• ÚLTIMAS...

    CECIL B. DEMILLE (12/08/1881 - 21/01/1959) - BIOGRAFIA E ALGUMAS HISTÓRIAS



    Fundador de uma das grandes empresas produtoras de Hollywood, Cecil deMille realizou mais de setenta filmes e tinha seu nome anunciado em letras maiores que a dos atores, numa época em que a figura do cineasta era praticamente ignorada pelo público.

    Cecil Blount deMille nasceu em 12 de agosto de 1881 em Ashfield, Massachusetts. Cursou arte dramática e em 1900 iniciou-se como ator teatral, mas intuiu que no cinema estava o futuro e fundou, com Jesse Lasky, a Jesse Lasky Feature Company, futura Paramount. O primeiro filme que dirigiu foi The Squaw Man (1914; Amor que sofre), um western refilmado em 1918 (Amor de índia) e em 1931 (O exilado). Adaptou enredos de peças de teatro célebres e, quando a atenção dos americanos se voltou para a primeira guerra mundial, realizou filmes de exaltação patriótica. De 1919 a 1923 fez comédias de costumes que provocaram a reação dos moralistas. Dedicou-se então a produzir filmes de temas bíblicos ou históricos, com cenários imensos e centenas de figurantes.

    Dentre os filmes que produziu e dirigiu se destacam: os westerns The Virginian (1914; Pela felicidade dela) e The Plainsman (1936; Jornadas heróicas); os melodramas Carmen (1915) e Manslaughter (1922; A homicida); a comédia de costumes Male and Female (1919; Macho e fêmea); os épicos bíblicos e históricos The King of Kings (1927; O rei dos reis), The Sign of the Cross (1932; O sinal da cruz), Cleopatra (1934), The Crusades (1935; As cruzadas), Samson and Delilah (1949; Sansão e Dalila) e The Ten Commandments (1956; Os dez mandamentos). Cecil B. deMille morreu em Hollywood em 21 de janeiro de 1959.

    DEMILLE, O SHOWMAN

    Já houve época nesta cidade em que as pessoas se aglomeravam em filas na porta de um cinema com grande número de poltronas e com pouca esperança de conseguir um ingresso. E mais ainda, eu vi diversas vezes salas totalmente superlotadas, e pessoas sem lugar para sentar, ou sentando nas escadas dos balcões. Em muitos desses momentos, um aviso de “Lotação Esgotada” era colocado na entrada de alguma bilheteria.

    Mas, o público foi sumindo ou mudando, as salas de projeção se multiplicando e diminuindo de tamanho, e a antiga tentativa de fazer o espectador comprar o seu ingresso com lugar marcado, acabou finalmente dando certo, e terminando com isso com o tumulto das filas dos cinemas de antigamente.

    Dentre as minhas muitas memórias de salas superlotadas, uma delas ficou para eu me lembrar, toda vez que assisto ao filme de Cecil B. DeMille “Os Dez Mandamentos”.A verdade é que, na época de sua primeira exibição, Os Dez Mandamentos foi um filme eletrizante. Efeitos especiais inéditos, principalmente os da abertura do Mar Vermelho, deixaram a produção marcada durante anos. Ao assistir o filme hoje, é possível observar o número exagerado de compósitos contra fundo azul, muito usado nos filmes Technicolor daquela época, mostrando um cenário que nunca foi construído. Mas, convenhamos, um colorido daquela qualidade, capturado por câmeras VistaVision, era de tirar o fôlego, mesmo que projetado em tela plana convencional e som mono, como naquela época.

    O filme ainda iria ser reapresentado em 70 mm anos e som estereofônico anos depois, mas nem o ambiente nem o suspense natural da primeira exibição iriam ser os mesmos.
    O impacto do filme à época de seu lançamento deveu-se em grande parte ao fato de que Cecil C. DeMille acreditava no cinema de espetáculo. Seus filmes eram embutidos de um caráter épico, em cujas sagas desfilavam heróis dos mais diversos tipos. E quando se tratava de temas com fundo bíblico, o apelo para as platéias era significativamente mais fácil.

    A figura dramática de Charlton Heston no papel de Moisés, antes da partição do Mar Vermelho. Note-se a excelência da composição da imagem, marca do diretor Cecil B. DeMille.
    O efeito geral da apresentação era tão pungente, que ninguém na platéia dava bola para o trabalho histriônico e às vezes caricatural dos seus atores, com expressões faciais exageradas na tela em profusão. Até mesmo o veterano ator Charlton Heston e a sua consorte Anne Baxter deslizam em alguns momentos, para sustentar o drama. Mas, nada disso tem importância, em virtude da magnificência do espetáculo, que se sustenta até hoje, quando a gente o assiste em edições novas em home video.
    A última dessas edições é a versão em Blu-Ray, a partir de uma restauração meticulosa do negativo VistaVision, com telecine capaz de capturar 4 mil linhas de resolução (6 mil, no sentido lateral de corrida do negativo). Nada mais justo, diga-se de passagem, porque todas as versões em vídeo anteriores, do VHS ao DVD, eram um lixo! Os créditos da restauração do filme e do áudio são agora mostrados ao fim do filme na nova edição, o que eu acho justo com quem fez tamanho esforço para alcançar tamanha qualidade. E o resultado pode ser visto na imagem espetacular do Blu-Ray, somada à completa recuperação do som dos diálogos e da dinâmica da trilha sonora.

    E como agora parece que virou moda, do negativo restaurado programou-se uma exibição digital em um cinema norte-americano, com direito a intervalo e lanche. A Paramount, faz algum tempo, instalou seus próprios laboratórios de restauração, e isso é muito bom, considerando-se ter sido o estúdio que criou o VistaVision e que mais negativos deste ordem tem em seus arquivos.
    Um cuidado especial foi dado ao enquadramento da nova transcrição em vídeo de alta definição. Embora tenha se dito que DeMille teria sido meticuloso, ao não deixar entrar objetos de cena no enquadramento de câmera (1.78:1), a apresentação em cinema obedeceu ao formato 1.85:1 e está preservada na restauração e na edição em Blu-Ray. Nesta última, é curioso notar que foi incluída a trilha sonora original em mono, que pertenceu aos meus tempos de menino.
    Para o colecionador e fã de clássicos de cinema só há motivos para se comemorar. Muitos filmes religiosos tiveram andamento arrastado, maçante e principalmente piegas. DeMille, que usou temas bíblicos também, nunca perdeu de vista que o cinema é, acima de tudo, impacto visual e é isso, em última análise, o que se nota em profusão em Os Dez Mandamentos: enquadramentos esteticamente perfeitos, a movimentação da câmera somente nos momentos certos e em deslocamentos bastante sutis, planos gerais (tomadas panorâmicas) e travellings de notável qualidade e uma preocupação constante com a fluência da narrativa, de maneira a evitar qualquer perda de ritmo durante o filme.
    Cecil B. DeMille começou a dirigir ainda no cinema silencioso. Sua adaptação ao cinema falado e às tecnologias emergentes da época, demonstram inequivocamente a sua postura progressista, sem entretanto tirar dele a formação de linguagem que o filme mudo lhe deu, priorizando imagem antes das falas e discursos dos atores. De tecnologias como o processo preciso de fotografia em VistaVision ele deu o melhor de si mesmo, a ponto de podermos afirmar que, junto com John Ford e Hitchcock, foi um dos diretores que mais se beneficiou deste tipo de filmagem. E as restaurações dos negativos estão aí para confirmar isso.
    DeMille era um homem conservador, com uma aparente forte inclinação para um político radical de direita. Se não a teve, pelo menos gastou uma boa parte de sua vida no Directors Guild norte americano, uma espécie de associação oficial de diretores, para combater colegas que julgava esquerdistas atuantes.
    Uma dessas passagens foi relatada pelo editor/diretor Robert Parrish, ex-colaborador de John Ford. Parrish conta que em uma das sessões do Guild, DeMille e seus seguidores começaram a pressionar pela saída de Joseph Mankiewicz da direção da entidade, suspeito de atividades “anti-americanas”. Depois de quatro horas de discursos contra Mankiewicz, John Ford, que raramente tomava partido em problemas políticos, levantou-se e disse:
    “Meu nome é John Ford. Eu faço westerns. Eu não acho que exista ninguém nesta sala que conheça mais sobre o que o público americano gosta do que Cecil B. DeMille, e ele certamente sabe como dar isso para eles”.
    Aí, voltando-se para DeMille, completou: “Mas eu não gosto de você, C. B. Eu não gosto do que você defende e não gosto do que você andou dizendo aqui esta noite”. E propôs um voto de confiança naquele momento a Mankiewicz, no que foi prontamente atendido.
    Durante a perseguição e caça às bruxas promovidas pelo senador Joseph McCarthy, muitos roteiristas e diretores de Hollywood foram acusados de comunistas e de atividades contra o regime. Vários deles tiveram que usar pseudônimos para poder continuar escrevendo. Uma lista negra foi elaborada durante o período, mas não sem a colaboração de pessoas ligadas à indústria, como foi o caso de Louis B. Mayer, por exemplo, que depôs a favor do McCartismo.

    Apesar de moralista, DeMille usou e abusou da sensualidade e da malícia de suas atrizes. Alguns críticos observam a inclusão de uma moralidade “Vitoriana” em seus filmes, ao lado de sexo e violência. E certamente DeMille sabia fazer bom uso de todos esses elementos. Suas atrizes de fato esbanjavam sensualidade e imensa capacidade de seduzir, mas nunca ao ponto de se tornar vulgares na tela. E nem mesmo os filmes sobre temas religiosos foram poupados deste tipo de inclusão ou exploração: basta ver Anne Baxter em Os Dez Mandamentos, e Hedy Lamarr, em Sansão e Dalila.
    Cecil B. DeMille cansou de ser citado em filmes diversos no mundo inteiro. Em uma dessas citações mais recentes, os roteiristas de “Blazing Saddles”, dirigido por Mel Brooks em 1974, se divertem com a criação do personagem “Hedley Lamarr”, protagonizado pelo ator Harvey Korman. No roteiro, toda vez que o personagem é chamado de “Hedy” ele reclama “É Hedley”, e isso vira um bordão em anedota até o fim do filme.

    No mesmo roteiro, o pistoleiro aposentado “Waco Kid” (Gene Wilder em magnífica atuação) contando a sua história observa: “Eu devo ter matado mais gente do que Cecil B. DeMille”! E não há dúvida que o brutamontes Mongo é uma paródia a Sansão, do filme Sansão e Dalila, no qual a estonteante Hedy Lamarr aparece, exibindo todo o seu visual e sensualidade.
    Não há, que eu me recorde, alusão à postura política de DeMille. E se houve, não deveria ter sido feita, na minha opinião, porque a democracia implica que vozes discordantes, mesmo que condenáveis, deveriam ter direito de serem ouvidas. Afinal, DeMille não foi o único que falou contra a esquerda americana. Contra sindicalistas e defensores de direitos de trabalhadores, Walt Disney, por exemplo, o fez com muito mais veemência!
    Dentre as citações mais amenas e respeitosas com o diretor, DeMille aparece fazendo o papel dele mesmo em “Sunset Boulevard”, de Billy Wilder, sobre a decadência da atriz Norma Desmond. O filme é, aliás, uma crítica pungente sobre a decadência de Hollywood e das grandes atrizes esquecidas pelo público.

    A marca de um tempo que não volta nunca mais
    Hollywood, mesmo com seu infame studio system, também deu espaço para muitos cineastas que não se adaptaram ou concordaram com ele. John Ford, por exemplo, assumia uma notória postura de aversão aos chefões dos estúdios. Certa vez, teria colocado vigias na porta do set, para impedir a entrada de Darryl Zanuck, durante sua passagem pela Fox. E Orson Welles, que ficou conhecido por interromper as filmagens e começar a fazer truques de mágica, toda vez que alguém da direção da RKO entrava nos sets.
    Não creio que DeMille estivesse neste mesmo grupo, mas mesmo assim passou a produzir seus filmes, entre os quais Os Dez Mandamentos, o que certamente lhe deu autonomia e liberdade de criação, essenciais para qualquer bom cineasta.
    DeMille pertence a uma época. O cinema de espetáculo começou a ter fim no momento em que as cortinas foram retiradas do proscênio, a música de abertura e o intervalo de filmes longos abolidos. Para isso contribuiu a virtual extinção de salas de projeção com mais de 1000 lugares e as telas panorâmicas de grande curvatura ou as menos curvas, mas com grande altura. Eu sei que o IMAX é uma honrosa exceção, mas aonde foi parar a penetração do formato?

    Até hoje me passa a sensação de que a extinção do cinema de espetáculo foi um passo dado na direção errada. Fazia parte do ato sacralizante de ir ao cinema a atmosfera de suspense e de mistério antes do filme começar. É neste aspecto que as cortinas tinham um papel importante e fundamental.
    As trilhas sonoras com música de abertura e intervalo aproximam o cinema do teatro, é verdade, mas com a diferença que na tela do cinema não há limite para o espaço ou para o tempo, pois a câmera carrega o espectador para onde ela quiser.
    Com isso, os filmes de época, como Os Dez Mandamentos, tinham uma eficiência extraordinária para criar o clima que o roteiro pedia, pois a imagem fala mais do que mil palavras.
    Eu creio que a reversão para este tipo de cinema e de sala de projeção, salvo melhor juízo e mudanças culturais do futuro, não deverá ocorrer nem a longo prazo, o que é uma pena para quem não passou por isso e gostaria de saber como foi, ou para quem tem boas lembranças das salas cheias dos cinemas.
    Talvez seja por isso que os americanos estão reavivando sessões com as cópias digitais obtidas dessas restaurações. Não são elas somente para matar as saudades de uma época que já se foi, mas principalmente para mostrar aos que não a viveram como era feito o cinema de antigamente.


    COMENTE USANDO SEU FACEBOOK:

    Nenhum comentário:

    Postar um comentário

    Scroll to Top