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    FRANKENSTEIN (HAMMER FILMS) NO CINEMA


    MALDIÇÃO DE FRANKENSTEIN (1957)

    É preciso afirmar que A Maldição de Frankenstein iniciou uma nova era no cinema de terror. Primeiro, por ser a primeira produção do lendário estúdio inglês Hammer Films atualizando os clássicos de monstro da Universal. Segundo, por ser a primeira aparição da dupla Peter Cushing e Cristopher Lee em cena. Terceiro, por trazer cores vivas ao universo do horror. E quarto, e não menos importante, por finalmente mostrar aquilo que todo fã que se preze mais gosta de ver no gênero: sangue!

    É bom se atentar ao momento histórico do lançamento de A Maldição de Frankenstein. Após os filmes de monstro da Universal terem tomado de assalto os cinemas no início da década de 30 e suas infindáveis continuações, seguidos pelos filmes da RKO Radio Pictures e do Poverty Row na década de 40, após a Segunda Guerra Mundial sabemos que o terror mesmo, aquele de verdade, praticamente minguou a partir de 1947. Os olhos do cinema fantástico estavam voltados ao sci-fi com seus monstros espaciais, invasões alienígenas e alegorias para o medo nuclear e o comunismo.

    Foi nesse contexto que a Hammer, que já havia tido sua incursão na ficção científica com Terror que Mata e X, O Monstro Radioativo, e em seu filme próprio de monstro, O Abominável Homem das Neves, resolveu refilmar os clássicos de monstro da Universal em cores, trazendo para o espectador um novo aspecto de horror mais gráfico e abusando, na medida do possível, do vermelho vivo do sangue para chocar a plateia.


    Tanto que se você acompanhar a evolução do cinema de horror, verá que esse é o primeiro longa que além de mostrar sangue de verdade (quer dizer, de mentira né…) em vermelho vivo, traz partes de corpos decepados como mãos, olhos e cérebros. E ah, como a gente adora ver isso depois de uma batelada de filmes em preto e branco cercados de uma certa aura de inocência, digamos assim.

    Ou seja, A Maldição de Frankenstein é muito mais violento que todos os seus predecessores. E mais que isso, cria uma certa marca registrada com seus filmes com aquele ar cafona vitoriano de castelos e carruagens, dá uma luz ao termo Grand Guignol, que seria o pai do cinema gore, eleva a violência gráfica a um novo patamar e claro, traz aos efeitos de maquiagem em látex para a era do technicolor.

    A história é a mesma que conhecemos, só que mais visceral. Peter Cushing interpreta o bitolado Barão Victor Von Frankenstein em sua busca insana por construir uma criatura a partir de partes de mortos e trazê-la a vida. E a criatura é o debute de Cristopher Lee nas telas, que um ano mais tarde, se consagraria no papel como o conde Drácula definitivo, e hoje está no Guinness como o ator que mais atuou em filmes durante toda a história da sétima arte (e contando, afinal acabou de estrelar O Hobbit).

    A criatura pode não ter o mesmo charme de Boris Karloff e a maquiagem eternizada por Jack Pierce em Frankenstein da Universal, mas a Hammer preferiu dar um aspecto mais cadavérico ao monstro, deixando-o com um horrível corpo putrefato, retalhado e com escaras.

    Claro que para a época o longa recebeu uma enxurrada críticas negativas, sendo considerado pela implacável censura britânica uma “afronta ao bom gosto”. Mas como o que é do homem o bicho não come, A Maldição de Frankenstein foi um sucesso de bilheteria e a pedra angular para o estúdio que nos próximos 20 anos se dedicaria ao cinema de horror, fazendo incontáveis clássicos e eternizando os gentlemans Cushing e Lee, que para mim, são os dois maiores astros dos filmes de terror de todos os tempos.

    VINGANÇA DE FRANKENSTEIN (1958)

    Após os sucessos de A Maldição de Frankesntein e O Vampiro de Noite, o estúdio britânico Hammer escreveu seu nome para sempre seu lugar na história do horror, transportando para o cinema colorido os monstros clássicos que outrora pertenceram à Universal, elevando claramente o nível das produções e imprimindo características únicas e peculiares que seriam marcas registradas do estúdio.

    A Vingança de Frankenstein vem para consolidar a franquia da Hammer, trazendo de volta o galante Peter Cushing no papel principal, e idealizado pelo mesmo time dos outros dois êxitos do estúdio: O hábil Terence Fisher na direção e Jimmy Sangster como roteirista, além do produtor Anthony Hinds e produção executiva de Michael Carreras. A continuação foi lançada um ano depois de A Maldição de Frankenstein, que ainda trazia Christopher Lee como o monstro (ele não volta nessa sequência). Uma das grandes curiosidades da Hammer é que as suas sequências nem sempre traziam coerência com os filmes anteriores, privilegiando muito mais a liberdade em seus roteiros.

    Por isso, fatos ocorridos no filme anterior não encontra continuidade ou respaldo em A Vingança de Frankenstein. O que vemos aqui é uma história completamente original, apenas baseada pelo personagem Victor Frankenstein, criado pela escritora Mary Shelley e reprisado por Cushing, que será o fio condutor de todas as continuações da franquia. Frankenstein escapa da guilhotina, o qual havia sido condenado pela prática ilegal de medicina, roubo e mutilação de cadáver e assassinato, graças a sua fracassada experiência anterior.

    Ele volta a praticar medicina na cidade de Carlsbrug, adotando o criativo nome de Dr. Victor Stein (sério?), levantando suspeitas da aristocrata e enciumada comunidade médica local por não se juntar a eles e por atender no hospital público todos os pobres e necessitados. Mas claro que não é uma altitude altruísta e benevolente do Dr. Frankenstein. Na verdade o hospital público com todos seus indigentes é o local perfeito para ele dar continuidade em suas experiências bizarras em brincar com o corpo humano como se fosse partes de Lego e dar vida a uma criatura através da ciência.

    O Dr. Hans Kleve acaba descobrindo a verdadeira identidade do Dr. Stein, e torna-se então seu ajudante, trocando o vasto conhecimento do cientista pelo seu silêncio, além de auxiliá-lo nos seus experimentos. Experimento este que irá acontecer com o pobre Karl Immelmann, que sofre de paralisia cerebral do lado direito do corpo, e voluntaria-se para ser objeto de teste e ter seu cérebro transplantado para um corpo saudável construído por Frankenstein.

    A experiência relativamente dá certo, até Karl conseguir escapar e começar a enlouquecer, cometendo terríveis atos violentos e assassinato, principalmente quando sua doença começa a atacá-lo novamente, até cair morto, não antes de revelar ao mundo a verdadeira identidade do Barão Frankenstein. Ele e Kleve ainda tentam, sem sucesso, ludibriar a comissão médica, mas Frankenstein é linchado por todos seus pacientes do hospital público, até ficar entre a vida e a morte, salvo por Kleve que realiza uma arriscada operação transplantando o cérebro do cientista para outro corpo.

    Mais uma vez a atuação de Cushing é irretocável. Por isso ele é um dos melhores e mais queridos astros do cinema de terror. Michael Gwynn, que vive Karl Immelman também tem uma interpretação ótima como o monstro da vez, em todas as suas facetas, desde a dor do pós operatório, a felicidade em ter um corpo novo funcional, até sua degeneração física, mais um excelente trabalho de maquiagem de Phillip Leakey (também responsáveis por outros clássicos da Hammer), e surgimentos dos instintos assassinos e até canibais (como a cena em que ele saliva ao ver o corpo de sua primeira vítima no chão) que começam a tomar conta de seu ser.

    O final de A Vingança de Frankenstein é incrível, sendo um dos primeiros finais realmente abertos de uma franquia de terror até então, mostrando Frankenstein, ou melhor, agora Dr. Frank (sério, ele deveria começar a ser mais criativo com seus nomes falsos) e Kleve, no epílogo, em Londres, prontos para continuar suas pavorosas experiências, com uma deixa escancarada para uma nova continuação.

    MONSTRO DE FRANKENSTEIN (1964)

    O Monstro de Frankenstien é o terceiro filme da franquia da Hammer. Mas apesar da pretensão, não adiciona nada de novo a história do monstro cadavérico trazido à vida pelo famigerado Barão Frankenstein. Na verdade, é quase como se fosse uma continuação direta do primeiro filme, A Maldição de Frankenstein, produzido em 1957.

    Os filmes da franquia são conhecidos por não trazerem praticamente nenhuma cronologia com relação aos seus antecessores. Se nos lembrarmos bem, A Vingança de Frankenstein, de 1959, termina com o Dr. Frankenstein fazendo uma cirurgia plástica para conseguir fugir e ludibriar a polícia e mudando-se para Londres com seu assistente, abrindo um novo consultório e atendendo pacientes, claramente para dar continuidade em suas malignas experiências.

    Então é como se os acontecimentos deste filme nunca tivesse existido. Aqui, o Barão, mais uma vez habilmente interpretado por Peter Cushing, com toda sua sutileza e requinte, continua seus horríveis experimentos raptando cadáveres e testando os limites da vida e da morte, acompanhado de Hans, seu assistente da vez. Expulsos do vilarejo onde residiam pelo pároco local, e sem um puto no bolso, Frankenstein resolve voltar para Carlstadt, em sua antiga residência para pegar obras de arte, tapeçaria e joias que deixou por lá, a fim de vendê-los para levantar dinheiro para continuar as experiências.

    Ao chegar lá, ele descobre que o Burgomestre havia roubado todos os seus pertences, e exaltado após tentar reivindicar o que era seu, o Barão Frankenstein é colocado para correr, perseguido por policiais, tendo que se refugiar em uma caverna, onde encontra uma mendiga ruiva e muda, interpretada por Katy Wild, que resolve ajudá-los. Eis que no interior desta caverna ele reencontra sua primeira criação, congelada em uma geleira, bem aos moldes das coincidências que rondava a família Frankenstein nos filmes da Universal na década de 40.

    Antes disso, temos uma espécie de reboot na história em um flashback do Dr. Frankenstein, contando novamente o processo de criação de seu primeiro monstro, ignorando também A Maldição de Frankenstein, e o monstro sendo abatido na floresta, já interpretado por Kiwi Kingston, um lutador neozelandês que faz o papel neste longa, deixa de lado também a célebre interpretação de Christopher Lee no primeiro filme da série. Kiwi na verdade está mais próxima da criatura que Jack Pierce criou para Boris Karloff em Frankenstein de 1931. Com a cabeça quadrada, movimentos mais duros e desengonçados, mas claro, com o upgrade do avanço das técnicas de maquiagem, do sempre competente maquiador do estúdio britânico Roy Ashton, deixando-o com uma aparência mais pútrida.

    Apesar dos esforços do cientista louco, o monstro retorna à vida mas não consegue sair do seu estado de transe. É aí que entra em cena o inescrupuloso Prof. Zoltan, um hipnotista que se apresentava na feira em Carlstadt e foi escorraçado pelo Burgomestre por não possuir licença para tal, que se alia à Frankenstein contra o antigo inimigo e utiliza de uma sugestão hipnótica para dar um “choque” no cérebro da criatura e o trazer a vida novamente. Porém, o ganancioso Zoltan faz com que o monstrengo só aceite seus comandos, e chantageia Frankenstein, primeiramente para dividir os louros do sucesso com ele, e depois para que a criatura execute suas ordens, que envolve roubar e matar pessoas, deixando um rastro de terror na cidade.

    O clímax do filme e o embate final entre criador e criatura acontece nas dependências do antigo castelo de Frankenstein, e termina de forma muito parecida também com a fita de James Whale da Universal, com um terrível incêndio que, aparentemente, dá cabo do cientista e de seu monstro irracional e putrefato. Uma curiosidade é que o longa deveria ter sido dirigido pelo experiente Terence Fisher, que sofrera um acidente de carro pouco antes das filmagens e o até então operador de câmera Freddie Francis ficou com a cadeira de diretor, sendo que mais tarde, ficaria famoso por dirigir as antologias da Amicus, estúdio rival da Hammer. O roteiro por sua vez é do produtor Anthony Hinds, usando seu corriqueiro pseudônimo de John Elder.

    Resumindo: O Monstro de Frankenstein é o filme da Hammer que mais se aproxima do clássico original de 1931, mas traz elementos novos e curiosos, além de personagens pitorescos que funcionam para dar uma sobrevida à franquia e tentar continuar explorando a maldição do Barão Frankenstein e sua criação, que há mais de três décadas, aterrorizavam as salas de cinema.

    E FRANKENSTEIN CRIOU A MULHER (1967)

    Parodiando o filme de Brigitte Bardot, E Deus Criou A Mulher, aqui Frankenstein Criou a Mulher. O filme mais nonsense da franquia da Hammer, fugindo completamente de qualquer tipo de argumento baseado no original de Mary Shelley, resultado numa divertida e interessante bobagem sem tamanho do estúdio inglês.

    Com a volta do diretor Terence Fisher à série (responsável pelos dois primeiros filmes, A Maldição de Frankenstein e A Vingança de Frankenstein), Peter Cushing mais uma vez vive o papel do Barão Frankenstein, dessa vez com suas malucas pesquisas voltadas para um assunto um tanto quanto mais filosófico e metafísico: a alma humana. Com a ajuda do cirurgião Dr. Hertz (vivido por Thorley Walters), os experimentos do cientista agora consiste em isolar a alma humana e preservá-la (!!!???), podendo transferi-la para dentro de um corpo morto (!!!!???), e de uma vez por todas, desvendar todos os mistérios de vida e morte.

    Hertz tem um ajudante, Hans (Robert Morris) que vive atormentado por ter visto seu pai sendo degolado na guilhotina quando pequeno, acusado de assassinato. Sua grande paixão é a torta e deformada Christina (interpretada pela playmate austríaca Susan Denberg, em um excelente trabalho de maquiagem de George Partleton), filha do taberneiro Kleve. Certa noite, após uma experiência bem sucedida, Frankenstein manda o jovem na taverna buscar uma garrafa de champanhe, e lá ele se estranha com três dândis nojentos e arrogantes, que abusam do dono do estabelecimento e fazem troça com a garota deformada. Hans toma as dores e eles começam uma briga feia.

    Os dândis bêbados, chefiados pelo crápula Anton, após serem expulsos do bar, resolvem arrombar o lugar na calada da noite para beber vinho de graça. Só que Kleve volta para a taverna e encontra os três, que acabam assassinando-o. Tendo em vista a confusão da noite anterior e um casaco de Hans ter sido encontrado no local, somado ao fato do pai dele ter sido um assassino, Hans é injustamente preso, julgado e condenado ao mesmo destino do pai, mesmo tendo um álibi que ele não revela, já que passou a noite com Christine. Ao ver o amado perder a cabeça na guilhotina, a desesperada Christine também resolve dar cabo de sua vida, atirando-se da ponte e morrendo afogada.

    Dois acontecimentos perfeitos para o Dr. Frankenstein colocar seu plano em prática. Ao receber o corpo de Hans para estudos médicos após ser degolado, ele utiliza uma engenhoca para capturar e prender a alma do rapaz (!!!???), que depois é transferida com sucesso para o corpo de Christine, que também é totalmente remodelada através de cirurgia plástica, e de uma filhote de cruz credo, vira uma gostosa e sensual loira provocante. O enredo então ganha tons transexuais com o espírito de Hans vivendo no corpo da moçoila.

    Só que vez ou outra, uma voz dentro de Christine, que pertence a Hans, começa a dominá-la em um sangrento ato de vingança, onde ela irá caçar impiedosamente os três dândis responsáveis pela morte de seu pai e de incriminar Hans, para suprir o desejo dos fãs por sangue. Christine, desconhecida do vilarejo por estar completamente mudada devido às cirurgias de Frankenstein e Hertz, então começa a abusar de decotes, malícia e sedução para fazer os excitados homens caírem em sua teia e poder matá-los cruelmente, expediente que se tornaria famoso nas produções da Hammer na década seguinte: a exploração do corpo feminino.

    Frankenstein Criou a Mulher é considerada por muitos críticos como um dos melhores filmes da Hammer. Apesar do roteiro absurdo de Anthony Hinds (usando o corriqueiro pseudônimo de John Elder), a trama envolve muito mais uma história que é calcada no sobrenatural, com uso da tecnologia, do que os monstros carniceiros putrefatos que estamos acostumados a imaginar ao pensar nas criaturas de Frankenstein, dando um ar de originalidade nunca antes praticado tanto pelo próprio estúdio inglês, quanto pelas produções anteriores da Universal.

    E também vale sempre dar um destaque positivo à competência de Terence Fisher atrás das câmeras, cada vez mais fluído e dominando todas as técnicas de composição de cenas, paisagens, reconstrução de época (mais um ótimo trabalho de Rosemary Burrows e Larry Stewart no figurino e Felix Sergejak na direção de arte dos cenários) e a trilha sonora de James Bernard, compositor chefe do estúdio. Aliado a tudo isso, Frankenstein Criou a Mulher ainda tem o galante Peter Cushing afiadíssimo mais uma vez e toda a explosão de sexualidade da deliciosa Susan Dereng interpretando a mais bela criação do Dr. Frankenstein.

    FRANKENSTEIN TEM QUE SER DESTRUÍDO (1969)

    Quinto filme da série, Frankenstein Tem que ser Destruído subverte completamente o status quo da competente franquia da Hammer até aqui. Criador literalmente transforma-se em criatura. O Barão Frankenstein torna-se tão monstruoso, vilão sádico e cruel que faz de tudo para conseguir realizar seus cada vez mais mirabolantes experimentos, que enterra a necessidade da existência de um cadáver gigante e irracional ambulante, base tanto da obra de Mary Shelley quanto dos filmes da Era de Ouro da Universal.

    Está aí. A originalidade foi sempre o ponto forte dos filmes de Frankenstein da Hammer. Peter Cushing, mais uma vez trazendo vida ao personagem outrora literário, já viveu diversas facetas na pele do cientista que brinca de ser Deus. Conforme as sequências vão saindo do forno, o subgênero “filme de monstro” vai sendo deixado cada vez mais de lado, para extrapolar somente o “filme de cientista louco”. No caso das produções da Universal nas décadas de 30 e 40, o foco era o monstro, que começou sendo interpretado por Boris Karloff em Frankenstein, de 1931, e continuou amaldiçoando várias gerações da família de seu criador e até saindo na mão com outros monstros do estúdio, como o lobisomem e o Drácula.

    O estúdio inglês dá foco máximo para sua estrela galante e Cushing vem voltando em cada uma das sequências mais deturpado (e caricato, é verdade), explorando sua manifestação debiloide da busca científica, em detrimento de colocar o foco em suas criações bizarras. Apenas no original lançado há mais de dez anos, A Maldição de Frankenstein e em O Monstro de Frankenstein, espécie de continuação direta, a criatura (vivida por Christopher Lee no primeiro filme) dá as caras. Os demais filmes são centrados nos experimentos fracassados com outras pessoas, homens ou mulheres, frutos de diversos interesses científicos de Frankenstein.

    Aqui, por exemplo, o cientista quer fazer um transplante de cérebro, algo perfeitamente plausível em sua concepção, ao contrário do que dizem os quadrados da época. Para isso, ele resolve chantagear um casal, o Dr. Karl (Simon Ward), jovem médico de cabelos loiro e penteado moptop (afinal, estamos na década da beatlemania), que trabalha no asilo em que seu antigo parceiro cientista, o Dr. Brant, está internado, e sua noiva, a bela loira Anna, dona de um pensionato, que é a responsável por usar os decotes escandalosos da vez. Ah, o motivo da chantagem é que Karl roubava drogas pesadas da farmácia do hospício e os vendia na rua, e o Barão Frankenstein descobre o fato, que pode arruinar a vida do jovem.

    Antes tivesse sido preso e seu registro médico caçado. Frankenstein vai transformar a vida deles em um inferno, envolvendo-os em arrombamentos, sequestro, experiências médicas ilegais e assassinato. Tudo isso para tirar o cérebro do Dr. Brandt e colocá-lo no corpo do Professor Richter (Freddie Jones), retrógrado e autoritário diretor do hospício que Karl trabalha. Tudo com a pobre Anna como cúmplice a tiracolo.

    E como se não bastasse, há uma cena chocante, onde Frankenstein estupra Anna (mas mesmo assim, Cushing não perde a classe). É algo até estranho ver um ator como Cushing participando deste tipo de cena. Os personagens nem mesmo comentam sobre a cena depois, pois os bastidores dizem que ela não estava no roteiro e foi enxertada de última hora, mesmo com os atores sendo veementemente contra, pois os chefes do estúdio reclamaram da falta de sexo e violência, duas coisas que vinha levando os fãs americanos ao cinema, e eles queriam agradar os distribuidores yankees (aka Warner Bros.). Cushing lamentou a inclusão final da cena e pediu desculpas para a deliciosa Veronica Carlson por ter participado. É um lorde, mesmo!

    E se os chefões queriam violência, realmente não falta em Frankenstein Tem que Ser Destruído. É o mais violento filme da franquia (que já vinha crescendo de uma produção para a outra), com cabeças decapitadas, cérebros sendo retirado, sangue jorrando em profusão e por aí vai. Além disso, há um distinto toque cômico tipicamente inglês, na figura do Inspetor Frisch que investiga os assassinatos, e os outros aristocráticos moradores do pensionato, tomadores de chá e cheios de empáfia, estereótipos que parecem ter saído de um sketch de Monty Python.

    Mais uma vez a direção de Terence Fisher é corretíssima e exuberante. Fisher já sabe explorar cada enquadramento, cada cenário cafona com o padrão Hammer de qualidade, fotografia gótica, domina a cenografia, jogo de cores e o figurino, como nenhum outro diretor do estúdio ou do período conseguiu, traduzindo-se como sinônimo da tradição do horror inglês literário. Cushing irrepreensível (novas…), trilha sonora de James Bernard inspirada e competente maquiagem de Eddie Knight, fazem de Frankenstein Tem que Ser Destruído, sem dúvida nenhuma, um dos melhores filmes da Hammer, e talvez, o melhor da franquia.

    FRANKENSTEIN - O MONSTRO DO INFERNO (1973)

    Frankenstein e o Monstro do Inferno é o último filme da franquia da Hammer, trazendo Peter Cushing para seu derradeiro papel como o Barão cientista louco que queria brincar de Deus, sendo também o último longa dirigido por Terence Fisher, diretor que tem em sua bagagem talvez os mais importantes filmes do estúdio inglês.

    Uma saga que começara em 1957 com o lançamento de A Maldição de Frankenstein e daria o pontapé inicial para tornar o estúdio inglês na Casa do Horror, lar da revitalização dos monstros clássicos da Universal e responsável por colocar o nome de Cushing e de Christopher Lee (que interpretou o primeiro monstro) no eterno hall da fama do cinema de horror. Depois de outros cinco filmes, o grand finale de Fisher também pode ser considerado o epitáfio ou a pregada final no caixão da Hammer, destoando completamente do estilo de fita que o estúdio entregava durante os 70, dando a ele até uma espécie de ar clássico e saudosista.

    Na série, as desventuras científicas do Barão Frankenstein de Cushing sempre foram o foco das tramas, e não a criatura em si, que voltava em cada uma de suas sequências nas produções da Universal da Era de Ouro. O louco cientista já esteve às voltas com sua principal criação em A Maldição de Frankenstein e O Monstro de Frankenstein, fez operações de cirurgia plástica e transplantes de cérebro mal sucedidos em A Vingança de Frankenstein e Frankenstein tem que ser Destruído e até já realizou uma operação de “troca de sexo” por meio de transfusão de almas (???!!!) em Frankenstein Criou a Mulher.

    Com isso, ele inspirou vários médicos cirurgiões e cientista ao redor do mundo a fazer experiências com pedaços de cadáveres, e um deles é Simon Helder (Shane Briant), pego no flagra fazendo seus experimentos macabros e condenado a cinco anos de confinamento em uma instituição psiquiátrica, onde, olhem só, o Dr. Frankenstein havia sido preso anos antes. Mas claro que o famigerado médico não está morto, como dito pelo afetado diretor do asilo, Adolf Klauss (John Stratton), e continua atuando como o médico do local, chantageando-o graças a uma terrível descoberta, tendo passe livre para fazer o que quiser lá dentro.

    Auxiliado por Simon e pela bela mudinha Sarah (Madeline Smith), também conhecida como “Anjo”, mesmo com suas mãos queimadas o impossibilitando de praticar cirurgias delicadas, Frankenstein irá continuar suas maluquices no hospício, utilizando os pacientes da ala de criminosos insanos como cobaias perfeitas. Assim, ele irá criar sua mais nova criatura, um monstrengo feio e peludo, usando o corpo de um dos pacientes que havia regredido ao período Neolítico (mas, hein???), as mãos de um artesão e o cérebro de um sensível professor e violinista, utilizando as habilidades de Simon para realizar as cirurgias.

    Por estarmos escolados na série, já sabemos que o monstro (interpretado por David Prowse, o ator que vestiu a roupa de Darth Vader na trilogia original de Star Wars, e já havia vivido a criatura em O Horror de Frankenstein, filme que não pertence à franquia) não irá obedece-lo, e revoltado, dotado de selvageria e força sobre-humana, irá tocar o terror no asilo, contra tudo e todos, principalmente contra o Barão e o diretor, por motivos que descobriremos mais tarde, deixando um rastro de morte e destruição.

    Pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco. No final da fita, magistralmente Terence Fisher nos entrega uma das cenas mais bacanas e violentas de toda a filmografia da Hammer, com o monstro sendo literalmente linchado e destroçado pelos demais loucos do hospício, como se fosse vítima de um ataque zumbi. E logo depois, antes dos créditos subirem, o amoral Victor Frankenstein age como se nada tivesse acontecido, pronto para continuar suas aterradoras experiências, não mostrando nem um pingo de ressentimento, pensando em quem poderá ser o próximo “doador” para seu novo experimento. E acabamos por aí, com o cientista sempre saindo incólume na medida do possível, como um dos mais sensacionais vilões, ou porque não, anti-heróis, do cinema de terror.

    Com 59 anos de idade na época das filmagens (o filme foi concluído em 1972 mas lançado apenas em 1974), já com a saúde debilitada e frágil, Peter Cushing continua sendo um verdadeiro lorde, extremamente contido, elegante, preocupado com cada pequeno detalhe da produção, e entrega mais uma vez um papel interpretado com afinco e maestria, mostrando mais uma vez porque ele é o verdadeiro Cavalheiro do Horror. Já Terence Fisher, diretor subestimado que com toda certeza deveria estar no hall da fama do gênero, mas que estava em declínio por problemas de alcoolismo e desavenças com o estúdio, entrega mais uma peça redonda, coesa e interessante, com toda o mise-en-scène gótico tão característica da Hammer, que já estava deveras ultrapassado naqueles tempos, em um clima claustrofóbico e cruel por entre os corredores e celas do sanatório, além de uma iminente sensação melancólica de despedida subentendida. Frankenstein e o Monstro do Inferno de longe não é o melhor da série, mas a fecha com chave de ouro.



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