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    quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

    INVASORES DE CORPOS NO CINEMA



    VAMPIROS DE ALMAS (1956)

    Vampiros de Almas é um dos clássicos absolutos do terror / sci-fi dos anos 50. E o auge da paranoia anticomunista e dos sentimentos macarthistas transpostos para a tela do cinema no auge da Guerra Fria. É cinema em forma de metáfora, de propaganda ideológica, mas mesmo assim, tirando todo esse contexto, ainda é um dos mais assustadores filmes que retrata uma invasão alienígena, imensamente superior a todos os filmes B que também utilizam deste tema feitos naquele período.

    Dirigido por Don Siegel, Vampiros de Almas só foi ganhar seu reconhecimento de forma tardia, mas acabou sendo selecionado pelo Instituto Americano de Cinema como um dos 10 melhores filmes de ficção de todos os tempos. E grande parte desse menosprezo é exatamente pela subversão que nos salta aos olhos ao assistir a fita e relacioná-la ao período de caça às bruxas comuna em que ela foi lançada.

    No longa, uma típica cidadezinha americana é vítima de uma invasão alienígena através de terríveis vagens espaciais que dão origem a cópias perfeitas, substituindo os moradores aos poucos e instalando um clima de histeria em massa. Cabe ao médico local, Dr. Miles Bennell e seu par amoroso, Becky Driscoll, os únicos “sobreviventes”, correr por suas vidas (literalmente) e tentar desbaratar a invasão, sempre lutando contra o sono, já que é ao dormir, que as pessoas são substituídas.

    Só que vamos fazer um exercício básico, de trocar os alienígenas e as duplicatas pelos comunistas. No subtexto do filme, os invasores são seres desprovidos de emoções, todos vivem em um mundo igual e sem problemas, só que o custo disso é a perda da individualidade, que é exatamente como os americanos imaginavam a ideia comunista e a vendiam para sua população. Soma isso ao medo de que essa “invasão ideológica” bolchevique contaminasse suas famílias, suas mulheres, filhos e vizinhos, como em determinado momento do filme, um desesperado Dr. Benell grita à beira da insanidade, “eles estão entre nós”, direto para a câmera. 

    Só que o grande mérito de Don Siegel é que como cineasta e contador de histórias, ele tirou Vampiros de Almas da obscuridade estética de filme B e conseguiu criar um suspense perene, que vai prendendo e realmente metendo medo no espectador. Seja pela crítica política velada e o medo de uma “invasão” que não tem nada a ver com alienígenas, travestida no roteiro, ou seja pela ideia da chegada desses seres no nosso planeta pela porta dos fundos, agindo sorrateiramente em uma pequena cidade para se organizarem através de uma consciência coletiva e dominar o mundo. Isso sem contar a belíssima fotografia de Elisworht Fredericks, o ritmo frenético que o filme vai adquirindo a partir da descoberta das sementes alienígenas e a cena dos nossos heróis pelas ruas da cidade perseguidos por todos os habitantes de Santa Mira, uma das mais icônicas do gênero.

    E por incrível que pareça, pode-se empregar em Vampiros de Almas, visto nos dias de hoje, uma linha de raciocínio completamente diferente daquela empregada há quase 60 anos. Agora que a cortina de ferro caiu há tempos, os efeitos especiais evoluíram absurdamente e Phillip Kauffman nos brindou em 1978 com Os Invasores de Corpos, seu remake superior ao original, Vampiros de Almas continua tendo uma mensagem subliminar muito forte, que é o da a zumbificação mental.

    A alienação, o consumo em massa, a falta de amor ao próximo e o egoísmo exacerbado que tomaram conta da sociedade nesse século XXI, podem estar ali subentendidos para quem quiser enxergar, o que o transforma em um filme atual, por esse ponto de vista. A sociedade global de 2013, seria o mesmo prato cheio para uma invasão alienígena em grande escala, que uma invasão comunista no subúrbio americano na década de 50. E com certeza demoraríamos muito, mas muuuuuito tempo para descobrir que seu vizinho de porta foi clonado por um alienígena, sendo que estamos sempre preocupados, atrasados, estressados e cada vez mais cortamos nossas relações sociais diárias com as pessoas.

    INVASORES DE CORPOS (1978)

    O Invasores de Corpos, filme baseado no clássico da ficção científica homônimo de Jack Finney, é com certeza o mais assustador dos filmes que trata sobre uma invasão alienígena no nosso planeta. Sem naves espaciais, sem armas devastadoras, sem criaturas gigantes… Apenas substituem os seres humanos por cópias perfeitas desprovidas de emoções.

    Invasores é um daqueles raros exemplos em que uma refilmagem supera a obra original, que diga-se de passagem, é um dos mais influentes filmes de sci-fi de todos os tempos: Vampiros de Almas, de 1956, dirigido por Don Siegel. A história se passa em uma cidadezinha onde os moradores são substituídos por alienígenas sistematicamente enquanto um médico tenta impedir a invasão. Para muitos, Vampiro de Almas é o exemplar perfeito do filme subversivo que funciona como uma metáfora da paranoia comunista que dominava os filmes de ficção daquela década.

    Kaufman resolveu fazer esse remake, mesmo sabendo que estaria mexendo em um respeitado clássico do gênero e simplesmente conseguiu entregar uma fita muito melhor que o original. Tirou toda e qualquer menção implícita sobre os temores da Guerra Fria, e transporta a ação para a cidade de São Francisco, ou seja, aumentando sua escala, para criar um clima de pânico e horror que vai crescendo a medida que os envolvidos vão se dando conta que estão sozinhos para combater uma conspiração em massa daqueles que antes eram seus amigos, maridos e vizinhos.

    Os Invasores de Corpos começa com o balé cósmico dos esporos alienígenas vagando através de ondas solares pelo espaço, até entrar em nossa atmosfera e serem semeados pela chuva em plantas e folhas, que serão os catalisadores dessa espécie de epidemia alienígena. A Dra. Elizabeth Driscoll (Brooke Adams) é a primeira que suspeita que alguma coisa está errada com seu marido, dando a crer que ele misteriosamente não seja ele mesmo e tenha sido substituído por alguma outra pessoa, com exatamente a mesma aparência e voz, porém frio e apático. Ela alerta o Dr. Matthew Bennell (Donald Sutherland), que trabalha junto com ela no Departamento de Saúde, que claro, à priori não acredita na moça e a leva para conversar com um amigo psiquiatra, o Dr. David Kibner (interpretado por Leonard “Spock” Nimoy, contribuindo em peso para também transformar essa versão em um clássico instânteano para os fãs de ficção científica).

    Logo, todos eles percebem que estão por sua própria conta e que praticamente toda a cidade já foi transformada. E que essa metamorfose acontece durante o sono. Ou seja, além de terem que fugir constantemente e tentar descobrir um jeito de impedir essa epidemia em massa, os heróis têm de lutar contra uma das mais poderosas forças que existem no mundo: o sono, pois caso contrário, suas sósias perfeitas brotarão de imensos casulos vegetais e tomarão seus lugares.

    A cena em que Matthew, Elizabeth, e o casal Jack e Nancy Bellicec (Jeff Goldblum e Veronica Cartwright) pegam no sono e os alienígenas começam a florescer, é realmente assustadora e muito bem construída pelo diretor, auxiliado por ótimos efeitos de maquiagem. Daí Os Invasores de Corpos torna-se uma fuga pela sobrevivência constante, sem saber em quem confiar e sempre perseguidos pela consciência coletiva dos alienígenas e seus terríveis gritos estridentes, acompanhado por uma trilha sonora quase esquizofrênica.

    O final do filme com certeza é um dos seus pontos altos, e um dos mais pessimistas da história do cinema de terror. E ao término, como se o choque não fosse o bastante, ele simplesmente corta para os créditos no mais completo silêncio, sem nenhuma trilha sonora. Efeito que por si só é devastador e apavorante ao mesmo tempo.

    INVASORES DE CORPOS (1993)

    Apenas dois fatores fazem de Invasores de Corpos um produto nada típico na carreira de Abel Ferrara. O primeiro diz respeito à origem, já que além de ser seu único trabalho em um estúdio – a Warner – trata-se da refilmagem de uma estória já contada em outras oportunidades pelo cinema (respectivamente em Vampiro de Almas, por Don Siegel, e Os Invasores de Corpos, por Phillip Kaufman). O segundo fica por conta do formato de filmagem, já que também ineditamente desde que estreou com o caótico O Assassino da Furadeira Ferrara faz filmes em Cinemascope, formato que aproveita o máximo possível das laterais da imagem.

    Quem conhece o cinema do nova-iorquino pode ficar receoso pelas circunstâncias em que Invasores de Corpos foi realizado, inclusive eu mesmo sempre me mantive cético antes de assisti-lo. Mas bastaram dois ou três minutos e algumas linhas de narração pra que o pé atrás se transformasse em um salto, de felicidade e de surpresa, na mesma medida. Porque a visão de Ferrara sobre o material e sobre os próprios filmes de Siegel e Kaufman é tão extraordinária que eu não consigo acreditar que outro diretor da atualidade tenha tamanha facilidade de se auto-imprimir em projetos tão distintos como ele demonstra em trabalhos aparentemente tão impessoais como esse.

    Ferrara trabalhou o filme de gênero em diversas oportunidades e formatos, já viajou pelo policial (O Rei de Nova York, Vício Frenético, Cidade do Medo), pela ficção-científica (New Rose Hotel), pelo horror (The Addiction), pelo metalingüístico (The Blackout, Olhos de Serpente), pelo drama (Maria, O Assassino da Furadeira), mas manteve uma unidade em torno de suas obsessões – que assumem variações importantíssimas – em todas as oportunidades. Os Invasores de Corpos é mais um capítulo de suas aventuras – e dessa vez ainda mais forte do que a maioria das citadas – pelo gênero cinematográfico, e como de costume também não deixa de tratar de temas caros à essência do cineasta.

    A primeira grande sacada – e aqui vai uma nota ao nosso querido Roland Emmerich – é deslocar seus personagens a um microcosmo, coisa que não ocorre com tanta intensidade nos anteriores. Aliás, tenho a impressão de que todo filme catástrofe sempre demonstre a necessidade de se apegar a uma definição irredutível de limites, não em seu quadro de personagens ou trama – como faz Emmerich no horroroso O Dia Depois de Amanhã, querendo falar da política mundial e de questões nitidamente universais se apegando à história frágil e fracassada de um pai que corre o país todo para salvar o filho – mas sim na própria construção do ambiente em que vai panfletar seu discurso (de certa forma muitos fazem, mas não conseguem controlá-los).

    A seleção desse microcosmo, pra facilitar, não poderia ser mais acertada do que a da base militar de Ferrara, que é pra onde vai a família protagonista – inteligentíssima também a própria desconstrução que ele aos poucos faz dessa instituição, sem rompê-la, simplesmente entregando-a ao processo gradativo de desumanização. É lá que os primeiros indícios de estranheza são verificados e também é nela que as coisas vão começar efetivamente a acontecer. Contrariando o que havia feito em O Rei de Nova York e Vício Frenético, Ferrara substitui sua apreciação por terceiros atos – esses dois particularmente iniciam exatamente onde há o princípio do fim – por um estudo das origens, da instalação do mal, e que curiosamente é concluído no momento em que um diretor comum daria início ao seu ato intermediário e esfregaria as mãos de felicidade por finalmente engatar seu filme.

    Invasores de Corpos, ao invés de um olhar que procura invadir o físico, como quase todo filme de Ferrara – curiosamente o próprio Ferrara é o grande invasor de corpos do cinema contemporâneo -, nada mais é do que seu mais trabalhado relato de projeção, no caso a projeção da tragédia, do apocalipse, uma projeção que talvez preencha o espaço deixado a completar em filmes anteriores e que dá deixa à mais genuína sensação de inexatidão. É o cinema de Ferrara feito de dentro pra fora, um nascimento que jamais parte do natural, pelo contrário, nasce do oco, do vão deixado pela transformação dos corpos humanos para a imperialização dos alienígenas – figuras que podem ser consideradas a própria materialização da psicologia de seus protagonistas anteriores, sempre marginalizados, desumanizados.

    A noção de apocalipse que toma conta desse estabelecimento de bases transforma Invasores de Corpos em uma obra-prima sem nem mesmo ser necessária uma revisitação aos conceitos de Ferrara, tanto pela noção de estrutura que toda a decorrência do mistério e, principalmente, a forma e o momento em que a conclusão inconclusiva se instala na narrativa apresentam, quanto pela estética particularmente surpreendente. O filme poderia tranquilamente ser exemplo acadêmico pela utilização das extremidades do Cinemascope – ver no cinema deve ter sido um espetáculo -, e mais ainda, um seguidor genuíno no que diz respeito ao ritmo de gradatividade elucidatória de outro extraordinário filme de alien contemporâneo – e outra refilmagem, vale lembrar -, O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter.

    Só vence ele, aliás, por um fator determinante. O final de The Thing é particularmente desesperador por discursar pelo pessoal no isolamento (microcosmos), mas o pessoal a serviço do social em que se instala o final feliz mais sem perspectivas de que eu me recordo desde que Wilder filmou Farrapo Humano faz deste Invasores de Corpos um dos momentos mais importantes da ficção-científica em anos – só foi batido pelo próprio Ferrara em New Rose Hotel, um filme que sinceramente acredito que deva ser melhor compreendido daqui a umas quatro décadas. Consegue resolver tão bem o passado e deixar uma incerteza tão assustadora para o futuro que a sensação de desespero acaba superando qualquer outra já transmitida por um filme de invasão.

    A INVASÃO (2007)

    Valerá a pena sacrificar aquilo que nos define como seres humanos - a emoção -, por um Mundo equilibrado e pacífico? A resposta é ambígua e deixa um sabor a amargo em "A Invasão", um filme competente mas formulaico, apesar das interpretações de grande nível.

    As filmagens de "A Invasão", uma reciclagem do já por si multireciclado "The Body Snatchers" não foram tranquilas. Parece que os estúdios não ficaram satisfeitos com o resultado final da obra do realizador alemão Oliver Hirschbiegel ("A Queda") e encomendaram aos irmãos Wachowsky ("The Matrix") a reescrita do argumento e a James McTeigue ("V de Vingança") cenas adicionais que compusessem o filme. Não se conhece se o resultado desta mexida abrupta terá alterado significativamente a obra original, mas mesmo assim a "A Invasão" redunda num filme satisfatório e genuinamente de entretenimento.

    Nesta "Guerra dos Mundos" onde Nicole Kidman troca de papel com Tom Cruise, como uma mãe disposta a enfrentar a ameaça alienígena para salvar o filho, há uma nota digna de registo: a montagem é soberba, tornando o filme mais fluido e "suspenseful", com os constantes "forwards". À excepção deste rasgo técnico, tudo o resto é o que já vimos.

    Embora ainda agora não esteja certo se Kidman é a escolha mais correta para este tipo de papel - a actriz é tão "bloco de gelo" que mais parece alinhar pelo bloco extraterrestre -, a australiana oscarizada tem aqui, talvez por essa característica, uma das melhores interpretações da sua carreira. Provavelmente, "A Invasão" não necessita de uma mulher vulnerável, mas cerebral o suficiente para discernir as potencialidades de sobrevivência a contra-relógio. E nisso, Kidman é exemplar.

    Ao invés, não se entende muito bem o que faz ali Daniel Craig. Par romântico? Talvez, mas pouco. "Sidekick"? Talvez, mas muito pouco. O actor entra e sai de cena a uma velocidade espantosa - provavelmente, porque foi durante a rodagem do filme que soube que iria substituir Pierce Brosnan como James Bond e ausentou-se para intermináveis reuniões com a família Broccoli. No cômputo geral, é Nicole Kidman que sustenta todo o filme, que poderia ser mais "dark" e viscoso e não tão depurado, high-tech e... azul-cinza. 


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