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    segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

    UM CORPO QUE CAI (1958) - ANÁLISE CRÍTICA


    FICHA TÉCNICA

    (Vertigo, EUA, 1958). Suspense. Universal (originalmente Paramount).128 min. Cor. Vistavision. Roteiro de Alec Coppel, Samuel Taylor baseado em livro D´entre les Morts, de Pierre Boileau e Thomas Narcejac. Música de Bernard Hermann. Fotografia de Robert Burks. Direção de arte de Hal Pereira e Henry Burnstead. Com James Stewart, Kim Novak, Barbara Bel Geddes, Tom Helmore, Henry Jones, Ellen Corby, Lee Patrick.

    SINOPSE

    Um policial passa a sofrer de acrofobia, medo das alturas quando quase morre ao ficar dependurado numa calha (e um colega morre em seu lugar). Mesmo assim é contratado por um milionário que pede que siga a esposa que está se comportando de maneira estranha,  aparentemente dominada pelo espírito de uma mulher já morta. O detetive se envolve com a cliente, mas não pode salvá-la quando esta se joga de uma torre. Tempos depois, encontra uma garota parecida e tenta transformá-la na mulher que amou e perdeu.


    ANÁLISE CRÍTICA

    Embora tivesse sido recebido com restrições em sua estréia- foi indicado apenas ao Oscar de direção de arte  e som  e esqueceram absurdamente  a trilha musical, embora tenham premiado em 2012 a de O Artista que usava parte importante desta trilha dizendo que era homenagem e citação!). Mas acabou virando o favorito da crítica dentro da obra do diretor (em parte porque durante 20 anos Hitchcock não permitiu que ele fosse reapresentado). E estranhamente foi escolhido pelos críticos de todo o mundo reunidos pela revista inglesa Sight & Sound, também em 2012 como o melhor filme de todos os tempos superando o anterior Cidadão Kane! 

    Kim Novak, recentemente passou a confessar que o filme é seu preferido e Hitchcock também virou seu diretor preferido, porque o personagem que fez tem dentro de si muitas facetas, assim como ela própria que se assumiu bi-polar!.

    Na estreia assustou os críticos americanos (sempre tontos e prontos a fazerem besteira, tendo custado 2 milhões 479 mil dólares e rendido bruto 5 Milhões e 300 mil dólares) que reclamaram que James Stewart era velho demais para o papel e tinha o dobro da idade de Kim, uma besteira que hoje não incomoda (mesmo porque ela não parece jovem demais, tem idade indefinida já  que todo o filme tem uma estrutura onírica). Hitchock tinha um contrato com a Paramount que fazia com que os direitos de seus filmes para o estúdio revertessem para ele depois de certo tempo e assim ele os negociou com a Universal (porque ele era também um grande acionista dela e foi onde ficou trabalhando em seus últimos anos). Dessa forma, os direitos foram para sua única filha Patricia (Pat) Hitchcock (1928- ainda viva). Foi assim que voltamos a ter acesso a este filme junto com os outros raros (O Terceiro Tiro, Janela Indiscreta, O Homem que Sabia Demais, Festim Diabolico que era da MGM).

    Vertigo (Vertigem, literalmente) foi também um dos filmes mais imitados e homenageados de todos os tempos principalmente na obra do hoje decadente Brian De Palma que o recriou várias vezes (em Vestida para Matar, Estranha Obsessão, Doublê de Corpo ).

    O papel central foi planejado para a descoberta de Hitch, Vera Miles (com quem este fez O Homem Errado e mais tarde Psicose).  Ela chegou a fazer os testes de guarda-roupa ,pousou para o quadro que aparece na historia mas a filmagem foi atrasada (inclusive porque Hitch foi operado) quando chegou a hora, ela anunciou que estava grávida e não podia fazer o filme. Este nunca a perdoou por ter perdido sua chance (Vera era casada na época com Gordon Scott, o halterofilista e Tarzan). A atriz ainda viva há muitos anos não se deixa fotografar.

    Foi assim que  Kim Novak estrela maior da Columbia e que realmente queria ser uma atriz de verdade mas Hitch não gostava de conversas. Como todo mundo sabe, ele preparava antes tudo minuciosamente e nunca olhava pela câmera, porque já sabia tudo o que havia previsto, as filmagens inclusive o entediavam. E nunca se enganava, já que tinha permanecido meses fazendo os story-boards e cuidando dos detalhes. Quando Kim pedia explicações ou a motivação para tal cena, ele dizia “é apenas um filme, interprete” (estava na moda na época ele comparar os atores como gado). Enfim, nunca gostou de Kim e nunca a ajudou. Ele já tinha feito antes vários trabalhos com James Stewart – na verdade, o quarto - mas este foi o ultimo, talvez porque tivesse ouvido os críticos que o acharam velho (se foi isso, burrice dele). Correm lendas sobre a crueldade que ele teria tratado a atriz obrigando-a pular várias vezes na água do estúdio, que passava pela Baia de San Francisco.

    As locações foram em duas missões famosas na região da Califórnia, Mission Dolores e  San Juan Bautista (sendo que não existia a Torre que foi construída em estúdio para as cenas importantes que foram feitas lá, em parte inclusive em maquete/miniatura). A ponta do diretor é aos 11 minutos,  muito rápida,  passando rapidamente carregando a caixa de um instrumento  por uma loja onde Jimmy entra, bem no começo da trama. Um Corpo que Cai não é propriamente um suspense no sentido tradicional da palavra. A trama policial e mesmo a espiritualista são meras pistas falsas, para tornarem mais intrigantes as reviravoltas de um amor proibido. O clima inusitado já começa com os letreiros de apresentação do mestre Saul Bass, que procuram mergulhar o espectador num turbilhão de vertigens, já que o protagonista nunca está em controle da situação. Embora seja um policial honesto, fica intrigado quando acredita que a mulher que está espionando poderia estar possuída  pelo espírito de uma outra, uma certa Carlota, cujo retrato está num museu e que teria ficado louca. Comete o erro de se apaixonar por essa mulher e quando esta morre, aparentemente por sua culpa, se jogando de um Torre ( ele é incapaz de mesmo subir os degraus para ir salvá-la), isso só acentua a gravidade de sua neurose e culpa . Ao mesmo tempo, o faz desconfiar de que há algo errado, quando encontra uma garota muito parecida com a falecida. Só que com outro jeito, cabelos e roupas diferentes. 

    E não resiste a tentação de aos poucos transformá-la na outra. Mesmo que as consequências sejam trágicas, com o risco de perdê-la novamente. Embora haja elementos de “thriller” e mesmo policial, o que realmente importa é a história de amor e justamente deve ser por causa disso que o filme manteve seu impacto. É um filme de sonho, de obsessão, de fantasia (varias cenas foram rodadas com um pano na frente da lente para lhe dar a impressão de que foram feitos com a nevoa de San Francisco). Na verdade, em todos os filmes de Hitch existem menos experiências técnicas por vezes atrevidíssimas. Elas persistem aqui mas com outra intenção, a de acentuar o clima de amor arrebatador (a sensação de vertigem presente  no começo e depois em todo o filme e principalmente o beijo do casal a beira do mar explodindo nas rochas). Tudo conduzido de forma brilhante através da trilha musical de Bernard Hermann, que praticamente fornece o tom e o ritmo da narrativa. O filme tem alguns problemas não solucionados. Mas o filme é tão absorvente e atormentado como um pesadelo, que numa revisão em Blu Ray (naturalmente de boa qualidade já que foi feita a partir da restauração original que levou dois anos e rodado com película usada no Vistavision) que emoldura a beleza inacreditável de Kim e a empatia de Jimmy Stewart. Importante: praticamente todos os interiores foram recriados em estúdios e houve apenas 16 dias de filmagem em locação.


    Foi inspirado no livro Francês , “D’Entre les Morts” (Among The Dead/Dentre os Mortos foi o titulo de rodagem, de Pierre Boileau e Thomas Narcejac, os mesmos autores de “As Diabólicas”. Reza a lenda que eles teriam escrito especialmente para Hitch que havia tentado comprar os direitos daquele outro clássico e não conseguido. O roteiro passou por três mãos, primeiro o poeta  Maxwell Anderson (segundo o coprodutor Herbert Coleman não fazia sentido, depois Alex Coppel (só esta creditado por causa de contrato) e finalmente do dramaturgo Samuel Taylor, conhecido como autor de Sabrina (mas também de Papai Playboy, O Amor, Eterno Amor, Avanti, Promessa ao Amanhecer, Topázio,  Mais uma vez Adeus, Três em um Sofá e Melodia Imortal. Não se pode esquecer que Hitch participava de todo roteiro que filmava sem crédito, assim como sua mulher Alma Revill que raramente também era creditada mas era a pessoa que ele ouvia e respeitava. Era quase uma co-autora de tudo que ele fez.    
        
    Trivias notáveis: o camera men sem crédito no filme Irmin Roberts inventou o famoso "zoom out e track in" shot (também chamado de "contra-zoom" ou "trombone shot") para dar impressão de vertigem na plateia.  Ainda hoje em San Francisco você pode contratar tours que o levam nas principais locações do filme como o The Empire Hotel que é agora o  Hotel Vertigo (em  940 Sutter St.  No coração de San Francisco). O quarto  Room 501, ainda se parece com o filme. O exterior do apto esta localizado em 1000 Mason St., diante do  Fairmont Hotel. Foi o artista John Ferren que planejou a sequencia de Pesadelo e também pintou o Retrato de Carlotta. Nas pesquisas do American Film Institute o filme se saiu bem ficou em primeiro lugar dentre os filmes de mistério e suspense, seu pôster foi em terceiro (dentre os melhores posters de todos os tempos) e ficou em nono lugar dentre todos os filmes.  Não é verdade o boato que Kim Novak teria dublado a voz da freira no final. Hithcock mudou a ação do livro de Paris para San Francisco e também a conclusão, já que o herói do livro estrangulava a misteriosa mulher. 

    Será que Um Corpo que Cai merece seu titulo de melhor filme de todos os tempos? Será que algum filme realmente merece? Tenho minhas listas, mas acho impossível determinar o que é melhor de todos os tempos. É mais fácil e justo dentro de uma mesma época ou tipo de cinema.

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