Michael Myers (apenas uma breve aparição na televisão, durante a propaganda da exibição do filme original) como aconteceu na época e tornou o filme um fracasso retumbante de bilheteria, motivo de ódio dos fãs xiitas, e resultou na “expulsão” de Carpenter e Hill da cinesérie, ressuscitando Myers anos depois e transformando-o em um vilão indestrutível.

    Eu acho louvável a ideia de ter deixado Myers enterrado e tentado dar um novo caminho para a franquia, tido a pachorra de projetar um infanticídio com um enredo completamente fora do clichê e que saía da zona de conforto dos slasher oitentistas que começavam a saturar exatamente por repetir à exaustão a própria fórmula que Carpenter criou, e inserir de mensagens subliminares sobre seitas pagãs e o corporativismo, capitalismo e ambição das grandes empresas multinacionais e a opressão.

    Meu problema é que o filme começa bem, intrigante, e depois vira uma bobagem. Bobagem com os robôs. Bobagem com o plano de vilão de filmes do James Bond. Bobagem da forma como eles são destruídos. Bobagem de como a cabeça da criança vira cobra e inseto com um raio que sai da televisão. Só isso. Mas é aquilo, Halloween III: A Noite das Bruxas poderia ser um filmaço, mas meio que se perde e transforma-se em caricato. É tosco. É trash. Eu levo por esse lado, e não, apenas em execrá-lo gratuitamente por se distanciar da saga de Michael Myers.
    Mais tarde, Sexta feira 13 - parte 5 recorreu ao mesmo erro...




    EUA / 88 min / Direção: Dwight H. Little / Roteiro: Alan B. McElroy; Dhani Lipsius, Larry Rattner, Benjamin Ruffner, Alan B. McElroy (história) / Produção: Paul Freeman; M.N. Sanousi (Produtor Associado); Moustapha Akkad (Produtor Executivo) / Elenco: Donald Pleasence, Ellie Cornell, Danielle Harris, George P. Wilbur, Michael Pataki, Beau Starr, Kathleen Kinmont

    O subtítulo do filme já resume perfeitamente qual a verdadeira intenção da quarta parte da franquia iniciada brilhantemente pro John Carpenter no seminal Halloween – A Noite do Terror, de 1978. Sabemos que depois de uma ótima sequência, Halloween 2 – O Pesadelo Continua, que se passa na mesma fatídica noite da celebração norte-americana, Carpenter resolveu seguir um caminho completamente diferente em seu filme seguinte, Halloween III: A Noite das Bruxas.

    Com a ideia desse novo direcionamento em enfocar outros enredos de terror inerentes a data, deixando de lado a figura de Michael Myers, Halloween III quase sepultou a série, tornando-se um verdadeiro fracasso de crítica e do público, ávido em ver o psicopata mascarado em ação novamente. Perto de comemorar dez anos de lançamento do primeiro longa, o produtor Moustapha Akkad não pestanejou em trazer o assassino de volta, trazer também sua nêmese, o psiquiatra Sam Loomis (mais uma vez brilhantemente interpretado por Donald Pleasence) e deu para Dwight H. Little a direção de uma quase cópia em carbono do original.


    Originalmente, a Cannon Pictures dos produtores Menahem Golan e Yoram Globus, contrataram a produtora Debra Hill e o diretor John Carpenter para escrever um roteiro e adquirir os direitos da franquia, assim como fizeram com O Massacre da Serra Elétrica 2. Acontece que eles não gostaram nada do tratamento entregue por Carpenter. A história seria mais um horror psicológico sobre os efeitos dos eventos dos dois primeiros filmes nos cidadãos de Haddonfield. Em detrimento dessa história, foi se cogitado um típico filme slasher, então Carpenter puto da vida desistiu do filme e os direitos acabaram sendo comprados por Akkad.

    Bom, já sabemos que tanto Myers quanto Loomis sobreviveram ao terrível incêndio no hospital de Haddonfield ao final da segunda parte, e passados dez anos, o psicopata está para ser transferido de sanatório (sem a anuência de Loomis), mas durante o trajeto, Myers que está terrivelmente deformado e viveu como vegetal durante todo esse tempo recobra consciência ao descobrir que tem uma sobrinha, arrebenta com os paramédicos e parte em direção a sua cidade natal. Ah, esqueci-me de mencionar que essa é a noite de 30 de outubro.

    Pois bem, a pequena Jamie (Danielle Harris) é filha de Laurie Strode, que morrera em um acidente de carro (uma vez que Jamie Lee Curtis não retornou ao papel – e repare no nome da menina, homenagem à eterna Scream Queen) e vive com uma família adotiva, atormentada por estranhos pesadelos com Michael Myers, que ela nunca vira mais gordo na verdade, a quem chama de bicho-papão.


    Ela será o alvo da psicose do titio, que a perseguirá implacavelmente por toda Haddonfield, enquanto Rachel Carruthers (Ellie Cornell), sua irmã adotiva, tentará salvá-la, auxiliada por Loomis e o xerife Ben Meeker (Beau Starr), que precisa impedir que a garota seja morta pelo lunático e também lidar com uma população em fúria da cidade, que resolve fazer justiça com as próprias mãos e caçar Myers, após o traumático massacre ocorrido há dez anos.

    Na verdade, enquanto o primeiro Halloween prezava mais pelo suspense, construindo todo um clima de terror psicológico preparando terreno para pouquíssimos assassinatos, aqui a ordem do dia é imitar o próprio gênero que o filme de Carpenter ajudou a construir, e levar para as telas uma matança exagerada sem sentido, com Myers dando cabo de qualquer um que se meta em sua frente, totalizando em 19 a contagem de cadáveres, com o maníaco abusando de sua extrema força física e utilizando vários instrumentos, de facas até empalando uma garota na parede com uma espingarda.

    Agora realmente a cereja do bolo é o final perturbador e impactante, superando todo e qualquer término dos demais filmes da série. Após Myers ser literalmente fuzilado pela força policial e soterrado dentro de um poço (o que sabemos, não impedirá sua volta na quinta parte), Jamie, completamente afetada pelos acontecimentos e com aquele famoso resquício de maldade dos Myers no sangue, emula o começo de tudo em Halloween – A Noite do Terror e tal qual seu tio, vestida de palhaça, coloca uma máscara e mata sua mãe adotiva, à tesouradas no banho.

    Halloween 4: O Retorno de Michael Myers (que foi o filme de estreia do Cine Trash, indo ao ar na segunda-feira, dia 05 de fevereiro de 1996) até que é decente e consegue se segurar bem em seus 88 minutos de duração. Além de uma revisita a série, presta uma bela homenagem ao original, apesar dos erros grotescos (inclusive de continuidade, com Michael usando uma máscara de cabelo preto e outra de cabelo loiro em diferentes cenas) e absurdos típicos dos slasher movies, como a imensa capacidade do vilão aparecer em todo lugar, andar irritantemente devagar e sempre alcançar suas vítimas, ser à prova de balas e conseguir subir em uma picape em alta velocidade e simplesmente acabar com três homens fortes armados na carroceria.




    1989 / EUA / 96 min / Direção: Dominique Othenin-Girard / Roteiro: Michael Jacobs, Dominique Othenin-Girard, Shem Bitterman / Produção: Ramsey Thomas; Moustapha Akad (Produtor Executivo) / Elenco: Donald Pleasence, Danielle Harris, Ellie Cornell, Beau Starr, Jeffrey Landman, Tamara Glynn, Don Shanks

    Tudo bem, nada se compara as recentes atrocidades que Rob Zombie cometeu, mas esse Halloween 5 – A Vingança de Michael Myers é de uma mediocridade sem tamanho. É o tipo de filme que você assiste, dá cinco minutos que ele termina e aí você nem consegue mais lembrar direito do que acabou de acontecer, tamanha sua insignificância.

    E pensar que eles tinham a faca, a máscara inexpressiva e o queijo na mão para balançar o status quo da série slasher neste quinto filme da franquia, por conta do ótimo final de Halloween 4: O Retorno de Michael Myers. Foi mais ou menos a expectativa criada ao término do igualmente sofrível Sexta-Feira 13 – Parte 5 – Um Novo Começo, quando aquele desfecho nos fazia crer que Tommy Jarvis herdaria a máscara de hóquei de Jason Voorhees e se tornaria o maníaco dos próximos filmes.

    Aqui no caso, a pequena Jamie Lloyd (Danielle Harris), sobrinha do titio Michael Myers, tenta assassinar sua madrasta em um arroubo igual ao do pequeno serial killer no começo da obra seminal de John Carpenter. Até o eterno Sam Loomis (Donald Pleasence) fica transtornado e tenta matar a garotinha, sabendo que o mal havia passada de geração (ainda mais com o suposto Myers fuzilado e enterrado no poço). Originalmente, o roteiro escrito por Shem Bitterman trazia essa ousadia à história, colocando Jamie como a assassina desta sequência. Mas, eis que o famigerado produtor Moustapha Akad, até vacinado pela avalanche de críticas que a franquia rival recebeu e tratou de trazer Jason de volta em Sexta-Feira 13 – Parte 6 – Jason Vive, vetou o roteiro e arrumou um jeito de Michael Myers continuar sendo o vilão da vez em mais uma continuação, o que resultou em um filme pífio e execrável.


    Jamie está recebendo tratamento em uma instituição psiquiátrica após os acontecidos do final do longa anterior, sempre supervisionada por Loomis, que nessa altura do campeonato não faz mais nada na vida além de ficar praguejando, esperando a volta indefectível de Myers e tentar de uma vez por outra dar cabo da criatura maligna indestrutível. Enquanto isso, o psicopata consegue mais uma vez escapar da saraivada de tiros e da queda do poço, cavando um buraco para fora, indo parar numa cabana de um pescador que resolve cuidar do sujeito (e assim, nunca sequer pensa em avisar a polícia e tudo mais). Depois de um ano, afinal, ele só ataca no Dia das Bruxas, finalmente sai do seu esconderijo (vai saber o que ele e o pescador ficaram fazendo por lá durante todo esse tempo) à caça de Jamie.

    Depois disso é sempre mais do mesmo e Myers começa a fazer suas vítimas, usando facas, garfo de feno, tesoura, foice, e até um carro (lembra que ele aprendeu a dirigir misteriosamente no sanatório lá no primeiro filme né?) em busca da sobrinha, que agora possui uma espécie de elo telepático com o tio, que será usado por Loomis para encontrar sua nêmese e a batalha final se desenrolar em sua antiga casa em Haddonfield. Rola até um vislumbre do rosto de Michael em uma cena com a sobrinha.

    Talvez o único ponto positivo do longa, é que antes dos primeiros 20 minutos, Rachel, a irmã adotiva de Jamie, heroína do filme anterior, vivida novamente por Ellie Cornell, é assassinada, dando um interessante ponto de ruptura do modelo convencional. Originalmente ela deveria ter sua garganta cortada por uma tesoura, mas por protestos da atriz, foi “só” apunhalada mesmo. Isso contra ainda a vontade do conservador Akad, que se arrependeu e gostaria que ela continuasse viva. Mas aí nem teria pelo menos isso para prestar.

    Também no roteiro escrito por Bitterman, antes da revisão de Michael Jacobs e do também diretor Dominique Othenin-Girard, começaria a ser construída aquela explicação toda mística sobre runas e druidas que estaria presente na sexta parte. Repare, por exemplo, no surgimento repentino de uma tatuagem no pulso de Michael, e inclusive o tal pescador que virou babá de Myers naquele ano todo, usaria certos encantamentos para trazê-lo de volta a vida. Por conta dessa mudança brusca de roteiro, as filmagens se iniciaram sem um texto final, muitas cenas foram improvisadas, editadas, reescritas no andar da carruagem e isso contribuiu demais para a falta de nexo, objetividade e continuidade do longa.

    Vale salientar também que Halloween 5 serviu apenas como um subterfúgio para preparar terreno para a próxima vergonhosa sequência, principalmente com seu tosquíssimo final em aberto. No decorrer do filme vemos um sujeito batizado de “homem de preto”, vestido de capote e chapéu, que aparece algumas vezes, até ser encaixado em uma cena chave (e deprimente) em seu final, aparecendo na delegacia em que Myers está preso e simplesmente fuzilando todo mundo lá dentro, em uma cena off screem. Jamie, a sobrevivente mais uma vez, entra sozinha na delegacia, vê todos os policiais mortos, Myers sumiu da cela e fade out. O filme termina com você querendo jogar o sapato na televisão. E o pior é que a sexta parte seria lançada somente seis longos anos depois.

    Burocrático, frouxo, remendado, desinteressante, sem razão de assistir. Halloween 5 – A Vingança de Michael Myers só não é o pior filme da franquia (mas trabalhou arduamente para tal) porque tem outra continuação ainda pior, as sequências de Halloween H20 que são verdadeiras aberrações nos anos 2000 e claro, as indecências de Zombie.



    Título Original: Halloween H20: Twenty Years Later . País de Origem: EUA. Ano: 1998. Duração: 85min. Diretor: Steve Miner. Elenco: Jamie Lee Curtis, Adam Arkin, Josh Hartnett, Michelle Williams e outros.

    Quando Halloween, a Noite do Terror, de John Carpenter, foi lançado em 1.978, Hollywood descobriu um novo filão, que rende lucros até hoje: filmes de terror com histórias simples, muito sangue, garotas seminuas e sustos. Halloween: 20 anos depois traz a continuação da série trash de terror. A ex-babá Laurie Strooder (Jamie Lee Curtis) continua desesperada para fugir do psicopata que quer terminar a chacina que começou há duas décadas atrás. Michael Myers, o serial killer que usa uma máscara mal-feita - "pai" de Jason e Freddy Kruegger - consegue encontrar pistas deixadas pela babá. O assassino descobre que a diretora de um colégio particular na Califórnia, Keri Tate, é a vítima que faltou. Além de se preocupar com o orientador da escola em que trabalha, o seu melhor amigo na cidade, Keri (ou Laura) deve defender a vida de seu filho de 17 anos, que estuda no colégio. A idéia de reencontrar Michael Myers foi da própria Jamie Lee Curtis. O roteiro de Halloween: 20 anos depois é de Kevin Williamson, roteirista de Pânico e produtor Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, grandes sucessos da nova safra de filmes de terror.


    Título Original: Halloween: Resurrection . Ano: 2002 • País: EUA .Direção: Rick Rosenthal .Roteiro: Larry Brand, Sean Hood. Produção: Paul Freeman, Michael Leahy, Malek Akkad, Moustapha Akkad Elenco: Jamie Lee Curtis, Brad Loree, Busta Rhymes, Bianca Kajlich, Sean Patrick Thomas, Daisy McCrackin, Katee Sackhoff, Luke Kirby, Thomas Ian Nicholas, Ryan Merriman, Tyra Banks, Billy Kay, Gus Lynch, Brad Sihvon, Dan Joffre, Gary J. Tunnicliffe

    Depois de ter sua estreia adiada nos cinemas brasileiros inúmeras vezes, finalmente em 18/07/03 entrou em cartaz a esperada oitava parte da famosa franquia Halloween, trazendo de volta um dos monstros sagrados do cinema de horror moderno, o assassino psicopata mascarado Michael Myers, com sua tradicional faca manchada de sangue e sua característica respiração ofegante e inconfundível. Com estreia nos Estados Unidos em 12/07/02, Halloween: Ressurreição (Halloween: Resurrection) demorou mais que um ano inteiro para chegar ao Brasil, numa atitude completamente equivocada dos responsáveis pela distribuição dos filmes em nosso país, demonstrando um descaso com os fãs do gênero, e mais especificamente em relação aos apreciadores da franquia, tendo como consequência um inevitável desgaste causado por tanta espera. Pelo menos, acertaram na escolha do título nacional, optando pela simples tarefa de traduzir literalmente o nome original, fato que infelizmente não acontece na maioria dos casos e muitos outros filmes são nomeados de forma insatisfatória.

    O clássico Halloween – A Noite do Terror (Halloween, 1978), dirigido por John Carpenter, estrelado pelo veterano Donald Pleasence e introduzindo uma das mais famosas musas do horror, a scream queen Jamie Lee Curtis, é um filme precursor de toda uma safra de produções com assassinos mascarados, e geralmente aparece como destaque nas listas de fãs e especialistas como um dos dez mais importantes filmes de horror de todos os tempos. Porém, uma enxurrada de continuações descartáveis (com exceção da parte 2, de 1981) desgastou a franquia brutalmente (acho que nem o próprio Michael Myers faria melhor com suas vítimas), e os filmes posteriores apresentaram um desfile exagerado de clichês e situações largamente exploradas, com roteiros desenvolvidos com pouca criatividade, numa tentativa dos produtores em apenas obter lucros explorando a imagem de um mito do horror moderno como o psicopata Michael Myers, deixando de lado a qualidade de uma história melhor. Este fato também tem ocorrido com seus dois rivais mais próximos, Jason Voorhees (Sexta-Feira 13) e Freddy Krueger (A Hora do Pesadelo), onde juntando-se todos eles com suas respectivas franquias imortais obtemos como resultado quase três dezenas de filmes, mas menos da metade deles se destacando realmente. Isso sem contar uma nova moda que está se criando com a produção do crossover entre Freddy Vs Jason, e que poderá ser o início de uma infinidade de filmes com cruzamentos de personagens independentes.


    A história de Halloween: Ressurreição começa com Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) internada num sanatório. Ela é a irmã do psicopata Michael Myers (Brad Loree) e ficou atormentada após uma série de confrontos com o assassino e por sentir-se culpada por um erro fatal. Uma vez pensando que havia conseguido finalmente matar seu irmão assassino (conforme sugestão do filme anterior da franquia), ela descobriu que estava enganada e outra pessoa inocente acabou tornando-se vítima de sua fúria vingativa. Laurie está agora apenas esperando por um novo e inevitável confronto com o serial killer, evento que se confirma num definitivo encontro mortal entre eles numa interessante sequência passada no telhado do hospital psiquiátrico.

    Paralelamente, na pacata e pequena cidade natal do psicopata, Haddonfield, Illinois, um grupo de seis jovens é selecionado para participar de um programa transmitido ao vivo pela internet com o sugestivo nome de Dangertainment (traduzido como A Casa do Pânico). Seu criador é um empresário oportunista, Freddie Harris (Busta Rhymes), que auxiliado pela assistente Nora Winston (Tyra Banks), espera alta lucratividade com um reality show que consiste em um grupo de jovens passando uma noite na casa onde o famoso assassino Michael Myers viveu a infância, coincidindo com a chegada do tradicional Dia das Bruxas (o famoso Halloween). O grupo arquetípico é formado por uma discreta psicóloga chamada Sara Moyer (Bianca Kajlich), pela ambiciosa Jenna Danzig (Katee Sackhoff), que quer exclusivamente a fama, pelo estudante de culinária Rudy Grimes (Sean Patrick Thomas), autor de várias piadas idiotas, por um desinteressado estudante de direito, Bill Woodlake (Thomas Ian Nicholas), pelo músico rebelde Jim Morgan (Luke Kirby), e pela bela Donna Chang (Daisy McCrackin), que se esforça em dizer frases inteligentes.

    Com as câmeras ligadas para uma transmissão pela internet, o grupo passa a conhecer em detalhes a antiga moradia do perigoso assassino, e como inevitavelmente o mal nunca morre e encontra seu caminho de casa, Michael Myers está de volta e pronto para limpá-la, ressurgindo do limbo para continuar seu legado de sangue e horror, aumentando o índice de mortandade da região, e para principalmente poder manter a extensa franquia em atividade.

    Antes de se analisar o filme propriamente, é interessante levantar uma questão que tem se tornado comum entre os fãs do cinema de horror. Apesar do histórico não ser muito positivo, percebe-se que existe uma espécie de convenção onde qualquer novo filme das séries Sexta-Feira 13 ou Halloween, ou outras produções similares, tem sempre recebido um bombardeio de críticas desfavoráveis que já estão se transformando num clichê repetitivo. Existe uma infinidade de tipos de filmes de horror, com diversas propostas e temáticas diferenciadas, e todos eles tem sempre seus elementos bons e ruins. E é fato conhecido por todos que somente poucos conseguem superar a marca de acertos de forma unânime, sendo que esses filmes geralmente passam a frequentar as listas pessoais dos melhores de todos os tempos. Então uma sugestão é procurar sempre enfatizar os momentos favoráveis em determinado filme e principalmente tentar se divertir com o que está sendo apresentado, de forma simples e tranquila, não se aborrecendo nos casos em que não ficar satisfeito com o resultado final.

    Halloween: Ressurreição também tem seus pontos altos e baixos. O filme inicia procurando de forma correta explicar a cronologia de eventos para quem não conhece mais detalhadamente o universo ficcional da franquia, ou para aqueles que não se lembravam com clareza dos acontecimentos anteriores. E ficou esclarecido que somente o clássico original de 1978 com sua sequência imediata de 1981, além da parte 7 (Halloween H20 – Vinte Anos Depois, 1998), foram considerados na história, descartando os demais filmes da série. O filme é curto, não perdendo tempo com situações desnecessárias e rapidamente o espectador é convidado a testemunhar o horror real de um grupo de jovens que está passando uma noite na antiga casa de Michael Myers, sendo atacado pelo próprio, que vivia no porão durante os últimos anos e ressurge para expulsar os invasores de seu refúgio. Para quem aprecia violência e sangue, tem boas cenas de mortes com os jovens sentindo a força descomunal do assassino e o poder de sua lâmina cortante rasgando seus corpos. E há a interessante ambientação de uma casa abandonada e de fama maldita, com seus vários cômodos corroídos pelo ação devastadora do tempo.

    Por outro lado lado, percebe-se também que estão presentes os indesejáveis sustos fáceis, as piadas idiotas, os enormes furos de roteiro, as situações inverossímeis (a polícia entra em ação apenas após o massacre, por exemplo), e as dispensáveis cenas de sexo e drogas, que, apesar de discretas, nota-se que foram inseridas como se fosse uma obrigação em todo filme de horror adolescente. Assim como o desfecho óbvio, previsível, e principalmente insatisfatório. O personagem interpretado pelo rapper Busta Rhymes é ridículo e quase insuportável, sendo um ganancioso criador do reality show macabro e responsável por uma série de frases banais de tentativas de humor, obrigando-nos a torcer para o Michael Myers verificar a qualidade da afiação de sua faca na carne do infeliz.

    Enfim, se a ideia era continuar a saga do psicopata Michael Myers no cinema, Halloween: Ressurreição perpetua seu legado de forma aceitável sem exigência, apesar das várias deficiências, sendo um filme apenas mediano e que pode garantir alguns momentos de diversão sem compromisso, deixando claramente uma ponta solta para uma nova sequência da franquia.

    O diretor americano Rick Rosenthal nasceu em 1949 em New York, e sua estreia no cinema foi justamente com a melhor sequência da série, Halloween II (1981), tendo em seu currículo participações importantes em várias séries de TV como Quarto Escuro (1981/82), Edição de Amanhã (1996/2000), Buffy, a Caça Vampiros (1997/2003) e Smallville (2001). Curiosamente, o diretor apareceu rapidamente em Halloween: Ressurreição como o Dr. Mixter, um professor de psicologia da Universidade de Haddonfield, num rápido trecho de uma aula onde o maior desafio dos alunos é permanecer acordado.

    Os roteiristas Larry Brand e Sean Hood são desconhecidos no ofício, com poucos trabalhos ainda notáveis. Larry Brand tem como principal atração em seu pequeno currículo a direção e o roteiro do filme Máscara Mortal (1989), baseado em conto de Edgar Allan Poe. Já Sean Hood nasceu em 1966 em Milwaukee, Wisconsin, e escreveu o roteiro de Cubo 2: Hipercubo (2002), e se envolveu no projeto de mais um filme da franquia O Corvo, que foi inspirada nos quadrinhos.

    Inicialmente o filme iria se chamar Halloween: The Homecoming, e depois foi alterado pelos produtores para o atual Resurrection, alegando que este último teria um impacto maior de marketing, intensificando a ideia do ressurgimento do psicopata Michael Myers, que aparentemente havia sido degolado no filme anterior. Os atores utilizaram uma pequena câmera digital fixada em suas cabeças fazendo com que seus movimentos pudessem captar imagens das impressões pessoais sobre o ambiente da casa de Michael Myers com todas as ações e eventos em torno da atmosfera sombria do lugar, criando uma certa interação especial com o espectador e lembrando em alguns momentos o clima de claustrofobia explorado anteriormente no filme A Bruxa de Blair (1999), com imagens tremidas e escuras.

    Com o surgimento e popularização da internet, a rede mundial de computadores, vários filmes de horror procuraram explorar essa mídia em seus argumentos, com resultados apenas medianos. Alguns exemplos recentes foram, além de Halloween: Ressurreição, os thrillers O Olho Que Tudo Vê (My Little Eye) e Medo.com.br (Feardotcom), ambos produzidos em 2002.


    Título Original: Halloween .Ano: 2007 • País: EUA .Direção: Rob Zombie. Roteiro: Rob Zombie, John Carpenter, Debra Hill. Produção: Malek Akkad, Andy Gould, Rob Zombie. Elenco: Scout Taylor-Compton, Malcolm McDowell, Tyler Mane, Daeg Faerch, Sheri Moon Zombie, William Forsythe, Danielle Harris, Kristina Klebe, Skyler Gisondo, Danny Trejo, Hanna Hall, Bill Moseley, Leslie Easterbrook, Brad Dourif, Clint Howard, Udo Kier

    No final de 2007, coloquei minhas mãos na workprint do remake de Halloween, escrito e dirigido por Rob Zombie, que “misteriosamente” havia vazado na internet. Assisti com muita curiosidade e expectativa. E a primeira coisa que passou pela minha cabeça quando subiram os créditos finais não foi “Que perda de tempo!”, nem “Zombie conseguiu destruir um clássico do horror”. A primeira coisa que passou pela minha cabeça foi: “Quero ver como é que os fãs de Rob Zombie vão defender esta bosta”. Dito e feito: descontando os adoradores realmente xiitas (e cegos) do roqueiro que se acha cineasta, a maioria dos críticos e pseudo críticos que antes defendia com unhas e dentes os filmes de Rob tiveram que dar a mão à palmatória e assumir a ruindade do novo Halloween. Pelo menos desta vez eu não era o único falando mal e remando contra uma maré de defensores raivosos, como acontecera na época de A Casa dos Mil Corpos e Rejeitados pelo Diabo, os filmes anteriores do “cineasta“.
    Nesta nova versão de Halloween ele faz tudo o que disse abominar em remakes. Não é capaz de criar nada fora do seu habitual (você sabe, caipiras violentos, mulheres desbocadas, etc.), e não sabe decidir o que é melhor para seu próprio filme”. 

    O novo Halloween tem muitos erros, mas vamos começar com o principal: ninguém merece que um diretor incompetente e sem ideias próprias tente explicar o inexplicável. Neste caso, durante o primeiro ato das duas horas (!!!) do filme, num total de 50 minutos, Rob Zombie dedica seu tempo a contar a “origem” de Michael Myers, ou o que, na sua opinião, transformou um garotinho bonitinho em psicopata furioso. Ora, mas tudo o que ele conta nestes 50 insuportáveis minutos John Carpenter havia contado em apenas cinco minutos (!!!) no original de 1978, o que torna todo o primeiro ato do remake redundante, repetitivo e sem sentido. Além do mais, como bem sabe o espectador moderno, tentativas de “explicar” a origem de mitos do horror raramente prestam (ou alguém realmente gostou de Hannibal – A Origem do Mal e de O Massacre da Serra Elétrica – O Início?).


    Neste remake, no momento em que Zombie começa a mostrar que Michael Myers não teve uma infância tão tranquila e “normal” quanto tivera no original, está automaticamente destruindo um mito do cinema de horror. É o fim do Michael Myers de John Carpenter, que era uma criança de família normal e começava a matar sem motivo. Para a Laurie Strode de 1978, Michael era o “Bicho Papão” (boogeyman, no original). Para seu psiquiatra na versão original, o dr. Sam Loomis (interpretado de maneira magistral por Donald Pleasence), ele era o “Mal Absoluto” (pure evil, no original). Não precisava de maiores explicações. Não é suficientemente assustador o fato de um psicopata indestrutível não ter motivos e nem uma origem para a sua maldade?

    Bem, para o gênio Rob Zombie isso não serve. Afinal, o Michael Myers de Zombie, já nos seus 10 anos de idade (e interpretado por Daeg Faerch), não passa de um delinquente juvenil em formação, fascinado por máscaras (porque não gosta do seu rosto), com longos cabelos desgrenhados e pose de criança rebelde (não falta nem a camiseta do Kiss). Sua família também está bem longe de ser normal e mais longe ainda de ser amável: a mãe, Deborah (Sheri Moon Zombie, esposa do diretor, que devia ficar em casa lavando as cuecas de Rob, pois não sabe atuar) é uma stripper; seu padrasto, Ronnie White (o eterno malvado William Forsythe), é um vagabundo alcoólatra e violento, e sua irmã, Judith (Hanna Hall), é a vaca do colégio, alguém que, nas palavras dos personagens secundários do filme, “chupou tantos paus que precisou fazer lavagem estomacal para retirar todo o esperma”. A única mais normal na família Myers é a irmãzinha Boo, que ainda é bebê.


    Para piorar, o pequeno Michael deste remake já mostra tendências homicidas desde a primeira cena, quando é revelado que um de seus passatempos é torturar e matar ratinhos, gatos e cães. Resumindo: criança que gosta de machucar animais cresce e vira serial killer. Porra, será que dá para ser mais clichê, Rob? Como é que o “Mal Absoluto” do filme de Carpenter foi se transformar num simples e grosseiro marginal mirim? Supostamente deveríamos ter medo de um vilão deste nível? Se era a proposta, não funcionou. Até porque temos alguns delinquentes juvenis bem piores que ele em nossas Febens!!!

    Após nos introduzir a “família” do pequeno Michael, mostrando didaticamente o inferno que é viver na casa dos Myers para justificar a transformação da “criança inocente” em “monstro”, o remake passa diretamente ao início da carreira de crimes do psicopata: na escola, um garoto valentão faz piada do fato da mãe de Michael ser uma stripper, e com isso ganha a honra de ser a primeira vítima do delinquente. Acaba morto a pauladas num bosque, numa cena grotesca e violenta. Não satisfeito em destruir a mitologia do filme original, Zombie ainda tenta fazer o espectador torcer por Michael ao mostrar o valentão como um personagem desprezível, como se ele merecesse morrer e como se o pequeno Michael estivesse fazendo a coisa certa!

    Finalmente, chega aquela fatídica noite de Halloween. A mãe Deborah vai fazer sua dança brochante no cabaré e Michael fica em casa com o resto da “família”. Ronnie adormece bebum no sofá enquanto assiste The Thing from another World (que também era exibido na TV no filme original), e Judith, que deveria sair com Michael para fazer a brincadeira do “trick or treat” típica dos norte-americanos, prefere ficar em casa transando com seu namoradinho Steve (Adam Weisman, de Terror no Pântano).
    É este momento que marca, de maneira pouco convincente, a transformação de Michael em monstro: numa montagem grotesca, toca a música mela-cueca “Love Hurts”, do Nazareth , e vemos cenas do garoto cabisbaixo, “abandonado” pelo mundo, enquanto sua mãe dança no clube de strip-tease. Na cena seguinte, num passe de mágica, Michael dedica-se a exterminar todos os que estão na casa (Ronnie, Steve e finalmente Judith), usando uma máscara de palhaço, como no original, antes de roubar de Steve a sua tradicional máscara branca, que é a marca registrada do personagem.


    O mais irônico desta cena é que, quando Michael finalmente mata Judith, seguindo os passos do original, o espectador já está saturado e já entendeu a mensagem. Sim, Michael Myers é malvado e é um assassino. Ele já havia matado brutalmente três pessoas antes de chegar à irmã, o que elimina todo choque e surpresa do único assassinato inesperado do original. Zombie, claro, está mais preocupado com a violência e com a contagem de cadáveres. Tanto que Steve, como acontecera com o valentão do começo, é morto a pauladas (no caso, de taco de beisebol), e o padrasto tem sua garganta cortada enquanto está amarrado à poltrona, sangrando lentamente como se fosse um animal abatido no matadouro.

    Perpetrado o massacre, Mamãe Myers volta para casa e encontra Michael com Boo no colo e toda a família exterminada. A polícia aparece para controlar a situação, e pelos próximos minutos Zombie dedica-se a apresentar o que Carpenter não achou necessário mostrar no clássico: como foram os longos anos do pequeno assassino confinado no sanatório de Smith’s Grove, onde ele foi internado após seus crimes.

    Esta é, disparado, a melhor parte do remake, e talvez a única que preste. É quando acompanhamos a relação do garoto assassino com o dr. Samuel Loomis (agora interpretado pelo excelente Malcolm McDowell). Loomis é representado como um psiquiatra realmente interessado em tentar entender a perturbada mente de Michael, e também dedicado a ajudar o garoto. No original, como todo mundo deve (ou deveria) saber, o dr. Loomis de Pleasence era um homem amargurado, que passou longos anos tentando ajudar Myers até desistir e resignar-se com a hipótese de que ele era um psicopata irrecuperável e que deveria morrer atrás das grades, sem jamais voltar à liberdade. O remake nos mostra, detalhadamente, como foi esta relação entre os dois e o que levou Loomis a perder a fé no seu paciente, por isso destaco estes momentos como o ponto alto da nova versão – e o único momento em que Zombie demonstra ter algumas boas ideias relacionadas com o filme original.


    No sanatório, Michael recebe visitas da mãe, quando volta a ser um “garotinho inocente“. Entrevistado por Loomis, garante não lembrar da noite dos crimes – e o espectador fica na dúvida se ele é um simples marginal mentiroso ou realmente foi movido por impulsos maléficos e/ou sobrenaturais. Sua rotina é triste e solitária, até que ele conhece um enfermeiro chamado Ismael Cruz (Danny Trejo), que lhe ensina como enfrentar a dura vida de prisioneiro: “Você tem que olhar além das paredes. Aprenda a viver dentro da sua mente, não há paredes que possam te deter lá“. Isso apenas transforma Michael numa criança mais fechada e maléfica, que não hesita em rasgar a garganta de uma enfermeira (Sybil Danning, de As Amazonas na Lua) com um garfo quando ela faz uma piadinha sobre sua irmã Boo. Então, basicamente, esta é a explicação para a maldade de Michael Myers nunca justificada no original: uma mãe stripper, uma família desajustada e um enfermeiro chicano filosófico!

    Os anos passam e Michael Myers cresce, mas parece cada vez mais longe de “melhorar”. Sua cela está decorada com incontáveis máscaras que ele faz com papel-machê e que passa o dia usando – segundo Loomis, “estas máscaras devem ter criado um santuário mental onde Michael se esconde“. De garoto gorducho, transformou-se num gigante de dois metros de altura e de cabelo comprido para cobrir o rosto (agora interpretado por Tyler Mane, o Dentes de Sabre da série X-Men). Como no original, ele pára de falar e passa os dias em estado catatônico. A situação é tão insustentável que Loomis resolve desistir do seu paciente, após acompanhá-lo durante 15 anos. E é neste momento que Michael “acorda” do seu transe, foge do manicômio e volta a Haddonfield para um novo massacre na noite de Halloween.


    A cena da fuga é puro Rob Zombie; ou seja, um lixo. Numa noite, dois enfermeiros tarados resolvem estuprar uma das pacientes (num momento ao estilo Kill Bill). Um deles acha que seria uma boa ideia cometer a violência sexual na cela de Michael, mas é claro que o próprio Michael não concorda com isso. Ele esmaga a cabeça dos dois (não fica claro se mata também a paciente estuprada…), e sai caminhando livremente pelos corredores, matando ainda, na fuga, seu “velho amigo” Ismael – que, enquanto é atacado, ainda tenta defender-se gritando: “Eu sempre te tratei bem!”. Esta cena existia originalmente na workprint, mas, de tão idiota, foi mudada na versão para os cinemas, que mostrava o assassino sendo transferido do manicômio e exterminando seis policiais no processo (um deles interpretado por Bill Moseley, ator-fetiche de Zombie, e outra por Leslie Easterbrook, a policial machona da série Loucademia de Polícia). Mas, na director’s cut lançada em DVD, que é a versão analisada neste artigo, o diretor recuperou a cena antiga da fuga após o estupro.

    Finalmente livre, Michael ainda rouba as roupas de um caminhoneiro antes de partir para Haddonfield. É então que encerra o primeiro ato, ou o ato original escrito por Rob Zombie, e começa o segundo, onde ele entra na refilmagem propriamente dita e literal do original de Carpenter. Ou seja: é como se o filme estivesse recomeçando, mas desta vez seguindo o roteiro do clássico de 1978. Somos apresentados a Laurie Strode (a bonita Scout Taylor-Compton, que também está no remake de A Noite das Brincadeiras Mortais). Ela é uma baby-sitter como suas amigas, Annie (Danielle Harris) e Lynda (Kristina Klebe). E as três são representadas como adolescentes promíscuas que só sabem falar de sexo e fazer sexo com seus namorados cabeludos – nunca escutei tanto “Fuck me! Fuck me!” fora de um filme pornô!!!

    Laurie, obviamente, é a nova identidade de Boo, a irmã de Michael, que foi deixada para adoção quando ainda era bebê, após o suicídio de Mamãe Myers. E Danielle Harris, que interpreta Annie, caso você não tenha reconhecido, é a mesma atriz que, quando criança, interpretou a sobrinha de Michael em Halloween 4 e Halloween 5!!! Nada como um dia após o outro…

    Apresentadas as personagens do original, Rob Zombie’s Halloween se transforma na típica refilmagem cena a cena (por isso o comentário irônico do site Bloody Disguting), embora Zombie aumente a contagem de cadáveres de quatro no filme de Carpenter para mais de 15. Mas nunca, e nunca mesmo, ele chega sequer aos pés do original, já que tensão e construção de suspense são duas coisas que inexistem neste remake – até porque já foram diluídas com a quantidade de mortes e sangue que o diretor utilizou até então.

    Quem já viu o original sabe o que vem pela frente: Michael persegue as três babás, especialmente Laurie, no momento em que ela está tomando conta de duas crianças, Tommy Doyle (Skyler Gisondo) e Lindsey Wallace (Jenny Gregg Stewart). Felizmente, o dr. Loomis chega à cidade, desconfiando que o psicopata iria retornar ao local onde tudo começou, e pede a ajuda do xerife Lee Brackett (interpretado pelo veterano Brad Dourif) para caçar Michael. O homem da lei inicialmente duvida da história contada por Loomis, mas começa a acreditar quando sua filha, Annie, torna-se uma das vítimas do retorno do cidadão mais indesejado de Haddonfield.

    Como já estamos quase na parte final do filme (!!!), não há mais muito tempo para o desenvolvimento de personagens, e Rob é obrigado a resumir todo o Halloween original em 60 minutos. Resultado: Annie e Lynda só existem no remake porque existiam no original, e só morrem no remake porque também morriam no original. O grande problema é que, no momento em que a refilmagem parte do princípio de que Michael Myers está de volta a Haddonfield em busca da irmã (ao contrário do que acontecia no original, onde seu objetivo era um mistério), torna-se completamente obsoleto o fato de ele perseguir e matar outras pessoas que nem ao menos se colocam em seu caminho, como Annie e Lynda. Qual o propósito? Aumentar a contagem de cadáveres? Por que Michael não vai direto atrás de Laurie/Boo ao invés de perder tempo caçando suas amigas e respectivos namorados? Porque não, ora! Porque este é um slasher movie e precisa de vítimas. Mais ou menos como Eu Ainda Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, a série Pânico e Lenda Urbana, onde os assassinos têm um plano de vingança bem definido, mas passam o filme todo matando quem quer que apareça em seu caminho, MENOS a garota de quem realmente desejam se vingar!!!

    O cúmulo da idiotice é quando o assassino, já consciente de que Laurie Strode é a sua irmã, segue a moça até a casa de seus pais adotivos, Mason (Pat Skipper) e Cyntha Strode (Dee Wallace, de Quadrilha de Sádicos). Michael espera Laurie sair de casa e, ao invés de persegui-la e fazer a história andar, prefere invadir a casa e exterminar os Strode, empilhando mais duas mortes sem qualquer propósito ou relação com seu “objetivo primário”. Qual o propósito? Ora, mostrar mais cenas sangrentas! O que você esperava? Neste remake, Michael Myers está definitivamente mais para Jason Voorhees do que para o verdadeiro vilão frio e calculista concebido por John Carpenter.

    Logo, o fascínio de Zombie pela violência e pelas consequências desta violência transformam Halloween num slasher banal, que nada tem de diferente em comparação a inúmeros outros filmes do gênero. Enquanto o original de Carpenter trabalhava individualmente os personagens centrais e criava o clima, concentrando as (poucas) mortes para os 30 minutos finais, Zombie já começa o massacre desde cedo. E, por ter mais vítimas (carne fresca?) em cena, não lhe sobra tempo para os personagens. Apenas Michael Myers e o dr. Loomis têm um mínimo de profundidade; os demais são meras caricaturas, quase figuras de cartolina que só existem para morrer, incluindo a apagada Laurie Strode. Culpa do roteiro, que dá mais ênfase ao passado e à personalidade do vilão (um vício de linguagem de Rob Zombie, já demonstrado em seus dois filmes anteriores) do que às vítimas.

    Pelo menos desta vez o roteiro raso também dá um mínimo de composição ao antagonista natural do vilão, o dr. Loomis. Enquanto no original Donald Pleasence interpretou o psiquiatra como um caçador, que já aparece de revólver em punho desde a primeira cena (os tempos eram outros), o Loomis de McDowell (em ótima forma após uma série de papéis medíocres em filmes medíocres) divide-se entre o ódio e o remorso. Ódio pelo rastro de destruição deixado pelo seu ex-paciente, e remorso porque se considera culpado por não ter conseguido ajudá-lo nos 15 anos em que trabalhou como seu psiquiatra. As cenas de McDowell com o jovem Michael no sanatório são a melhor parte do filme inteiro, e o ator consegue passar convicção até mesmo quando repete literalmente as frases que Pleasence falou no original. Zombie ainda enriquece um pouco mais o personagem ao apresentar uma faceta um tanto mercenária do psiquiatra, que fica famoso ao publicar um livro sobre seu mais famoso paciente, Michael, chamado “Os Olhos do Demônio“.

    Com o foco em Michael e no dr. Loomis, sobra pouquíssimo tempo para o trio de garotas que roubava a cena no Halloween de 1978, Laurie, Annie e Lynda. Considerando que Laurie é a verdadeira personagem principal da trama, e não Michael nem Loomis, o fato de ela ser tão mal representada não deixa de ser um outro grande erro do roteiro. Annie e Lynda mal aparecem e já morrem (só têm tempo de aparecer peladas e fazendo sexo), enquanto Laurie tem um pouco mais de tempo em cena, mas apenas correndo e gritando. E isso que as cenas a mais da director’s cut tentam dar um pouco de profundidade à personagem, incluindo vários diálogos de Laurie com seus pais adotivos (um outro detalhe desperdiçado pelo roteiro).

    Zombie ainda se repete apelativamente durante as duas horas do filme. Qual o sentido, por exemplo, de repetir a cena em que uma pessoa atingida por uma facada de Michael se arrasta ensanguentada pelo chão em busca de ajuda, antes de receber o golpe de misericórdia do psicopata? Uma vez, vá lá… Mas depois de usar este artifício no início do filme, na morte de Judith, Zombie o repete outras duas vezes de forma idêntica, na morte da madrasta de Laurie e na cena do ataque a Annie.

    Falando em Annie, gostaria que alguém me explicasse como é que um exterminador implacável como Michael Myers deixa a moça viver após algumas punhaladas, quando ficou longos minutos sozinho com ela e teve todo o tempo do mundo para terminar o serviço. Mas ele preferiu gastar este tempo pendurando o namorado morto de Annie com uma abóbora enfiada na cabeça, ao invés de dar um fim na garota! Para quem não lembra, Annie era uma das primeiras vítimas do psicopata no original, e era morta sem piedade lá em 1978…

    De resto, o “toque pessoal” que Rob tenta imprimir ao filme só ajuda a torná-lo ainda pior. Parece que o diretor quis mergulhar os personagens de Halloween no seu próprio universo sujo e violento de A Casa dos Mil Corpos e Rejeitados pelo Diabo. Resultado: ninguém conversa sem soltar pelo menos meia dúzia de palavrões (destaque para a família Myers neste quesito), ninguém conversa sobre outro assunto que não seja sexo, e todos os homens são “barra-pesada“, com barba por fazer ou cabelo comprido (inclusive o jovem Michael, os enfermeiros do manicômio, os namorados das garotas e até o dr. Loomis nas suas primeiras cenas!!!). Os diálogos vão do ruim ao bizarro, como quando o xerife Brackett oferece uma carona a Annie e suas amigas, e Lynda responde, na cara do homem da lei: “Não, obrigado, tenho alergia a bacon“!

    E o que dizer do Michael Myers versão século 21? Bom, é a cara da geração Jogos Mortais. Repetindo um erro que já havia sido cometido pelos realizadores da refilmagem de O Massacre da Serra Elétrica, Zombie transformou o psicopata franzino do filme de John Carpenter num brutamontes bombado com dois metros de altura. Para fazê-lo mais “hardcore“, o diretor ainda lhe deu uma máscara toda suja e que parece remendada, lembrando a máscara de couro do Leatherface. E como é que você vai criar suspense quando o psicopata brutamontes consegue atravessar portas e paredes como se fossem de manteiga?


    Chegamos, assim, ao segundo maior erro deste novo Halloween: o Michael Myers de Rob Zombie aparece O TEMPO TODO no filme – que, aliás, devia se chamar Michael Myers – O Início, e não Halloween. Enquanto no original o assassino aparecia muito raramente, e sempre de surpresa, aqui o psicopata e sua máscara suja estão em cada frame do longa, arrasando com qualquer tentativa de criar tensão. Lembra da fantástica cena em que a máscara branca de Michael aparecia de repente na escuridão, nas costas de Laurie, no filme original? Não espere ver nada disso aqui: toda cena de morte é filmada do mesmo jeito, com a vítima em primeiro plano e Michael caminhando no fundo em direção à vítima, destruindo qualquer surpresa de um ataque repentino. Zombie não consegue nem mesmo fazer o mais primário, que é repetir as boas cenas do original. Lembra aquela em que Laurie se encontra trancada do lado de fora da casa de Tommy Doyle e Michael vem caminhando lentamente pela rua em direção a ela? Pois é: Zombie arruinou completamente esta cena também! O único momento em que ele consegue criar um mínimo de suspense é quando Laurie cai numa piscina vazia e Michael vai se aproximando lentamente da sua vítima indefesa. E só. Muito pouco para um filme de terror com duas horas (!!!) e pouquíssima história para contar…

    Além disso, não tem como engolir o fato do Michael de Rob Zombie, um delinquente juvenil “normal“, ser tão forte a ponto de atravessar paredes e resistir a balaços à queima-roupa. O espectador aceitava com naturalidade o fato de o vilão nunca morrer na série Halloween original. Afinal, pouco ou nada se sabia sobre ele – vai que era mesmo o “Bicho Papão“? Isso não acontece no remake: depois de acompanhar boa parte da infância do jovem Michael, durante uns 50 minutos, você tem a certeza de que ele não passa de um garoto bobalhão e mimado que de repente teve um piripaque e virou assassino. Mas não, não existiu qualquer influência sobrenatural ou pacto demoníaco na sua infância. Ou seja: o Michael do remake é apenas um psicopata normal e banal, de carne e osso, que, teoricamente, teria que morrer após levar cinco, seis, sete tiros do dr. Loomis e uma facada no pescoço desferida por Laurie. Alguém explica esse fenômeno? Colete à prova de balas, talvez? Fator cura, como o Wolverine? Doses cavalares de anestesia arruinaram seu sistema nervoso? Ou simplesmente o roteiro é um lixo? Voto nesta última opção. Segundo Zombie, Michael não morre “porque não“, e está acabado!

    Agora, se há um ponto positivo neste remake de Halloween, e isso precisa ser destacado, é a obsessão do diretor (já mostrada em Rejeitados pelo Diabo) de incluir figurinhas carimbadas do gênero em pequenas participações. É óbvio que ver atores conhecidos sendo mortos, como Sybil Danning, Dee Wallace e Bill Moseley, é muito mais “divertido” do que se fossem uns manés quaisquer. E olha que aparece um belo time no filme: Richard Lynch (com a cara mais enrugada do que nunca) como diretor da escola onde o jovem Michael estuda, Sid Haig como coveiro, Udo Kier e Clint Howard como os diretores do sanatório de Smith’s Grove, Tom Towles como um dos médicos (apenas na workprint) e Ken Foree como “Big Joe Grizzly“, o caminhoneiro de quem Michael rouba sua indestrutível roupa preta.

    Mas a homenagem é, ao mesmo tempo, uma faca de dois gumes: com tanta gente boa para colocar no filme, Zombie foi obrigado a criar todo tipo de cena inútil para que as “celebridades” apareçam pelo menos por uns dois ou três minutos. O resultado são sequências dispensáveis e até ridículas, como a de Foree (com um cabelo black power pra lá de fake) largando um barro antes de ser morto por Michael no banheiro mesmo. E isso que o diretor cortou quase todas as cenas de alguns atores: o pobre Udo Kier filmou diversos diálogos, mas na montagem final mal aparece. Outras “celebridades“, como Adrienne Barbeau, tiveram suas cenas cortadas na edição (ainda bem, pois senão o filme ficaria com três horas de duração!). E o pobre Tow Towles filmou duas participações, como médico na Workprint e como policial na versão para os cinemas, e ambas foram cortadas na Director’s Cut!!! É mole? Só lamentei o fato de o diretor não ter convidado atores que participaram do original para fazer pontas. Não seria legal (e irônico) ver P.J. Soles (que interpretou Lynda no filme de Carpenter) como a mãe de Michael neste remake? Ou Charles Cyphers (o xerife Brackett versão 1978) como Mason Strode? Ou ainda Nick Castle, o dublê do assassino no original, em algum papel marcante onde poderia finalmente mostrar o rosto?

    O que transparece, durante as duas intermináveis horas do filme, é que Rob Zombie realmente não sabia o que estava fazendo. E o mais irônico é que ele cometeu todos os erros que disse odiar em remakes numa entrevista pré-Halloween. Sua ideia original era equivocada desde a concepção. Por isso, quando detalhes do roteiro começaram a vazar nos fóruns da internet, e o pessoal reclamava da espécie de Michael Myers que o diretor estava concebendo, o próprio Zombie, numa atitude típica de moleque, entrou nos tais fóruns usando um nome falso para xingar quem estava se queixando – atitude muito madura, não é verdade?

    Depois que a workprint vazou, e o diretor percebeu a extensão da cagada, ele mudou tanto o filme para tentar corrigi-lo, com regravações, corte de cenas, filmagem de mais mortes e novos diálogos, que acabou originando três versões da mesma porcaria, cada uma com suas próprias características (como o leitor pode ver na próxima página). Não se espante se logo surgir uma “Ultimate Edition” ou um “Definitive Cut” com novas cenas e mudanças na história. Se dependesse de mim, pelo menos, ainda teria muito a mudar e corrigir.

    Mas um mérito do diretor é fazer tudo no esquema “old school“, sem computação gráfica. E há muito sangue cenográfico em cena. Pena que Zombie contratou um epilético como operador de câmera, então a imagem treme e sacode de forma nauseante durante os ataques de Michael – estilo Extermínio. Talvez o cinegrafista seja a única pessoa no universo a tremer de medo durante os sustos fraquíssimos do filme, por isso a câmera sacode tanto!



    Título Original: Halloween II . Ano: 2009 • País: EUA . Direção: Rob Zombie .Roteiro: Rob Zombie
    Produção: Malek Akkad, Andy Gould, Rob Zombie .Elenco: Scout Taylor-Compton, Tyler Mane, Malcolm McDowell, Sheri Moon Zombie, Chase Wright Vanek, Brad Dourif, Caroline Williams, Dayton Callie, Richard Brake, Danielle Harris, Margot Kidder, Mary Birdsong

    Na sua carreira cinematográfica original ,o assassino mascarado Michael Myers inscreveu eternamente o seu nome na galeria de monstros clássicos do cinema. Para isso, porém, teve que sofrer um bocado: tomou incontáveis tiros pelo corpo todo (inclusive nos olhos!), facadas, pauladas de todos os tipos, foi atropelado, explodido, jogado num poço, eletrocutado, decapitado (ah, depois descobriram que era um impostor usando a máscara do vilão), transformou-se em pivô da maldição de uma seita druida contemporânea (sério!) e até em astro de reality show (acidentalmente, é claro), além de quase participar de um “crossover” com o Pinhead, da série Hellraiser – quando esses duelos tipo Freddy Vs Jason estavam na moda, e algum débil mental realmente achou que seria legal fazer o mesmo com os dois personagens, o que felizmente ficou só na ameaça.

    Mas isso tudo, meus amigos, é fichinha perto do que o pobre Michael Myers sofreu nas mãos do metaleiro e dublê de cineasta Rob Zombie em Halloween (2007), o dispensável remake do filme original de John Carpenter, que conseguiu a façanha de desagradar a gregos e troianos. Tudo neste projeto prenunciava uma bomba. Primeiro, o também roteirista Zombie mergulhou o famoso vilão no seu universo particular – ou seja, aquele dos caipiras cabeludos que vivem transando e falando “fuck“, anteriormente mostrado nos filmes A Casa dos Mil Corpos e Rejeitados pelo Diabo.


    Depois, o próprio Zombie demonstrou estar completamente perdido e sem ideia do que fazia, ao ponto de editar TRÊS versões diferentes do filme, cada uma com diversas alterações (e com finais e tempos de duração igualmente diferentes). Para completar, aquele vilão que representava o mais puro Mal na série iniciada por Carpenter em 1978 foi transformado num simplório delinquente juvenil, que, oh clichê dos clichês, só se transforma em assassino por causa da sua infância traumática numa família desestruturada.

    Já o prego na tampa do caixão é “made in Brazil“: dois anos depois do lançamento do filme nos EUA, a distribuidora nacional Playarte finalmente trouxe o remake aos cinemas brasileiros, mas lançou-o com cortes absurdos nas cenas de sexo e violência, um artifício desonesto para baixar a censura de 18 para 14 anos – o que tornou o filme simplesmente incompreensível, já que sexo e violência é só o que há no Halloween de 2007!

    Assim, além de ruim, sem propósito e de mau gosto, o Halloween de Rob Zombie acabou tornando-se um verdadeiro filme maldito, aquele projeto que começa mal e termina pior, prejudicado desde a etapa de desenvolvimento (com Zombie tentando corrigir as próprias burradas através das três montagens diferentes) até o lançamento nos cinemas brasileiros. Se um fiasco desses acontecesse comigo, eu iria querer distância de qualquer projeto que tivesse o nome Halloween pelos próximos anos, e partiria para fazer qualquer outra coisa.

    Infelizmente para nós, espectadores, Rob Zombie não pensou como eu. E o resultado é mais essa bomba atômica que atende pelo nome de Halloween 2.

    Acredite se quiser, mas a seqüência consegue ser tão ruim quanto o remake do original. Se não for pior…

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