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    FRANKENSTEIN (UNIVERSAL STUDIOS) NO CINEMA



    FRANKENSTEIN (1931)

    Frankenstein é o segundo clássico filme de monstro da Universal. Embalado pelo sucesso de Drácula no mesmo ano, Carl Laemmle Jr. convida o diretor James Whale para contar a história do cientista que queria brincar de Deus, e que resulta em uma produção tecnicamente muito superior ao filme do conde.

    Em uma cena de abertura mega marqueteira, Edward Van Sloan (que interpreta o Dr. Waldman, e também Van Helsing em Drácula), aparece por de trás das cortinas e convida o espectador a acompanhar a história do Dr. Frankenstein, dando o aviso àqueles de nervos fracos sobre os eventos horripilantes que estão prestes a assistir.

    Corte de cena e o obcecado doutor Henry Frankenstein (não me pergunte porque o nome dele não é Victor como no livro) e seu assistente (Dwight Frye, mais uma vez fantástico) estão violando um cemitério em busca de corpos para dar continuidade em seu experimento macabro de trazer sua criatura à vida. Preocupado com a sanidade do noivo, Elizabeth e o amigo do casal, Victor Moritz, que nutre uma paixão secreta pela garota, pedem ajuda ao antigo tutor de Frankenstein (o tal Dr. Waldman) para demovê-lo da ideia, só que tarde demais. É claro que mais tarde o monstro vai sair do controle e tocar o terror no vilarejo, até matar uma pequena garota (sem querer, diga-se de passagem, em uma cena que lembra muito O Golem) e ser perseguido por uma turba enfurecida, antes do confronto final entre criador e criatura.

    E a criatura é a grande cereja do bolo do filme. Boris Karloff torna-se aqui o mais novo astro dos filmes de terror, pegando o papel que foi recusado por Bela Lugosi, porque vejam só, ele não queria ficar estigmatizado. Nos créditos iniciais do filme, aparece um “?” no lugar do nome do ator que faz o papel da aberração, e Karloff consegue ao mesmo tempo assustar e comover, como o terrível, mas também incompreendido, monstro.

    Jack Pierce foi o maquiador responsável por dar a aparência inesquecível ao cadáver, que tornou-se um ícone não só do cinema de horror, mas da sétima arte em si. A cabeça achatada, braços alongados, cicatrizes, os pinos no pescoço, está tudo lá, além do figurino pensado por Whale: a roupa larga e esfarrapada e as botas de asfaltador.
    Whale merece um parágrafo a parte pela sua direção segura, pegando o livro de Mary Shelley, que pelo menos eu considero um saco e muito mal escrito, e transformando numa obra prima do terror, introduzindo conceitos que seriam lembrados e copiados para sempre, como o arquétipo do cientista louco, o ajudante corcunda e as máquinas elétricas que deram vida à experiência do Dr. Frankenstein.
     
    Os últimos dias da vida do diretor, que era homossexual, foram retratados em um ótimo filme chamado Deuses e Monstros, dirigido por Bill Condon, ganhador do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, com Sir Ian Mckellen no papel de Whale e Brendan Fraser como seu jardineiro, por quem desenvolveu uma intensa amizade. Vale muito a pena assistir.
    Frankenstein gerou inúmeras continuações e a história foi readaptada diversas vezes no cinema, a última foi a versão ególatra de Kenneth Branagh filmada em 1994 com Robert De Niro no papel da criatura. É sofrível. E olha que eu já achava isso quando assisti pela primeira vez, ainda adolescente.

    A NOIVA DE FRANKESNTEIN (1935)

    Levou quatro anos para que a Universal conseguisse convencer o diretor James Whale a dirigir a continuação de sua obra prima, Frankenstein. Relutante, ele só topou embarcar em A Noiva de Frankenstein se tivesse controle irrestrito sobre o projeto, algo que só foi possível graças as férias do produtor Carl Laemme Jr. na Europa durante as filmagens do longa.

    Por muitos, A Noiva de Frankenstein é superior ao original, muito devido ao toque de Whale e a já afinidade de Karloff com o personagem, que volta mais uma vez como a criatura incompreendida, em busca de uma parceira para por fim a sua miserável solidão. O resultado é uma mistura de horror com comédia e a criação de uma nova criatura visualmente tão impactante quanto o monstro original, dando origem a uma personagem feminina icônica para o cinema de horror, mesmo com sua breve aparição na tela.

    Quase uma tragédia grega, o pathos do monstro de Frankenstein nos é contado pela própria criadora do personagem, Mary Shelley (interpretada por Elsa Lanchester, que também faz o papel da noiva), que logo no começo da fita, em uma noite de tempestade, reunida com Lorde Byron e seu marido Percey Bysshe Shelley, narra a história de como a criatura sobreviveu logo após ter sido caçada e encurralada no moinho incendiado imediatamente ao final do primeiro filme.

    Henry Frankenstein sobrevive e pretende deixar toda sua insanidade de lado e viver uma vida pacífica com sua assustada esposa Elizabeth, quando entra em cena um afetado Dr. Pretorius, que está bitolado com a ideia de continuar a criar vida e precisa da ajuda do Dr. Frankenstein para gerar uma mulher para o monstro, e assim, abominando todas as leis de Deus, fazer com que o casal procrie e dê à luz a uma nova raça, firmando assim o domínio do homem sobre a vida.

    Nesse ínterim, o monstro continua vagando pelos bosques, perseguido como um animal e praticando assassinato apenas como forma de sobreviver dos terríveis maus tratos e da repressão causada pelos outros humanos. É um anti-herói, produto do meio hostil que vive, angustiado e perturbado que acaba por conhecer a amizade e o conforto na figura de um solitário aldeão cego, que abriga a criatura, cuidando de seus ferimentos, ensinando-lhe a beber vinho, fumar cigarro, apreciar música, falar e claro, alguns bons e velhos valores cristãos.

    Mas isso de nada vale quando ele volta a ser caçado ao ser encontrado pelos homens do vilarejo, trazendo de volta seus instintos violentos e tornando-se uma marionete nas mãos de Pretorius, obrigando seu criador a ajudar o cartunesco vilão a criar a sua esposa. A cena em que os “noivos” se encontram é das mais comoventes, já que ela o rejeita à primeira vista, devido a sua grotesca aparência.

    A ideia do monstro articular palavras traz A Noiva de Frankenstein mais próximo do conto original de Mary Shelley. Mas mesmo assim, Karloff foi um opositor ferrenho da ideia de humanizar a criatura e que ela pudesse falar. E as falas do monstro no final das contas acabaram sendo um dos pontos que puxa para o lado burlesco e teatral da direção de Whale  e a  mistura de tons que ele imprime na produção. Prova disse são os diálogos debilóides da Karloff com o aldeão cego: “Amigo, bom. Sozinho, ruim”, e por aí vai.

    Não obstante, Whale descarrega mais do ar cômico na personagem Minnie, interpretada por Una O’Connor (como já havia explorado anteriormente em O Homem Invisível) , a exagerada e desmiolada empregada dos Frankensteins, e no próprio Dr. Pretorius, com sua estapafúrdia coleção de seres humanos em miniatura que vivem dentro de jarros (!!!???). Em contrapartida, os momentos de horror são acentuados pelas mortes causadas pelo monstro em maior profusão que o primeiro filme (mesmo com 15 minutos de cenas agressivas protagonizadas por Karloffo cortados por Whale, para manter a mensagem do cristão sofredor). Junta-se tudo isso a maquiagem de Jack Pierce melhor do que nunca e a mais uma vez a brilhante atuação de Karloff do maltrapilho e cabeçudo monstro, e temos um clássico eterno!

    O FILHO DE FRANKENSTEIN (1939)

    Depois da A Noiva de Frankenstein, era hora de outro parente dar título a um novo filme da famosa criatura trazida à vida e eternizada por Boris Karloff, saciando a insaciável vontade da Universal em explorar seus monstros até a última gota e continuar faturando alguns trocados em cima deles. Estou falando dessa vez de O Filho de Frankenstein, lançado em 1939, um ano após Drácula e Frankenstein terem voltado aos cinemas e despertado novo interesse no público.

    Mas diferente, por exemplo, de A Filha de Drácula, O Filho de Frankenstein na verdade é um excelente filme, e um dos melhores da era de ouro do cinema de terror da Universal, seguindo muito bem os passos dos dois filmes anteriores e mantendo a qualidade lá em cima, mesmo sem James Whale na direção, que não havia se adaptado à nova chefia do estúdio, uma vez que os Laemmles perderam o controle do estúdio de 1936 e Whale foi chutado. O diretor Rowland V. Lee segurou muito bem as pontas, com uma direção impecável e fotografia belíssima, remetendo aos filmes do começo da década com forte influência do expressionismo alemão, principalmente tratando-se de composições de cenários.

    O elenco é espetacular. Um show a parte. Quatro dos principais atores do cinema de terror da década de 30 estão juntos nessa fita, e todos eles estão simplesmente fantásticos. Karloff aqui retorna pela última vez como o monstro incompreendido que o catapultou ao estrelato. Seu melhor amigo dessa vez é Ygor, um corcunda condenado à morte que sobreviveu ao enforcamento, que vive como um pária da sociedade. Lugosi faz o papel de Ygor, em uma atuação magnífica, mesmo que contentando-se em um papel secundário. Na verdade nessa altura do campeonato Lugosi já estavam em plena decadência e passando por uma difícil situação financeira. Inicialmente seu papel era minúsculo e ele ganharia uma mixórdia de salário, sendo explorado pelos chefões do estúdio. Mas indignado com a situação, o diretor Rowlando V. Lee foi aumentando sua participação e importância na trama, fazendo assim com que Lugosi ganhasse um salario mais decente.

    Basil Rathbone faz o papel do Barão Wolf von Frankenstein, o tal filho de Franekenstein (afinal nunca se esqueça que Frankenstein é o cientista, e não o monstro, como muita gente ainda erra, e isso é até comentado no próprio filme, onde indignado com o tratamento sempre dado a seu pai, Wolf diz que nove em cada 10 pessoas confundem o nome da criatura com o pai).  Também é digno de uma atuação excelente. Detalhe que Rathbone, eternizado como Sherlock Holmes nos filmes do personagem na déacada de 40, acabou substituindo Peter Lorre, de M, O Vampiro de Dusseldorf e Dr. Gogol – O Médico Louco, que não pode fazer o papel por motivos de saúde. Completa o quarteto o também sempre eficiente Lionel Atwill como o inspetor Krogh, outro grande nome do cinema de horror, que já havia atuado em filmes como O Morcego Vampiro, Os Crimes do Museu e A Marca do Vampiro.

    Bom, Wolf Frankenstein volta à sua terra natal já com a pecha de ser filho do cientista louco que espalhou a desgraça pelo local, trazendo a sua infame criatura à vida. Além de viver sob o preconceito do vilarejo, ainda terá de lidar com a polícia e os magistrados sempre suspeitando de que uma hora ou outra ele seguirá os passos do pai. E é claro que ele vai fazer isso, quando descobre que o monstro está vivo através do ferreiro Ygor, que o salvou da destruição e ajuda Frankenstein a reconstruir o laboratório do pai e curá-lo em um novo processo de galvanização, tentando limpar o nome do progenitor.

    Porém Ygor começa a conduzir a criatura para servir como instrumento de sua vingança pessoal, matando os oitos juízes que o condenaram a forca por roubo de cadáveres, trabalho que fazia para que Henry Frankenstein, o pai, desse continuidade em suas experiências. Wolf e o Inspetor Krogh devem tentar impedir a criatura, que irá se voltar contra a família do Barão e sequestrar seu filho, levando-o até o laboratório para o embate final.

    Karloff, com um novo figurino, agora usando um colete de pele de animal bem demodê em cima da já sua famosa roupa preta esfarrapada, dá adeus a criatura saindo por cima da carne seca, em mais um excelente filme desse clássico personagem da literatura, antevendo que a Universal continuaria explorando a imagem do monstro, mas sem mais nada de novo a acrescentar e trazendo somente mais do mesmo, sem aquele conteúdo psicológico complexo apresentado nos dois primeiros filmes. Aqui mesmo, ele já está mais cruel e inteligível em relação aos anteriores, sem demonstrar aquele toque de compaixão e inocência que rondava sua imagem. Daí para frente o monstro se tornaria uma alegoria, resumindo-se a um simples assassino em O Fantasma de Frankenstein e A Casa de Frankenstein, e chegando até a sair na mão com o lobisomem em um crossover do estúdio.

    Uma curiosidade é que originalmente O Filho de Frankenstein era para ser produzido à cores. Mas a Universal resolveu voltar atrás da ideia depois do resultado não sair como esperado, principalmente no que se diz respeito a maquiagem de Karloff e o seu estranho tom de verde. Isso na verdade acabou contribuindo com o filme, que pode explorar a fotografia preto e branca, utilizando muito bem o jogo de luz e sombra, ambientação de cenários (alguns pintados, ao melhor estilo expressionismo alemão, que ficaria muito tosco se fosse colorido) e figurino.

    O Filho de Frankenstein infelizmente não fez tanto sucesso quanto seus dois antecessores, e não teve a mesma receptividade do público, talvez já cansado da fórmula, que ainda viria a ser repetida diversas outras vezes, com essa e outras franquias de monstros da Universal. Posteriormente a fita ganhou seu devido reconhecimento da crítica e não deixa nada a desejar à saga do criador e de sua criatura.

    FANTASMA DE FRANKENSTEIN (1942)

    E lá vamos nós com mais uma sequência dos filmes de Frankenstein. O Fantasma de Frankenstein já é o quarto da série. É tipo o Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo e Jogos Mortais da época!

    Também é o primeiro em que Boris Karloff não interpreta o monstro, tendo pulado do barco (sabiamente) antes de afundar em O Filho de Frankenstein. Agora quem herda o papel da criatura é Lon Chaney Jr., credenciado pelo seu papel em O Lobisomem, e claro, por ser filho de Lon Chaney, o Homem das Mil Faces. Em compensação ali está o decadente Bela Lugosi, atuando em uma franquia decadente também.

    Dirigido por Erie C. Kenton, de A Ilha das Almas Selvagens, aqui Lugosi reprisa o papel de Ygor, que fez tanto sucesso no filme anterior, escrito especialmente para ele, que novamente o personagem foi utilizado em O Fantasma de Frankenstein. E o filme já começa com Ygor e o monstro fugindo da velha turba enfurecida, com seus forcados e tochas (que originalidade!!!), enquanto eles estão explodindo de vez o castelo e laboratório do Dr. Frankenstein. Ou seja, tanto Ygor não morreu levando tiros no último filme, como a criatura ao cair no poço.

    E lá vão ambos para um novo vilarejo atrás de outro filho do Barão Frankenstein, dessa vez Ludwig, para que ele possa curar o monstro, único amigo do escroque. Só que como bem sabemos, todos os Frankensteins tem um parafuso a menos, e claro que ao invés de destruir a criatura, ele vai dar um jeito de continuar os experimentos do pai. Só que dessa vez ele tem uma estapafúrdia ideia de trocar o cérebro do monstro por outro renomado médico, que era uma espécie de desafeto de Frankenstein. Auxiliado pelo Dr. Bohmer (interpretado por outro famoso ator dos filmes de terror, Lionel Atwill), o plano dá errado quando Bohmer utiliza então o cérebro de Ygor, ao invés do doutor, seduzido pelas promessas de poder do vilão. Daí veremos um monstro de Frankenstein inteligente, perverso e falando com sotaque húngaro!

    Chaney não chega nem aos pés de fazer a criatura como Karloff, desculpem. É até um insulto ver outro ator no papel do monstro com a cabeça quadrada, andar duro e pinos no pescoço. Se Karloff não quisesse mais fazer o papel, não fizessem mais continuações, oras! Mas vai falar isso para as caixas registradoras da Universal. Além disso de novo vamos ver a mesma situação manjada dos filmes anteriores: alguém da família Frankenstein sem um pingo de juízo, moradores revoltosos, a amizade do monstro com uma criança… Fora isso todo o aspecto atormentado que ele carregou nos outros filmes, aqui vai para o ralo, e ele transforma-se em um simples autômato mudo (até receber o cérebro de Ygor), que não desperta aquele sentimento dúbio que tínhamos antes por ele.

    Para mim, O Fantasma de Frankenstein é o ponto que decreta o final da Era de Ouro dos Monstros da Universal. As infindáveis sequências conseguiram tirar todo o brilho dos filmes do estúdio. Claro que algumas conseguiram ser interessantes como A Noiva de Frankenstein e A Volta do Homem Invisível, e o original O Lobisomem, mas tudo que vier daqui para frente será com uma qualidade muito inferior e completamente desnecessário, até chegarmos ao filme derradeiro desse ciclo da Universal, O Monstro da Lagoa Negra, lançado em 1954. Que também gerou continuações, óbvio!

    FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM (1943)

    Isso sim foi uma jogada de mestre da Universal. Em 1943, o estúdio, casa de todos os monstros, resolveu fazer um crossover entre duas das suas mais famosas criaturas em Frankenstein Encontra o Lobisomem. E deu muito certo! Afinal, ver os dois monstengos juntos em um filme é um prato cheio para qualquer fã do cinema de horror.

    Eu lembro a primeira vez que vi esse filme. O ano era 1997, e ele passou certa madrugada no extinto USA Channel (hoje Universal Channel) na também extinta operadora de TV a cabo Multicanal (hoje NET). Meu primo, um grande fã de filmes de terror como eu, pediu até para gravá-lo (lembram-se do videocassete? rs), pois era um clássico que ele lembrava da sua infância.

    O peludo mais uma vez é interpretado por Lon Chaney Jr., reprisando seu monstro de maior sucesso em O Lobisomem, de 1941. Já a criatura de cabeça quadrada criada pelo Dr. Frankenstein foi interpretado, ora ora, por Bela Lugosi. Lembram-se qual foi a reação do ator ao ser convidado para viver o papel da criatura logo após Drácula? “Eu sou um ator, não um espantalho?”. Foi isso que o ator húngaro disse ao recusar o papel em Frankenstein, porque não teria nenhuma fala durante todo o filme e teria que ficar escondido embaixo de pesada maquiagem. O resto é história. William Henry Pratt assumiu o papel do monstro, e seu nome artístico, Boris Karloff, seria eternizado para sempre como um dos maiores atores do cinema de horror e teria muito mais destaque nas telas que Lugosi, que entrou em uma profunda decadência até morrer na pobreza e solidão, fazendo filmes precários de Ed Wood e viciado em morfina.

    Como o mundo dá voltas, não é? Aqui Lugosi faz o papel do monstro, sem nenhuma fala, todo coberto por maquiagem, e ainda é um mero coadjuvante, sendo que o lobisomem de Chaney (que também viveu o monstro no posterior O Fantasma de Frankenstein) é o personagem principal e toda a trama é centrada nele. Na verdade, Frankenstein Encontra o Lobisomem é uma continuação oficial do filme de Geroge Waggner lançado dois anos antes.

    A história começa com dois ladrões tentando saquear o túmulo dos Talbot, e ao abrir a sepultura de Lawrence, acabam acordando o licantropo, que não havia morrido no final do primeiro filme, e estava sendo mantido preso em baixo de quilos e quilos de mata-lobos (a planta do poema: “Mesmo um homem puro de coração”… e blá, blá, blá). Claro que junto com o atormentado Talbot, a maldição de se transformar toda lua cheia na selvagem criatura também retorna, e o sofrido rapaz quer de uma vez por todas dar cabo de sua vida e poder descansar em paz.

    Obcecado em descobrir uma forma de morrer (acho que ele nunca tinha ouvido falar de balas de prata), Talbot junto com a cigana Maleva, aquela mesma que o alertou no primeiro filme e mãe do lobisomem original que o mordeu (que foi interpretado por Lugosi), resolvem ira até o antigo vilarejo onde vivia o Dr. Frankenstein, tentando encontrar um meio, através de suas experiências com vida e morte, de arrumar uma forma de matar a criatura eterna. Em uma das suas transformações, perseguido pela turba enfurecida (sempre eles), Talbot cai nos escombros da antiga mansão Frankenstein e lá encontra o monstro congelado no subterrâneo. O monstro de Frankenstein é mais fodão que o Jason e o Michael Myers juntos! O grandalhão já foi explodido, queimado, soterrado, atirado no fosso de piche… Mas ele sempre tá lá, vivo e inteirão.

    O Dr. Frank Mannering junto da baronesa Elsa Frankenstein, terceira geração da família de cientistas loucos, resolvem ajudar Talbot com as escritas do diário de seu pai. Mannering reconstrói a máquina do Dr. Frankenstein e pretende através dela matar dois coelhos com uma cajadada só: eliminar a energia do monstro e do lobisomem e livrar o mundo dessas duas pragas. Mas claro, óbvio, que na hora H, tomado por um desejo de poder, o Dr. Mannering ao invés de sugar a energia do monstro verde, vai deixá-lo ainda mais poderoso, colocando-o em um embate mortal (e infelizmente extremamente rápido, durando somente os cinco minutos finais do filme), com o lobisomem, até eles serem inundados pelos aldeões que explodem a barragem.

    Mais uma vez Chaney tem uma atuação muito interessante como o amargurado Larry Talbot, com aquela cara mista de bundão com cachorro largado na chuva, sofrendo horrores, até virar um monstro ágil, peludo e incontrolável nas noites de lua cheia. Lugosi faz o feijão com arroz como o monstro de Frankenstein. Aqui, um detalhe foi o furo no roteiro imenso se levarmos em consideração a cronologia dos filmes, já que em O Fantasma de Frankenstein, o cérebro do monstro foi substituído pelo cérebro do vilão Ygor (também vivido por Lugosi), dando a ele inteligência, capacidade de falar e deixando-o cego. Houve uma explicação no final de O Fantasma de Frankenstein de que a criatura e Ygor não possuíam o mesmo tipo sanguíneo, por isso a cegueira. Estou chutando aqui que talvez então o transplante de cérebro tenha sido mal sucedido e a criatura tenha voltado ao estado irracional e grunhindo apenas algumas palavras.

    Frankenstein Encontra o Lobisomem é um filme divertidíssimo. Novamente o mago da maquiagem Jack Pierce manda muito bem na aparência do homem lobo e do grandalhão verde, e nas cenas de transformação de Chaney utilizando a já famosa sobreposição de imagens. Atrevo-me a dizer que esse duelo de titãs dos monstros da Universal é infinitamente superior aos encontros de Freddy VS. Jason e Alien VS. Predador, por exemplo, que são duas bombas.

    A CASA DE FRANKENSTEIN (1944)

    Boris Karloff retorna a franquia que lhe catapultou ao estrelato em A Casa de Frankenstein. Mas dessa vez não mais como criatura, e sim como criador. Além disso, a fita é responsável por enfiar no mesmo balaio de gato os três mais importantes monstros da Universal: o monstro de Frankenstein, Drácula e o lobisomem.

    Só faltou mesmo a múmia dar as caras por aqui, nessa verdadeira festa dos monstros malucos. E o Homem Invisível também não foi convidado. Já o Monstro da Lagoa Negra só teria seu primeiro longa lançado dez anos depois. Então aqui temos a nata das criaturas mais tenebrosas do estúdio, todas juntas pela primeira vez.

    Pois bem, seguindo mais ou menos uma linha cronológica deixada pelos outros filmes de Frankenstein, que seria o fio condutor para alinhar todos os monstros por aqui, A Casa de Frankenstein começa com o louco Dr. Niemann, vivido por Karloff, cumprindo sentença em uma prisão, por ter sido incriminado por realizar experiências poucos ortodoxas e também roubar cadáveres, assim com o outrora proeminente Dr. Frankenstein. Uma tempestade de raios abre uma passagem na cadeia e Niemann, junto com seu comparsa, o corcunda Daniel (ser corcunda era pré-requisito para ser ajudante de um cientista louco), fogem em busca de vingança e do diário do Dr. Frankenstein, para dar continuidade em seus experimentos bizarros.

    Na fuga eles conhecem Lampini, um empresário de um circo mambembe que leva para as cidades uma câmara dos horrores itinerante, e sua principal atração é nada mais, nada menos, que o esqueleto original do Conde Drácula, que jaz em sua tumba, com uma estaca enfiada em seu coração. Diz Lampini que os restos mortais foram roubados em sua própria catacumba à beira dos Montes Cárpatos.

    Niemann e Daniel matam Lamipini e o cocheiro e assumem suas identidades, partindo em busca de vingança contra aqueles que os colocaram na cadeia, e em sequência, encontrar as anotações de Frankenstein. A primeira parada é para assassinar Carl Hussman, burgomestre da antiga cidade onde Niemann residia. E quem ele vai usar para matá-lo? O Conde Drácula, claro. Niemann retira a estaca do vampiro, que promete servi-lo em troca de manter seu caixão sempre protegido para quando os primeiros raios de sol brilharem e o morto-vivo poder voltar a dormir em segurança. Onde já se viu? Interpretado pessimamente por John Carradine (ah, que saudades de Drácula de Lugosi), o terrível Conde vira capacho de um reles mortal. Mas tudo bem, Drácula suga o sangue de Hussman e depois começa a escapar da polícia local em uma tresloucada perseguição de carruagem (???!!!!) mas acaba sendo enganado por Niemann e vira churrasquinho quando o sol nasce.

    Beleza, maneira cretina de colocar o Drácula na história. Como se não bastasse, Niemann e Daniel ainda vão se deparar com o monstro de Frankenstein e o lobisomem, ambos congelados nos escombros da antiga mansão do cientista louco, que foi inundada quando a barragem foi destruída em Frankenstein Encontra o Lobisomem. Larry Talbot, mais uma vez vivido por Lon Chaney Jr., continua amargurado em busca de uma forma de acabar com sua vida de uma vez por todas, e acredita que Niemann pode ajudá-lo. Mas claro que o maléfico cientista quer na verdade descobrir os segredos da vida e da morte e trazer novamente o monstrengão verde à vida (aqui interpretado pelo ilustre desconhecido Glenn Strange).

    Mas Talbot acaba caindo de amores pela cigana Ilonka, resgatada pelo apaixonado Daniel de um vilarejo, quando estava sendo terrivelmente espancada pelo dono do acampamento. Detalhe que a cena visivelmente é uma homenagem da Universal a O Corcunda de Notre Dame, já que a cigana Ilonka dançando, lembra muito Esmeralda, e desperta a paixão no coração sofrido de Daniel, como aconteceu com Quasímodo. Só que é óbvio que Ilonka vai se engraçar com o homem lobo, ao invés do feiosão torto.

    No final, todos os vilões são derrotados e parece que finalmente a paz voltará a reinar na humanidade, sem nenhum monstro para poder tocar o terror nos vilarejos e serem perseguidos pelas turbas enfurecidas. Só que não. Depois de A Casa de Frankenstein, no ano seguinte foi lançado A Casa de Drácula (meu Deus, quando isso vai parar????) e novamente todos as criaturas estarão reunidas para sua derradeira aventura.

    A Casa de Frankenstein no final das contas vale muito por ver Karloff voltando a um filme de Frankenstein, deixando de lado a maquiagem pesada e os grunhidos, fazendo agora às vezes do cientista louco que quer controlar a criatura, a qual já viveu na pele um dia.


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